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obra:ga54:5

§5

§ 5. A oposição a alethes: lathon, lathes. O acontecimento da transformação do encobrimento que se retrai e o comportamento humano do esquecer

a) A vigência do encobrimento em lanthanesthai. O encobrimento daquele que esquece no esquecido: o esquecimento. Hesíodo, Teogonia, verso 226 e seguintes. Lethe e a essência oculta de Eris, filha da Noite. Referência a Píndaro

A oposição originária ao descoberto e ao descobridor não se esgota no pseudos como desfiguração, pois a experiência grega de lanthanein, lanthanesthai e Lethe deixa aparecer um encobrimento mais primordial, no qual o ente e o próprio homem são atingidos conjuntamente por uma retração que se encobre a si mesma, de modo que o esquecer deve ser compreendido como acontecimento de obliteração que subtrai o esquecido, encobre ao homem sua própria relação com essa subtração e revela encobrimento e desencobrimento como caracteres fundamentais do próprio ser.

  • Se a oposição a alethes fosse formada imediatamente segundo sua estrutura verbal, esperar-se-iam lathes e lathon; o fato de se encontrar historicamente pseudos indica que a oposição entre descobrimento e encobrimento não coincide simplesmente com a oposição metafísica posterior entre verdade e falsidade.
  • Em lanthano hekon, aquilo que modernamente se traduz como “aproximo-me sem ser notado” possui, pensado de maneira grega, a estrutura mais originária de “sou no encobrimento enquanto aquele que se aproxima”, de modo que o encobrimento não constitui uma circunstância acrescentada posteriormente ao comportamento, mas determina o próprio modo de ser daquele que age.
  • As relações aparentemente gramaticais revelam que encobrimento e desencobrimento determinam os entes como tais e constituem caracteres fundamentais do ser, não simples estados perceptivos ou cognitivos do sujeito.
  • Lanthanesthai e epilanthanesthai são geralmente traduzidos por “esquecer”, mas essa tradução tende a reconduzir o fenômeno a um comportamento subjetivo e, com isso, perde o sentido grego segundo o qual no esquecer acontece primordialmente um encobrimento.
  • O esquecido é aquilo que afundou numa latência, mas esse afundamento permanece ele próprio encoberto para aquele que esquece, de sorte que não apenas o objeto desaparece da lembrança, mas também se oculta ao homem o acontecimento pelo qual esse objeto lhe foi subtraído.
  • Aquele que esquece permanece encoberto para si mesmo em sua relação com o esquecido, pois não perde simplesmente uma representação anteriormente disponível, mas deixa igualmente de experimentar a si próprio como aquele para quem algo se retirou.
  • O encobrimento do esquecer possui, portanto, uma irradiação dupla: alcança aquilo que é esquecido e aquele que esquece, sem que nenhum dos dois simplesmente desapareça, mas colocando ambos numa relação determinada pela subtração.
  • A interpretação corrente do esquecimento como falta de atenção, distração, deficiência da memória ou amnésia permanece insuficiente, porque reduz a um comportamento ou estado humano aquilo que pode sobrevir ao homem como um acontecimento de encobrimento.
  • Quando algo essencial é abandonado, perdido e retirado do âmbito de consideração, já não se trata simplesmente de Vergesslichkeit, tendência individual ao esquecimento, mas de Vergessenheit, obliteração na qual algo inteiro pode cair fora da presença.
