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obra:ga68:ser-ente

3. Diferença ontológica

III. A diferenciação entre ser e ente

1. Diferenciação como de-cisão

1. A diferenciação deve ser compreendida como de-cisão, isto é, não como simples separação posterior entre elementos previamente dados, mas como aquilo que retira ser e ente do horizonte nivelador de uma distinção representativa, pois o próprio seer (Seyn) é a de-cisão na qual se decide originariamente a relação com os entes.

  • O seer (Seyn) não constitui algo que primeiro estivesse dado ao lado dos entes para depois ser deles distinguido mediante uma operação representativa, sobrevinda e reificante.
  • Toda diferenciação que trate ser e ente como dois objetos previamente disponíveis tende a nivelá-los, porque transforma antecipadamente ambos em termos comparáveis de uma mesma representação.

2. O ser de-cide enquanto acontecimento-apropriador (Ereignis), no acontecimento-apropriador do ser humano e dos deuses para a necessidade da essência da humanidade e da divindade, fazendo surgir o combate entre mundo e terra como aquele confronto no qual somente se clareia o aberto e no qual os entes podem retornar a si mesmos e adquirir peso próprio.

  • O acontecimento-apropriador (Ereignis) não designa uma ocorrência entre outras, mas o acontecer no qual ser humano e deuses são apropriados à necessidade de suas respectivas essências.
  • A partir desse acontecer irrompe o combate entre mundo e terra, não como conflito exterior entre duas realidades, mas como confronto essencial no qual o aberto pode clarear-se.
  • Somente no interior desse combate os entes deixam de permanecer nivelados pela representação, retornam a si mesmos e recebem sua gravidade própria.

2. A diferenciação entre ser e ente

2. A “diferenciação” entre ser e ente, quando determinada simplesmente mediante a diferença, permanece apenas como primeiro plano metafísico e como iluminação extrema do fundamento da metafísica ainda efetuada desde o interior dela própria, razão pela qual pode servir à opinião corrente como indicação aparentemente evidente e, ao mesmo tempo, profundamente enganadora.

  • A determinação da relação entre ser e ente mediante uma diferença previamente concebida permanece superficial porque continua operando com as categorias da própria metafísica.
  • Mesmo quando alcança o limite extremo da metafísica e ilumina seu fundamento, essa diferenciação ainda não abandona o horizonte que deveria ser posto em questão.
  • Aquilo que parece constituir uma indicação clara da relação entre ser e ente pode justamente impedir o acesso à sua proveniência mais originária.

3. A diferença (Unter-schied) deve ser pensada como um levar-para-lados-separados e como salto para o “não” proveniente do nadificar que o próprio seer (Seyn) é, em vez de ser compreendida como relação comparativa entre dois termos já constituídos.

  • O “não” implicado na diferença não provém de uma negação lógica aplicada posteriormente ao ente, mas do próprio nadificar pertencente ao seer (Seyn).
  • A diferença (Unter-schied), pensada a partir de sua proveniência, exige portanto um salto para além da determinação representativa e metafísica da distinção.

4. A diferença compreendida metafisicamente tende a igualar precisamente aquilo que pretende distinguir, pois transforma o ser em “algo” ente e o submete ao mesmo plano representativo dos entes, tornando necessário perguntar pelo sentido da diferença (Unter-schied) quando ela já não pode significar essa equiparação niveladora.

  • Diferenciar ser e ente como dois termos comparáveis converte implicitamente o ser em algo que é, anulando aquilo que deveria constituir sua diferença essencial.
  • A questão decisiva passa assim a consistir em saber o que significa diferença (Unter-schied) quando o seer (Seyn) não pode ser convertido em um dos membros de uma oposição representativa.

5. O seer (Seyn), pensado como o “entre”, não deve ser transformado em uma terceira realidade situada entre dois polos previamente constituídos, pois está em questão uma singularidade única na qual pode aparecer tanto o erro próprio daquilo que simplesmente persiste como ente abandonado pelo ser quanto, em sentido inteiramente diverso, a consideração da recusa como combate entre mundo e terra.

  • Aquilo que sempre simplesmente é pode mostrar-se como abandonado pelo ser e, precisamente nesse abandono, adquirir a modalidade de eficácia própria da persistência metafísica.
  • Em direção inteiramente distinta, a recusa pode ser reconhecida não como simples privação, mas como aquilo que se manifesta no combate de mundo e terra.
  • Essa determinação não conduz ao platonismo, tampouco a uma inversão do platonismo ou da metafísica, pois não se trata de substituir uma hierarquia por sua contrária, mas de uma aniquilação da própria estrutura metafísica.

6. Diferenciar permanece uma tarefa ainda aberta entre possibilidades distintas: pode significar levar para lados separados, constatar retrospectivamente uma passagem ou transição no “entre”, igualar aquilo que se diferencia ou, ainda, abster-se e desviar o olhar de maneira irrefletida.

  • O sentido originário de diferenciar não pode ser pressuposto enquanto não se decidir se ele significa efetivamente levar-aparte ou apenas registrar posteriormente uma passagem já ocorrida.
  • A referência ao “entre” indica a necessidade de investigar a própria transição sem convertê-la imediatamente em uma relação entre termos substancializados.
  • Diferenciar pode paradoxalmente produzir igualdade quando submete os termos diferenciados ao mesmo horizonte representativo.
  • Também é possível que a diferenciação funcione como abstenção e desvio irrefletido, mediante os quais se deixa de interrogar aquilo que propriamente deveria tornar-se questão.
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