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Aletheia

A. A Ἀλήθεια e a Wahr-heit

(ὁμοίωσις — rectitudo — iustitia — Gewißheit — Gültigkeit — Sicherheit — Wert)

1. O Seyn — A Wahr-heit — O Er-eignis

1. Investiga-se a ambiguidade do τὸ ὄν entre ente e ser, remontando à οὐσία τοῦ ὄντος como ser-idade do ente e como o mais ente enquanto causa e princípio, para perguntar pelo que concede a clareira enquanto tal — a Ἀλήθεια —, concluindo-se que a verdade que assim se clareia é o próprio Seyn, que a verdade é a Wahr-heit, e que a Wahr-heit é o Er-eignis.

  • O ser permanece velado em tudo isso, inclusive naquilo em que ele mesmo se aclara, de modo que a pergunta pela verdade do ser é transitória e propensa a mal-entendidos.

2. Ἀλήθεια — Φύσις

2. O termo “resguardar” (Bergen) significa tanto pôr em segurança e salvar (σῴζειν) quanto manter fechado em si e conter de modo preservador como o não erguido, sendo o primeiro sentido uma espécie de retorno ao segundo, o que leva a perguntar em que medida a desvelação (Unverborgenheit) pode, enquanto tal, preservar algo, já que a Ἀλήθεια resguarda a Φύσις, ambas pensadas aqui apenas em vista do aberto e do abrir-se.

3. Sobre a conferência “Da essência da verdade”

3. O pensar aqui é um retornar ao sempre questionável, cuja região mais digna de ser questionada é a própria região do ser, e não algum ente como o sujeito enquanto condição de possibilidade da representação, nem uma causa superior como condição de um efeito, não restando aqui mais nenhuma consideração transcendental nem qualquer questionar ao longo de uma série de condições, mas apenas a instância (Inständigkeit) na referência ao Seyn.

4. A questão do ser

4. Distinguem-se três momentos na verdade do Seyn: primeiro, a verdade do Seyn ainda como abertura, condição de possibilidade do projeto, isto é, da desvelação; segundo, a verdade do Seyn como o próprio Seyn autêntico, a Wahr como o resguardo velado-desvelante; terceiro, a Wahr como o Ereignis, do qual se ramificam o ser-homem e a verdade do Seyn através do carecer e do começo, constituindo a passagem de (1) a (3) através de (2) uma mudança segundo o modo do outro começo.

5. A Wahr-heit. A verdade do Seyn

5. Não se trata de uma representação correta sobre o ser como objeto desse representar, mas a Wahr-heit pertence ao Seyn como sua propriedade, aquilo que o Seyn tem por próprio como seu próprio autêntico, o autêntico mesmo.

6. A Wahr-heit do Seyn

6. O Seyn é o ser que retorna à sua própria Wahr-heit, sendo a Wahr-heit do Seyn este mesmo enquanto retorno à chegada, de modo que a Wahr-heit é a Wahr-heit do Seyn, constituindo a gramática histórico-do-ser (seynsgeschichtliche Grammatik).

7. Liberdade

7. A liberdade, como determinação do ser-homem e como o determinante dessa determinação, consiste na pertença à propriedade do Seyn, aquilo em que o Seyn essencializa propriamente como ele mesmo, apropriando-se a si e assim justamente se-apropriando (er-eignend).

8. A liberdade

8. O Seyn precisa do homem e o liberta para a liberdade, sendo a liberdade a generosidade (Weitmut) do responder que alcança a Wahr-heit, na qual a utilizabilidade do homem se resguarda para a preservação da Wahr-heit, sendo a liberdade a pertença apropriada à região e o contentamento em que repousa a ampla generosidade.

9. Tudo o que é essencial é sereno

9. O que é sereno resguarda ao mesmo tempo o que é resguardante da luz obscura.

10. Da verdade do Seyn

10. É a partir da verdade do Seyn que se transforma o “é” e tudo o que é dizível na dição pensante, devendo todo entendimento partir dessa transformação.

11. A Wahr-heit e o Espaço-tempo

11. Trata-se da região (die Gegend) como articulação entre a Wahr-heit e o espaço-tempo.

12. A verdade

12. A Wahr enquanto resguardo velado da desvelação (em que o desvelar propriamente começa a partir do resguardo da velação) constitui a concessão (Gewährung) cujo garantir resguarda, sendo o começo a cisão, o “Não” que nunca nega nem apenas afirma, mas confronta (gegnet) na con-frontação (Vergegnung), de modo que a Wahr-heit do Seyn é o Seyn incipiente e, no entanto, ainda não ele mesmo — o Ereignis.

13. Heráclito

13. O ἀλήθεια λέγειν consiste em reunir o desvelado e preservar o velado na desvelação, inserindo isso na essência do representar segundo o desabrochar de si mesmo próprio do ente.

14. [O Seyn]

14. O Seyn confronta, o Seyn é-se (istet), o Seyn nadifica (nichtet).

15. [Deixar-ser]

15. O deixar-ser conduz à serenidade (Gelassenheit) na Wahr-heit, não apenas de modo moral mas comportamental, conduzindo ao agradecimento.

16. A Wahr-heit e o Seyn

16. A essência histórico-do-ser e apropriadora da verdade consiste em ser o resguardo clareante, incipiente e apropriado, da velação do começo, sendo que o Ereignis se clareia confrontando o homem ao chamar sua essência desde o começo para a con-frontação na região como sítio apropriado da perseverança do que vem.