  • A palavra antiga Vergessung exprime de maneira mais adequada esse acontecimento, pois permite pensar que algo “cai na obliteração”, de modo que o não mais pensar humano pode ser consequência da obliteração que atingiu previamente os homens, e não sua causa.
  • A obliteração não constitui mera produção, deficiência ou negligência humana, mas pode ser compreendida como um retraimento (Verborgenheit) pertencente a um ocultamento (Verbergung), aproximando-se assim do que os gregos nomeiam Lethe.
  • Em Hesíodo, Lethe é filha de Eris e aparece ao lado de Limos entre aquilo que nasce da Luta, associação que não deve ser interpretada psicologicamente segundo os efeitos penosos do esquecer e da fome sobre corpo e alma, mas segundo a afinidade essencial entre modos de ausência e retraimento.
  • Lethe constitui o encobrimento que subtrai algo essencial e, simultaneamente, aliena o homem de si mesmo, tornando-o estranho à possibilidade de permanecer em sua própria essência.
  • Limos não significa primordialmente o sentimento subjetivo de fome ou desejo insatisfeito de alimento, mas a ausência do alimento que deveria ser concedido, pertencendo linguisticamente ao deixar, ao desaparecer e ao faltar.
  • O faltar não designa apenas inexistência, pois aquilo que falta vigora precisamente enquanto ausência: algo sobrevém e depois se retira, e esse Weg-fallen, passar-a-faltar, manifesta uma forma de Weg-wesen e Ab-wesung, vigência do afastamento e da ausência.
  • Aquilo que se retirou não retorna ao presente e, contudo, seu afastamento permanece referido ao presente como abandono, deixando entrever uma forma originária de oposição que não consiste em simples destruição ou negação.
  • Lethe e Limos descendem de Eris porque obliteração e falta pertencem a essa essência conflitante do retirar-se, enquanto também sofrimento e penúria não devem ser reduzidos a vivências psicológicas subjetivas.
  • A interpretação moderna da tragédia grega mediante categorias de experiência vivida encobre seu âmbito essencial, razão pela qual os mundos de Ésquilo e Sófocles não podem ser simplesmente assimilados ao de Shakespeare, como ocorreu no humanismo alemão.
  • Eris é filha de Nyx, a Noite, chamada em Hesíodo e Homero de oloe, termo usualmente traduzido como “ruinosa”, embora sua significação grega deva ser buscada no poder da noite de fazer desaparecer no encobrimento tudo aquilo que está presente.
  • A relação entre Nyx, Eris, Lethe e Limos situa a obliteração numa genealogia essencial do encobrimento, na qual noite, luta, privação e retirada não representam personificações psicológicas, mas modos fundamentais de vigência do ocultar.
  • O dizer hesiódico basta à experiência grega para indicar a essência de Lethe, embora permaneça insuficiente para uma compreensão moderna, acostumada a exigir uma determinação conceitual explícita de sua relação com aletheia.
  • O fato de poetas e pensadores gregos falarem raramente de Lethe pode corresponder à própria essência do encobrimento, pois aquilo que essencialmente se retrai é também aquilo acerca do qual a palavra primordial pode conservar um silêncio essencial.
  • Silenciar não significa simplesmente deixar de falar, porque somente quem possui algo essencial a dizer pode verdadeiramente silenciar; o silêncio essencial pertence à própria fala essencial e não deve ser confundido com segredo, ocultação deliberada ou reserva mental.
  • O silêncio grego em torno de Lethe pertence, assim, à mesma experiência primordial da palavra que permite nomear aletheia, tornando especialmente significativa sua reaparição explícita em momentos culminantes da poesia grega, como na sétima Ode olímpica de Píndaro.

