Negação como relação
DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.
** Negação como relação: a interpretação heideggeriana de Sofista 257b3–259d1, de Platão **
** I. Introdução **
1. A interpretação heideggeriana de Sofista 257b3–259d1, desenvolvida nos capítulos 78 e 79 das Preleções sobre o Sofista de Platão, pode ser avaliada mediante sua comparação com interpretações consolidadas acerca da função do diferente, héteron, destacando-se como tese fundamental que a negação constitui para Heidegger a forma primordial da relacionalidade e possui uma potência desveladora capaz de mostrar as próprias coisas, em vez de funcionar apenas como instrumento dialético.
2. A análise exige inicialmente situar os grandes temas do Sofista, reconstruir a tese heideggeriana, confrontá-la com as principais interpretações do texto platônico e finalmente avaliar sua originalidade e sua adequação tanto ao diálogo quanto às demais tradições interpretativas.
** II. Uma visão geral dos temas **
3. Na digressão ontológica do Sofista, o Estrangeiro de Eleia investiga as relações entre os gêneros fundamentais — Ser, Movimento, Repouso, Mesmo e Diferente — e estabelece uma distinção decisiva entre um não-ser absoluto, impossível de dizer ou pensar, e um não-ser relativo que, em determinado sentido, também é.
4. O ser é definido como dýnamis, isto é, capacidade de estabelecer vínculos ou relações entre elementos, de maneira que o héteron desempenha função essencial ao permitir que o ser, mediante movimento relacional, constitua uma pluralidade ordenada e articulada, afastando-se assim do ser parmenidiano estável e exclusivamente idêntico a si mesmo.
5. A determinação platônica do ser como capacidade de agir e padecer possui um caráter produtivo que articula héteron, dýnamis e kínēsis, fazendo da diferença uma força produtiva que opera mediante uma negação não entendida como separação absoluta, mas como antítese ou contrariedade.
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O gênero do movimento funciona exemplarmente para mostrar a eficácia relacional do héteron.
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A diferença não destrói os termos relacionados, mas permite sua determinação recíproca.
6. A descrição das relações entre os gêneros procura explicar por que determinadas coisas podem relacionar-se e outras não, mas a própria relacionalidade constitui a essência das coisas, pois cada ente somente pode ser aquilo que é ao diferenciar-se de outros, fazendo identidade e diferença complementarem-se mutuamente na constituição do real.
7. O héteron pode ser compreendido como um ser relativo cuja modalidade própria de relação se realiza através do “não”, pois a negação efetua uma diferenciação pela qual a identidade se constitui via negationis, sem que essa negação deva ser reduzida a oposição vazia, já que funciona como relação complementar de contrariedade e permite uma nova concepção das enunciações negativas.
8. Compreender o não-ser relativo como Diferente significa atribuir-lhe estrutura relacional, pois A é A justamente em relação àquilo que não é, de modo que o “não-ser” de B relativamente a A pode ser teoricamente reformulado como um “ser-com”, destacando-se a transformação da negação de oposição separadora em antítese complementar.
9. A fragmentação, katakermatízein, do Diferente é esclarecida mediante comparação com o domínio do conhecimento, no qual uma unidade originária se particulariza em múltiplas ciências por efeito da diferenciação operada pelo héteron, mostrando como uma multiplicidade diferenciada pode emergir sem destruir a unidade de origem.
10. A nova concepção do Diferente torna novamente inteligível a relação entre ser e não-ser, pois o não-ser pode tornar-se objeto do discurso sem violar a proibição parmenidiana justamente porque não equivale ao nada absoluto, mas ao Outro em relação a determinado ser.
** III. A interpretação de Heidegger **
** III.1 O “não” como desvelamento das próprias coisas **
11. A interpretação heideggeriana da negação enquanto héteron procura revelar seu caráter desvelador mediante uma leitura fenomenológica abrangente do Sofista.
12. O héteron é compreendido como princípio que se relaciona com todas as coisas via negationis, de modo que o novo sentido platônico do não-ser não possui a força de fazer desaparecer própria do nada absoluto, mas a capacidade de mostrar ou desvelar através da negação.
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A negação implica relação, pois o héteron estabelece vínculos precisamente ao negar.