17. A Wahr-heit

17. A Wahr-heit é a Wahr enquanto Ereignis, o resguardo preservador-concedente do aberto no qual o desabrochar surge e desaparece, sendo esse desabrochar clareado na Wahr-heit sem que esta mesma seja apropriada propriamente como o Seyn incipiente.

  • No começo do desabrochar, onde o começo se oculta, permanece a desapropriação (Enteignung) incipiente, que associa previamente ao ser enquanto desabrochar a desvelação, retendo ao mesmo tempo do ser a desocultação como a apropriação transformadora (Übereignung) na superação (Verwindung), pela qual só então se apropria o parentesco.
  • A desapropriação incipiente libera o desabrochar na presença e na permanência, de modo que o ser se solidifica em essência, enquanto a desvelação associada ao desabrochar ainda oculta sua essência apropriadora, ocultando-se de certo modo no desocultado do próprio desabrochar.

18. A clareira

18. Iniciante e apropriadora, a clareira consiste em liberar a liberdade como essência do resguardo do ser no começo, sendo o aberto livre a partir do livre para o livre.

19. [Começar]

19. A raiz de “fangen” (capturar, tomar, reter) conduz a “anfangen” (começar), no sentido de receber e acolher de antemão.

20. A Ἀλήθεια e o Aberto

20. O aberto é a essência da Ἀλήθεια, o ser que se abriu ao “ente” que dele essencializa, sendo a abertura do aberto a essência mais incipiente do ser ainda a ser pensada, a abertura como a clareira enquanto liberação da liberdade, esta como o simples que, no excesso de si mesmo, se captura e se retém — o simples do Ereignis —, sendo esse resguardar que se captura a capacidade de resguardo (Bergsamkeit) do começo.

21. “O Aberto”

21. Citam-se versos das Elegias de Duíno de Rilke sobre os pássaros que talvez sintam o ar ampliado com voo mais íntimo, sobre os viventes que erram ao distinguir demais entre vivos e mortos, sobre o volatilizar-se no sentir, sobre se o espaço cósmico em que nos dissolvemos tem gosto de nós, e sobre tudo nos ocultar enquanto árvores e casas persistem e nós apenas passamos como intercâmbio aéreo.

22. Ἀλήθεια e o aberto — Abertura — Clareira — Ereignis

22. Quanto mais essencialmente se pensa a essência da Ἀλήθεια e não apenas se a significa numa acepção verbal, tanto mais insistente se torna o pensamento de que a desvelação e a desocultação teriam sempre de ser “para” uma percepção, questionando-se se uma desocultação seria pensável “em si”, havendo aqui talvez uma encruzilhada da meditação entre extraviar-se no subjetivo e no representar ou ingressar no caminho para um “essenciante” que pertence originariamente ao começo sem que este dependa daquilo de que seria começo.

  • Que a essência do ser dependa (hängt) do Da-sein — como fundação da clareira do Ereignis, como “liberdade” da liberação do começo na liberdade da abertura — nunca significa que o começo dependa em essência “do” Dasein.

23. A Desvelação

23. A desvelação subtrai o aberto, que assim entra na aparência do vazio, perguntando-se se não é antes a plenitude do simples, plenitude essa recolhida no resguardar do qual provém o desvelar, resguardo do simples como fundamento da dilatação.

24. A Abertura

24. A abertura não é meramente manifestação, mas a possibilitação essencial desta, não sendo primeiramente um contraposto objetual ou propriedade de um ente, mas a clareira “do” Seyn, ou seja, o próprio Ereignis, sendo até a noite clareira, e a abertura não é nem espacial nem temporal, prévia ao fundamento.

  • A abertura consiste em o ser ter-se aberto ao homem em sua essência e ter apropriado este na referência ao assim aberto, estando o próprio homem clareado na e para a clareira que o ser mesmo é, e apenas onde há abertura há também fechamento e velação.
  • Um animal não é nem uma coisa nem outra, sendo diferente também da pedra, e a relação ao ser tampouco se sobrepõe a animal e a animal rationale.

25. Abertura

25. O aberto não é o ilimitado nem o acessível, mas a abertura na singularidade de sua essência, que não pode ser determinada a partir de limite, acesso, obstáculo ou barreira, pois tudo o que se pudesse ainda invocar já necessita da abertura e “é” a partir dela, arrebatando a ἀλήθεια numa inaudita incipiência para dentro da essência, sendo a abertura a essenciação do próprio Seyn.

  • A abertura e sua manifestação provêm da abertura originária como φύσις, aparição e clareira, um “abrir-se” que constitui começo, sendo essa abertura ao mesmo tempo um fechamento não anterior e em si mesmo, mas simultâneo, de modo que a abertura consiste em desvelação e velação como Seyn.

26. O Aberto

26. O aberto como o infinito é evocado a partir das Cartas de Muzot de Rilke, referindo-se ao espaço ininterrupto.

27. O Aberto

27. O ilimitado não se opõe ao separado, mas pertence ao mesmo todo único a que pertencem morto, futuro e presente, sendo o irrestrito o que o infinito admite, evocado por Rilke como o mundo mais aberto, o todo do qual passado e porvir não se delimitam do presente que “é”, o mais profundo ser, o aberto como o mais vasto contorno e o todo, inclusive como o ferido-aberto da outra metade da vida — os mortos.

