GA78 Introdução
Der Spruch Anaximander (1946) [2010]
O dito de Anaximandro e suas traduções: Nietzsche e Diels
§ 1. Citação do dito e das traduções de Nietzsche e Diels
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No comentário de Simplício à Física de Aristóteles conserva-se o Spruch (dito) de Anaximandro, transmitido a partir de Teofrasto e situado no horizonte da physis (natureza), com a indicação de que o fragmento propriamente dito começa na passagem sobre aquilo de onde há gênese e para onde há corrupção.
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Entre a formulação originária do Spruch (dito) por Anaximandro, sua conservação por Simplício e a tentativa moderna de pensá-lo, interpõem-se mais de dois milênios, de modo que o dito aparece desde o início como palavra antiga cuja distância histórica já pertence ao seu modo de ser ouvido.
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A primeira tradução considerada é a de Nietzsche, surgida no contexto de sua reflexão sobre a filosofia na época trágica dos gregos e de suas preleções sobre os filósofos pré-platônicos, nas quais o dito é vertido como retorno necessário das coisas ao lugar de sua origem, mediante expiação e julgamento segundo a Ordnung der Zeit (ordem do tempo).
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A segunda tradução considerada é a de Diels, ligada ao empreendimento filológico moderno dos Fragmentos dos Pré-Socráticos, em que o dito é vertido como gênese e perecimento das coisas segundo a necessidade, com pagamento recíproco de pena e expiação por sua impiedade conforme o tempo determinado.
§ 2. Diferença e comunidade das duas traduções. A intenção filosófica de Nietzsche e a intenção filológica de Diels. A determinação tradicional do pensar grego inicial como “filosofia da natureza” e a atribuição de Anaximandro a ela
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As traduções de Nietzsche e Diels procedem de intenções distintas, pois Nietzsche pensa Anaximandro a partir da Besinnung (meditação) sobre sua própria época e sobre o que nela advém, enquanto seu encontro com a filologia clássica é atravessado por sua condição de pensador e não por mero interesse erudito.
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Nietzsche permanece, no meio do Zeitgenössische (contemporâneo), um pensador que se ergue como cume solitário na Zeit des Seins (tempo do ser), sem que o levar a sério implique adesão, pois no Denken (pensar) não há discipulado, mas solidão recolhida no Sein (ser).
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A dificuldade moderna diante de Nietzsche provém da proximidade excessiva a seu “pé de montanha”, pela qual se tomam paredes isoladas como se fossem o próprio monte.
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O pensamento de um pensador pertence também aos acasos e enredamentos de sua época, pois é por eles que o Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) lhe é trazido.
Nietzsche pensa sua própria época, isto é, aquilo que a aguarda, em diálogo com o mais antigo pensador do Ocidente, razão pela qual seu interesse pelos filósofos pré-platônicos é também interesse pelos séculos XIX e vindouros.A tradução de Diels nasce da tarefa filológica de oferecer uma base textual cientificamente segura para os ditos dos filósofos pré-socráticos, mas a filologia, ao tratar da filosofia grega, já assume uma Stellungnahme (tomada de posição) que pode converter-se em filosofia sem que um ideal humanista baste para fundamentá-la.Apesar de suas origens diferentes, as duas traduções concordam no essencial e quase palavra por palavra, revelando uma compreensão comum do conteúdo do Spruch (dito).O Spruch (dito) parece falar do Entstehen (surgimento) e do Vergehen (perecimento) das coisas, concebendo a mudança contínua como uma Wechselwirtschaft (economia de troca) da Natur (natureza), na qual o real se desenvolve e se desfaz.A atribuição de Anaximandro à Naturphilosophie (filosofia da natureza) repousa sobre a tradição aristotélica que nomeia os primeiros pensadores como physikoi ou physiologoi, embora tal classificação oscile entre deformações grosseiras e uma possível aproximação essencial da physis (natureza).A interpretação moderna tende a ver o pensamento inicial como química fracassada do universo ou ciência primitiva, explicando a linguagem de pena, culpa e expiação como projeção antropomórfica de experiências humanas sobre processos naturais.-
O perecimento das coisas é compreendido como retirada do palco à maneira de um destino humano.
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O pagamento recíproco é entendido como transposição de relações humanas de troca para a mutabilidade natural.
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A adikia (injustiça) das coisas permanece pouco interrogada, embora seja decisiva para o sentido do dito.