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A diferença não é simplesmente identificada à negação; ao contrário, a negação é compreendida a partir da diferença como relação que faz aparecer uma diversidade relacional.
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O ato de negar revela simultaneamente o vínculo relacional e aquilo que é negado.
13. Desvelar significa tornar visíveis tanto a conexão entre as coisas quanto sua especificidade própria, fazendo aparecer uma conexão-na-diversidade, porque o “não” possui caráter mostrativo e permite ver algo dos outros relativamente aos quais a negação é pronunciada.
14. A concepção heideggeriana da negação como desvelamento deriva de sua interpretação da Ideia platônica, segundo a qual cada gênero é outro porque possui em si a visibilidade do ser-outro, sendo a própria Ideia compreendida como visibilidade ou possibilidade de aparecimento.
15. A leitura de Platão através de categorias aristotélicas permite a Heidegger interpretar o “não” como potência, dýnamis, do prós ti, isto é, como presença do ser-em-relação-a, fazendo da negação uma estrutura fundamentalmente relacional.
16. A crítica a Platão incide sobre a insuficiente elaboração das diferentes modalidades de oposição, pois Platão procura demonstrar sobretudo que o héteron é um ser, enquanto Aristóteles desenvolveria de maneira mais precisa a diferenciação dos tipos de oposição; ainda assim, Platão teria isolado justamente o aspecto revelador da negação, decisivo para a fenomenologia.
17. A crítica heideggeriana ultrapassa a concepção grega do ser como presença e manifestação e atinge também a própria fenomenologia, pois nem toda negação possui igualmente caráter desvelador.
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Somente a apóphasis determinada pelo héteron enquanto alteridade exerce propriamente a função de revelar.
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A oposição meramente excludente contém um momento de desaparecimento, embora até mesmo o “não” vazio mostre aquilo sobre cujo fundo a negação se estabelece.
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A enantíōsis corresponde à oposição vazia vinculada ao nada, enquanto a antíthesis constitui o “não” desvelador e preenchido pela relação complementar entre os termos.
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O outro substantivo distingue-se, assim, do oposto vazio por possuir conteúdo relacional próprio.
18. A determinação do outro como substantivo e da antítese como relação preenchida exige explicitar aquilo que efetivamente é mostrado pelo ato negativo.
19. A apóphasis mostra as próprias coisas, tôn pragmátōn, especialmente os produtos da poíēsis e a própria alteridade desses produtos em relação ao lógos que os manifesta, introduzindo uma concepção do lógos como manifestação na qual palavra e objeto entram numa relação de diferença.
20. O lógos grego é interpretado como manifestação, mas também como possibilidade de obstrução, pois em sua facticidade originária ele não desvela necessariamente e pode, em sentido extremo, justamente encobrir aquilo de que fala.
21. A existência grega profundamente inserida no discurso implica também aprisionamento nele, razão pela qual o esforço filosófico grego procura superar as tendências deformadoras e encobridoras do lógos mediante um ver puro e não contaminado associado ao noeîn.
** III.3 Héteron como prós ti **
22. O caráter relacional do héteron é enfatizado mediante sua identificação com o prós ti, isto é, com uma intencionalidade relacional segundo a qual dois termos somente podem ser diferentes em virtude da relação que os vincula.
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Aquilo que é outro somente pode ser aquilo que é em relação a algum outro.
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A identidade de A é garantida por sua diferença relativamente a não-A.
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A diferença, ao excluir a identidade entre os termos, participa constitutivamente da determinação da identidade de cada um.
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O “não” deixa de designar um campo vazio de nada arbitrário e torna-se sempre o “não” de algum outro concreto, héteron állou tinos.
23. A estrutura relacional descoberta por Platão impede que tanto o héteron quanto a negação, compreendida como antítese, sejam reduzidos à simples oposição separadora.
** III.4 A relação entre héteron e kínēsis: a função dialética da negação **
24. O héteron, e não a kínēsis, desempenha para Heidegger a função de motor relacional fundamental, enquanto o movimento serve apenas como fio condutor (Leitfaden) para demonstrar a presença universal do Diferente em todos os gêneros.
