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Andenken e Mnemosyne (2)
Zu Hölderlin - Griechenlandreisen [2000]
“Mnemosyne” (IV, 225 s.)
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É natural relacionar o poema “Andenken” com o fragmento “Mnemosyne”, mas seria superficial e mesquinho se apenas a afinidade semântica dos títulos servisse de fio condutor, sem que se soubesse que Hölderlin, em “Mnemosyne”, aventura-se o mais longe possível naquilo que cabe dizer aos poetas dos tempos futuros.
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Que esse poema tenha permanecido um fragmento de difícil medida não deve causar estranheza; é preciso guardar-se de fixar, a partir do saber sobre o dizer em “Andenken”, direções determinadas de interpretação.
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O fragmento deve falar exclusivamente a partir de si mesmo e sempre em nova disposição.
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Nunca se será senhor de sua riqueza e de sua intimidade abissal, permanecendo-se sempre aprendizes no exercício de um pensar-antecipador misterioso (da futuridade alemã).
O que esse poema indica em primeiro lugar é aquilo que Hölderlin chama de “o Verdadeiro” (verso 19) e “verdadeira causa” (verso 14), e imediatamente, no verso 20, na íntima contraposição hölderliana, surge a pergunta: “Como, porém, o amado?”, e no verso 35: “mas o que é isso?”.Já se está, sem perceber, na unidade do pensar-antecipador do “Verdadeiro” e do Andenken ao “Amado”; e essa unidade de tal “pensar” é a travessia abissal e luminosa daqueles que já partiram para preparar a passagem para a outra história.-
Não se deve temer que o dizer desse “pensar”, enquanto poetar, recuse toda saída para o conhecido e o comparável.
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A referência a “Píndaro” não significa nada aqui — a não ser desvio de um único estado de ânimo fundamental.
“O Verdadeiro” coincide com “o que permanece” — no sentido do originar que brota originariamente — com o Seyn?Não é preciso resistir à tentação habitual de buscar “passagens” correspondentes em outros poemas, pois os dois poemas que podem auxiliar numa primeira elucidação pertencem inteiramente à mesma via do dizer de “Andenken” e “Mnemosyne”.-
Os nomes “Andenken” e “Mnemosyne”, como nomeações do pensar-antecipador que rememora, valem também para os poemas “Germanien” (IV, 184, verso 93 ss.) e “Die Titanen” (IV, 209 s., verso 51 s.).
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Assim como em “Mnemosyne”, versos 17 ss., “o Verdadeiro” e o “longo tempo” são pensados juntos a partir do saber de que “o Verdadeiro” não apenas “tem” o seu tempo, mas instaura de novo um “tempo”, também em “Die Titanen” perpassa essa relação entre “o Verdadeiro” e “o tempo”, com o verso de abertura incisivo: “Não é, porém, / O tempo”.
“O Verdadeiro” é dito (versos 49 ss.) como aquilo de que “os Celestiais estão ébrios” — o que significa que eles próprios não o criam, como se fossem a causa de todas as “verdades” no sentido da teologia cristã e da metafísica teológica.-
O Verdadeiro é a bebida da embriaguez dos deuses, pela qual aquela plenitude se torna possível, na qual eles se conhecem e se sentem a si mesmos (cf. “Der Rhein”, versos 109 s.).
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Os deuses necessitam do Verdadeiro — ele lhes é urgência e necessidade — desde que se pense aqui (a partir da questão do ser) mais longe do que o verso poético aparentemente alcança.
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A embriaguez divina — ao contrário da humana — não leva os Celestiais para fora de si, mas precisamente a si mesmos; e o que significa “o Verdadeiro” aqui é: “que cada coisa / É, como é” (versos 51 s.).
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Hölderlin não pensa aqui a vazia “identidade” de qualquer coisa consigo mesma — pois disso nunca se poderia deduzir por que o Verdadeiro seria aquela bebida.
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Cada coisa que é, “é”, na medida em que se encontrou em sua própria essência e, como ente, realiza a guarda do Seyn.
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O Verdadeiro significa aqui o acontecimento dessa guarda, que permanece sempre uma guarda histórica e tem seu tempo.
