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GA83 Platão, Fedro

Seminare: Platon - Aristoteles - Augustinus [2012]

PHAIDROS: UMKREIS DES THEMAS

O tema da investigação é o “logos erótico” (ἐρωτικὸς λόγος), que abrange tanto o discurso sobre o amor quanto o discurso que provém do amor, colocando em questão a relação entre λόγος, linguagem e verdade.

A pergunta pelo “modo” (τρόπος) do discurso não se refere primariamente a aspectos técnicos, mas ao “como” existencial da fala, que tem no ἔρως seu fundamento decisivo.

O “ἔρως” é concebido como um “acontecimento de aspiração ao ser” (Seinsstrebnis), que transforma a essência do λόγος e, com isso, a própria essência do homem enquanto filósofo.

A investigação sobre o discurso, a escrita e a palavra conduz à questão fundamental pelo ser da linguagem, pelo poder e impotência da palavra, e sua relação com a existência do Dasein.

O PROBLEMA FUNDAMENTAL DO PHAIDROS

O problema central é a essência da palavra (Wesen des Wortes), seu poder e sua impotência, em sua relação com a existência, o Dasein e o ser.

A essência do escrito (Literatur) e do escrever na alma é o verdadeiro “falar”, que é compreendido como um fecundar e plantar, onde o ἔρως é a força geradora.

A “τέχνη” é definida como um saber que é “μετ' ἐπιστήμης”, e o “διαλέγεσθαι” é a defesa contra o mero falatório, em favor do ente (Seiende) enquanto ἀγαθόν, καλόν, θεός, μανία e ἔρως.

A ESTRUTURA GERAL DO DIÁLOGO E O MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO

O diálogo é composto por duas partes principais: a primeira com três discursos eróticos, e a segunda sobre o modo (τρόπος) do bem falar e escrever.

A interpretação deve evitar a separação rígida entre as duas partes, buscando antes iluminar a conexão interna entre os discursos e a reflexão sobre o método.

A investigação concentra-se, apesar da aparente amplitude, em poucos problemas essenciais, que devem ser abordados a partir do todo do diálogo.

O método de interpretação exige uma “soltura” e “iluminação” silenciosa dos discursos, aprofundando continuamente a compreensão de cada um deles.

A PERGUNTA PELO MODO DO BEM FALAR

A pergunta central “τίς οὖν ὁ τρόπος τοῦ καλῶς τε καὶ μὴ γράφειν;” (qual é o modo do bem e do mal escrever?) é colocada não por mero prazer, mas por uma necessidade metafísica do homem existente.

A investigação do modo exige uma compreensão da “verdade” (ἀλήθεια) e sua relação com o discurso, sendo a “verdade” a condição fundamental que deve já estar presente e guiar quem fala.

O “τρόπος” é a “maneira” de se relacionar com a verdade, que é uma “desocultação” (Unverborgenheit) que deve permear o discurso.

A pergunta pelo “como” do discurso conduz à pergunta pela “τέχνη” e pelo “διαλέγεσθαι”, que são a base para a compreensão do modo correto de falar.

CHARIS E A MÚSICA DAS CIGARRAS

O tema da “χάρις” (graça, encanto) e do “χαρίζεσθαι” (agradar) é introduzido pela referência às cigarras (τέττιγες), que cantam na mais alta arte sob o sol do meio-dia, sem alimento, dedicando-se à Musa mais elevada.

A referência às cigarras serve para lembrar que a fala não é indiferente, e que se está sob uma exigência (Forderung) de honrar a Musa correta, não agindo por mero prazer, mas para ser digno da mais alta Musa.

A discussão sobre a “χάρις” aponta para o fato de que o discurso deve ser agradável e belo, mas não como um fim em si mesmo, e sim como parte de um modo de ser que se orienta pelo “οὐρανός” (céu) e pelo λόγος.

A CRÍTICA AO MERO EXAME DE OPINIÕES

O exame do modo (τρόπος) não deve se limitar a recolher opiniões alheias ou a destacar propriedades dos discursos lidos, mas deve partir de uma pré-compreensão do que é essencial.

A condição fundamental para a τέχνη é o conhecimento da verdade sobre o assunto do discurso, e isso está intrinsecamente ligado ao “διαλέγεσθαι” como “ὑπόληψις” (apreensão) e “σύνταξις” (composição).

Sócrates refuta a abordagem de Fedro que se baseia em opiniões divergentes (τὰ δόξαντα) e no mero “persuadir” (πείθειν), mostrando que a verdade não é acessória, mas essencial para o discurso.