25. A presença disseminada do héteron revela simultaneamente a onipresença de um não-ser reinterpretado como contrariedade complementar, mas essa determinação não equivale para Heidegger a uma abordagem dialética no sentido hegeliano.
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A negação possui caráter produtivo e uma função purificadora.
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É necessário superar as teorias tradicionais do conhecimento e do juízo para distinguir o “não” que, enquanto outro, faz aparecer da negação meramente excludente que faz desaparecer.
26. Na perspectiva fenomenológica, a negação sucede a uma apreensão e a um desvelamento prévios de algum conteúdo substantivo, pressupondo um ver antecedente da própria coisa, ao passo que a perspectiva dialética compreende a negação como momento produzido por uma conexão conceitual.
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A negação fenomenológica permite conceituar positivamente aquilo que já foi visto.
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O caráter desvelador da negação constitui simultaneamente a essência e o limite da dialética grega.
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Embora Hegel também atribua valor positivo à negação, sua dialética produz estruturas através de um processo, enquanto a interpretação fenomenológica heideggeriana privilegia o desvelamento imediato de um conteúdo já dado.
27. A oposição entre desvelamento fenomenológico e dialética suscita a questão de saber se a própria dialética hegeliana não visa igualmente ao desvelamento e, sobretudo, por que a função platônica da negação deveria ser excluída da dialética apesar da centralidade que tal função possui na filosofia de Platão.
** III.5 A estrutura do héteron **
28. A concepção do héteron como natureza composta de partes, apresentada em Sofista 257c7 e seguintes, é esclarecida por Heidegger mediante a etimologia de katakermatízein, originalmente associada à troca de uma unidade monetária maior por unidades menores da mesma natureza, indicando uma particularização na qual as partes conservam o caráter do todo.
29. A particularização da phýsis thatérou mostra que o héteron, ao contrário da oposição vazia, concretiza-se em relações determinadas, pois o “não” não remete ao nada arbitrário, mas sempre ao outro de algo, permitindo compreender a alteridade como outro concreto.
30. As partes do héteron relacionam-se entre si mediante alteridade, de maneira que a própria Ideia do Diferente possui internamente uma estrutura relacional, possibilidade que poderia ter sido aprofundada mediante comparação com o Filebo, onde a relação opera não apenas entre Ideias, mas também no interior delas.
** III.6 A estrutura do mē ón como antíthesis **
31. A investigação da alteridade permite abordar o não-ser como Outro do ser, exigindo para isso esclarecer a estrutura da antíthesis e sua função na nova determinação ontológica da negação.
32. Pela antítese, aquilo que é negado torna-se simultaneamente outro e contraposto, preservando-se numa relação prós ti em que a negação estabelece tanto a proveniência de não-A a partir de A quanto sua diversidade relativamente a A.
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A proveniência fornece o conteúdo substantivo ou identitário.
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A alteridade estabelece a diversidade enquanto oposição complementar.
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O héteron não se reduz a nenhum dos dois termos opostos nem à soma deles, mas constitui a própria relação complementar produzida pela potência do prós ti.
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Nessa relação, ambos os termos mantêm plena dignidade de presença e de ser, diferentemente da oposição vazia.
33. A natureza do mē ón é compartilhada por todos os entes e apresenta estruturalmente a forma da antíthesis.
** IV. Sofista 257b9–c3, de Platão **
34. A afirmação platônica de que a partícula negativa não significa simplesmente o contrário, mas algo diferente daquilo a que se antepõe ou das coisas designadas pelas palavras subsequentes, fornece uma chave decisiva para interpretar a negação como relação.
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A passagem antecede a análise da comunhão dos gêneros, koinōnía tôn genôn, e da fragmentação da natureza do héteron.
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A nova ontologia do Diferente transforma também a compreensão do lógos, cuja interação entre Formas torna-se possível graças à alteridade.
35. As partículas negativas mē e ou não designam necessariamente contrariedade, mas algo diferente em relação ao qual a negação é pronunciada, permitindo compreender como o não-ser pode tornar-se objeto de discurso sem violar a proibição parmenidiana e estabelecendo uma ponte entre o nível ontológico e o nível lógico-semântico.
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A nova compreensão explica a possibilidade não contraditória das proposições negativas.
