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PRIMEIRA PARTE
Introdução metodológica
Filosofia, experiência fática da vida e fenomenologia da religião
PRIMEIRO CAPÍTULO
Formação filosófica de conceitos e experiência fática da vida
§ 1. A peculiaridade dos conceitos filosóficos
Os conceitos filosóficos distinguem-se principialmente dos conceitos das ciências particulares porque não podem receber determinação estável pela inserção num contexto objetivo previamente constituído, permanecendo necessariamente oscilantes, vagos, múltiplos e fluidos não por deficiência acidental ou mera diversidade histórica de posições, mas porque seu próprio sentido exige uma modalidade de acesso diferente daquela própria dos conceitos científicos, fazendo da diferença entre filosofia e ciência uma questão que somente pode esclarecer-se no próprio movimento do filosofar.
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Nas ciências particulares, a determinação conceitual torna-se tanto mais precisa quanto mais conhecido é o Sachzusammenhang (contexto objetivo) no qual o conceito se encontra inserido, enquanto a filosofia não dispõe de semelhante campo objetivamente configurado que pudesse fornecer de antemão a determinação de seus conceitos.
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A instabilidade conceitual da filosofia não decorre simplesmente da sucessão histórica de escolas e pontos de vista, pois pertence ao próprio sentido dos conceitos filosóficos permanecerem inseguros enquanto não forem conquistados no exercício originário que lhes corresponde.
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A diferença principial entre filosofia e ciência é inicialmente formulada como tese apenas pela necessidade da expressão linguística, devendo sua legitimidade revelar-se no decorrer da investigação.
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A aparente comunidade entre conceitos e proposições filosóficos e científicos surge porque ambos aparecem na experiência fática da vida sob a forma linguística de significações compreendidas e comunicadas, sem trazer inicialmente qualquer sinal que permita distinguir seu modo específico de compreensão.
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A concepção niveladora segundo a qual filosofia e ciência seriam espécies do mesmo comportamento racional e cognoscente pressupõe já o preconceito da filosofia como ciência e transfere indevidamente para o filosofar as ideias de “proposição em geral”, “conceito em geral” e estrutura racional derivadas do conhecimento científico.
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A ampliação do conceito de proposição científica para uma proposição em geral não legitima a transposição da estrutura científica para a filosofia, pois os nexos racionais que constituem cada uma não precisam possuir o mesmo sentido.
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Precisamente porque, na apresentação linguística cotidiana, conceitos filosóficos e científicos aparecem nivelados como “significações” compreensíveis, torna-se necessário esclarecer que a compreensão propriamente filosófica possui estrutura diferente da compreensão científica.
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A acusação de que a filosofia permanece indefinidamente em questões preliminares somente possui força quando sua tarefa é medida pelo ideal das ciências e quando se exige dela solução de problemas positivos e construção de uma cosmovisão.
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A necessidade de permanecer nas questões preliminares deve ser radicalmente intensificada e preservada, pois pode constituir uma virtude essencial da filosofia justamente quando impede que ela se precipite na produção de conteúdos aparentemente interessantes sem esclarecer previamente o sentido de seu próprio exercício.
§ 2. Sobre o título da preleção
O título “Introdução à fenomenologia da religião” precisa ser provisoriamente esclarecido a partir dos três termos “introdução”, “fenomenologia” — tomada aqui no mesmo sentido de filosofia — e “religião”, porque cada acentuação revela uma dimensão diferente do problema e conduz rapidamente ao fenômeno central do histórico, tornando necessário mostrar que uma introdução filosófica não pode simplesmente reproduzir o esquema das introduções científicas, já que a filosofia exige permanente autocompreensão de sua própria essência e somente pode conquistá-la no próprio filosofar, cuja proveniência e retorno se encontram na experiência fática da vida.
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O esclarecimento começa pelas significações das palavras, mas deve imediatamente remeter aos contextos objetivos nelas indicados de maneira que esses próprios contextos se tornem problemáticos, em vez de permanecerem como definições terminológicas fixas.
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Uma introdução científica costuma reunir três tarefas: delimitar o campo objetivo, expor o método de tratamento desse campo e apresentar historicamente as tentativas anteriores de formular e resolver suas questões.