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A guarda do Seyn pertence ao Seyn mesmo, na medida em que este “uma vez aparece” (“Germanien”, verso 93 ss.), no “longo tempo” (“Mnemosyne”), do qual necessita, pois a instauração do Seyn deve ser preparada na fundação da verdade do Seyn.
Pode-se objetar que um determinado pensar estaria sendo introduzido na poesia de Hölderlin e esta seria arbitrariamente reclamada como testemunho de uma “filosofia”; mas esse determinado pensar tem sua determinidade a partir de uma meditação sobre a história do Seyn, em cuja via a poesia de Hölderlin aparece como um único ponto de viragem antecipado.-
A remissão corriqueira a um equacionamento ilegítimo da poesia hölderliana com os esforços em torno da questão do ser nada resolve aqui.
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A violência na interpretação de Hölderlin nunca pode ser suficientemente essencial e decidida — o que significa apenas que é preciso assegurar-se, em algum ponto, de tais forças e poderes nas vias da meditação.
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Que tudo nisso seja ainda pensado de modo insuficiente e trilhe caminhos errados é provável; por isso mesmo tal tentativa é arriscada.
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Precisamente nos pontos mais essenciais deve-se ter em mente a dubiedade do arriscar.
“O Verdadeiro” como a guarda do Seyn — daquilo que é instaurado no pensar-antecipador e libertado na instauração como o que brota originariamente.Mesmo essa elucidação de “o Verdadeiro” o deixa ainda no indeterminado, ao menos para a representação comum, à qual a determinidade do mais simples talvez seja em geral inacessível; por isso é preciso recusar expressamente as exigências do opinar cotidiano como critério de compreensibilidade.-
Hölderlin chega ele mesmo a uma determinidade desejada do dizer sobre o Verdadeiro ao nomear algo de “verdadeira causa” (verso 15).
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“Verdadeira causa” é estar onde, “diariamente”, sem o longo tempo e sem necessitar da lei, pode mudar-se, quando “uma coisa” tiver sido tomada dos homens “com avidez excessiva”.
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O Verdadeiro é a transformação originária, ela própria sempre instituidora de “lei”, do Abissal, para onde precisamente os Celestiais não alcançam, de modo que não medem a amplitude do Seyn.
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O Verdadeiro é esse Seyn mesmo como origem do Sem-Dúvida dos deuses e do Abissal dos homens.
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Aqui, na verdade do Seyn, o Belo — a intimidade do Sem-Dúvida e do Abissal — existe sem angústia, que sempre acomete o homem apenas a partir de um ente isolado; aqui “falta o luto”, verso 52, pois ao Belo, que é apenas o nome poético do Seyn, corresponde somente o Es-pantoso como o expor-se, libertador do ente, ao Seyn.
“A verdadeira causa” é aquilo onde “Muitos Homens”, isto é, os heróis (semideuses), gostariam de estar — o que conhecem como seu espaço-de-tempo e para onde, contudo, “não poupando a alma” (verso 50), devem ir.“A verdadeira causa” não é a essência dos deuses, o Celestial, tampouco o feito dos meramente mortais, que não ousam aquilo em que um deve “recolher-se” (verso 51), ao ousar simultaneamente e em uma unidade o Celestial (Sem-Dúvida) e o Abissal, o “dia nupcial”.-
O que quer permanecer “informe” e tomar-nos “com avidez excessiva” e poderia oprimir-nos como o meramente temível — esse Informe é reunido pelos heróis na unidade do Verdadeiro, ao ousá-lo como Abissal simultaneamente com o Sem-Dúvida, que sem lei se modifica e assim se instaura inicialmente como lei.
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Aos Celestiais isso é recusado, pois não alcançam o abismo e, portanto, jamais podem reunir da unidade a contraposição extrema do Informe e do Sem-Dúvida — unidade que é o Verdadeiro, a originariedade do Seyn mesmo.
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O Verdadeiro “se acontece” — subitamente —: aparentemente perdido e destruído no longo tempo, irrompe entre os homens e os deuses e assim os força pela primeira vez ao confronto.