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O não-ser relativo pode ser dito precisamente porque não equivale ao nada absoluto.
36. A negação não implica necessariamente contrariedade entre o ato de negar e aquilo que é negado, mas implica necessariamente diversidade, fazendo da alteridade relacional a natureza mais ampla da negação e da contrariedade apenas uma de suas modalidades particulares.
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Ontologicamente, o héteron manifestado na negação é um ser relacional.
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Semanticamente e logicamente, ele expressa a relacionalidade existente entre partes diferenciadas.
37. A análise de Denis O’Brien distingue modalidades progressivas da negação, desde a simples ausência de identidade entre sujeito e objeto, passando pela ausência de identidade acompanhada de ausência de participação e chegando à oposição entre gêneros contrários, sendo somente no caso limite da negação dirigida ao próprio ser que surgiria o não-ser absoluto que a nova determinação platônica da negação procura evitar.
38. A crítica de Monique Dixsaut dirige-se às interpretações de Sofista 257b9–c3 construídas mediante categorias aristotélicas, porque a adoção de Aristóteles como critério último de julgamento faz o relato pré-aristotélico de Platão parecer impreciso, enquanto a passagem deveria ser interpretada pelas categorias dialéticas próprias do pensamento platônico e por suas distinções específicas entre diferentes modalidades de contrariedade.
39. A interpretação representada por Francis Macdonald Cornford, Denis O’Brien, Luc Brisson e Francesco Fronterotta distingue dois sentidos de ser — existência e identidade — para esclarecer a relação entre ser, negação e diferença.
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Se “é” significa existência, sua negação absoluta não é admissível.
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Se “é” significa identidade, sua negação não é contraditória, mas exprime diversidade.
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A passagem de Parmênides a Platão corresponderia à passagem de um ser unitário para duas funções, ser existencial e ser idêntico, sendo este último dialeticamente relacionado ao Diferente.
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O não-ser platônico não nega a existência, mas a identidade, tornando-se equivalente à diferença, embora a negação possa conservar também uma dimensão de contrariedade.
40. A interpretação sintática inaugurada por Gwilym Ellis Lane Owen e desenvolvida pela Escola de Oxford compreende o significado de um termo por suas possíveis extensões, distinguindo o não-ser absoluto parmenidiano, de extensão nula e portanto impossível de predicar, do não-ser relativo platônico, que possui múltiplos “outros” como conteúdo predicável.
41. A interpretação de Dixsaut, próxima em vários aspectos da de Stanley Rosen e parcialmente convergente com Heidegger, destaca a capacidade desveladora e indicativa da predicação negativa, pela qual aquilo que é negado é simultaneamente mostrado dentro de um processo dialético.
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A negação não determina necessariamente um único objeto, mas pode indicar uma multiplicidade indeterminada de outros.
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A proposição negativa não desempenha apenas função determinativa, mas desencadeia o movimento reflexivo da dialética.
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As expressões negativas convocam novas perguntas e argumentos, manifestando diretamente uma potência dialética.
** IV.1 As partes do Diferente **
42. A afirmação de que a oposição entre uma parte do Outro e a natureza do ser possui tanta realidade quanto o próprio ser suscita o problema de como os gêneros, por definição extremamente gerais, podem ser divididos em partes e de como o Diferente pode permanecer uma única natureza, mía phýsis, sem tornar-se mera síntese de unidades menores.
43. A doutrina das partes procura explicar simultaneamente que o Diferente somente é diferente em relação a outros, que possui múltiplas modalidades e que apenas uma de suas partes — aquela contraposta especificamente ao Ser — pode ser identificada como não-ser.
44. A analogia com o conhecimento permite compreender a unidade diferenciada do héteron, pois assim como o conhecimento é uma única natureza composta de ramos particulares com denominações específicas, o Diferente é uno e simultaneamente particularizado em todas as relações de alteridade que produz.
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Há uma parte do Diferente relativa ao não-belo, outra relativa ao não-justo e assim sucessivamente.
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Essas partes negativas expressam positivamente a alteridade relativamente a outros gêneros.
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A oposição torna-se apenas uma entre as diversas modalidades de relação que constituem o Diferente.