28. “O Aberto” —

28. O ilimitado, sem forma (πέρας), livre de morte e de limite, é evocado como o animal mais livre, isento de limite, do “Nada” e do “Não”, entrando no ilimitado como a eternidade — “Deus” —, no puro espaço, no infinito sem fratura nem interrupção, sem contraponto limitante, não vigiado mas contemplado, no puro sair para fora e livre, enquanto a “despedida” surge como negação.

29. Abertura

29. Também tudo o que é “fechado” onticamente permanece ainda no aberto — como se poderia de outro modo nomeá-lo, conhecê-lo e experimentá-lo, estar diante do museu fechado —, sendo esse “estar diante” possível apenas numa clareira, numa abertura, que não é propriedade coisal das coisas nem simples consequência da objetivação, mas se dá apenas na condição-de-abertura (Offenständigkeit) do “homem”.

30. Rilke — “o Aberto”

30. O ilimitado, o infindável, o infinito (nos sentidos “mau” e “bom”) aparece em Rilke ainda como um vorhandene em que outro vorhandene está inserido, interpretado segundo traços antropológicos comuns, mas removendo-se a barreira, o “contraposto”, enquanto este contraposto, o objetual, ainda que resto e confuso, é do ser e aceno do ser, a única distinção pela qual há sequer uma referência.

  • Enquanto o animal, inserido no coisal que é apenas aparência da referência ao ser, é “criatura” e “finitude” com traço para o infinito, o animalesco enquanto vida pura não é perturbado pela “ratio”, e o criatural e o mundano — real, o todo puramente tal — fazem até mesmo o próprio Deus.

31. O Aberto

31. O aberto (offen) significa o que está “aberto para cima” — desabrochado (apertus), aberto ao estar (patens), aberto-manifesto (manifestus), público (publicus) —, sendo a abertura reconhecível de modos diversos conforme o fechamento e a abertura que a determinam e possibilitam: olho aberto, porta aberta, céu aberto, mar aberto, museu aberto.

  • A abertura mesma é o ser-aberto num sentido originário como fundamento de todo abrir e abrir-se, e a abertura (Eröffnung) é aquilo em que algo é em geral e até mesmo o nada.
  • Aberto significa não-fechado, não-velado, não-encoberto, não-dissimulado — “rosto aberto” em contraste com “ferida aberta”, ainda não fechada, ainda não cicatrizada, e “mar aberto”.

32. Rilke

32. A metafísica biologista de Rilke exibe o esquecimento do ser em sua culminação, comparável a Nietzsche, ao que corresponde a reinterpretação e o uso cristãos.

33. Ἀλήθεια — Abertura. Ἀλήθεια — ἀληθές e seu alojamento e resguardo

33. Pergunta-se de imediato para quem e onde o desvelado é tal, como se isso só pudesse ser para um eu, sem se pensar o Ereignis da clareira que primeiro concede ao homem a essência clareada a partir da qual ele percebe, nem se considerar que a desvelação se resguarda na clareira que a sustenta.

  • Julgamos que apenas na apreensão e retenção pelo homem estaria melhor resguardado o desvelado, pensando o homem como “sujeito”, tomando-o “por si” como o receptáculo sem questão, e tomando o “eu” e o si-mesmo como o mais próprio e último — certum!

34. πῶς ἄν τις λάθοι (DK 22 B 16)

34. Ninguém pode estar oculto (λάθοι) diante daquilo que nunca desaparece — sempre desabrochar, φύσις —, sendo o desabrochar não algo objetual mas desvelante, colocando no aberto, e determinando a essência do homem de tal modo que este, enquanto ente, é da espécie do ser — desabrochando, portanto desvelado; assim Ἀλήθεια — εἶναι — ἄνθρωπος.

35. Ἀλήθεια

35. Ἀλήθεια liga ἀληθές ao desvelado, ao ὄν e aos ὄντα, e a desocultação ao μῦθος ὅπος, surgindo a opinião cega de que um ἀληθές dos ὄντα só seria possível numa atividade humana receptiva e reativa que se esforça por aproximar-se do ente, quando na verdade nem o “caminho” em si é o percurso aberto nem a atividade receptiva é desvelante e determinada pela Ἀλήθεια.

36. O Homem e o Ser

36. Tratando-se aqui do homem histórico-ocidental — “histórico” significando que o ente enquanto tal é experimentado no seu conjunto e a partir dessa experiência se age e se realiza —, colocam-se as questões de como o homem se relaciona com o Seyn, como essa referência determina o homem em sua essência, de onde e como o vínculo do Seyn com o homem essencializa e o funda e atinge, em que medida se exige do homem um ser inteiramente outro — a instância no Da-sein —, como esse vínculo e o Da-sein se comportam e são “históricos” no Ereignis, e a supressão do homem como animal rationale, cuja essência incondicionada aparece no “além-homem”.

  • Pergunta-se como é a desvelação e se ela é sem o homem, residindo aqui a decisão velada, pois talvez o homem não seja sem que antes essencialize a desvelação, resguardando e fundando o homem a desvelação e não apenas “apreendendo-a”.

37. Ἀλήθεια

37. Essa relação não se deixa pensar como simples relação recíproca, pois se a desvelação “é” quando o ser essencializa e dela brota o “quando”, não seria então “tudo” desvelado, permanecendo em aberto onde estão os limites e onde começa o velado — decisão que cabe sempre ao modo de essenciação do Seyn, não à capacidade e ao saber do homem, embora esta última também não seja algo acessório.