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Esse esquema é compreensível a partir da própria ideia de ciência considerada concretamente como Wissenschaftsvollzug (realização da ciência), isto é, pesquisa efetiva, comunicação e trabalho científico, e não apenas como sistema racional abstrato.
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Se filosofia e ciência são principialmente distintas, torna-se problemático transferir à filosofia o mesmo esquema de introdução, pois precisamente a maneira como se introduz na filosofia revela a compreensão previamente assumida de sua essência.
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Introduções à biologia, à química e à história literária podem possuir conteúdos muito diferentes e, contudo, obedecer à mesma forma porque seus respectivos campos e métodos já se encontram objetivamente configurados; uma introdução filosófica que procedesse da mesma maneira encobriria o nexo especificamente filosófico.
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A afirmação de que as ciências “surgiram” historicamente da filosofia não deve ser interpretada como simples fragmentação de uma ciência universal em disciplinas progressivamente autônomas.
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Entspringen (surgir, provir) significa aqui a determinação autônoma, mediante método próprio, de um campo objetivo que anteriormente se encontrava numa configuração ainda não modificada dentro do filosofar.
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A concepção segundo a qual as ciências já estariam embrionariamente contidas numa filosofia compreendida como conhecimento universal do mundo projeta retrospectivamente sobre a história uma interpretação contemporânea da filosofia.
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Somente uma modificação configuradora de um momento presente originariamente na filosofia dá origem às ciências; por isso, as ciências não “estão” simplesmente contidas na filosofia como disciplinas já formadas.
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A questão “o que significa filosofia?” torna-se inevitável quando se reconhece que a introdução filosófica não pode ser reduzida a técnica introdutória e talvez precise acompanhar cada passo efetivo do filosofar.
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A necessidade de esclarecer repetidamente a essência da filosofia somente aparece como deficiência quando se adota a ciência como norma, pois para a filosofia essa autocompreensão pertence à própria realização de sua tarefa.
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Uma história filosoficamente relevante da filosofia deve perguntar, em cada posição histórica, pelo motivo originário que a impulsiona, pelos meios conceituais e cognoscitivos mediante os quais esse motivo se realiza, pela proveniência própria ou alheia desses meios, pelos pontos de ruptura em que o filosofar entra no curso da ciência e pela originariedade ou derivação vital de seu motivo fundamental.
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Uma história da filosofia que não se oriente por tais questões degenera em discurso ornamental ou em simples registro historiográfico de opiniões.
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A filosofia somente alcança Selbstverständigung (autocompreensão) filosofando, e não mediante demonstrações científicas, definições ou inserção num sistema objetivo geral.
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A essência da filosofia não pode ser levada cientificamente à evidência do mesmo modo que se caracteriza a química como ciência ou a pintura como arte, porque qualquer definição objetiva desse gênero introduz novamente a compreensão científica que deveria permanecer em questão.
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Mesmo a determinação formal da filosofia como atividade dirigida a determinado objeto permanece problemática enquanto os princípios de pensar e conhecer envolvidos nessa caracterização não forem esclarecidos filosoficamente.
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A Selbstverständigung da filosofia, radicalmente compreendida, conduz à experiência fática da vida como sua proveniência fundamental: o filosofar brota dessa experiência e, mediante uma transformação essencial, retorna a ela.
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A simples caracterização da filosofia como comportamento racional cognoscente nada esclarece, pois apenas reproduz o ideal da ciência e precisamente por isso encobre a dificuldade fundamental que precisa ser pensada.
§ 3. A experiência fática da vida como ponto de partida
A experiência fática da vida (faktische Lebenserfahrung) constitui simultaneamente o ponto de partida, o meio no qual se torna possível a transformação que conduz ao filosofar e a resistência fundamental contra essa transformação, porque “experiência” designa inseparavelmente tanto o experimentar quanto aquilo que é experimentado, sem separar o si-mesmo experienciante do mundo experimentado como coisas independentes, enquanto “fático” não significa realidade natural, causal ou simplesmente objetiva, mas somente pode ser compreendido a partir do histórico; nessa experiência, Umwelt (mundo circundante), Mitwelt (mundo compartilhado) e Selbstwelt (mundo próprio) aparecem originariamente segundo Bedeutsamkeit (significatividade), ao passo que o Wie (como) da relação permanece indiferenciado e encoberto pelo conteúdo vivido, fundando a Selbstgenügsamkeit (autossuficiência) que torna a própria experiência fática simultaneamente origem e impedimento do filosofar.