45. Cada parte da alteridade possui sua natureza integralmente determinada pelo ser-outro relativamente a alguma natureza específica, de modo que a doutrina das partes pode articular o sentido das predicações negativas e fazer de cada parte uma determinação intencional do Outro.
46. A operação negativa é compreendida por Dixsaut como processo dialético e não simplesmente como relação lógica, pois o não-ser surge da antítese específica entre o ser e uma parte do Uno diferente do ser, fazendo dessa parte um não-ser por meio do próprio processo relacional.
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As partes do Diferente tornam-se momentos de uma relação recíproca e assimétrica.
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A negação articula simultaneamente separação e oposição.
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A função dialética encontra-se vinculada à função ontológica, porque o ser enquanto dýnamis desencadeia o exercício diferenciador da dialética.
47. A fragmentação do Diferente indica, segundo Cornford, sua constituição como relação entre os gêneros e portanto sua extensão sobre todo o domínio do ser, enquanto a transformação do conceito de eînai torna o próprio ser capaz de tecer relações e estabelecer comunicação entre os diversos gêneros que constituem o real.
48. A coexistência estrutural entre Ser e Diferente, embora recusada por muitos intérpretes, constitui uma característica decisiva da ontologia platônica cuja importância Heidegger teria corretamente destacado ao enfatizar o héteron como prós ti.
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A interpretação torna visível a pluralidade intrínseca do próprio ser, concebido como relação.
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A fragmentação do Diferente permite ao Estrangeiro afirmar o ser do não-ser como apenas uma de suas partes.
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O não-ser pensável e exprimível é o Outro do ser, não seu oposto absoluto.
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A oposição entre ser e não-ser deixa de constituir necessidade absoluta e torna-se um caso particular de relação.
** IV.2 Relação através da negação **
49. A ontologia relacional pode ser radicalizada para sustentar uma determinação recíproca dos contrários, embora Platão não afirme propriamente a coexistência de contraditórios, pois Ser e Não-Ser não se enfrentam como contrários absolutos, mas se articulam segundo antíthesis.
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Sócrates pode não ser nem bom nem mau, mas precisa ser bom ou não-bom, sem que isso viole o princípio de não-contradição.
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A definição platônica opera através da relação entre opostos, fazendo a negação estabelecer justamente um vínculo com aquilo que pretende negar.
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Os opostos deixam de funcionar como seres absolutos isolados e tornam-se contrários inferenciais cuja determinação depende de implicação recíproca.
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O não-bom constitui a parte do Diferente colocada diante do bom, mas essa antítese deve ser interpretada como conexão mediante negação e não como separação absoluta.
50. A articulação entre Mesmo e Diferente exige superar a concepção dualista que isola os termos opostos e compreender a negação como uma modalidade da relacionalidade constitutiva da dýnamis do ser.
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A relação não constitui elemento intermediário externo entre dois termos, mas integra o próprio ser deles ao estabelecer simultaneamente sua identidade e sua diferença.
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Não há simplesmente A sem B, mas A-com-B e B-com-A dentro de uma estrutura relacional de multiplicidade e diferença.
51. A identidade deixa, nessa perspectiva, de ser uma tautologia parmenidiana e passa a implicar relação com a diferença, de modo que a comunicação ordenada entre os gêneros permite reformular simultaneamente não-ser, identidade e diferença dentro de uma ontologia relacional.
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A dialética mostra a coexistência das diferenças ao contrapô-las mediante o “não” e simultaneamente produzir complementação.
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A oposição torna-se relação em vez de separação.
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Essa estrutura pode ser denominada dualidade relacional, na qual os entes permanecem distintos justamente porque participam reciprocamente de uma multiplicidade relacional.
** V. Conclusão: avaliação da interpretação de Heidegger **
52. A avaliação final da leitura heideggeriana deve reconhecer simultaneamente suas fragilidades e os elementos inovadores que merecem reconsideração crítica.
** V.1 O desprezo pela dialética **
53. Segundo Francisco Gonzalez, o diálogo filosófico entre Platão e Heidegger é prejudicado pela insuficiente consideração heideggeriana da função fundamental desempenhada pela dialética no pensamento platônico.