b) O temor em Píndaro, Ode olímpica VII, 48 e seguintes; 43 e seguintes; e em Sófocles, Édipo em Colono, 1267. A arete (decisão) como o desvelamento do homem determinado a partir da aletheia e de aidos

  • Na narrativa pindárica da colonização de Rodes, a chegada dos colonizadores sem o fogo vivo necessário ao sacrifício não constitui uma negligência fortuita, mas pertence a um acontecimento no qual aquilo que os homens fazem, deixam de fazer e são capazes de realizar permanece determinado pela própria essência humana.
  • O mythos da fundação introduz a determinação essencial do homem mediante a contraposição entre aidos e latha: o temor dispõe o homem para o desabrochar de sua essência e para o pensar prévio, enquanto a nuvem escura do encobrimento pode sobrevir-lhe e retirar de suas ações o caminho que conduz diretamente ao descoberto.
  • A imagem pindárica da nuvem oferece uma determinação poética fundamental de Lethe, porque latha não é simplesmente ausência de lembrança, mas encobrimento que invade a relação humana com os entes e desvia o homem do caminho descoberto.
  • Aidos, traduzido como “temor”, não designa sentimento subjetivo, timidez, angústia ou medo, nem uma disposição vivencial de um sujeito, mas aquilo que sobrevém ao homem e afina sua essência para a relação com o ser.
  • A contraposição entre aidos e latha permite reconhecer que o temor pertence à aletheia, porque determina o homem para o descoberto no qual se mantém sua essência e sua capacidade de relacionar-se com os entes.
  • O temor, pensado de maneira grega, não é algo que o homem possui, mas uma disposição que determina a essência humana a partir da relação do ser com o homem e, por isso, pertence à proximidade essencial do próprio Zeus.
  • Em Sófocles, Aidos compartilha com Zeus o assento essencial e reina sobre as obras humanas, indicando que o temor não se origina numa interioridade psicológica, mas pertence ao domínio no qual o próprio ser protege e preserva sua essência.
  • O ser sustenta o temor como temor do ser e, por meio dele, preserva sua essência no começo primordial, fazendo com que algo seja lançado para além do homem na forma da arete.
  • Arete não deve ser traduzida simplesmente por “virtude”, pois essa tradução a moraliza, nem por “eficiência” ou “aptidão”, que a reconduziriam à perspectiva moderna da produtividade; significa a emergência, abertura e integração da essência fundamental do homem no ser.
  • A arete está vinculada ao desabrochar da essência humana no desencobrimento e pertence ao mesmo campo originário em que techne ainda não significa técnica moderna, mas um modo de fazer emergir e deixar aparecer.
  • Na arete, o homem encontra-se “de-cidido” no sentido de aberto, desvelante e desvelado diante dos entes, não porque produza voluntariamente uma decisão, mas porque sua essência se abre sem separação em relação ao ser dos entes.
  • A de-cisão grega significa, portanto, precisamente não estar cindido ou separado do ser, diferindo essencialmente da decisão moderna fundada no sujeito que se põe e determina mediante um ato autônomo da vontade.
  • A decisão moderna pertence à vontade de vontade e encontra sua forma metafísica próxima na vontade de poder, enquanto a virtus romana e a posterior virtu expressam historicamente a transformação da arete numa capacidade centrada no poder do sujeito.
  • A decisão moderna funda-se na autocerteza da subjetividade e consiste no querer do querido dentro do próprio querer, cuja exacerbação assume o caráter fanático, ao passo que a de-cisão grega recebe sua origem da abertura ao ser.
  • A de-cisão grega é enviada ao homem pelo aidos, no qual o próprio ser abre para o homem o desencobrimento dos entes; em oposição a esse temor vigora latha como encobrimento e obliteração.

Recapitulação

1) Os três títulos da história essencial do Ocidente. Referência a Ser e tempo. Pensar essencial. Referência a Hölderlin e Píndaro. O começo da relação essencial do ser com o homem na palavra e na saga. A essência grega do homem. Referência a Hesíodo

