obra:ga62:2a5
GA62 – §§2-5
2. A forma literária dos escritos aristotélicos transmitidos
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Um texto não é meramente uma sucessão de palavras e frases, mas é, com e através da conexão de significado do linguístico, expressão, e, de acordo com o conteúdo que se expressa, o objetivo da expressão e a tendência da expressão (comunicação de uma doutrina, condução na pesquisa científica), ele possui um caráter expressivo determinado e múltiplo, sendo a conexão de significado a expressão do quê objetivo, e o como do significar expressa o como do interpelar e do abordar.
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Na medida em que a comunicação ocorre sempre dentro e para o círculo de ouvintes e leitores, apresentando-se com os meios e formas de expressão de sua situação histórica ou tomando tais meios e formas como ponto de partida de forma modificadora, a tendência comunicativa do filosofar, em particular da pesquisa filosófica, vive em uma determinada forma literária ou a desenvolve.
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Justamente quanto mais decisiva é a visada para uma apropriação principiológica de uma filosofia transmitida, menos indiferente é o caráter expressivo literário das fontes dadas.
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A pesquisa das formas literárias só recentemente colocou em seu círculo de tarefas a literatura filosófica transmitida (aqui se fala inicialmente apenas da da “antiguidade clássica”).
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Embora sempre se tenha visto, em termos gerais, uma diferença entre um diálogo platônico (sobretudo da fase inicial) e um tratado aristotélico, sempre houve certo embaraço sobre se seria possível e, em geral, permitido extrair um sistema da filosofia dos diálogos platônicos; a questão concernente à interpretação da filosofia platônica não está de modo algum esclarecida, nem sequer foi colocada de forma principiológica e precisa.
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Em contrapartida, os escritos aristotélicos, em particular as partes transmitidas sob o título “Metafísica”, foram recentemente questionados quanto à sua “forma literária interna” (cf. Werner Wilhelm Jaeger, Studien zur Entstehungsgeschichte der Metaphysik des Aristoteles, Berlim, Weidmann, 1912²); o resultado da investigação fundamental para toda a interpretação de Aristóteles é, em resumo, o seguinte: o que se tem diante de si é literatura científica com o caráter acentuado da investigação e da pesquisa propriamente dita, e ela é calculada para a comunicação dentro da comunidade de pesquisa mais restrita no Liceu (instituto de pesquisa!), sendo escritos para aulas na forma móvel do “tratado” – sua ekdosis, modo, tipo de publicação não é a edição como livro e “obra filosófica” –, mas a comunicação na aula (de manuscritos próprios e seus apontamentos) para a introdução e condução na pesquisa filosófica.
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Os detalhes dos resultados de Jaeger só podem ser obtidos por um estudo aprofundado da própria investigação, que, em seu questionamento e resultado, é tão fecunda para a crítica filológica específica quanto exemplar para a pesquisa correspondente das demais literaturas filosóficas; ela já influenciou a pesquisa sobre Platão: Julius Stenzel, Studien zur Entwicklung der platonischen Dialektik von Sokrates zu Aristoteles. Arete und Diairesis. Com um apêndice: Forma literária e conteúdo filosófico do diálogo platônico, Breslau, Trewendt & Granier, 1917.
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Para a interpretação filosófica, o resultado da investigação de Jaeger é importante em sentido negativo: que não é adequado compor os tratados à força em um sistema da metafísica ou mesmo de toda a filosofia.
§ 3. Instrução prática para ouvir e estudar
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a) Domínio da língua, tradução e interpretação.
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O acesso aos escritos se dá pela compreensão da língua grega; mas quem sabe grego ainda não entende Aristóteles, assim como quem domina a língua alemã ainda não entende Hegel; o domínio filológico da língua é uma condição necessária, mas, em princípio, não suficiente para a compreensão, de tal modo que sua contribuição para o desempenho da compreensão só pode tornar-se verdadeiramente eficaz quando ela mesma recebe sua direção a partir da situação hermenêutica, que deve ser formada de modo adequado à conexão objetiva expressa.
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Tudo depende de como e até que ponto, conforme a tendência da compreensão, a conexão de significado das palavras é apropriada; uma compreensão sempre surge em múltiplos e, conforme o objetivo da compreensão, variados estágios de tradução; mas toda tradução já é uma interpretação determinada e, portanto, penetrou em diferentes graus na coisa a ser compreendida e é formada a partir de uma situação de compreensão de diferente clareza ou mesmo apropriada expressamente.