38. Wahr-heit e Wach-heit — Capacidade de resguardo

38. Ἀλήθεια relaciona-se com ἐγρήγορσις, a vigília, e com φύλακες, os guardiões, discutindo-se se a vigilância remete a uma segurança ou a uma essência outra, e situando-se a capacidade de resguardo na essência da desvelação, uma vez que a desvelação não é mera publicação e entrega ao público, mas sobretudo a retomada para o puro e não perturbado desabrochar.

39. Capacidade de resguardo

39. O resguardo do desvelado no “ser” — que deixa essencializar o abrigo na desvelação e a própria desvelação como sua essência (τὸ γὰρ αὐτό) — faz com que o desvelado apareça primeiramente como o ente.

40. A negligência da verdade. A leviandade metafísica

40. Que sua essência não seja tomada em cuidado, que o saber a respeito dela se torne selvagem, que a verdade não seja resguardada — a Wahr sem o ser-homem que lhe é próprio, sem negligência, arrancado dela, abandonado no desamparo do ser — é o ente, sendo essa negligência o processo mais íntimo que atravessa a história metaficamente determinada do Ocidente, e suas manifestações históricas constituem a devastação do ente no perecimento do ser no vazio da desessência liberada.

41. Da essência da verdade

41. O verdadeiro distingue-se entre o que é, o que efetivamente ocorre, e o que deve ser, aquilo que importa, sendo essa a verdade da metafísica, questionando-se o que é — a técnica, a balança eletrônica, o homem, o poder — e o que deve ser — o domínio, o poder —, remetendo-se ao já existente projeto de Nietzsche sobre verdade e mentira no sentido extramoral.

42. Verdade

42. Perguntar por que há verdade exige perguntar por que se pode assim questionar, e o questionador quer saber a essência do cognoscível e do a-conhecer, determinada pelo que-há-de-saber, pelo que-há-de-pensar, pelo agradecer (Verdanken) como pensar-adiante (Er-denken), estando todo pensar-adiante no limite essencial do agradecer, e sendo a Wahr-heit uma guarda, um agradecer como guardar.

43. O esquecimento do ser. O inaparente Ereignis. A verdade do Seyn

43. Explica-se provisoriamente a nomeação em três direções: a partir do Seyn, tendo em vista o ser em relação ao ente e a respectiva diferença; a partir da verdade, como retidão, como Ἀλήθεια, como Wahr-heit, clareira do resguardo; e a verdade do Seyn como indicação da superação (Verwindung).

44. Litígio

44. Distingue-se o litígio como rixa, discórdia e dilaceramento aniquilador, e como disputa verbal — rancor, inveja, zelo, contenda de emulação, ambição de glória (δόχα) —, envolvendo o reconhecimento do outro e a mesura.

45. [Fechamento]

45. O fechamento espreitador e ameaçador, sombrio e sem remédio, é a noite.

46. Ἀ-λήθεια | ἔρις |

46. O caráter litigioso de sua essência determina todo o agonal em sua essência de fazer aparecer, não vendo ainda Nietzsche o decisivo.

47. ἀλήθεια — ὁμοίωσις — ὀρθότης

47. Aristóteles enfatiza a ὀρθότης referindo-se primeiramente ao ὄρεξις — ποίησις e πρᾶξις, τέχνη e φρόνησις —, sendo a partir daí que a ὀρθότης passa a sobrepujar a ἀλήθεια.

48. [ἀλήθεια]

48. ἀληθείην — καταλέγειν articula-se com κατά, καθ' ὅλου e κατηγορία, recolhido a partir do todo.

49. “Verdade”

49. Estamos demasiado habituados a decidir sobre verdade e falsidade segundo as alternativas da lógica, em vez de considerar que na essência da aparência enquanto aparência jaz oculta uma riqueza ainda não erguida de referências próprias.

50. Maldição

50. A maldição recai sobre aqueles que não mostram o caminho aos que erram, sendo a bênção mostrar o caminho, e ligando-se salvação, consagração e Ἀλήθεια ao “caminho” e ao erro.

51. [ἀλήθεια]

51. Pergunta-se em que sentido a ἀλήθεια é εὐκύκλεος — o círculo como envolver, incluir, delimitar sem escoar, andando encadeadamente sem lacuna — a partir da essência da desvelação “do” ser, ligando-se εὐκύκλεος ao πάντα, a completude e a desvelação, trazendo tudo à luz sem reter nada, o todo não como soma mas como unidade essencial do ser.

  • A verdade plena inclui também o não-caracterizado e a desessência, num cruzamento de três caminhos, exigindo-se franqueza sem miramentos, radicalidade a partir do fundamento, e o desvelado de modo que nada permaneça oculto e “tudo” se desnude.
  • O círculo, ao envolver sem dissimular, remete ao ἦτορ, ao “ânimo”, à intimidade do recolhimento, cabendo relacionar ἀλήθεια e λήθη.

52. ἀληθές — λήθη

52. ἀληθέα (ἀληθείην) μυθήσασθαι e καταλέγειν significam dizer o desvelado e não-dissimulado (μεμνῆσθαι, reter, conforme Homero), isto é, adentrar através da velação, do encobrimento e da dissimulação no domínio do desvelado, pensado gregamente não a partir do representar e do apresentar-se no sentido de trazer o objeto, mas como um ingressar em, um avançar para o domínio do manifesto, um estar de si mesmo em sua própria luz.