  • Além da desfiguração e da distorção, existe um encobrimento que atravessa a morte, a noite, a terra, o subterrâneo e o supraterreno e perpassa os entes como um todo, trazendo consigo a possibilidade originária de seu descobrimento.
  • Onde os entes se elevam ao descobrimento, o ser vem à palavra, razão pela qual palavra, encobrimento e desencobrimento possuem uma co-pertença originária: a palavra deixa o ente aparecer em seu ser e preserva aquilo que apareceu como descoberto.
  • A história essencial do Ocidente pode ser indicada por três relações fundamentais, das quais a primeira é “ser e palavra”, em que o “e” não exprime associação conceitual posterior produzida pelo homem, mas uma relação que o próprio ser deixa emergir.
  • Com Platão e Aristóteles, a palavra transforma-se em logos entendido como asserção e, ao longo da metafísica, converte-se em ratio, razão e espírito, permitindo caracterizar a história metafísica de Platão a Nietzsche sob o título “ser e ratio”.
  • O irracional e o vivencial somente podem aparecer no interior da época metafísica dominada pela ratio, como suas correspondentes contraposições.
  • Em Ser e tempo, “tempo” não significa tempo cronológico nem duração vivida no sentido de Bergson, mas nomeia previamente uma essência mais originária da aletheia e, desse modo, o fundamento essencial da ratio, do pensar, do dizer e da própria palavra.
  • “Ser e palavra” pode ser experimentado de maneira mais originária quando o próprio ser envia à humanidade ocidental uma experiência mais primordial de sua relação com o homem.
  • O pensar essencial não se orienta pela produção do novo, própria da pesquisa e da técnica, mas procura dizer primordialmente o mesmo, o antigo e o mais antigo, isto é, o começo.
  • Em Hölderlin, o destino histórico do povo de poetas e pensadores é pensado a partir de sua inserção na história ocidental do ser e do risco de sucumbir à errância e ao desconhecimento de sua própria essência.
  • Mythos, epos, rhema e logos indicam entre os gregos o mostrar-se do ser ao homem, para que este conserve o concedido e encontre nessa custódia sua própria essência.
  • Ter a palavra, logon echein, constitui uma determinação essencial do homem que se tornou histórica com a humanidade grega, pois a saga desvelante contém a relação primordial do ser com o homem e, através dela, a relação humana com os entes.
  • O dito originário pode ser mais essencial do que qualquer obra produzida pelo homem quando nele comparece a graça do ser emergente, conforme a referência a Píndaro.
  • A interpretação moderna dos templos, esculturas, vasos, pinturas, pensamento e poesia gregos como diferentes “expressões” de uma mesma vivência impede compreender a prioridade da relação originária entre ser e palavra.
  • Somente onde uma humanidade recebe a tarefa de ter a palavra pode conservar-se a indicação do desencobrimento dos entes, e somente nesse domínio o encobrimento pode aparecer de maneira mais originária do que as formas derivadas de desfiguração, distorção, erro, engano e falsificação.
  • Lethe é o nome grego desse encobrimento mais primordial, cuja relação essencial com aletheia precisa ser libertada da interpretação moderna do esquecer como vivência subjetiva.
  • A capacidade grega de possuir a palavra inclui também a capacidade de retê-la no silêncio, e a ambiguidade da palavra trágica nasce dessa co-pertença de dizer e silenciar fundada na essência do ser.
  • Hesíodo nomeia Lethe em associação com Limos, enquanto Píndaro permite avançar até uma determinação mais recôndita de sua essência velante.

c) Pragma: a ação. A palavra como âmbito essencial da mão humana. Escrita à mão e escrita datilografada. Orthos e rectum. Ação essencial e o caminho para o descoberto. Obliteração como encobrimento. O modo de ser “fora” do homem a partir do descobrimento e a palavra da nuvem sem sinal. O ofuscamento. A subtração da Lethe. Referência a Píndaro e Hesíodo

