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GA82 Ser e Tempo (1)

Zu eigenen Veröffentlichungen - Anmerkungen zu “Vom Wesen Grun” (1936) - Eine Auseinandersetzung mit “Sein und Zeit” (1936) -Laufende Anmerkungen zu “Sein und Zeit (1936) [n.p.]

1. Sobre “Ser e Tempo”

O Wesen (essência), isto é, o caráter übergänglich (transitório/de passagem) da “Fundamentalontologie” (ontologia fundamental). (A Mißdeutung (má interpretação) como “Antropologia” e “Filosofia da Existência”)

2. O caráter transitório da “Fundamentalontologie”

  • A Fundamentalontologie funda a “Ontologia” na medida em que interroga sobre aquilo em que a Seiendheit (entidade) ela mesma se funda — qual sua Wahrheit (verdade) — sendo a Temporalität (temporalidade) o horizonte prévio indicado, daí Sein und Zeit (ser e tempo) contra Seiendheit (entidade) e Denken (pensar), pois a ontologia precedente buscava a Seiendheit pelo fio condutor do Vorstellen (representar): Kategorie (categoria), ratio, λόγος, “onto-logia” racional.
  • A Fundamentalontologie supera toda “Ontologia” não pelo recurso barato ao “Irrationale” (irracional), mas por um âmbito mais originário e sua Wesung (essenciação), isto é, por um perguntar mais originário acerca daquilo sobre o que toda ontologia repousa — τί τò ὄν? — e com isso pela Verwandlung (transformação) do ser humano; superação pela Bejahung (afirmação) do primeiro início.
  • O caráter transitório é o que há de enganoso para a compreensão do tratado e exige uma largura e liberdade próprias da Besinnung (meditação/reflexão); por ser toda ontologia superada em princípio, a “Paraontologie” (paraontologia) chega tarde demais para dizer algo essencial sobre “Ser e Tempo”, vivendo ela a cada passo da ontologia do Dasein (ser-aí) — mal interpretada como “Antropologia”.

3. Fundamentalontologie

  • A Fundamentalontologie parte do menschlichen Dasein (Dasein humano), mas somente porque parte da Wahrheit des Seyns (verdade do Ser); único tema é o Sein (ser) — Sein und Zeit —, e somente porque o Seyn (Ser) como tal, por isso o ser humano.
  • Não se trata do ser humano para tratar precisamente esse Seiende (ente) entre outros como tal; talvez, se o procedimento for suficientemente luminoso, torne-se acessível também a relação ao Seiende, mas então apenas como algo que pertence ao ser humano — de que unicamente se trata.

4. Fundamentalontologie e “Antropologia”

  • A Fundamentalontologie trata do ser humano como Da-sein — portanto de ἄνθρωπος e assim como “Antropologia” — e pode-se tratá-la como tal e perguntar qual antropologia está contida em “Ser e Tempo”; mas isso é colocar tudo de cabeça para baixo.
  • A Antropologia como doutrina do “ser humano”: quando se mostra que o Menschsein (ser-homem) tem seu fundamento em algo diferente do humano, a Antropologia torna-se doutrina do ἄνθρωπος na medida em que ele não é somente e não é tal.
  • Pode-se naturalmente fazer qualquer coisa com obras filosóficas ou poéticas: examinar a “Kritik der reinen Vernunft” (Crítica da Razão Pura) de Kant quanto a se nela se fala de “Volk” (povo) e concluir que Kant não pensou de verdade; ou dizer que nas “Duineser Elegien” (Elegias de Duíno) de Rilke falta a vivência da comunidade; ou que em “Ser e Tempo” falta a “Natur” (natureza) — a “Kunst” (arte).
  • A Fundamentalontologie não pressupõe uma Antropologia, mas ao contrário: ela cria o pressuposto mais originário de uma “philosophischen Anthropologie” (antropologia filosófica) — desde que esta reivindique ter em vista o Wesen (essência) mais originário do ser humano, mesmo sem fazê-lo expressamente questão; na Antropologia, o ser humano é primeiro e sempre Animal — Biologie (biologia); na Fundamentalontologie esse caráter não é negado — ao contrário — ela cria pela primeira vez o pressuposto para colocar a questão acerca da Leiblichkeit (corporeidade) do ser humano.