  • O homem deve ater-se ao desvelado e retê-lo — só assim lhe basta, do contrário deixa-o escapar, isto é, afundar no velado —, exigindo velação e desvelação essencialmente o comportamento de deixar-escapar e de reter, sendo estes possíveis, no sentido grego, apenas sobre o fundamento da velação e da desvelação.
  • O reter e o deixar-escapar essencializam no âmbito da percepção e do recolhimento (νοεῖν, λέγειν), fundando-se o não-deixar-escapar na inserção no domínio aberto do desvelado — daquilo que jamais desaparece, ao qual ninguém se subtrai, pois cada um, como homem, já essencializa nessa referência ao desvelado — significando não-deixar-escapar não deixar faltar, não perder (ἁμαρτάνειν), o não-perdido, νημερτής, o inserido no que não pode perder-se, faltar ou errar, o que nunca falta.

53. ἀλήθεια — εἶναι. λήθη, λήθομαι, λανθάνομαι

53. A velação, o estar-velado em algo e para algo (o escapar, em distinção do vir-a-ser e desabrochar), o esquecer como estar em algo na velação, deixado no velado de modo que o velado afunda na velação, o negligenciar e não atentar, expressam-se em λήθει τινά τι — algo escapa a alguém, conforme Heráclito, fragmento 16 —, e em λήθη ποιῶν τι — permaneço velado em fazer algo, ajo amigavelmente —, sendo λήθη a velação, a velatividade, aquilo para onde algo afunda.

  • ἀληθεισία designa a desvelação como aquilo para onde algo desabrocha, ligando-se escapar e afundar, afastar-se e distanciar-se, à essenciação (wesen), e chegar e desabrochar, provir e aproximar-se, sendo λήθη e ἀλήθεια mais incipientes que εἶναι, ao mesmo tempo determinando a “essência” do ser como ascensão e declínio, presença e ausência.

54. Ἀλήθεια e o cruzamento de três caminhos

54. Há na Ἀλήθεια uma dupla oposição: à velação, questionando-se como isso foi interpretado no primeiro começo através do μὴ ὄν, pois a velação não foi experimentada propriamente e menos ainda como resguardo; e à dissimulação (aparência), constituindo-se assim na Ἀλήθεια, de modo duplo e diverso, o “Não” como o contrário (δόξα, desessência) e como o sem (μὴ ὄν, ausência), o nadificar na desvelação — a velação do “não” —, o segredo da desessência, sendo a essência da λήθη e a essência do não- alcançáveis apenas mediatamente, uma vez que a ἀλήθεια não é pura abertura e nada mais.

55. ἀλήθεια — φύσις

55. Discute-se a essência aletiológica da φύσις e do ser, em distinção daquela determinada a partir da οὐσία como ἀεὶ ὄν, remetendo-se à interpretação de Anaximandro na “Passagem”.

56. Verdade

56. “A verdade” reúne o verdadeiro, o correto, o válido e o seguro, referidos às coisas, ao comportamento e ao todo.

57. [πάντα]

57. Tudo é palavra da Ἀλήθεια, sendo o πάντα em seu ἕν o fundamento.

58. A verdade do ser

58. A verdade é aqui o essenciante da essência do ser, de modo algum outra coisa como o conhecimento (intellectus) do ser ou algo dito “sobre” o ser, tampouco algo além (ἐπέκεινα) do ser — antes a superação, mas esta vincula a desconstrução (metafísica) em seu fundamento e coroa, sendo a própria viravolta (Kehre) essencialmente o começo, não “a verdade” por si; a verdade do Seyn é o Seyn da verdade — a viravolta é o Ereignis.

59. Wahr-heit e Ser

59. A “verdade” é a “essência” do ser, isto é, o ser do ser, o incipiente do ser, mas a verdade é incipientemente ἀλήθεια e, no outro começo, a “Wahr-heit”.

  • O ser não desaparece noutra coisa, mas se-é (istet) incipientemente como verdade, sendo apenas porque a metafísica associa a verdade ao conhecimento, tornando-a caráter de posição, que a determinação incipiente da essência do ser conduz ao equívoco de que o ser seria assim “reconduzido” a algo outro e mesmo “humano”.
  • Onde a verdade se tornou certeza e o ser tornou-se ente-idade e objetualidade, a “objetividade” ainda se concebe a partir da verdade como validade, não sendo isso consequência do ponto de vista idealista, mas o “idealismo” sendo a própria transformação do ser em objetualidade a par da transformação da verdade em certeza, sendo por sua vez o idealismo consequência de uma mudança histórico-do-ser à qual corresponde, segundo a referência do ser ao homem, uma mudança da essência do homem para a “subjetividade”.

60. [ἀλήθεια]

60. Relacionam-se a ἀλήθεια e a Wahr-heit, a ἀλήθεια e a clareira, a clareira e o escavamento, o oco e o luminoso.

61. “A Wahr” e a verdade (Pensar)

61. Como guarda e atenção, o guardar (Wahren) é preservação; atentar significa observar, honrar, prezar, e a verdade consiste no acautelamento e na função de guardião, o resguardo da velação, não de uma abertura, clareira, liberdade, serenidade.

  • A atenção é o agradecer e o saudar, sendo daí a essência do pensar, agradecer sendo esse pensar atento — diferentemente de Hegel, para quem “pensar” é despedir-se, renunciar, a fenomenologia da consciência infeliz —, sendo o agradecer o resguardo da verdade do Ereignis.