O Verdadeiro é o Es-pantoso, o Originário, que por isso mesmo nunca pode ser encontrado em nenhum lugar e em nenhum momento no meditar e no Andenken; esse Es-pantoso, o Seyn, porém, se acontece não por si mesmo, mas para que o ente seja primeiro — aquilo que é sempre preservado no Gedanken e ao qual o amor se prende — o Amado.Como a Mnemosyne se relaciona com o dizer do “Verdadeiro”? Obscura o suficiente é a estrofe dos versos 46 ss., ausente em Zinkernagel, mas que traz para este poema, para nós, uma fraca luz.-
A cidade e lugar de Mnemosyne é Eleutherá.
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Liberdade e Andenken entram aqui em relação.
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Liberdade (originariedade do deixar-brotar como fundamento de todo fundar) é o lugar do Andenken, toma-o sob sua guarda e ao mesmo tempo lhe presta serviço.
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A Mnemosyne, porém, como olho do amor, é ela própria a amada do “deus vespertino” — ela é o arriscado do arrisco abissal e pertence assim ao Andenken dos heróis que arriscam, que ousam o Entre do Abissal e do Sem-Dúvida.
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Mas ela não é arrastada ao Informe, e sim protegida no domínio daqueles que — arriscando-se ao extremo — ainda assim se recolhem e aos quais nenhuma angústia acometerá.
“Como, porém, o amado?” (verso 20): a resposta está dada — ao ser tudo aquilo ao qual o Andenken se prende e que ele encerra em sua simples amenidade e generosa pacificidade, redimido no instaurar recolhido do Seyn, que carrega consigo a abissalidade das “madeixas soltas”.-
Assim o Seyn jamais se torna vão desejo representado e construção verbal; tampouco lhe falta a igualação com o Celestial.
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Mais originário do que este, o Verdadeiro recolhe em si todo Amado em sua mais pura integridade e plenitude luminosa; a Mnemosyne pertence ao herói para com ele celebrar o dia nupcial do Seyn nos únicos instantes do Seyn.
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Quanto mais decidido e ousado o poeta fala para a essência extrema do Verdadeiro e seu pensar não teme mais abismos e despedidas, tanto mais íntimo se torna o chamado rememorante aos heróis “que morreram grandes”, pois no fundar do Seyn tornaram-se vencedores sobre os mortais, poderosos sobre os deuses.
O pensar mais originário do poeta fala nas brasas luminosas e plenas das coisas simples; também aqui está velada, pela Mnemosyne, a originariedade da liberdade.-
O dizer do Andenken é pensar-inventivo; o mais íntimo ater-se ao ente é o salto mais ousado no Seyn.
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O longo tempo, de que a preparação do Verdadeiro necessita, encontrou, por este próprio poema e pelo breve ser-aí deste poeta, seu instante, em que no mais fundo do Informe “com está o deus” — e tudo se volta para uma origem a partir do Seyn.
Que este poema não se deixe dissolver num cálculo tranquilo de nexos racionais, que um Solto envolva o Reunido e o Arrisco force o Informe, que o Abissal seja protegido e o Decidido traga outra lei, que os deuses não contemplem tudo, sublimes e indiferentes, mas invejam nos heróis o abismo e o Entre com desagrado, que os homens não derivem na prazeridade esclarecida, mas o seu Amado receba do obscuro do Questionável (“Como, porém, o amado?”) os grandes fundamentos e amplitudes — tudo isso subtrai tal poetar ao rebaixamento para a compreensibilidade comum e culta, que só quer explicar e contabilizar, para então, tranquilizada, passar ao próximo e deixar suas artes se exercitarem.Mas será a poesia forte o suficiente para lançar sua instauração como início de uma Outra História na confusão e impotência de metas do Ocidente?-
Ela certamente o é — e não se deve sequer formular tal pergunta.
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O que é questionável é apenas se estamos preparados para ainda pressentir o que aqui está fundado como o “Permanente”: o reino intermediário entre os deuses e os homens, sustentado por seu abismo e reunido em sua decisão.
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É questionável apenas se somos capazes de, em longo meditar e pensar-antecipador, alcançar a vantagem que a instauração de Hölderlin desse reino realizou — reino que não é novo nem velho, mas que, fora do antigo e do novo, encontrou no Antiquíssimo ainda não fundado o Intocado, do qual o ente deve emergir mais uma vez, se há de tornar-se a guarda da verdade do Ser e exigir dos deuses a conquista do homem e do homem a pertença aos deuses.
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