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Muitas vezes ocorre que esta não é dirigida de forma determinada e a conformação do significado traduzido é determinada pelas mais díspares direções e níveis de intuição com relação às coisas significadas; no nível e para as exigências de uma primeira compreensão grosseira e totalmente vaga, no círculo de tendências de compreensão estabelecidas muito baixamente, diferentes traduções do mesmo texto podem transmitir, em certa concordância, um conhecimento do “conteúdo”, ou seja, que se torna visível, por exemplo, que aqui se fala do comportamento ético do homem e não da digestão dos mamíferos.
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Tanto a tradução quanto uma primeira leitura do texto grego são igualmente capazes de transmitir uma primeira orientação desse tipo, e é aconselhável, dessa maneira, para os propósitos deste curso, ocupar-se com a “Metafísica”, a “Ética a Nicômaco” e a “Psicologia” [Peri psyches/De anima] e o “Organon”, para ter, em geral, uma vaga ideia do que está em questão; no momento em que uma interpretação propriamente dita começa, também surgirão diferenças nas compreensões do texto e nas traduções.
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Para evitar uma fragmentação excessiva da formulação, será dada, para cada uma das partes, uma tradução como aquela que surge da abordagem interpretativa e da intenção interpretativa vigente na aula; o padrão e o caráter de uma tradução são sempre relativos ao objetivo da interpretação; aqui não se trata de exercícios de estilo, mas de uma plena apropriação das conexões de significado, isto é, das coisas significadas, e da reprodução das intuições e conexões intuitivas que dão originariamente essas coisas.
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Quanto mais determinadamente a tradução visa isso, mais rigorosa ela é em cada caso; uma chamada tradução literal, que se apega apenas às palavras que estão escritas, traduzindo-as literalmente segundo o dicionário, e incorpora o mesmo tanto na tradução e deixa por isso mesmo, é a mais insubstancial possível; ela se move em significados ou palavras que, embora únicos em termos de palavras e, portanto, determinados, essa aparente determinação dá, no entanto, o maior espaço à polissemia que acompanha cada palavra e justamente as expressões filosóficas (a função hermenêutica de um dicionário e a crítica a ele pertencente).
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A tradução que visa uma interpretação subsequente e expressamente pertencente a ela cumpre mais adequadamente sua tarefa de tal modo que nela já surgem as expressões através da compreensão das quais se deve alcançar uma intuição dos supostos objetos; tal tradução já direciona a compreensão da palavra para certas direções intuitivas e modos de presentificação das coisas, ela, por assim dizer, solta um texto rígido e o torna, primeiramente, móvel e maleável para uma interpretação que só então o fixa conceitualmente.
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A paráfrase já é um passo em direção à interpretação, ou seja, algo que é, justamente e em primeiro lugar, necessitado de interpretação; portanto, ela é, no caso presente, em comparação com um texto de tradução fixo, liso e bonito – e isso se deve às coisas de que se fala –, inicialmente menos acessível; assim como qualquer outra, a paráfrase não é propriamente a tradução; não o é não porque também teria “erros” ou seria “inacabada”, mas porque algo como “a tradução” não existe de modo algum; essa ideia não surge de um “pensar” histórico, e visá-la é sem sentido (apenas: originário ou não histórico-geracional) – a correção gramatical, à qual a paráfrase deve se ater, é mais “estável” (estabilidade também historicamente!), mas também não algo absolutamente regulamentar, e justamente não em contextos de expressão filosófica, onde a linguagem só cresce propriamente na pesquisa.
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b) Sobre vida e obra: indicação sobre apresentações recentes. Instrução para o estudo.
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Pressupõe-se, neste curso, o conhecimento do que se chama “vida e obras”, o que cai no campo de uma formação histórico-filosófica científica a ser trazida consigo; ou se supõe que vocês mesmos chegarão a isso, orientando-se conforme as possibilidades científicas e as exigências científicas relevantes.