O exemplo do asno (ὄνος) e do cavalo (ἵππος) na guerra mostra que o conhecimento do que é (ὄντως) é indispensável para qualquer arte de persuasão, mesmo que se queira persuadir usando um falso argumento.

O MODO (ΤΡΌΠΟΣ) COMO TÉCHNE E A ESSÊNCIA DO COMPORTAMENTO

A pergunta pelo “καλῶς” do discurso conduz ao “ἔντεχνον”, ou seja, a uma “τέχνη” que é fundamental para a essência do “λέγειν”.

O “καλῶς” é compreendido como um “como” (πῶς) que, no comportamento, se refere a um “ser orientado por” uma “sabedoria” (Sichauskennen).

O comportamento humano é essencialmente uma “relação” (Verhältnis) que se orienta por uma “indicação” (Weisung), a qual define o “espaço de jogo” (Spielraum) e a “direção” (Richtung) do agir.

A “indicação” (Weisung) é o modo como o “saber” (Wissen) se manifesta no comportamento, e essa “sabedoria” (Sichauskennen) é o que constitui a “τέχνη”.

A “τέχνη” é, portanto, a “segurança do proceder” (Sicherheit des Verfahrens), um proceder que é “sabedor” e “compreensivo”, ou seja, um modo de autocompreensão no agir.

A ORIGEM DA TÉCHNE E A RELAÇÃO COM A VERDADE

A “τέχνη” não é um mero treino ou adestramento, mas a “segurança do proceder” que se dá com base em um saber que compreende a essência daquilo que se faz.

A “τέχνη” envolve uma “indicação” (Weisung) que orienta o “comportamento” (Verhalten) em direção a algo, e essa indicação é o que torna possível o “acertar” ou “errar”.

A essência da “indicação” é o “desocultar” (Offenbaren), e o “modo” (τρόπος) da τέχνη se determina a partir da “verdade” (ἀλήθεια) e do “alcançar” (ψυχαγωγία).

A “τέχνη” é, portanto, fundamentalmente ligada à capacidade de “desocultar” o ente, e essa capacidade é a base para qualquer comportamento “sábio” (wissendes Verhalten).

O “λέγειν” é um “comportamento” que sempre “indica” (weisend) e é “universal” (universal), pois se relaciona com o ser e com a verdade.

A MUDANÇA DO KALÓS PARA O ÉNTECHNON

A transição do “καλῶς” para o “ἔντεχνον” não é arbitrária, pois o “καλῶς” se refere a um “como” (πῶς) do comportamento, e esse “como” só pode ser compreendido a partir da “τέχνη”.

A exigência de “ἔντεχνον” surge porque o “λέγειν” é um comportamento que deve ser “sábio” (wissend) e “orientado” (gewiesen), e isso só é possível se houver uma “arte” que fundamente esse saber.

Platão realiza essa mudança ao compreender a “retórica” como “ψυχαγωγία” (condução da alma), e ao estender a noção de “τέχνη” para além da técnica, abarcando a relação com a verdade e com a alma.

A “τέχνη” não é apenas um saber regional, mas sim a “sabedoria” fundamental que orienta o “comportamento” (Verhalten) do homem em sua relação com o ente.

A QUESTÃO SOBRE A RETÓRICA COMO TÉCHNE

A questão sobre se a retórica é uma “τέχνη” ou apenas uma “ἐμπειρία” (experiência) é central, e a resposta requer uma compreensão prévia do que é a retórica em sua essência.

A retórica é definida como uma “ψυχαγωγία τις διὰ λόγων” (uma condução da alma por meio de discursos), o que implica que seu objeto é a alma (ψυχή).

Essa definição expande a noção de “τέχνη” para além da produção (ποίησις), incluindo a “condução” (Führung) da alma, que é um “proceder” (Verfahren) que se orienta pela verdade.

A “τέχνη” do discurso é, portanto, a “arte de conduzir” a alma, e isso exige um conhecimento da natureza da alma e da verdade.

A MUDANÇA NA COMPREENSÃO DA RETÓRICA DO GÓRGIAS PARA O PHAIDROS

No “Górgias”, a retórica é considerada uma “ἐμπειρία” (experiência) e não uma “τέχνη”, pois não se baseia em um conhecimento do que é bom, enquanto no “Fedro” ela é compreendida como uma “τέχνη”.