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Erfahrung (experiência) deve conservar intencionalmente seu duplo significado de atividade experienciante e de experimentado, pois precisamente essa unidade impede que o si-mesmo que experiencia e aquilo que é experienciado sejam artificialmente separados como duas coisas.
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Erfahren (experienciar) não significa simples “tomada de conhecimento”, mas uma confrontação viva, um envolver-se e afirmar-se nas configurações daquilo que é experienciado, reunindo dimensões passivas e ativas.
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Faktisch (fático) não significa “naturalmente real”, causalmente determinado ou dotado de realidade coisal e não pode ser interpretado a partir de pressuposições epistemológicas previamente estabelecidas, devendo sua significação ser conquistada a partir do fenômeno do histórico.
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A experiência fática da vida constitui uma zona de perigo para a autonomia da filosofia porque precisamente nela já se fazem valer as ambições das ciências, que tendem a impor suas próprias formas de objetivação.
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Filosofia e ciência não devem ser compreendidas como formações objetivas de sentido compostas por proposições destacadas e relações de proposições, pois as ciências precisam ser apreendidas em seu Vollzug (realização, execução) concreto e o próprio processo científico deve ser considerado em sua historicidade.
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A teoria científica tradicional tende a abstrair do processo vivo da ciência e a examinar apenas nexos proposicionais e de verdade autonomizados, justamente aquilo que precisa ser superado quando se pergunta filosoficamente pela ciência.
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A tese de uma diferença principial entre ciência e filosofia implica que o rigor (Strenge) não deve ser tomado como conceito originariamente científico: o rigor possui sentido originariamente filosófico, e o rigor das ciências é apenas uma forma derivada.
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A tentativa histórica dos grandes filósofos de elevar a filosofia à condição de ciência revela, nessa própria aspiração, a pressuposição de que à filosofia faltaria algo enquanto não alcançasse o estatuto científico.
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A filosofia precisa libertar-se de sua “secularização” em ciência e também de sua transformação em doutrina científica de cosmovisão, tornando necessário esclarecer positivamente a relação de proveniência das ciências a partir dela.
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A solução de compromisso segundo a qual a filosofia seria ciência em suas partes e cosmovisão em sua tendência total não resolve a questão, pois deixa igualmente indeterminados os conceitos de ciência e cosmovisão.
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A Selbstverständigung da filosofia não pode resultar de dedução científica nem da indicação de seu suposto objeto; permanece inclusive aberta a possibilidade de que a filosofia não se ocupe de um “objeto” no sentido corrente e de que a própria pergunta pelo objeto já seja inadequada.
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A apelação a intuições místicas encerraria prematuramente o problema em vez de esclarecê-lo.
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A experiência fática da vida fornece o Ausgangspunkt (ponto de partida) para o caminho à filosofia, mas esse caminho inicialmente apenas conduz até diante da filosofia, não ainda ao seu interior.
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O acesso propriamente filosófico requer uma Umwendung (virada, inversão) que não consiste numa simples mudança de direção da mesma modalidade cognoscitiva para novos objetos, mas numa verdadeira Umwandlung (transformação) do próprio comportamento.
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A inversão neokantiana de Natorp da Objektivierung (objetivação) para a Subjektivierung (subjetivação) não realiza essa transformação, porque apenas desloca o objeto para o sujeito mantendo inalterado e não esclarecido o fenômeno do conhecimento enquanto conhecimento.
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A experiência fática da vida é peculiar porque nela simultaneamente se abre o caminho para a filosofia e pode efetuar-se a transformação pela qual esse caminho se torna propriamente filosófico.
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Lebenserfahrung (experiência da vida) é mais ampla do que experiência cognoscente, pois compreende toda a posição ativa e passiva do homem diante do mundo.