62. A “Wahr-heit”

62. A Wahr em seu guardar e conceder, experimentada histórico-do-ser a partir do primeiro e do outro começo, nomeia a desvelação da clareira e o resguardo da clareira na velação da incipiência do Ereignis, nomeando o Er-eignis ambas as coisas.

  • A ἀλήθεια como “estar-descoberto” (Sein und Zeit) ainda é pensada a partir do representar e do νοεῖν, talvez ainda em relação a objetos, e embora essencialmente ultrapasse certeza e validade, não alcança ainda a incipiência da Wahr, inexperimentada pelos gregos, e a Wahr-heit e a ἀλήθεια não devem ser tomadas como tradução recíproca ou como adaequatio e correção, mas como palavra própria de uma essência ainda inexperimentada — a Wahr como guarda referida apenas e exclusivamente à clareira.
  • A Wahr-heit, como resguardo do Ereignis, refere-se apenas à ἀλήθεια primeiro-incipiente, não à interpretada a partir da ὁμοίωσις, sendo ambas de essência incipiente, e a Wahr-heit é o resguardante da velação que se apropria no fundamento da desvelação como seu abismo, sendo a ἀλήθεια o estático-extático, a distância e a proximidade, o estar-a-caminho, o caminho, a marcha, a jornada — a experiência (Er-fahrung).
  • A ἀλήθεια é também ἔρως e ὁδός, νοεῖν como sentir para, νόος como “instinto”, presença e desabrochar.

63. A verdade do pensar histórico-do-ser. A “confirmação” dessa verdade

63. Do ponto de vista metafísico, poder-se-ia conceber o pensar como “intuição” do ser, a comprovar-se então no ente, de modo que a verdade e sua confirmação “cresceriam” com o número de comprovações, comprovações que consistiriam em mostrar que o ente se revela essencializando à maneira do ser — cálculo esse que constitui pura ilusão, senão algo mais funesto, pois permanece a questão sobre à luz de qual ser é visto o ente comprovante, uma vez que ou é visto à luz de um ser experimentado diversamente, e então nenhuma comprovação é possível, ou é visto à luz do próprio ser a comprovar, e então toda comprovação nunca é uma comprovação, além de já supérflua.

64. A Wahr-heit | a circunspecção

64. A Wahr-heit é a “essência” daquilo que pertence à Wahr da clareira, sendo na clareira que se experimenta a essência da ἀλήθεια, pois a clareira libera o ente e assim o guarda em seu ser, já que a própria clareira é o Seyn essenciante — o Ereignis —, necessitando a Wahr mesma do resguardo.

  • O resguardo é função de guardião e acautelamento, sendo essa guarda cuidadosa, conforme o cuidado do Seyn, a circunspecção (Behutsamkeit), da qual brota a essência sempre provisória do pensar histórico-do-ser, que arrisca a questionabilidade do Seyn e insiste sozinho no desabrigo da despedida, assumindo aqui apenas a circunspecção do experimentar questionante, circunspecção do funcionar de guardião na dor de experimentar o Ereignis em sua incipiência declinante e despedida.

65. A verdade e a exigência de sinais distintivos e de medida

65. Pergunta-se por que reconhecemos o verdadeiro como tal e o que nos assegura o verdadeiro, e por que o verdadeiro é medido, sendo o “verdadeiro” tratado como uma coisa da qual devemos tomar posse, diante da qual já nos arvoramos “possuidores” antes de qualquer discussão — pretensão essa talvez contrária à própria verdade, pois talvez sejamos antes fugitivos e caçadores de segurança que pretendem escapar da essência da verdade sem, contudo, poder fazê-lo, opondo-se a questão dos critérios à instância (Inständigkeit), pretensão de calcular e objetivar que apenas conduz à desessência, devendo trazer-se à aparição a experimentação da essência da verdade como Da-sein — mais essencialmente, como instância no Da-sein.

66. [Vinculatividade e validade]

66. Tão errado quanto apegar-se à vinculatividade e à validade é insistir na concordância com o objeto, pois este permanece indiscutido quanto à questão de haver ou não tal concordância com o ente e de este, se essencializa incipientemente, se contentar com essa medida, sendo a vinculatividade e a validade de cunho cristão-moderno.

  • O verdadeiro não pode ser medido pela vinculatividade, pois com ela sobrepomos à verdade nossas próprias exigências, sendo nós mesmos, ao pretensamente atentar ao válido, que decidimos sozinhos o que vale — o verdadeiro sendo por isso não-vinculável, nem sequer isso —, e parecemos muito empenhados e sérios ao atentar à vinculatividade e querer seu fundamento, quando na verdade tocamos apenas margens desfiadas.

67. Verdade. O juízo sobre a “verdade”

67. O juízo sobre a “verdade” já está inserido na decisão sobre uma essência da verdade, decidindo essa essência o próprio ser ao “ser”, permanecendo cega pretensão e falsa honestidade ocupar-se do “verdadeiro em si” desconsiderando de antemão o vínculo do ser com o homem, que já decidiu a essência do ser-homem, e sequer conhecê-lo.