A leitura corrente atenua a estranheza da adikia (injustiça) das coisas ao qualificá-la como linguagem poética e antropomórfica, vinculada à passagem do Mythos (mito) ao Logos (logos) e à ciência ainda incipiente.A observação de Simplício de que Anaximandro fala com nomes “mais poéticos” oferece à interpretação tradicional um meio de explicar a duplicidade do Spruch (dito), como se ele alternasse uma formulação mais científica e outra mais imagética por falta de rigor da ciência nascente.A compreensão naturalizada do Spruch (dito) fornece o solo da concordância entre Nietzsche e Diels, mas essa concordância exige que se pense seu Grund (fundamento) mais próprio.§ 3. O fundamento próprio da concordância das duas traduções: a posição predominante de Platão
a) Tradução como interpretação dentro de uma Auslege (disposição interpretativa) pré-concebida. O platonismo como Auslege (disposição interpretativa) do pensar grego inicial enquanto filosofia “pré-platônica” ou “pré-socrática”
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Toda tradução é Auslegung (interpretação), mas esse enunciado só se torna pensável quando se considera o elemento essencial da interpretação em vista do Spruch (dito) de Anaximandro.
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No primeiro ouvir e ler, a palavra já se encontra previamente interpretada dentro da Auslege (disposição interpretativa), isto é, da amplitude do óbvio em que aquilo que é dito se torna imediatamente compreensível.
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A Auslege (disposição interpretativa) oferece o campo em que palavras gregas são naturalmente remetidas a palavras alemãs.
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Termos como gênesis, phthora, chreon, dike, tisis, didonai, adikia, taxis e chronos são reconduzidos ao óbvio de “surgimento”, “perecimento”, “necessidade”, “direito”, “expiação”, “pagar”, “injustiça”, “ordem” e “tempo”.
A língua das palavras e obras gregas fala a partir da Auslege (disposição interpretativa), pois antes de traduzir já se está transposto para o campo do óbvio em que se permanece.O Spruch (dito) é recebido de antemão como palavra de um filósofo, e sua Auslegung (interpretação) é guiada pelo que já se entende por filosofia e pelo tipo de filosofia que se atribui ao tempo de Anaximandro.Quando o Anfang (começo) do pensar ocidental é previamente determinado como filosofia pré-platônica, a leitura dos primeiros pensadores já fica decidida por um platonismo difuso que impede que eles cheguem a sua própria palavra.b) Traços fundamentais do platonismo: a idea como o “Sein” (ser) e a distinção entre sensível e não sensível como âmbito do pensar. “Filosofia” = platonismo = idealismo. Os contramovimentos ao idealismo e o materialismo como formas do platonismo
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A Vorrangstellung Platons (posição predominante de Platão) repousa no fato de que sua doutrina, juntamente com a de Aristóteles e através da teologia cristã, sustenta a história inteira do Denken (pensar) ocidental, inclusive a filosofia de Nietzsche.
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A filosofia ocidental é Platonismus (platonismo), inclusive a filosofia de Aristóteles.
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O Ganze des Seienden (todo do ente) se mostra ao pensamento pela determinação do Sein des Seienden (ser do ente) como idea.
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A cisão entre o sensível e o não sensível torna-se o traço fundamental pelo qual o Seiende (ente) no todo aparece.
O traço platônico do Seiende im Ganzen (ente no todo) atravessa tanto a interpretação que subordina o sensível ao suprassensível quanto a inversão que reduz o suprassensível a derivação, superestrutura ou aparência do sensível.O Denken (pensar) que representa o Seiende (ente) em sua Seiendheit (entidade) chama-se filosofia, e “filosofia”, “platonismo” e “idealismo” nomeiam essencialmente o mesmo horizonte, no qual também realismo, empirismo e positivismo permanecem como contramovimentos internos ao platonismo.O materialismo também é Platonismus (platonismo), pois suas refutações filosóficas permanecem presas ao mesmo campo que pretendem combater, sem atingir seu Wesen (essência).O Wesen (essência) mais originário do materialismo não está em afirmar que tudo é matéria, mas em fazer aparecer o Seiende (ente) como Material (material) da Technik (técnica), cujo próprio Wesen (essência) ainda permanece oculto.-
A interpretação fichteana da natureza como material do dever aproxima-se do materialismo mais do que a leitura idealista habitual faria supor.
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A referência de Nietzsche ao diabo como antigo amigo do conhecimento indica que a questão do materialismo não pode ser reduzida a indignação moral.