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Considerado segundo seu Gehaltssinn (sentido de conteúdo), aquilo que é experienciado não deve ser denominado “objeto”, mas Welt (mundo), porque o mundo é aquilo no qual se pode viver, ao passo que num objeto não se vive.
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O mundo pode ser formalmente articulado em Umwelt, que inclui não somente coisas materiais, mas também objetividades ideais, ciências, arte e demais configurações com que a vida se encontra; Mitwelt, na qual os outros aparecem facticamente como estudantes, docentes, parentes, superiores e semelhantes, e não como exemplares zoológicos de homo sapiens; e Selbstwelt, na qual aparece o próprio si-mesmo.
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Arte e ciência podem constituir genuine Lebenswelten (mundos genuínos da vida) quando alguém nelas se absorve inteiramente, embora sejam ainda experienciadas segundo a modalidade mundana do Umwelt.
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Umwelt, Mitwelt e Selbstwelt não devem ser violentamente delimitados, transformados em formações autônomas, hierarquizados ou classificados em gêneros e espécies, pois esse procedimento já constituiria deformação epistemológica do fenômeno.
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O decisivo não é estabelecer relações objetivas entre esses mundos, mas caracterizar o Wie (como) de sua experiência, isto é, o Bezugssinn (sentido de relação) da experiência fática da vida.
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Torna-se necessário perguntar em que medida o modo da relação determina aquilo que é experienciado e como o próprio Gehalt (conteúdo) se caracteriza a partir dessa relação.
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A Kenntnisnahme (tomada de conhecimento) precisa ser destacada como modalidade específica do experimentar porque a tradição tende a caracterizar a filosofia como comportamento cognoscente, mas seu sentido somente pode ser esclarecido a partir da motivação interna do próprio experienciar.
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O traço peculiar da experiência fática consiste em que o modo como se está relacionado às coisas não é ele próprio experienciado de maneira temática: a vida se deposita inteiramente no Gehalt (conteúdo), e o Wie da experiência apenas acompanha esse conteúdo sem adquirir autonomia.
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Durante um mesmo dia podem mudar radicalmente as coisas com que se lida e os modos de reação a elas, sem que a diversidade desses modos de estar presente se torne explicitamente consciente; as diferenças são percebidas sobretudo no próprio conteúdo experimentado.
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A experiência fática possui, por isso, uma Indifferenz (indiferença) quanto ao modo do experienciar e não considera espontaneamente a possibilidade de que algo lhe permaneça inacessível.
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Essa indiferença permite à experiência fática “resolver” todas as questões da vida dentro de seu próprio horizonte e funda sua Selbstgenügsamkeit (autossuficiência), que se estende inclusive às questões consideradas mais elevadas.
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Tudo aquilo que aparece na Umwelt, Mitwelt e Selbstwelt possui o caráter da Bedeutsamkeit (significatividade), sem que isso decida qualquer questão epistemológica em favor do realismo ou do idealismo.
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A Bedeutsamkeit não é valor no sentido teórico posterior, mas o caráter originário segundo o qual as situações fáticas da vida são imediatamente vividas como relevantes, familiares, ameaçadoras, desejáveis, penosas ou implicativas.
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O si-mesmo não é experienciado faticamente como “alma”, conexão de atos, consciência transcendental, conglomerado de vivências ou objeto-eu isolado, mas naquilo que realiza e sofre, no que lhe acontece, em estados de abatimento ou elevação e nas situações mundanas em que está envolvido.
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A experiência de si não constitui reflexão teórica nem percepção interna, pois o próprio si-mesmo aparece mundanamente e permanece tão ligado à Umwelt que a Selbstwelt facticamente experienciada não se separa originariamente dela.
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Essa Selbsterfahrung (experiência de si) constitui o único possível ponto de partida para uma psicologia filosófica, caso uma disciplina desse gênero possa legitimamente ser estabelecida.
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O retorno de teorias psicológicas previamente formadas ao “fático” fracassa quando essas teorias não foram originariamente motivadas filosoficamente, pois carregam consigo categorias que já deformam aquilo que pretendem recuperar.
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Mesmo a consciência cotidiana de ter agido inadequadamente ou de encontrar-se em determinado estado não constitui uma relação formalmente elaborada consigo mesmo, mas continua sendo uma Bedeutsamkeit facticamente vinculada ao Umwelt.
