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obra:ga25:ga25-1

GA25: §1

Introdução: A Crítica da Razão Pura como fundamentação da metafísica como ciência

  • A Crítica da Razão Pura apareceu em 1781, após mais de dez anos de silêncio de Kant, quando ele tinha 57 anos; os contemporâneos ficaram completamente desamparados diante da obra, que ultrapassava toda a literatura filosófica corrente pelo nível de sua formulação de problemas, o rigor de sua formação conceitual, a novidade da linguagem e a amplitude de sua problemática.
  • Para proteger-se de mal-entendidos e facilitar o acesso à Crítica, Kant escreveu em 1783 os Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência; essa obra, escrita com clareza e caráter didático a partir de uma retrospectiva, não reproduz a formulação genial de Kant em sua originalidade.
  • A segunda edição corrigida da Crítica apareceu em 1787 com um novo prefácio e uma introdução mais ampla, sem alterar a estrutura geral, tentando apenas reelaborar peças centrais e aprofundar as demonstrações; a interpretação toma por base ambas as versões.
  • Os prefácios e introduções são escritos após a conclusão da obra e oferecem uma perspectiva prévia a partir de um olhar retrospectivo, sendo verdadeiramente compreendidos apenas a partir do entendimento do todo; por isso a interpretação não se detém neles, mas parte diretamente da parte temática, precedida por uma caracterização geral do problema central.
  • A convicção fundamental de Kant sobre a essência da filosofia pode ser resumida assim: filosofia é metafísica; a Crítica da Razão Pura nada mais é do que a fundamentação da metafísica como ciência e, com isso, da filosofia pura em geral, de modo que o título significa precisamente: fundamentação da metafísica como ciência.
  • As questões que se impõem são: o que significa metafísica, o que significa fundamentação de uma ciência e por que essa fundamentação é uma crítica da razão pura; a interpretação como confronto filosófico já tem nessas perguntas o problema central em torno do qual o debate girará, a saber, a metafísica, seu ser, seu fundamento e sua forma como ciência.

§ 1. O conceito tradicional de metafísica

  • A palavra metafísica originou-se como título editorial para o conjunto de tratados de Aristóteles colocados na sequência das obras depois da Física, designando simplesmente o que vem depois do que trata da natureza e do ser; esse título técnico passou então a caracterizar o conteúdo dessas obras.
  • Nesses tratados, percebeu-se que o todo do mundo é problematizado em dois sentidos: na pergunta pelo fundamento último de todo o ente, que Aristóteles denomina teologia, e na investigação do ente enquanto ente em geral, que recebe o nome de primeira filosofia; ambas as disciplinas têm em comum o fato de ultrapassar o ente experimentável.
  • O prefixo meta no título passou a significar não mais post, na sequência das obras, mas trans, o ultrapassamento daquilo que é tratado na física; a metafísica torna-se assim a ciência do suprassensível.
  • Os objetos da metafísica são a totalidade do mundo, Deus como fundamento do mundo e a alma humana com sua imortalidade e liberdade, aos quais correspondem três disciplinas racionais: a teologia racional, a cosmologia racional e a psicologia racional; todas são ciências da razão, não ciências da experiência.
  • A disciplina que trata do ente em geral, o ens in communi, é a metafísica geral ou metaphysica generalis, também chamada ontologia desde Descartes; ela se distingue das três disciplinas especiais que constituem a metaphysica specialis, cujo centro está na teologia racional.
  • Esse conceito de metafísica e sua articulação formaram-se a partir da Escolástica tardia espanhola e passaram para a filosofia moderna, permanecendo determinantes para Kant, embora ele os tenha reformulado substancialmente; Kant ministrou suas preleções sobre metafísica com base no compêndio de Baumgarten, discípulo de Wolff, que define a metafísica como a ciência que contém os primeiros fundamentos do que o conhecimento humano abarca.
  • O essencial nesse conceito é que a metafísica tem por objeto o conjunto do ente e, segundo seus domínios principais, Deus, mundo e homem; tanto a metaphysica specialis quanto a metaphysica generalis são ciências ônticas, ou seja, tratam do ente, e as obscuridades fundamentais dessa ontologia tradicional persistiram desde Platão e Aristóteles até Kant.
  • Kant faz a primeira tentativa de esclarecer o conceito de ontologia e reformular o conceito de metafísica, mas mesmo em sua reformulação a metafísica própria permanece uma ciência ôntica do ente suprassensível; o suprassensível é para ele o fim último da metafísica, a saber, a liberdade, Deus e a imortalidade.
  • A definição geral que Kant apresenta nos Progressos da Metafísica é que ela é a ciência de avançar, pela razão, do conhecimento do sensível ao do suprassensível; o conhecimento metafísico não é conhecimento pela experiência, mas pela razão, e realiza um ultrapassamento do sensível em direção ao não-sensível, do qual o suprassensível é apenas uma parte.
  • A metafísica tradicional não perguntou pela possibilidade de tal conhecimento do suprassensível; como seus enunciados não podem ser nem confirmados nem refutados pela experiência, e o único princípio de verdade era a não-contradição formal, os metafísicos continuaram na expectativa de insights transcendentes, operando de modo dogmático; por isso Kant chama a metafísica transmitida de metafísica teórico-dogmática.
  • Kant não nega a possibilidade da metafísica, mas mantém seu fim último tradicional; a questão decisiva é apenas: a partir de onde e como é possível arriscar o ultrapassamento em direção ao suprassensível, e como se executa a fundamentação de uma metafísica genuína como ciência.
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