A questão do diabo e do materialismo pertence essencialmente ao problema das traduções de Anaximandro, porque ambas se movem no horizonte histórico do platonismo.c) A dependência das traduções de Diels e Nietzsche em relação ao platonismo da formação clássico-tradicional do século XIX. A filosofia de Nietzsche como “platonismo invertido”. A interpretação filosófica de Hegel dos “filósofos mais antigos” a partir de Aristóteles
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As representações platônicas sobre Entstehen (surgimento), Vergehen (perecimento), necessidade, realidade, possibilidade, justiça, injustiça, ordem e tempo foram incorporadas ao saber formativo moderno, de modo que também o pensamento anterior a Platão passa a ser compreendido historicamente a partir do platonismo.
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A tradução de Diels, embora filológica, move-se necessariamente dentro de uma compreensão filosófica herdada, pois tornar a palavra de um pensador pré-socrático acessível em alemão já implica uma Auslegung (interpretação).
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A semelhança entre Diels e Nietzsche não se explica por dependência filológica ocasional, mas pela fonte comum das representações formativas correntes sobre a filosofia e suas doutrinas.
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Nietzsche já é filósofo quando traduz Anaximandro, pois sua máxima de libertar o século VI de seu túmulo e sua formulação da própria filosofia como “platonismo invertido” determinam todo o caminho de seu Denken (pensar).
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A inversão do platonismo consiste em fazer o sensível aparecer como aparência do ente e como ideal, mas tal inversão continua sendo Verstrickung in den Platonismus (enredamento no platonismo).
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Nietzsche interpreta Heráclito e Parmênides pelo esquema platônico de Sein (ser) e Werden (devir), no qual o Sein (ser) é associado ao suprassensível, imperecível e eterno, enquanto o sensível é dominado pelo Werden (devir).
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Embora Nietzsche tenha dado vivacidade à Persönlichkeit (personalidade) dos pensadores do século VI, sua interpretação de seu Gedachtes (pensado) ainda os empurra para o túmulo do platonismo que pretendia superar.
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A incapacidade moderna de deixar os primeiros pensadores falarem mostra que entre seu Gedachtes (pensado) e a posteridade se interpôs o platonismo como uma cadeia montanhosa quase intransponível.
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A dificuldade de Nietzsche em abrir o caminho para a Frühe (aurora) do pensamento talvez se ligue ao peso de sua experiência do nihilismus (niilismo), que o impediu de alcançar a severidade exigida para repensar os primeiros pensamentos.
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A pergunta por Hegel torna-se necessária porque seu Denken (pensar) sistemático parece ter sido o primeiro a pensar filosoficamente a história da filosofia a partir da própria essência da realidade absoluta.
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Hegel não interpreta diretamente o Spruch (dito) de Anaximandro, mas aborda a determinação da natureza como apeiron (ilimitado), considerada pela tradição como a doutrina própria de Anaximandro.
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Hegel também pensa o Anfang (começo) grego como desenvolvimento que se encaminha para Platão e Aristóteles, tomando Aristóteles como fonte privilegiada para conhecer os filósofos mais antigos.
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As traduções de Nietzsche e Diels não bastam sequer para conhecer grosseiramente o Spruch (dito), caso se confirme que sua Auslegung (interpretação) permanece governada pelo platonismo.
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A pergunta sobre por que não traduzir corretamente de imediato o Spruch (dito) revela que ainda se pressupõe a superioridade dos posteriores sobre os anteriores e a legitimidade de compreender Anaximandro a partir de Platão.
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As considerações anteriores conduzem à pergunta decisiva sobre o Sinn (sentido) de ainda ocupar-se hoje de um Spruch (dito) pronunciado há mais de dois milênios e meio.
§ 4. As reservas essenciais contra o projeto de interpretação do dito. A possibilidade de sermos tomados por ele
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A dificuldade não consiste em buscar uma tradução sem pressupostos, mas em ser previamente tomado de modo adequado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) que se pensa no Spruch (dito) do pensador.
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A primeira reserva afirma que o conteúdo do Spruch (dito) é necessariamente inacessível, porque entre o Anfang (começo) do Denken (pensar) ocidental e a época atual há uma distância de dois milênios e meio.
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A segunda reserva afirma que, mesmo se o salto até o Spruch (dito) fosse possível, seu conteúdo só poderia ser compreendido no horizonte das representações atuais, de modo que se tornaria impossível determinar o que Anaximandro quis dizer.
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A terceira reserva afirma que o que restasse do sentido originário seria apenas algo historicamente ultrapassado pelo progresso do Denken (pensar) moderno, tornando o dito antiquado para os atuais.
