3 Vida Fática
A vida fática
A interpretação que se abre conduz indiretamente ao cerne da situação em que se joga originalmente a decisão originária, situação que cada um deve entender por si mesmo para poder acompanhar a explicação subsequente da tarefa da filosofia, permanecendo por ora o problema do propriamente histórico, em vista do qual se propõe desde já a primeiríssima intuição, acompanhada dos instrumentos e momentos de sentido necessários para estabelecer sua objetividade.
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Os índices de sentido concernentes às categorias fenomenológicas fundamentais e seu contexto categorial só são dados na medida exigida pelo que segue imediatamente, remetendo-se a interpretação própria dessas categorias e sua conquista originária à interpretação do sentido do categorial mesmo, em estreita ligação com a interpretação de Aristóteles.
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Tudo o que foi dito na explicitação da idéia principial da definição da filosofia permanece válido para essas categorias e para o contexto objetivo por elas dotado de sentido, caracterizando-se estas, sem exceção, pelo modo inteiramente singular como o acesso a elas é aberto em propriedade.
Vida fática: o termo vida constitui categoria fenomenológica fundamental que visa um fenômeno fundamental, cuja irrupção já se manifestara, embora de modo confuso, na filosofia moderna da vida representada por Dilthey e Bergson, autores que efetivamente quiseram tornar-se filosofia sem se deixar arrastar por disputas universitárias aberrantes.
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Essa irrupção confusa deu ocasião a que literatos e filósofos inclinados ao arrebatamento entusiástico, e não à sobriedade do pensar, se apoderassem facilmente da questão, não sendo lícito julgar o problema da filosofia da vida a partir da figura assumida hoje por seus produtos derivados.
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Em sentido oposto, Rickert sustenta que filosofar sobre a vida não deve ser tomado como mera repetição (Wiederholung) desta, mas como criação que distingue o criado do simplesmente vivido, ao passo que, para a presente interpretação, a filosofia constitui antes um modo fundamental da própria vida, a saber, aquele que a repete propriamente, retomando-a sempre de novo contra a inclinação ao dévalement, sendo essa retomada (Zurück-nahme), quando radicalizada em pesquisa, nada menos que a própria vida.
O termo vida padece hoje de notável indeterminação, designando ora uma vasta realidade efetiva e última — “a Vida” —, ora aparecendo em expressões ambíguas como vida política, vida arruinada ou vida perdida num naufrágio, deixando-se aqui de lado deliberadamente os conceitos biológicos de vida.
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Essa indeterminação acompanha uma acentuada dominância do termo, evidente em expressões como experiência da vida, vida cada vez mais intensa ou originalidade da vida, o que permite dizer de modo obscuro qualquer coisa sobre a vida e mover-se numa dialética superficial conforme a necessidade do momento.
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Como a vida designa, ainda assim, algo último visado autenticamente, quem emprega o termo sente-se sempre espontaneamente onde pretende estar, dispensando-se de esclarecer um sentido principial e rigoroso, jogo que não é intencional, mas enraizado numa fascinação e num sentimento fundamental autêntico pela vida, tornando por isso mesmo mais fatais suas mistificações.
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Também se pode simplesmente deixar persistir essa indeterminação e acomodar-se à dominância da palavra, como ocorre na filosofia da vida, recusando-se a examinar o que a expressão realmente pretende dizer ou se seu uso não exprimiria certas tendências fundamentais da existência (Dasein), contentando-se com a exigência de uma filosofia da vida mantida a boa distância desta, distância que, contudo, permanece determinada por uma teorização do conhecimento e do conceito.
Para esboçar a estrutura de sentido do termo vida, parte-se do verbo viver, tomado primeiro em sentido intransitivo — estar vivo, saber viver, viver retirado — e depois em sentido transitivo — viver a própria vida, viver algo (etwas erleben) —, sentidos que se unificam na passagem ao substantivo o viver, conservando deliberadamente a ambiguidade entre ambos os usos.
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Não se procederá aqui a nenhuma análise gramatical abusiva, ainda que as categorias gramaticais tenham, em grande parte num sentido propriamente histórico, sua origem em categorias da fala viva imanente à própria vida, categorias que, todavia, não são de modo algum lógicas, como atesta o desenvolvimento da gramática entre os gregos.
