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obra:ga58:5

§5

PRIMEIRA SEÇÃO

A vida como âmbito originário da fenomenologia

PRIMEIRO CAPÍTULO

Demonstração da vida como esfera problemática da fenomenologia

§ 5. A atitude fundamental fenomenológica como inserção na atitude de investigação científica e crítica

A atitude fundamental da fenomenologia exige a recusa decidida tanto das construções sistemáticas e das pretensões de cosmovisão quanto da especialização estreita em problemas isolados, consistindo antes numa inserção radical e continuamente renovada na atitude de investigação científica e crítica, na qual os problemas, horizontes, ideias orientadoras e tendências fundamentais não são impostos antecipadamente, mas emergem do próprio movimento da pesquisa, de modo que a fenomenologia, enquanto ciência originária (Ursprungswissenschaft), deve conservar aberta sua perspectiva, revisar incessantemente suas posições e reconhecer que toda solução alcançada permanece relativa à articulação viva das tendências originárias do problema.

  • A recusa das aspirações construtivas e mundivisivas não implica regressão a uma investigação especializada que se disperse em pequenos problemas casualmente encontrados, pois a pesquisa autêntica somente permanece viva quando se deixa orientar pelas ideias últimas e pelas tendências diretivas que surgem de seu próprio exercício.
  • Na fenomenologia, a atitude reflexiva diante da própria investigação precisa ser continuamente verificada e revisada, não apenas porque ela se encontra historicamente em seus começos, mas porque a renovação incessante de sua orientação pertence essencialmente à sua determinação como Ursprungswissenschaft.
  • A primazia da tendência científica investigativa significa manter aberta a perspectiva e conservar sempre a possibilidade de um novo começo, impedindo que uma solução conquistada seja absolutizada isoladamente e reconhecendo que sua validade somente se determina dentro de uma tendência problemática genuína ligada originariamente a outras tendências.
  • Não existem na fenomenologia “problemas especiais” no sentido de problemas isoláveis que pudessem ser tratados autonomamente, embora isso não signifique uma preferência por generalidades vagas ou pelo raciocínio filosófico abstrato; precisamente porque seus problemas são concretos, cada problema remete às articulações mais originárias do domínio investigado.
  • A fenomenologia deve substituir a nebulosidade das generalizações filosóficas tradicionais pela apreensão do concreto e, em última instância, do “último concreto”, cuja concretização não está simplesmente disponível, mas somente pode realizar-se por meio do método fenomenológico.
  • Fugen (articulações), Fügungstendenzen (tendências de articulação), camadas e horizontes indicam que o concreto fenomenológico possui uma estrutura articulada, cuja unidade não pode ser antecipadamente reduzida a esquemas classificatórios.
  • A “origem” (Ursprung) não é um axioma simples ou uma proposição fundamental última da qual tudo pudesse ser deduzido, mas algo essencialmente diferente, que não deve ser confundido nem com o místico nem com o mítico e do qual somente se pode aproximar mediante consideração científica cada vez mais rigorosa.
  • A aproximação à origem exige diferentes acessos que precisam ser continuamente sustentados e controlados pela própria investigação, não sendo possível experimentar a origem de outro modo para depois incorporá-la secundariamente ao conhecimento científico.
  • O Ursprung (origem) e o Ursprungsgebiet (âmbito originário) correspondem a uma modalidade inteiramente própria de apreensão vivencial, cuja determinação ainda se encontra distante da compreensão ordinária da vida.
  • A distância em relação ao objeto da fenomenologia é tão radical que ainda não se sabe propriamente “onde” ele se encontra, sendo a linguagem espacial empregada apenas como indicação provisória de uma dificuldade metodológica mais profunda.
  • As famosas “dadidades imediatas” da fenomenologia não se oferecem inicialmente em nenhum lugar do fluxo atual da vida, por mais intensamente que este seja percorrido em suas diferentes dimensões.
  • Mesmo uma fenomenologia absolutamente consumada não encontraria o âmbito originário simplesmente dado dentro do fluxo atual da vida em si, pois esse âmbito permaneceria oculto à vida quando esta apenas se realiza segundo sua corrente factual.
  • O âmbito originário não está simplesmente contido na vida em si como um de seus conteúdos disponíveis, e sua ausência imediata relaciona-se ao caráter fundamental da Selbstgenügsamkeit (autossuficiência) da vida, que torna problemática a possibilidade mesma de acesso fenomenológico à origem.
  • O Ursprungsgebiet somente se torna acessível por meio de um método científico radical e não por qualquer outra modalidade de apreensão vivencial espontânea.
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