  • A “nuvem sem sinal do encobrimento” de Píndaro manifesta a essência velante da obliteração, porque, assim como uma nuvem encobre a claridade do céu e a luz solar, Lethe ofusca simultaneamente as coisas, o homem e a relação que os reúne.
  • Sob o ofuscamento, nem as próprias coisas em seu aspecto nem o olhar humano dirigido para esse aspecto permanecem na luz originariamente desvelada, de modo que o encobrimento afeta a relação inteira entre homem e ente.
  • A nuvem da obliteração retira das pragmata o caminho reto e o conduz para fora da descoberta orientadora do pensamento, tornando necessário esclarecer pragma a partir de seu sentido grego originário.
  • Prattein significa atravessar, percorrer o descoberto por um caminho e alcançar nele algo que vem à presença como termo da travessia, pertencendo ao mesmo campo originário de significação de ergon.
  • Pragma designa originariamente a unidade inseparável entre o constituir-se de algo em seu desabrochar e aquilo que, alcançado nesse desabrochar, permanece presente como descoberto, antes da separação posterior entre coisa e atividade.
  • Pragma ainda não significa simplesmente um objeto disponível sobre o qual uma atividade subjetiva atua, razão pela qual “ação” somente pode traduzi-lo quando conserva a unidade originária entre aquilo que está disponível à mão e o homem que com ele se relaciona.
  • A ação permanece essencialmente referida à mão, pois aquilo que está presente ou disponível à mão pertence ao âmbito no qual a mão alcança, recebe, produz, protege e conduz algo à presença.
  • A mão, juntamente com a palavra, constitui uma distinção essencial do homem, porque somente o ente que tem mythos e logos pode propriamente ter mão e agir por meio dela.
  • Prece e assassinato, saudação e agradecimento, juramento e aceno, trabalho manual, utensílio e aperto de mãos pertencem às possibilidades da mão e mostram que ela não é simplesmente órgão corporal destinado a agarrar.
  • Nenhum animal possui propriamente mão, e a mão não se origina de pata ou garra, porque sua essência nasce juntamente com a palavra e somente existe no âmbito de descobrimento e encobrimento que determina o homem.
  • O homem não simplesmente possui mãos como propriedades anatômicas; a mão pertence à sua essência porque a palavra constitui o âmbito essencial no qual a mão pode ser mão.
  • A palavra que se deixa cunhar e oferecer ao olhar torna-se escrita, e a escrita, considerada segundo sua essência originária, é escrita à mão.
  • A substituição moderna da escrita manual pela máquina de escrever não constitui simples mudança instrumental, mas transformação da relação entre mão e palavra, na medida em que a escrita deixa de acontecer no gesto da mão e passa à impressão mecânica.
  • A escrita mecânica arranca o escrever do âmbito essencial da mão, transforma a palavra em meio de comunicação e encobre o caráter singular inscrito na escrita manual, fazendo com que todos apareçam igualmente na datilografia.
  • A aparente comodidade da escrita mecanizada acompanha uma transformação histórica mais profunda, na qual o caráter manual e gestual da inscrição da palavra deixa de determinar a relação humana com a escrita.
  • À ação compreendida como unidade da coisa disponível à mão e do homem agente pertence necessariamente hodos, o caminho perspectivo pelo qual essa relação se orienta para o descoberto.
  • Orthos significa, pensado de modo grego, “sempre em frente” ao longo da perspectiva aberta para o desencoberto, não podendo ser identificado com o rectum romano, determinado pelo direcionamento, comando e regência provenientes de cima.
  • A transformação de orthos em rectum encobre também o sentido originário de orthotes, cuja essência pertence à homoiosis enquanto assimilação desvelante dirigida ao descoberto e fundada na aletheia.