5. A Mißdeutung de meus trabalhos como “Existenzphilosophie” (filosofia da existência)

  • Fala-se de “Existenz” (existência) — mas como? Justamente para mostrar que o Da-sein caracterizado com o auxílio da Ex-sistenz (ex-sistência) somente essencia como o que é ao deixar o Seyn livre e a ele pertencer.
  • Se a nomeação de uma filosofia deve ter algum sentido, deve estar orientada para aquilo de que unicamente se trata — aqui a questão da Wahrheit des Seyns e assim deste mesmo.
  • Ex-sistenz é a Durchgang (passagem/travessia); a designação só teria um direito se com ela se destacasse justamente a diferença essencial em relação a Jaspers — em vez de sob esse nome misturar tudo.

6. A impossibilidade da “Auseinandersetzung” (confrontação/debate) com os “Zeitgenossen” (contemporâneos) (cf. Überlegungen V. 67) [GA 94]

  • O precedente é uma primeira indicação — com referência ao corrente e às Mißdeutungen (más interpretações) contemporâneas; mas isso não é o essencial, e sim o único, e a tarefa deve ser sempre medida pelo maior; o tentado torna-se assim muito pequeno — mas por isso ao menos é deslocado para o âmbito ao qual pertence.
  • Impera também aqui a dificuldade inevitável de que o grande não se encontra ao longo do caminho, mas deve ele mesmo ser primeiro colocado no aberto; a Einfachheit des Fragens (simplicidade do perguntar) — Wissen (saber) — (não “fracasso”).
  • Na interpretação histórica dos grandes pensadores é preciso avançar questionando tão longe quanto possível, isto é, antecipar-lhes o que não está expresso; tal interpretação é necessariamente não-histórica; todo pensador sabe mais do que diz — “Jeder Denker weiß mehr, als er sagt” —, e nisso reside a necessidade da geschichtlichen Besinnung (meditação histórica); somente então se pode colocá-lo em seu limite histórico — após tal pre-doação que ainda assim fica aquém! — o que não significa limitar e riscar, mas inserir no destino a ninguém poupado da singularidade e instantaneidade de cada vez.
  • O engajamento com as Mißdeutungen contemporâneas parece fecundo e instrutivo na medida em que se ocupa com o que as pessoas se ocupam, isto é, leem e “citam” toda a “Schundliteratur” (literatura de lixo) sobre “Ser e Tempo”, e este mesmo lê-se de passagem — mas como que apenas como fonte de “citações” para confirmação daquela literatura; mas todo engajamento com Mißdeutungen dessa espécie é sempre o abandonar do próprio plano — um Absinken (afundar/rebaixamento) naquilo que acabou de ser superado; só ali é possível e necessário um engajamento onde a mesma questão é apreendida e perguntada de modo mais originário — nunca onde ela é negada — sem entendimento e Besinnung — por sabedoria superior.

7. De “Ser e Tempo” ao “Ereignis” (acontecimento-apropriação)

  • Cf. Vom Ereignis (Vorblick) (Do Acontecimento-Apropriação — Antevista).

8. As Grundtäuschungen (ilusões fundamentais) (no modo de pensar)

  • Verfahren (procedimento metodológico) em lugar de Vor-gehen (ir-adiante/pré-proceder): 1. transzendental (condições de possibilidade); 2. ontológico (porque sobre Seiendes pré-dado); 3. fenomenológico (com 2 e 1, o pré-dado fenomenologicamente adequado no acesso e no projeto); 4. existenziell (sobre abertura existenciell fundamental); 5. hermenêutico (interpretando! “sentido”; Verstehen (compreensão) — de modo indigitante!); 6. fundamental-ontológico (fundamentação — matemático!); tudo isso não no meramente transmitido — tudo porque com um outro Vor-gehen — mas opaco no decisivo: o que propriamente quer a posição do Da-sein.