Essa mudança se deve a uma nova compreensão da própria “τέχνη”, que no “Fedro” é definida não pelo “bem” (ἀγαθόν), mas pelo “verdadeiro” (ἀληθές).

A retórica torna-se “universal” (πάντα τὰ λεγόμενα) no “Fedro”, porque se funda no “λόγος” e na “ἀλήθεια”, em vez de se restringir a um campo específico.

Essa universalidade da retórica, baseada no “ἀληθεύειν” (dizer a verdade), é o que a transforma em uma “τέχνη” fundamental.

A RETÓRICA COMO CONDUÇÃO DA ALMA (ΨΥΧΑΓΩΓΙΑ)

A “ψυχαγωγία” não é uma “psicologia” no sentido moderno, mas sim a “condução” da existência (Führung der Existenz) por meio do discurso.

A “ψυχαγωγία” está ligada à “ἀλήθεια”, pois a condução da alma requer o conhecimento do ente e a capacidade de torná-lo manifesto.

A “τέχνη” do discurso não se preocupa apenas com as condições lógicas ou psicológicas, mas com o “todo da existência” (das Ganze existenzial), pois envolve a relação do homem com o ente.

A “ψυχαγωγία” é, portanto, a arte de conduzir o outro a uma posição determinada em relação ao ente, por meio do discurso.

ΛΈΓΕΙΝ COMO REUNIÃO E REVELAÇÃO

“Λέγειν” (falar) é um “reunir” (Sammeln) que faz algo “chegar” a algo, como quando se “diz” a opinião, se “mostra” o que fazer, ou se “prescreve” uma ordem.

Falar não é uma mera emissão sonora, mas um ato de “revelação” (Offenbarmachen) que coloca algo diante de nós, dando-lhe uma “imagem” e um “aspecto” (Anblick).

A linguagem, na sua essência, é retórica, ou melhor, poética, pois visa a “opinião” (δόξα) e não apenas o saber (ἐπιστήμη).

A linguagem quer “tornar presente” o ente em sua “aparência” (Erscheinung), criando um “mundo” (Weltbildung) em vez de apenas transmitir informações.

A DIVISÃO ENTRE O CAMPO DO TROCÁVEL E DO INTROCÁVEL

O conhecimento da verdade (ἀλήθεια) para a arte retórica exige a distinção entre dois campos: o daquilo sobre o que há consenso (ὁμολογούμενα) e o daquilo sobre o que há dissenso.

Para as coisas que são “introcáveis” (não sujeitas a controvérsia), como o ferro e a prata, há uma verdade imediata; para as coisas “trocáveis”, como o justo e o bom, a verdade é objeto de disputa.

A técnica retórica (τέχνη) deve saber operar nesses dois campos, pois o seu poder de persuasão (ἀπάτη) reside justamente na possibilidade de fazer parecer o mesmo como diferente.

O conhecimento da verdade, portanto, não é um fim em si mesmo, mas a condição para o exercício da arte, que deve ser capaz de lidar com a “aparência” (Schein).

OS DOIS PROCEDIMENTOS: SÍNTESE E DIVISÃO

O verdadeiro procedimento da τέχνη do discurso é duplo: a “συναγωγή” (reunião), que é o olhar que reúne na unidade (εἰς ἓν), e a “διαίρεσις” (divisão), que é a capacidade de dividir o campo segundo as suas articulações próprias.

A “συναγωγή” é o “projeto” (Entwurf) que dá a “transparência” (Durchsichtigkeit) e a “harmonia” (Zusammenstimmung) do campo, estabelecendo o “espaço de jogo” (Spielraum) para a percepção.

A “διαίρεσις” é a “articulação” (Gliederung) desse campo, que permite ver as “linhas de articulação” (Aufrisslinien) e segui-las até o fim.

Ambos os procedimentos são o caminho para o “ἀληθεύειν” (verdade), pois revelam o ente em sua unidade e multiplicidade, e são a base de toda “ψυχαγωγία”.

A PASSAGEM DA PRIMEIRA PARA A SEGUNDA REDE DE SÓCRATES

A passagem da primeira para a segunda rede de Sócrates é um “ἀπό τοῦ ψέγειν πρὸς τὸ ἐπανεῖν” (do censurar ao elogiar), e essa passagem é fundamental para a compreensão do método.

Essa transição ocorre por uma compreensão mais profunda da “ψυχή” (alma), que na primeira rede é vista sob o ângulo da “ἐπιθυμία” (desejo) e da “δόξα” (opinião), e na segunda, sob o ângulo da “μανία” (furor divino) e do “λόγος”.