  • O caminho reto é aquele que segue ao longo do descoberto e recebe deste sua orientação; quando a nuvem do encobrimento sobrevém, essa luminosidade orientadora desaparece e o homem é conduzido para fora do descoberto.
  • A nuvem é chamada por Píndaro “sem sinal” porque não se mostra a si própria como aquilo que encobre, de maneira que o encobrimento da obliteração permanece ele mesmo encoberto.
  • O caráter inquietante do esquecer consiste precisamente em que o próprio esquecimento já acontece na obliteração: antes de se perceber que algo foi esquecido, já se foi retirado do âmbito em que seria possível permanecer junto ao esquecido.
  • Esquecer exige que o homem já tenha sido puxado para fora daquilo que cai na obliteração, pois, se ainda permanecesse junto da coisa esquecida, poderia conservá-la e o esquecimento não ocorreria.
  • A expressão “sem sinal” designa, portanto, um encobrimento que se encobre a si mesmo e, por isso, caracteriza de modo particularmente rigoroso a essência velante da Lethe.
  • Tekmar, sinal, é aquilo que se mostra e, ao mostrar-se, indica simultaneamente a condição do ente ao qual o comportamento humano deve corresponder; o sinal possui, assim, uma relação originária com o descoberto.
  • O “fim” grego não é simplesmente uma etapa instrumental em processos indefinidamente ampliáveis, mas delimitação que concede forma e permite ao ente vir à presença como aquilo que é.
  • Peras, limite, não constitui término negativo, mas origem da presença determinada, pois somente pela delimitação algo pode assumir forma e permanecer como ente.
  • A nuvem sem sinal é, assim, o encobrimento que retém sua própria presença e não se mostra, oferecendo uma determinação mais precisa da obliteração.
  • O esquecimento é um acontecimento que sobrevém aos entes e ao homem em sua relação recíproca e não uma vivência subjetiva ou simples lapso de memória.
  • A obliteração pode atingir passado, presente e futuro, sobretudo aquilo que se aproxima previamente do homem e deveria orientar sua conduta, razão pela qual a perda de direção pertence essencialmente ao esquecer.
  • O caminho determinado pelo aidos conduz ao descoberto como orthos hodos, e sua retidão somente é possível porque o próprio descobrimento fornece a orientação segundo a qual se pode seguir diretamente.
  • Orthos possui seu fundamento no desencobrimento: somente onde algo está descoberto e oferece uma direção pode haver caminho reto, orientação e colocação adequada.
  • Em Hesíodo, Nereu é caracterizado como aquele que não desfigura nem encobre, de maneira que a ausência de pseudos e de Lethe encontra-se também relacionada com a permanência junto das direções ou determinações que lhe correspondem.
  • O esquecimento grego não se restringe à recordação do passado nem ao pensamento entendido como representação, porque o encobrimento retira toda a essência do homem de seu ser-presente junto aos entes.
  • Esquecer significa não-mais-ser-aí-com (Nicht-mehr-dabei-sein), e não simplesmente não-mais-recordar (Sich-nicht-mehr-erinnern), pois o homem é retirado do próprio âmbito no qual poderia permanecer junto daquilo que lhe foi confiado.
  • A divisão moderna entre comportamento teórico e prático não alcança esse fenômeno, porque o encobrimento atinge primordialmente o inteiro ser-presente (Dabei-sein) humano junto aos entes e somente por isso alcança igualmente o conhecer e o agir.
  • Lethe pode, assim, ser determinada como o encobrimento que deixa passado, presente e futuro sucumbirem no “fora” de uma ausência que permanece ela própria ausente, deslocando simultaneamente o homem para o encobrimento sem deixar aparecer a própria retração.
  • A obliteração encobre subtraindo: retém-se a si mesma e deixa o descoberto e seu desencobrimento escoarem para o “fora” de uma ausência velada.