Vorbemerkung (Observação preliminar) (p. 1)

  • A referência a Platão — Sophistes: já ali a Seinsfrage (questão do ser) à luz da ἰδέα, pela qual o visto (εἴδωλον) deve ser tornado visível (εἶδος); mas se a ἰδέα já é queda (Abfall) de ἀλήθεια (des-velamento) e φύσις (physis/natureza), então a questão orientada por ela já não é mais originária — e muito menos a que agora pergunta pela possibilidade do compreender do Seyn.
  • Essencial todavia é a Besinnung: “was meint ihr eigentlich” (o que quereis dizer propriamente) — na medida em que essa questão conduz ainda além de Platão e abrange toda a filosofia ocidental — também o Anfang (início)!
  • Essa questão “was meint ihr eigentlich” (οὐσία — Zeit) conduz a uma resposta — Zeit (tempo) — que é provisória; pois imediatamente se pergunta: por quê Zeit? — porque Zeitlichkeit (temporalidade) do Dasein; mas isso é a Grunderfahrung (experiência fundamental) do Dasein ou já um Ausgleiten (deslizamento)?
  • Cf. Parmênides — ὄν — ἀπεόντα — An- und Abwesen (presentar-se e ausentar-se): Zweideutigkeit (ambiguidade) do ὄν: 1. essente (Seiendheit), 2. o Seiende (ente) mesmo; Bleiben (permanecer) e “Werden” (devir) — Entstehen (surgir) — Vergehen (perecer): Anaximandro; um Ausgleiten pela força do esforço que a filosofia deve fazer para manter-se no Seienden como tal — aqui ela se agarra ao Haltbaren (estável) — ao Bleiben ele mesmo.
  • Ausarbeitung (elaboração) da questão do “Sinn” (sentido) do Sein!: “Sinn” visa à Verstehbarkeit (compreensibilidade) e ao “Horizont” (horizonte); cf. § 83 p. 437: “Idee des Seyns” (ideia do Ser) — não é o Sein ele mesmo ἰδέα! Idee der Idee (ideia da ideia)! — não, sair dessa Rückbezüglichkeit (auto-referencialidade); origem e possibilidade da “Idee” como ideia! e com isso origem e possibilidade da Verhüllung (velamento) do Seyn.
  • Com a Seinsfrage — como quer que seja posta — já se está na Unterscheidung (distinção) de Sein e Seiendem — ontologische Differenz (diferença ontológica); já se está nela e a questão do Seinssinn (sentido do ser) sempre a tem já a suas costas; pode a distinção como tal ser fundada por “esclarecimento” do Seinssinn? — cf. “Vom Wesen des Grundes” (Da Essência do Fundamento), onde a Transzendenz (transcendência) é nomeada como “fundamento da diferença ontológica” (p. 8); essa distinção como tal e com ela a Einheit (unidade) dos distintos deve ser primeiramente posta em questão — e isso em “Ser e Tempo” foi desconsiderado! e em “Vom Wesen des Grundes” insuficientemente recuperado.
  • A Grundabsicht (intenção fundamental) em “Ser e Tempo” (cf. §§ 39 e 63) visa à interpretação do Seinsverständnis (compreensão do ser) quanto à sua possibilitação — ao Woher (de-onde) da Verständlichkeit (compreensibilidade) do Sein; isso é a Temporalität como essenciando na Zeitlichkeit do Dasein; o Seinsverständnis deve ser mostrado como pertencente ao Wesen da Existenz (Dasein) — constituindo o Grundwesen (essência fundamental); mas o Seinsverständnis — mesmo apenas assim posto no Dasein — é hoje, na Seinsvergessenheit (esquecimento do ser), salto e decisão.
  • A Seinsfrage como questão do Seinsverständnis (e assim questão de sentido): questão daquilo que possibilita tal Verständnis (Sinn) — o Sein como Temporalität; o Zusammenwerfen (confusão/mistura) do Sein e do Seinsverständnis é claro nas pp. 152, 183 e 200 ss.: “Nach dem Sein selbst sei gefragt, sofern es in die Verständlichkeit des Daseins hereinsteht” (“pelo Sein ele mesmo se pergunta, na medida em que ele adentra na compreensibilidade do Dasein”).
  • O perguntar “Sein und —” — como quer que seja concebido — é algo Vordergründliches (de primeiro plano/superficial) — nada Gründliches (radical/fundante), não o Sein como Grundhaft (fundante) e Grund (fundamento) ele mesmo; o fundante como Streit (disputa/luta) e Erstreitung (conquista pela luta) do Inzwischen (entre-meio) para o Ereignis — mas isso não é mais captável no sentido de Sein und Ereignis; o Seinsverständnis não pertence ao Dasein como sua condição, mas ao contrário: o Da-sein exige superficialmente no cotidiano Menschsein o Seinsverständnis — mas assim não se atinge de modo algum a relação fundamental de Da-sein e Menschsein (Geschichte/história).