68. Não-verdade. A verdade da história | Wahr-heit — ἀλήθεια

68. A Wahr-heit de uma poesia ou de um pensamento é desprotegida e necessariamente entregue, desabrigada e obrigada na clara inospitalidade, sendo a Wahr-heit, como essenciação da Wahr, precisamente não resguardo — portanto Não-Wahr-heit —, provindo esse “Não” de outro lugar que a ἀ-λήθεια, não negativo nem privativo mas talvez declinante.

  • A história como essenciação da Wahr-heit no sentido da Não-Wahr-heit consiste em toda história ser entrega à Não-Wahr-heit e só assim “ser”, sendo o verdadeiro, essenciante, resguardado e incipiente a Wahr-heit do Seyn enquanto dignidade-de-questionamento, dignidade do começo apropriada a partir do questionar, que constitui a questionabilidade do Seyn e sua superação no começo.

69. ἀλήθεια e Verdade

69. A desvelação é “essência” da desocultação, e esta “essência” do desabrochar, sendo o desabrochar a pura pre-sença (An-wesen) que nunca percebe a percepção, ainda não οὐσία nem ἰδέα mas superação.

  • A Wahr-heit é o Ereignis da clareira, sendo a clareira a Wahr, isto é, a guarda que preserva, protege, conduz e retém em si — fundamento e domínio da atenção —, superação, guarda de pertença ao Ereignis, pertença sempre instante no Da, sendo o Da o aberto mais incipiente da desvelação.
  • A ἀλήθεια torna-se correção, esta se torna certeza, a certeza segurança de subsistência, e esta segurança (como “justiça” e ordem), afundando-se a desvelação e permanecendo incipientemente sem fundamento, enquanto a “verdade” fica inteiramente fora da experiência, não podendo a verdade como Ereignis da Wahr — guarda clareante do começo — ser pensada nem a partir da ἀλήθεια nem da segurança.
  • Entre a ἀλήθεια (primeiro começo) e a verdade (o outro começo) situam-se a adequação, a concordância, a rectitudo, a correção, a retidão (iustitia), a certeza, a segurança, sendo essa história essencial da “verdade” a própria metafísica, funcionando “verdade” como conceito indicativo tanto para a ἀλήθεια quanto para a “Wahr-heit”, esta como essenciação incipiente do começo.

70. Wahr-heit e Abertura. A essência da Wahr-heit no pensar histórico-do-ser do começo

70. A guarda clareante provém do acautelamento no Ereignis como começo declinante, estando essa guarda, por força da clareira, num vínculo histórico-do-ser com a φύσις-ἀλήθεια, que ainda resplandece, embora desconhecida e encoberta, na ἰδέα, na repraesentatio e na objetualidade e certeza como o clareado em que essencializam toda adequação e objetividade.

  • A guarda clareante pode ser pensada, para a ἀλήθεια, para a adaequatio e rectitudo, para a certeza e a segurança, como a abertura do aberto, sendo esta contínua, embora diversamente essenciante, guardada no projeto, apontando-se a passagem em Ser e Tempo para “estar-descoberto”, “estar-aberto” e “resolução”.

71. A essência da Wahr-heit e o resguardo

71. O resguardo articula-se à instância e à experiência, em oposição à validade, certeza e vinculatividade, esta última ligada à “religião” — a religio como interpretação romana da con-frontação com os deuses —, ligando-se o resguardo da Wahr-heit à liberdade, que provém da superação do Seyn e da dignidade-de-questionamento do Seyn, sendo essa liberdade incipiente concedida a partir do Seyn apenas ao agradecer.

72. εἶναι — φυά | Litígio

72. O desabrochar, a ascensão, o erguer-se, o aberto que se ergue no esplendor, o aparecer, o brilhar, o resplandecer constituem o “ser”, que não é mera “efetividade” e operar, mas aquilo que ainda não e não mais necessita do operar, fundando-se aí o litígio como confronto enquanto ex-posição do mais alto e do mais puro, sendo o entre-si liberação e abertura, e o contra-si emergência no crescer e superar, residindo a essência aletheica do litígio na própria ἀλήθεια.

73. [Deuses e homens]

73. É igualmente errado dizer que os gregos divinizaram o homem e que humanizaram os deuses, permanecendo essencial que ambos estivessem situados onde um não necessitava e o outro jamais quereria cometer.

74. A guarda — a Wahr-heit

74. O Seyn mesmo carrega o pudor de ser, estando por isso incipientemente de guarda para com sua essência, sendo esse “estar de guarda” e a própria guarda, onde ele começa (an-geht) e de onde essencialmente parte, a incipiência do começo, essência esta do Ereignis, sendo essa incipiência a origem da Wahr-heit, questionando-se se poderíamos trazer a palavra alemã Wahrheit a um fundamento originário de uma essenciação dizente e nela escutar a dicção do outro começo.

75. A ἀλήθεια e a Verdade

75. A ἀλήθεια ainda não é a clareira do velar-se, não o desabrochar da capacidade de resguardo como tal, isto é, ainda não o declínio essenciante, mas primeiro e apenas desvelação, abertura, desabrochar, em que essencializa a pre-sença e o presente digno-de-agradecimento “é”, isto é, vem ao ser a partir da anterior falta de ser.

  • O desabrochar da capacidade de resguardo é a Wahr-heit como Wahr essenciante, cuja guarda pertence à despedida da superação, em cujo fundo-de-despedida vige a essência do Seyn diante da qual o terror recua.