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O fático conhecido não possui originariamente caráter de objeto, mas de Bedeutsamkeit, embora possa desenvolver-se posteriormente até constituir um nexo objetivo explicitamente formado.
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A compreensão dessas determinações não pode ser esperada imediatamente, pois somente se torna acessível num processo permanente de filosofar em que o sentido dos fenômenos cresce e se esclarece reiteradamente.
§ 4. A tomada de conhecimento
A Kenntnisnahme (tomada de conhecimento) emerge dentro da própria experiência fática como uma tendência de relacionar, ordenar e estabilizar nexos de Bedeutsamkeit (significatividade) até transformá-los em Objektszusammenhänge (nexos objetivos) regidos por uma Sachlogik (lógica da coisa), processo que pode culminar na objetivação científica e numa filosofia concebida como ciência de objetos superiores, mas que justamente por conservar inalterado o Bezugssinn (sentido de relação) da atitude objetivante não alcança a transformação originariamente filosófica, tornando necessário encontrar, dentro da experiência fática, um motivo para uma Umwendung (virada) capaz de superar sua tendência de queda na significatividade sem abandonar a própria vida da qual o filosofar procede e à qual retorna.
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Na tomada de conhecimento fática, aquilo que é conhecido ainda não se apresenta inicialmente como objeto formado, mas como Bedeutsamkeit; entretanto, começa a operar uma tendência de relacionar e ordenar pela qual se constitui progressivamente um contexto objetivo.
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Esse Objektszusammenhang desenvolve uma lógica própria da matéria ou Sachlogik, isto é, uma estrutura específica correspondente aos estados de coisas envolvidos.
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A transição cotidiana entre ouvir uma exposição científica e falar imediatamente depois sobre assuntos comuns pode acontecer dentro de uma situação vital essencialmente contínua, sem que uma mudança explícita de atitude seja percebida.
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Os objetos científicos também são, de início, conhecidos segundo o caráter da experiência fática da vida; somente posteriormente a tendência relacionante pode ser levada ao extremo e orientar-se para as estruturas últimas da objetividade em geral.
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A ideia husserliana de uma lógica apriorística da objetividade representa o extremo dessa tendência de explicitação dos nexos estruturais da Gegenständlichkeit (objetividade).
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Quando o filosofar é interpretado como elevação acima da experiência fática, tende-se a defini-lo pelo tratamento de objetos superiores e supremos, das “primeiras e últimas coisas”, conservando sem questionamento o mesmo estilo objetivante do conhecimento científico.
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A tendência mundivisiva acrescenta a referência de todos os objetos ao homem e àquilo que lhe seria importante, mas também nessa orientação o sujeito continua sendo apreendido como objeto.
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Se a filosofia fosse determinada por sua relação científica com objetos, ela seria apenas uma modalidade especialmente desenvolvida de conhecimento objetivante e precisaria ser classificada como ciência no sentido tradicional.
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Essa conclusão intensifica a dificuldade da Selbstverständigung filosófica: torna-se necessário descobrir como pode ser motivada uma modalidade de apreensão diferente da Kenntnisnahme.
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A experiência fática da vida tende continuamente a encobrir qualquer orientação propriamente filosófica emergente por meio de sua Indifferenz e Selbstgenügsamkeit.
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Na selbstgenügsame Bekümmerung (preocupação autossuficiente), a experiência fática cai continuamente na Bedeutsamkeit e procura articular progressivamente seus contextos até a ciência e, finalmente, até a constituição de uma “cultura científica”.
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Apesar dessa tendência, a própria experiência fática contém motivos para uma atitude puramente filosófica, mas esses motivos somente podem ser destacados mediante uma peculiar Umwendung do comportamento filosófico.
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A diferença entre ciência e filosofia não se refere apenas ao objeto ou ao método, mas possui caráter principialmente mais radical porque alcança o próprio sentido da relação em que cada uma se realiza.
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A experiência fática da vida foi frequentemente tratada pelas filosofias anteriores como trivialidade evidente e secundária, embora seja precisamente dela que o filosofar nasce e para ela que retorna mediante uma inversão essencial.
