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obra:ga71:6-ereignis

6. Ereignis

186. O acontecimento apropriador (Ereignis)

  • O acontecimento articula-se com o início, com o ser humano em sua ocorrência essencial, com a viravolta (Kehre) que nele se dá como essência do seer (Seyn), com a inceptualidade do “que ele é” — o “que isso é” do horror, da beatitude, da dor e da distinção na diferença —, com a unicidade (ἕν), com a ausência de ser, com a dispropriação, com o âmbito do próprio e com a indigência da reivindicação e o favor dessa indigência.

187. O acontecimento apropriador como eventuação apropriadora e dizer inventivo do mais próprio, que constitui a inceptualidade do início, de modo que a quietude da indigência protetora consigna o apropriado ao âmbito do próprio — âmbito primeiramente dito de modo apropriador (Da-sein) —, sendo essa consignação constante arrogação desse âmbito, e a eventuação apropriadora dispropria os entes da reivindicação para, exclusiva e primeiramente, seer o seer (das Seyn zu seyn), de sorte que o próprio é tudo aquilo que essencialmente ocorre e pertence ao acontecimento apropriador.

188. O acontecimento apropriador e a comoção (Rührung)

  • A comoção configura-se como o toque tímido e não apreensivo, que mal causa impressão (berührt) sem ser, psicologicamente, terno ou triste movimento da alma, mas mero contato (rührt), constituindo disposição inceptual.
  • O tocar (Rühren) é pensado como apropriação, não como movimento causal ou simples reviravolta, mas a partir do âmbito do inceptual — tanger as cordas, estender-se a, alcançar, como na sabedoria de Deus que alcança de uma ponta a outra.
  • O provir de (her-rühren aus) encontra eco em Schiller (Wallensteins Tod, Ato IV, Cena 3): “Daher rührt's” — daí provém que ainda conduzimos apenas metade da águia.
  • Mover (Rühren) é afetar intensamente, distinguindo-se em Kant o sublime, que comove, do belo, que estimula; afetar (Rühren) é tornar concernido, provocar cuidado, ser apropriado no cuidado, apropriar o Dasein — “profundamente afetado” — numa amplitude que excede a acepção estreita de pesar e tristeza, remetendo à origem ampla do pesar; a comoção configura-se, assim, como partida, e a partida como início.

189. O início e o acontecimento apropriador, pensado “intransitivamente” no pensar inceptual — não começar (empreender, tomar, atacar) algo, mas ser tomado por algo (in-cipere), ser comovido por algo (comoção) —, ontático-intransitivo mas “ontologicamente” transitivo, de modo que a essência do início é o declínio, o comover-se a si mesmo (Sichrühren, acontecimento apropriador), e a inceptualidade do início deve ser pensada a partir do acontecimento.

190. O acontecimento apropriador e o âmbito do próprio, que surge no acontecimento apropriador e designa ter inceptualmente como propriamente seu aquilo que é apropriado como tal (antiguidade), sendo esse âmbito inceptual, ao passo que o âmbito das posses é subsequente, e o saber — a meditação constante — é o ter inceptualmente como propriamente seu, no âmbito puro do próprio.

191. O acontecimento apropriador e o destino, articulado com o efeito, com a retirada e o encobrimento, e com a ocorrência essencial do ser (Seyn) e do início.

192. O acontecimento apropriador como incursão

  • O acontecimento, ao clarear, incorre nos entes, e essa incursão dá-se como φύσις (emergência), na qual se aloja o encobrimento na retirada.
  • Ela comporta o abandono ao desamparo do ser, a admissão da maquinação e a devastação do ser sob a forma da ordem incondicionada do ordenamento dos entes.
  • Ao incorrer nos entes, o acontecimento consigna o ser humano ao Da-sein e o compromete com a nobreza da indigência, que se torna seu âmbito próprio, no qual permanece constante, de modo que o acontecimento apropriador é incursão consignante, eventuando-se, ao apropriar e clarear, em meio aos entes como o entre para a verdade destes.

193. O acontecimento apropriador e a experiência

  • É preciso aprender a experienciar o acontecimento como acontecimento apropriador, amadurecendo para tanto, uma vez que a experiência jamais é a mera percepção sensível de coisas e fatos objetivamente presentes, mas a dor da partida e a pertença àquilo que ainda não passou — a constância na inceptualidade.
  • O acontecimento apropriador é essencialmente inceptual, aquilo que ainda não passou e que se aprofunda no início, sendo este mais antigo que tudo o que a historiologia estabelece, de modo que o acontecimento jamais pode, à maneira de uma ideia, ser fixado e representado.
  • O seer (Seyn) não é representação nem conceito, nada pensado em distinção aos “entes”; o ser é ser, e o ser é: ele é os entes — remetendo-se aqui os entes em seu advir e perecer.

194. Mostrar e eventuar

  • No sentido literal, mostrar (Er-eigen) é trazer à vista (Er-eugen), avistar (Eräugen) — ostendere, monstrare —, chamar a atenção, vir à vista, capturar o olhar, aparecer, manifestar-se, conduzir a, dar a ver, exibir, esclarecer.
  • Eventuar, de sentido equivalente, provém da mudança de eu (ereugen) para ei (ereigen), somando-se a confusão com o termo não aparentado “próprio” (eigen), proprium — isto é, com “apropriar” (an-eignen) e “atribuir” (zu-eignen) —, confusão já presente no início do século XVII.
  • Eventuar equivale a saltar aos olhos (er-aigen) por meio do clarear, a mostrar, a incorporar ao clarear, arrogando a este a proteção e a preservação destinadas aos seres humanos e a seu cuidado, de modo que eventuar é vir a ser próprio do aparecer e, ao mesmo tempo, do se autoencobrir.
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