54. A recusa heideggeriana da função dialética da negação privilegia seu aspecto fenomenológico desvelador, embora o próprio desvelamento possa ser compreendido, sem eliminar as diferenças entre dialética e maiêutica, como finalidade última do processo dialético.
55. A dialética hegeliana revela através da síntese aquilo que já estava presente de maneira abstrata e isolada na tese, enquanto Heidegger rejeita sobretudo a dependência do desvelamento em relação a um processo temporal, concebendo a manifestação como acontecimento imediato no qual, ao ser posto não-A, A também se mostra imediatamente.
56. A produtividade também está presente na perspectiva heideggeriana, mas inicialmente em sentido husserliano como dinâmica pré-lógica estruturadora da vida fática (das faktische Leben), enquanto a posterior crítica heideggeriana a Platão acusará a ligação imediata entre ser e lógos de não reconhecer a diferença ontológica e de dificultar a compreensão da historicidade constitutiva da existência, permanecendo contudo em aberto se a dialética platônica realmente carece dessa dimensão temporal.
57. A purificação platônica encontra-se articulada ao procedimento elêntico e à sofística nobre, mas a interpretação heideggeriana tende a isolá-la do processo no qual ocorre.
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A maiêutica articula análise da posição do interlocutor, manifestação dos erros e aparecimento da verdade.
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A manifestação imediata da verdade exige previamente um procedimento capaz de conduzir ao ponto em que o salto emancipador possa acontecer.
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Procedimento e salto desvelador não são incompatíveis, mas constituem conjuntamente um problema central da teoria platônica do conhecimento.
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A crítica heideggeriana à ausência de temporalidade em Platão perde força se a filosofia platônica já integrar processos temporais a momentos súbitos de revelação.
58. A dialética platônica é reduzida por Heidegger ao sentido fenomenológico do fazer-ver aquilo que propriamente se mostra nos entes, interpretação que apreende apenas uma dimensão do método platônico e deixa em segundo plano a relação entre desvelamento e procedimento pela qual se forma uma concepção determinada da verdade, do aperfeiçoamento humano e da pólis mediante a prática filosófica.
** V.2 Negação como “desvelamento” **
59. A interpretação heideggeriana constitui uma alternativa tanto às leituras fundadas nos diferentes sentidos do ser quanto às interpretações dialéticas e sintáticas da negação, e sua contribuição fundamental reside em reconhecer na própria negação — e não apenas na verdade — um caráter revelador, ainda que sua dimensão dialética permaneça insuficientemente considerada.
60. A integração do caráter desvelador da negação ao processo dialético permitiria compreender de maneira filosoficamente fecunda a relação entre conhecimento enquanto procedimento temporal e verdade enquanto momento instantâneo de descontinuidade, abrindo também uma via para pensar a relação entre diálogo socrático, dialética platônica e caráter cognitivo do élenchos.
61. A interpretação heideggeriana da negação platônica permite compreender a resposta de Platão à sofística porque negar não equivale a falsificar: o discurso falso encobre algo ao fazer aparecer aquilo que não é, enquanto a negação revela a relação com aquilo que é negado e, através dessa relação, pode desvelar a verdade.
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O caráter revelador da negação permite ainda apreender a relacionalidade entre os gêneros e entre todos os entes.
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A comunhão dos gêneros pode ser compreendida como um mostrar-se deles em comunidade.
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O caráter transcategorial do Diferente confere dimensão reveladora a toda a comunicação dos gêneros.
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A recorrência do desvelamento em diferentes problemas do Sofista evidencia a presença disseminada da negação como relação.
62. A leitura heideggeriana oferece a possibilidade de compreender a filosofia platônica como modelo de uma metafísica das relações, na qual o héteron ilumina as conexões entre os entes e mostra que negar não significa instaurar oposição isolante, mas estabelecer relação complementar no interior do Diferente.
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A caracterização do héteron como prós ti exprime uma determinação fundamental da dýnamis.
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Essa determinação fornece simultaneamente um novo sentido da negação e uma chave interpretativa que merece consideração cuidadosa.
63. Uma interpretação de Platão capaz de superar o dualismo tradicional em favor de uma dualidade relacional entre os diferentes encontra importante apoio na compreensão heideggeriana da negação como desvelamento e do héteron como ser relacional.