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Das apresentações recentes, devem ser mencionadas: Zeller, Die Philosophie der Griechen, II, 2ª seção; Windelband-Bonhoffer, Geschichte der antiken Philosophie (Manual da Ciência da Antiguidade Clássica V, 1ª seção, 1ª parte); Gomperz, Griechische Denker; Brentano, Aristoteles, in: von Aster, Große Denker; ver também: Aristoteles und seine Weltanschauung; mais importante, porém, é a leitura de escritos do próprio Aristóteles, sobretudo a Ética e a Psicologia; para o curso são importantes: Metafísica A, Z, H, Θ; Analíticos Posteriores I e II.
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Como, no decorrer do curso, surgirão dificuldades e mal-entendidos que só podem ser superados de forma fecunda na discussão, a aula de sexta-feira deve servir a esse propósito, sobretudo também para possibilitar uma apropriação mais intensa do que foi dito na aula; para isso, perguntas e objeções devem ser fixadas por escrito, resumidamente, e apresentadas até o final da aula de quinta-feira.
§ 4. Introdução à filosofia pré-aristotélica com base em Aristóteles, Metafísica A 1 – Caminho metódico intermediário: Aristóteles como instrução.
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Ciência: o caminho mais ideal a partir dele [Aristóteles]; elaboração de sua problemática; a partir daí, para trás e para frente; o caminho não pode ser percorrido na prática em um curso semestral; apenas a preparação preencherá o semestre; caminho intermediário: deixar-se dar uma instrução a partir dele.
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Se se quer compreender a filosofia científica dos gregos a partir deles mesmos, então ele é o melhor guia; a suposição não é muito ousada de que ele compreendeu os gregos melhor do que os todos-sabedores do século XIX, que espalharam a fábula de que Aristóteles não teria compreendido Platão.
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Quando se busca orientação em Aristóteles para a compreensão da filosofia pré-aristotélica, está-se em uma situação favorável; dele mesmo nos foi transmitida uma introdução histórica à filosofia – o Livro I de sua “Metafísica”; ele oferece nela um duplo aspecto:
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1. Capítulos 1 e 2: uma apresentação da origem do comportamento teórico e da ciência no próprio homem – daquilo sobre o que a ciência em geral pergunta, isto é, a elaboração das possíveis perguntas sobre o de onde e o porquê (aitia – arché).
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2. Capítulos 3 a 10: em grandes traços, o desenvolvimento da problemática da filosofia científica até sua época; começa-se com a interpretação do Livro I da “Metafísica”, isto é, senta-se junto com Aristóteles no curso; apenas cuidando para não o entender mal; com essa interpretação, obtém-se a visão livre para os problemas fundamentais, que serão então perseguidos concretamente desde os primórdios da filosofia natural milesiana, da maneira caracterizada.
§ 5. O título “Metafísica” (metá tà physiká) como título de técnica editorial e como título objetivo.
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Generalidades sobre os escritos de Aristóteles – citação; “Metafísica”, em particular Bonitz, edição e comentário, Arist. Met., Bonn 1849; introdução ao vol. II, 35 páginas: o essencial resumido, sua própria investigação; [“Metafísica”] não é uma obra unitária, concebida segundo um plano fixo, mas sim tratados individuais que reiniciam a investigação em diferentes direções e em diferentes graus; a “Metafísica” não é um livro, mas uma coleção de tratados sobre o Ser – Filosofia Primeira; filosofia: ciência em geral.
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(Andrônico de Rodes, cerca de 70 a.C., peripatético tardio); título metá tà physiká:
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1. Título de técnica editorial, cunhado pelos compiladores dos escritos aristotélicos: os tratados que, na ordem dos escritos, vêm depois e atrás daqueles que tratam da natureza.
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2. Título objetivo, ainda hoje ambíguo: os tratados que, segundo seu tema objetivo, tratam do que está acima e por trás do ente que chamamos de natureza (“Metafísica”).
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a) Para além dos physiká no sentido da ciência do ente (“História dos animais” – “Partes dos animais”; “Meteorologia” – “Sobre o céu”); assim também já a Física; ciência do Ser, embora ainda não completamente esclarecida: α) que trata do Ser; próteron pros hemas – próteron te physei; β) do ente que é fundamento da natureza e do mundo; nous, espírito, Deus.
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b) Do Ser enquanto tal – próte philosophia; do ente mais elevado e próprio – theologiké epistéme, teologia.
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