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Se a experiência fática é simultaneamente ponto de partida e meta do filosofar, então deve ser também aquilo que essencialmente dificulta o próprio filosofar, pois sua autossuficiência tende a absorver novamente a atitude filosófica no curso habitual da significatividade.
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A incompreensão inicial dos conceitos empregados é inevitável porque eles funcionam primeiramente como indicações de nexos fenomenais que somente adquirirão sentido claro no avanço posterior da investigação.
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A experiência fática da vida pode ser provisoriamente caracterizada como “einstellungsmäßige, abfallende, bezugsmäßig-indifferente, selbstgenügsame Bedeutsamkeitsbekümmerung”, isto é, uma preocupação de significatividade determinada por atitude, tendente à queda, indiferente quanto ao sentido de relação e autossuficiente.
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Quanto ao Bezugssinn, seu curso permanece indiferente: a diferença entre encontrar-se afetivamente num concerto e participar de uma conversa trivial é experienciada sobretudo mediante os respectivos conteúdos, não por tematização do modo de presença do si-mesmo.
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A multiplicidade das experiências somente chega à consciência por meio da diversidade de Gehalte (conteúdos), enquanto o modo de estar-junto e de ser levado pelo mundo permanece indiferenciado.
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Essa indiferença é tão abrangente que a experiência fática assume espontaneamente todas as tarefas que lhe surgem e procura resolvê-las dentro de seu próprio horizonte.
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A forma fática de apreensão possui uma tendência de Abfall (queda) na Bedeutsamkeit, pela qual os contextos significativos tendem a adquirir progressiva autonomia objetiva.
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Bedeutsamkeit não deve ser confundida com Wert (valor), pois “valor” já constitui produto de uma teorização, e toda teorização precisa inicialmente ser afastada da investigação filosófica do fenômeno originário.
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A pura Kenntnisnahme não apreende objetos plenamente constituídos, mas contextos de significatividade que tendem a autonomizar-se e podem posteriormente ser apresentados numa “lógica dos objetos”, de suas conexões e relações.
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Na tendência de queda da experiência fática forma-se progressivamente um contexto objetivo cada vez mais estabilizado, possibilitando uma lógica do Umwelt na medida em que a significatividade passa a funcionar dentro de nexos objetivos.
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Toda ciência tende a ultrapassar essa primeira estabilização e construir uma ordem cada vez mais rigorosa dos objetos, isto é, uma Sachlogik adequada à estrutura própria do campo estudado, diferente, por exemplo, na história da arte e na biologia.
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A filosofia científica constitui, segundo esse modelo, apenas uma configuração mais rigorosa de campos objetivos e pode construir objetos que ultrapassam a experiência sensível, como ocorre com o mundo das ideias de Platão, sem modificar o sentido fundamental de sua relação com os objetos.
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O fato de uma filosofia introduzir uma dimensão diferente de objetos para explicar mais profundamente os nexos ordinários não altera por si mesmo o Bezugssinn científico e objetivante.
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Considerada historicamente, a filosofia aparece repetidamente como tentativa de elaborar da maneira mais rigorosa possível contextos de objetividade, circunstância que torna inicialmente difícil sustentar uma diferença radical entre ciência e filosofia.
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A tendência de queda da experiência fática para dentro dos contextos significativos do mundo facticamente vivido possui um peso próprio que conduz à determinação e regulamentação objetiva da vida.
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O sentido espontâneo da experiência fática corre, portanto, em direção contrária à tese de uma diferença principial entre ciência e filosofia, exigindo que se procure nela mesma um motivo capaz de provocar sua Umwendung.
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Como esse motivo é difícil de apreender diretamente, pode-se recorrer provisoriamente à história e à filosofia contemporânea como patrimônio cultural no qual se deixam reconhecer indicações para o filosofar, sem tomar a simples existência da história da filosofia como fundamento suficiente para filosofar.
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A consideração das tendências filosóficas contemporâneas deve inicialmente permanecer no nível da Kenntnisnahme fática, especialmente mediante o exame de correntes representativas da filosofia da religião, para que a própria experiência desse exame prepare posteriormente a transformação requerida.