76. ἀλήθεια e a Wahr-heit. A guarda (capacidade de resguardo) da viravolta

76. A ἀλήθεια, de essência incipiente, é ambígua para nós enquanto resguardo, sendo antes o aberto, a clareira; a Wahr como guarda, e propriamente guarda da clareira do Seyn; e a Wahr-heit a essenciação da guarda, esse essenciante sendo o começo mais incipiente.

  • A Wahr-heit reúne em si, retendo, mais incipientemente a guarda e a capacidade de resguardo como essência do resguardo, a partir do qual se desdobra a desvelação no sentido da clareira do Da, sendo o Da ainda mais incipiente que a ἀλήθεια no sentido do aberto do desvelado.
  • Essa essência mais incipiente da “verdade” tampouco é mero complemento do primeiro-incipiente, como se apenas se acrescentasse o momento do resguardo, mas o apropriador clareia-se e nele a guarda da viravolta, não vindo linguisticamente Wahr de verus mas de wahr-nehmen (percebe), enquanto verum seria antes o crido e mantido, e Wahre o percebido, o guardado.

77. Ἀλήθεια (ambígua)

77. A ambiguidade só se desvela no outro começo, havendo aqui um segundo sentido a partir da Wahr e do resguardo: primeiro, a desvelação como essência do desvelado enquanto tal, o desvelado no sentido do aberto-para-tudo, a abertura experimentada no aberto — o λάθ estreitando-se em esquecimento —, negligenciando-se o velamento e seu fundamento essencial apropriador; segundo, a desvelação como desocultação do apropriar-se do resguardo e da capacidade de resguardo incipientes-essenciais e não anteriores do ser — a verdade do Seyn como Seyn da verdade: a viravolta.

  • Os gregos tiveram de experimentar apenas o primeiro sentido e apreender o experimentado a partir do ἐόν, permanecendo-lhes velado o velamento e, com isso, também o caráter apropriador da desvelação e seu incipiente diante do ser, razão pela qual o ser se torna a ἀρχή.

78. ἀλήθεια

78. A ἀλήθεια é “originariamente”, isto é, incipientemente, a essenciação do próprio começo, não sendo esse “começo” o mero “início” nem a causa de uma gênese e desenvolvimento, podendo o começo ser pensado apenas incipientemente em sua própria propriedade essencial, que é “o nada” no sentido do não-ente.

79. Ἀλήθεια

79. A não-velação, cuja procedência como essência essenciante permanece a perguntar, consiste em nada mais permanecer velado, sem pano de fundo nem segredo, tudo na clareza e simplicidade de sua presença.

  • Toda velação superada — importando não tanto a superação e o superar, mas o que trazem: o aberto no todo —, a claridade, o luminoso (φάος, φύσις) e a essência incipiente do ἀ- (o “sem”, o subtraído a todo limite, τὸ ἄπειρον, pois até a garantia de toda delimitação aparencial de presença — εἶδος — pressupõe-no), fazem dessa não-velação ilimitada o próprio envolvente que empresta a tudo limite e forma.
  • A velação não essencializa — tudo recua a favor da não-velação, apenas dentro desta havendo, entre o desvelado, graus e possibilidades de dissimulação e engano, remetendo-se ao mito da caverna, cujas sombras são sombras de coisas artificiais sob luz de fogo artificial, ligando-se “artificial” a τέχνη e ποιούμενον.

80. Ἀλήθεια — εἶναι

80. O “ser” e também o ente não se “manifestam” como se o ser fosse por si e o “manifestar-se” um acaso, sendo antes o tornar-se-manifesto o desabrochar na clareira do aberto que se expande no desabrochar, sendo esse desabrochar apropriador o próprio ser como essenciação da desvelação resguardante, não estando o apropriador além de … ser e “devir”.

  • É a partir da experiência do ser, a partir da Ἀλήθεια — o Ereignis —, que primeiro se dá o ente mesmo, sendo a Ἀλήθεια, como estado-de-desvelado, o aberto e as vias, sendo as ὁδοί essencialmente e para si mesmas ὁδός.

81. Pre-sença e Permanência

81. Concebe-se “o permanente” como aquilo que subsiste sobre o singularmente emergido, nisso se enrijecendo e regulando por isso tudo o que “é”, constituindo a fixação no limite circunscritor uma certa interrupção da referência à pre-sença como passagem do emergir ao desaparecer, sendo a “presença” a pre-sença fixada, interrompida, fraturada, colocada em cortes e limites, tornando-se assim fundamento da permanência.

82. A pobre-alegria (Arm-seligkeit)

82. Pergunta-se o que acontece se não tivermos a coragem da pobreza.

83. Wahr-heit

83. Deixar-se tornar claro, para que sejamos mesmos significados pelo Ereignis e inseridos no indicar dos sinais, constituindo isso a clareza da Wahr-heit.

84. A Wahr-heit. A Ver-bergung (velação)

84. A palavra costuma significar esconder, tornar inacessível e manter distância — um afastar —, questionando-se se ela não deveria antes nomear o puro resguardar que se recolhe em si, este como manter-se pronto para a liberação da apropriação, do qual e com o qual brotariam em uno o velar e o preservar no inaparente, sendo isso, no dizer, o não-dito.

  • Que o Ereignis seja dito no nome pensante, mas que esse dizer permaneça resguardado da proposição enunciada e apenas repetível, intocado por todo infortúnio pelo qual o apropriador se torna mero significado, não constituindo aqui o resguardo um fim ou um salvar, mas o guardar incipiente.
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