Das Seyn als “Vorhandenheit” (presentidade/estar-diante) und Da-sein

  • Em “Ser e Tempo” essa interpretação do Seyn — a Verdinglichung (coisificação) do Seienden no sentido da coisa-material apenas presente — desempenha papel essencial como aquilo contra o que antes de tudo o “Dasein” é recortado; por esse recorte, sempre correto, a “Analytik” do “Daseins” adquire uma estreiteza particular.
  • “Vorhandenheit” ela mesma não atinge o Wesen do Seienden que se tem em vista — das Dinge (as coisas) — sua Dingheit (coisidade) é inteiramente outra a partir do Wesen da Zerklüftung (clivagem/ranhura) e da experiência do Ereignis.
  • Vor-handenheit (presentidade) segue inteiramente na direção da Zu-handenheit (manualidade) — apenas uma Zu-handenheit ampliada e tanto referida à Handlichkeit (manuseabilidade) — Umgang (lidar) — um caráter de referência no interior do Besorgen (ocupação) — como Unbesorgtheit (des-ocupação), mas não o Wesende (o que essencia) da coisa ela mesma, o que apenas vem do Sein como Gründung im Da (fundação no Aí)!
  • “Vorhandenheit” — então também ao mesmo tempo tanto quanto aquela Gegenständlichkeit (objetualidade) indeterminada do representado no Vor-stellen (re-presentar) assertivo (Sein und Denken).
  • A primazia da Vorhandenheit, cuja recusa fica sempre muito cômoda, traz consigo que também o comportamento “Theoretische” (teórico) é mal interpretado; θεωρία pertence — um pouco mais tarde! — a οὐσία e ὑποκείμενον — não mais ao νοεῖν e ao λόγος de Heráclito; οὐσία — não Vor-handenheit — embora “Vermögen” (potência/faculdade) — “Anwesen” (presentar-se); o Anwesende — mas nunca repousar em si! — o “Wesen”.
  • Esse Abhebungsmaßstab (padrão de recorte) — a Vorhandenheit — é então reconduzido ao Verhalten (comportamento); o Verhalten porém como Herrschaft des Man (domínio do impessoal/se-faz) — a Uneigentlichkeit (impropriabilidade) — ao mesmo tempo como Alltäglichkeit (cotidianidade); tudo isso a partir do Existenziellen (existenciell) — como se isso se tornasse fundamento e força da Gründung (fundação) da Wahrheit do Wesen do Seyn — (Zerklüftung).
  • Aqui há, conforme a orientação existenzial-phänomenologische (existencial-fenomenológica) de pesquisa, um Zwiespalt (cisão) próprio entre “Ursprünglichkeit” (originariedade) do perguntar como eigentliche Eigentlichkeit (propriedade autêntica) existenciell e “Wiederholung” (repetição/re-tomada) como simultânea Destruktion (destruição); assim o dizer filosófico próprio ainda não é meta-físico — e isso significa: o Anfang (início) — não assumido verdadeiramente como Anfang, mas em sentido amplíssimo ainda doxographisch! (doxográfico); apesar do querer-retornar às origens na Destruktion, esta é todavia negativa — nenhuma Erinnerung (rememoração) criadora própria — e isso porque falta a claridade e a essencialidade do Vor-gehen como Einsprung (salto para dentro) no Dasein.
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