3.1.D. Olhar retrospectivo e olhar avante
A interpretação de Aristóteles, inicialmente proposta como tarefa delimitada, não se separa das considerações introdutórias que a precedem: introdução e interpretação formam um único empreendimento, e não uma discussão sistemática de um lado e uma ilustração histórica do outro.
O conhecimento principial não busca uma nova solução para debates já estabelecidos entre história e sistematização da filosofia, mas dissolve a própria pretensão dessa divisão, remetendo ambas — história da filosofia e sistematização — à sua proveniência comum no histórico-factual, proveniência obscurecida pela falta de uma determinação radical do sentido do conhecimento principial.
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O conhecimento principial não é um ideal supratemporal a perseguir, mas uma exigência que se impõe com rigor e ineludibilidade, diante da qual toda idealidade de valores se desfaz.
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Sua apropriação exige renunciar a um falso ideal estetizante de conhecimento, mesmo que isso estreite as possibilidades de especulação filosófica.
Filosofar, como conhecimento principial, é execução radical do histórico-factual da faticidade da vida, execução para a qual história e sistematização, na sua separação, tornam-se igualmente supérfluas.
O círculo de tarefas da interpretação de Aristóteles coincide com o da introdução, sendo esta tão inautêntica em seu modo de explicação quanto aquela; nela já se anuncia o conteúdo dos três grupos de problemas que estruturam a leitura de Aristóteles:
1) O problema do princípio e do principial (arché – aítion) delineia o primeiro grupo de questões a serem investigadas na interpretação de Aristóteles.
2) O problema do determinar apreensivo e do articular conceitual (lógos) delineia o segundo grupo de questões.
3) O problema do ente e do sentido do ser (hoû – ousía – kínesis – phýsis) delineia o terceiro grupo de questões.
Toda interpretação fenomenológica depende da concepção prévia que a orienta; por isso a introdução, embora possa parecer autônoma, nada é sem a interpretação concreta de Aristóteles, e vice-versa — separá-las equivaleria a um equívoco da filosofia.
A dificuldade da expressão conceitual não reside na complexidade dos objetos, simples em si mesmos, mas no atabalhoamento do pensar filosófico tradicional e na vinculação histórica de todo filosofar a seu entorno e sua tradição.
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As garantias buscadas pela filosofia não estão distantes, mas junto a cada um, na própria vida que se leva.
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O risco maior está em transformar a filosofia num objeto de discussão de opiniões, esquivando-se do acesso concreto a seu objeto autêntico.
Todo conhecimento principial requer, desde seu princípio, uma indicação formal do objeto que investiga: um ter compreensivo do sentido de ser do ente, no qual o próprio compreender é atingido, segundo seu sentido de ser, como ente entre entes.
O contexto de vida no qual hoje se filosofa é apontado sob o título “universidade”, contexto cuja imutabilidade histórica gera insegurança principial e que remete inevitavelmente à questão do caráter de ser da vida como sua faticidade.
A vida costuma ser caracterizada de modo tosco como execução (Vollzug) ou como processo, torrente, curso fluente; essa fala, ainda que imprecisa, indica um aspecto fundamental a ser resgatado na interpretação categorial da vida como movimento e mobilidade, caracteres que só se tornam visíveis quando certas estruturas já estiverem determinadas.
A explicação categorial da faticidade permite determinar o que se entende por situação, conduzindo à questão de em que consiste viver nas ciências, que sentido de faticidade ali se encontra e que possibilidades de apropriação originária essa situação histórica das ciências comporta.
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A mira lançada sobre as ciências não visa sua estrutura lógica nem seu lugar no sistema das disciplinas.
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A interpretação de uma ciência só ganha fecundidade filosófica quando se enraíza na problemática da faticidade e na situação histórico-factual viva, sob pena de toda teoria da ciência reduzir-se a uma perenização ingênua de contingências metodológicas.
Impõe-se ainda distinguir o que se deve compreender por conhecimento principial em sua origem fática, como esse conhecimento faz crescer a interpretação de Aristóteles enquanto tarefa concreta, que exigências ele impõe a essa execução, e em que sentido tal problemática reconduz a pesquisa fenomenológica à sua originariedade própria.
O acesso à faticidade não é questão metodológica, mas questão da qual depende a retidão da filosofia em sua situação espiritual presente, o fundamento de sua execução e a relevância fática de sua investigação.
A consideração aqui empreendida configura-se como consideração intermediária (Zwischenbetrachtung), situada entre interpretações concretas da história do espírito, das quais retira a regulamentação do que deve ser explicitado nos fenômenos, sem perder de vista os contextos objetuais principiais.
A mobilidade é tomada como determinidade principial do objeto em questão, a vida fática, articulando-se com as categorias já expostas do sentido relacional do cuidar — propensão, distância, trancamento — de modo a esclarecer que sentido a mobilidade possui na faticidade e como esta pode ser apreendida a partir dela.