Recapitulação

2) A correlação entre ser, palavra, colheita, mão e escrita. A irrupção da máquina de escrever no âmbito da palavra e da escrita à mão. A consequência da tecnologia na relação transformada do ser com o homem. O bolchevismo: o mundo previamente arranjado, organizado tecnicamente de modo completo. O pensamento e a poesia dos gregos na aletheia e Lethe

  • Lethe é o encobrimento que sobrevém simultaneamente às coisas, ao homem e à relação entre ambos, deslocando-os do desencobrimento concedido e subtraindo, no mesmo acontecimento, o próprio encobrimento à manifestação.
  • A “nuvem sem sinal” de Píndaro indica tanto a retração de Lethe quanto o fato de esse encobrimento atingir as pragmata, entendidas não como coisas isoladas nem como atividades separadas, mas como unidade originária da relação entre coisas e homem.
  • “Ação” traduz pragma apenas quando não significa actio subjetiva, mas o âmbito no qual as coisas estão presentes e disponíveis à mão e o homem se encontra colocado em relação com elas mediante a mão.
  • A mão traz em si a relação entre ente e homem, pois somente há propriamente mão onde os entes aparecem no descoberto e o homem se relaciona com eles de modo desvelante.
  • Na palavra, a mão sustenta imediatamente a relação do ser com o homem e, através dela, a relação humana com os entes, reunindo o agir, o que é realizado e aquilo com que se lida.
  • A mão também descobre porque indica, desenha e forma sinais, e dessas figurações surge a escrita, cuja relação com graphein e grammata ainda permanece inscrita no nome moderno “gramática”.
  • A escrita é originariamente escrita à mão, enquanto ler mantém a relação com colher e recolher, legein e logos, formando um nexo essencial entre ser, palavra, recolhimento, escrita e mão.
  • Na escrita manual, a relação do ser com o homem é inscrita no ente, de modo que o modo histórico de escrever constitui também uma decisão sobre a relação entre ser, palavra, homem e coisa.
  • A retirada da escrita de sua origem na mão e sua transferência para a máquina expressam, portanto, uma transformação da relação do ser com o homem, independentemente da quantidade efetiva de pessoas que utilizem o instrumento.
  • A coincidência histórica entre imprensa e início da modernidade pertence a essa transformação: o traço da escrita converte-se em letra colocada e prensada, preparando a mecanização culminante da máquina de escrever e da impressão rotativa.
  • As vantagens e comodidades da impressão e da datilografia conduzem silenciosamente as necessidades humanas para formas mecanizadas de comunicação, enquanto a própria transformação da escrita permanece encoberta.
  • A máquina de escrever subtrai à mão sua dignidade essencial sem que o homem experimente claramente essa perda e, por isso, funciona ela própria como uma “nuvem sem sinal”, um encobrimento cuja verdadeira significação não se mostra.
  • O significado essencial da máquina de escrever não reside no aparelho tomado isoladamente, mas na irrupção cotidiana e quase imperceptível da tecnologia no âmbito da palavra, isto é, na própria distinção essencial do homem.
  • A máquina de escrever ocupa uma posição intermediária entre ferramenta e máquina propriamente dita, embora sua possibilidade dependa da tecnologia mecânica e, uma vez introduzida no âmbito da palavra, imponha suas próprias condições de uso.
  • A tecnologia pertence à história moderna não como agregado exterior de instrumentos, mas como determinação que alcança previamente as relações humanas, mesmo quando determinados aparelhos são recusados ou evitados.
  • A fórmula de Lenin que une poder soviético e eletrificação permite interpretar o bolchevismo como organização calculante do poder incondicional do partido juntamente com a tecnificação completa do mundo.
  • O decisivo nessa configuração não é a multiplicação quantitativa das máquinas e fábricas, mas a transformação da organização técnica do mundo em fundamento metafísico da planificação e do processo de trabalho.
  • A tecnologia mecânica moderna não constitui a causa primeira dessa transformação, mas seu instrumentário metafísico, pois deriva de uma alteração mais originária na relação do ser com o homem.
  • A essência escondida da tecnologia permanece vinculada à transformação histórica da techne, e a retração do ser pode estar relacionada ao especial esquecimento do ser no qual o homem moderno se encontra lançado.
  • A questão de saber se o homem domina a técnica ou se é dominado por ela permanece superficial enquanto tecnologia e homem forem tratados como grandezas previamente dadas, sem interrogar o modo como o próprio ser decide historicamente sua relação.
  • A transformação tecnológica envolve, portanto, a relação entre ente e homem, mão e palavra, descobrimento e retraimento, razão pela qual a elucidação de Lethe alcança legitimamente fenômenos aparentemente cotidianos como a máquina de escrever.
  • A oposição entre filosofia “abstrata” e objetos “concretos” impede justamente pensar a proximidade essencial das coisas, porque o uso e o consumo cotidianos podem constituir o encobrimento que não deixa aparecer aquilo que determina essencialmente esses objetos.
  • Aidos é aquilo pelo qual o próprio ser preserva sua essência e concede aletheia aos entes e ao homem, enquanto latha constitui sua essência contrária como poder de encobrimento.
  • A poesia de Píndaro testemunha uma experiência originária da correlação entre aletheia e Lethe, ainda que essa correlação não tenha sido convertida pelos gregos numa investigação conceitual explícita de seu fundamento.
  • Os gregos pensam, poetizam e agem no interior de aletheia e Lethe sem fazer delas objetos de um pensamento exterior, porque desencobrimento e encobrimento já vigoram previamente como a essência na qual pensar, poetar e agir podem acontecer.
  • A ausência de uma tematização grega inicial da essência da aletheia e de Lethe não constitui deficiência, mas testemunha a necessidade originária sob a qual os gregos permanecem diretamente envolvidos por essa essência.
  • Quando, na conclusão histórica do mundo grego, começa a surgir um pensamento que toma a própria aletheia como objeto, esse movimento já anuncia o término daquela experiência originária.
  • Sempre que aletheia e Lethe são explicitamente nomeadas no domínio reflexivo primordial dos gregos, sua palavra conserva ainda o caráter de saga originária, isto é, de mythos.
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