A primeira rede ainda não alcança o “ἀληθές” (verdadeiro) como tal, enquanto a segunda ousa “τολμᾶν τὸ ἀληθές” (ousar o verdadeiro), compreendendo a alma como “fundamento do ser” (Grundcharakter des Seins).

A diferença não está apenas no conteúdo, mas no próprio método, que na segunda rede envolve uma “συναγωγή” e “διαίρεσις” mais originárias, fundadas no próprio ser.

A ESSÊNCIA DA ALMA (ΨΥΧΉ) NA SEGUNDA REDE

A alma (ψυχή) é caracterizada por três proposições essenciais: ela é imortal (ἀθάνατος), ela cuida de tudo o que é inanimado (ἐπιμελεῖται παντὸς ἀψύχου), e ela se alimenta do intelecto (τρέφεται νῷ).

A imortalidade da alma não é apenas uma propriedade, mas a sua essência: ser “sempre em movimento” (ἀεικίνητον), ser princípio (ἀρχή) do movimento, e portanto, não ter nascimento nem morte.

O segundo atributo, o cuidado (ἐπιμέλεια), indica que a alma está essencialmente relacionada com o ente, e que sua “essência” é a “compreensão do ser” (Seinsverständnis).

O terceiro atributo, a nutrição (τροφή), aponta para o “autorelacionamento” (Selbstbezug) da alma, que se alimenta do “verdadeiro ser” (ὄντως ὄν) na contemplação das “ideias”.

A alma é, portanto, o lugar da “compreensão do ser”, e o “conhecimento da alma” (περὶ ψυχῆς) é condição para a “condução da alma” (ψυχαγωγία).

A DIALÉTICA COMO A TÉCNICA FUNDAMENTAL

A “διαλεκτική” é a técnica fundamental (ἔντεχνον) que subjaz a toda “τέχνη”, pois ela é a “arte da reunião” (συναγωγή) e da “divisão” (διαίρεσις) que permite o conhecimento da verdade.

Os procedimentos da dialética (συναγωγή e διαίρεσις) não são meras regras técnicas, mas sim modos de “se comportar” em relação ao ser, que exigem uma “disposição fundamental” (Grundstimmung).

A dialética é a arte de conduzir a alma (ψυχαγωγία) e o discurso (λόγος) em direção à verdade, e essa condução se dá na e pela “linguagem”.

A essência da “τέχνη τῶν λόγων” (arte dos discursos) é, portanto, a própria “dialética”, que é a forma mais alta de “λέγειν”.

A CRÍTICA A PLATÃO E A LIMITAÇÃO DA PERSPECTIVA ONTOLÓGICA

A dialética platônica, apesar de sua profundidade, é criticada por sua “falsa objetividade” (falsche Sachlichkeit), que reduz a linguagem a um meio para a “ideia” (ἰδέα) e submete o λόγος a um ideal moral.

A “ἀλήθεια” platônica, ao se fixar na “ideia” como o ser verdadeiro (ὄντως ὄν), acaba por “oprimir” a verdade, entregando-a à “asserção” (Aussage) e transformando a “aparência” (Schein) em algo negativo.

A compreensão platônica do λόγος o coloca a serviço da “ideia”, e a “arte” (τέχνη) se torna um instrumento para adaptar a alma a um ideal.

A crítica final aponta que, ao privilegiar a “ideia” e a “evidência” do ente, Platão acabou por obscurecer a dimensão fundamental da “linguagem” e da “existência”.

A ESSÊNCIA DO ΛΌΓΟΣ E SUA RELAÇÃO COM O ἜΡΩΣ

No “Fedro”, o λόγος é compreendido em sua relação essencial com o “ἔρως”, e o discurso erótico é o discurso que, partindo do amor, revela a essência do ser.

O λόγος não é um mero instrumento, mas o “modo de ser” do homem, que se expressa na “fala” (Rede) e na “escrita” (Schrift), e que encontra sua origem no “ἔρως”.

O “ἔρως” é o “impulso para o ser” (Seinsstrebnis), que move o homem em direção à verdade e à unidade, e é essa “movência” que fundamenta a possibilidade do “διαλέγεσθαι”.

A filosofia, entendida como “λόγος ἐρωτικός”, não é um mero exercício intelectual, mas a “disposição fundamental” (Grundstimmung) do homem em sua busca pelo ser.

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