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A quarta reserva concede ao Spruch (dito) um valor histórico como começo da filosofia da natureza, mas nega que uma ocupação histórica com ele possa falar do que hoje é.
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As reservas declaram ilusórios o acesso ao Spruch (dito), seu proveito e o direito de ocupar-se dele, uma vez que tal ocupação pareceria permanecer apenas histórica.
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As reservas não devem ser dissolvidas por contrarrazões, pois elas já supõem saber de antemão o que é o Spruch (dito) e qual acesso a ele é possível.
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O momento decisivo consiste em tentar ser tomado pelo próprio Spruch (dito), pois somente depois disso as reservas podem ser retomadas, caso ainda se mostrem necessárias.
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Ainda não há Einsicht (visão compreensiva) do Spruch (dito), mas já há Vorsicht (cautela) diante das próprias opiniões e pretensões modernas de superioridade.
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O Spruch (dito) pode falar algo estranho e talvez deixar não dito um Rätsel (enigma), pois o Ungesprochene (não dito) só pode retirar-se no interior do Gesprochene (dito) que fala.
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A Auslegung (interpretação) não precisa reconstruir psicologicamente o que Anaximandro teria representado, pois o pensador é antes interpelado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado).
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As reservas precisam ser nomeadas porque o desejo impensado de saber melhor só pode ser deixado de lado quando se torna explicitamente conhecido como obstáculo.
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A prontidão para ser tomado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) pressupõe que Anaximandro seja pensador, que o Spruch (dito) seja dito de pensador e que aquilo que nele deve ser pensado ainda diga respeito ao presente.
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A questão final não é se está ao arbítrio moderno ouvir o Spruch (dito), mas se ele já fala mesmo quando não é ouvido, decidindo assim algo sobre o Geschick (destino historial) dos que não o escutam.
§ 5. A construção do dito: sua articulação em duas partes e a ligação entre elas pela palavra yap
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O Spruch (dito) de Anaximandro é retomado em seu texto grego e na tradução de Diels para que sua Bau (construção) possa ser pensada antes de se decidir o que ele diz.
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A pergunta sobre aquilo de que o Spruch (dito) fala não pode ser respondida de imediato por um tema único, pois ainda permanece incerto se ele possui algo como um Gegenstand (objeto) tematizável.
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O Spruch (dito) se divide em duas partes, separadas entre a fórmula “segundo a necessidade” e o início do segundo membro por yap (pois).
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As duas partes parecem construídas de modo semelhante, pois a primeira articula o “de onde” e o “para onde” do Entstehen (surgimento) e do Vergehen (perecimento), enquanto a segunda fala da reciprocidade do pagamento segundo a ordem do tempo.
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A semelhança formal levou à opinião de que os dois membros dizem o mesmo em formulações diversas, e até à suspeita filológica de que a primeira sentença não seria de Anaximandro.
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A suspeita de que gênesis e phthora pertenceriam apenas à terminologia platônico-aristotélica não se sustenta, pois as palavras podem possuir Nennkraft (força nomeadora) originária sem serem comprimidas no esquema de uma terminologia posterior.
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A relação entre as duas partes permanece decisiva, porque elas não podem ser simplesmente idênticas se a segunda começa por yap (pois), termo que funciona como Gelenk (articulação) entre membros distintos de um todo.
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O yap (pois) indica uma relação de fundamentação, na qual Grund (fundamento) e Folge (consequência) se pertencem e se distinguem, mas ainda não se sabe se o segundo membro fundamenta o primeiro ou se dele decorre.
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A própria possibilidade de pensar o que vem à linguagem no Spruch (dito) pode depender da explicitação desse pequeno termo de ligação, pois o yap (pois) ao mesmo tempo mostra e encobre a relação entre partes desiguais.
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O Ganze des Spruches (todo do dito) só pode ser alcançado seguindo passo a passo suas palavras, sem compor artificialmente o todo a partir de partes isoladas.
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As duas sentenças possuem conteúdos diferentes, pois a primeira nomeia Entstehen (surgimento) e Vergehen (perecimento), enquanto a segunda nomeia o pagamento de pena e expiação, embora ambas falem do Selbe (mesmo).
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Segundo as traduções de Nietzsche e Diels, esse Selbe (mesmo) de que falam as duas sentenças seriam “as coisas”, mas precisamente aí se abre a pergunta decisiva pelo que Anaximandro realmente diz.
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