Em-si
DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.
** O “em-si” é relacional? Heidegger e a pesquisa contemporânea sobre Sofista 255c–e, de Platão **
** I. Introdução **
1. A demonstração apresentada pelo Estrangeiro de Eleia em Sofista 255c9–e2, destinada a provar que alteridade e ser não são dois nomes de um único gênero, ocupa posição decisiva no diálogo por conter uma formulação diretamente relacionada à maneira pela qual o próprio ser e a Forma do ser são ditos, embora permaneça profundamente controvertido o sentido exato dessa passagem e os critérios pelos quais as interpretações concorrentes poderiam ser comparadas e avaliadas.
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A dificuldade não consiste apenas em escolher entre leituras divergentes, mas também em determinar o princípio que organiza suas diferenças e o fundamento hermenêutico capaz de conferir maior força a uma delas.
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A observação heideggeriana acerca do caráter relacional do “em-si”, articulada à objeção de Michael Frede contra as interpretações tradicionais, oferece um ponto de partida para reconstruir sinteticamente essas posições e explicitar os problemas que elas precisam enfrentar.
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A investigação do fundamento da observação de Heidegger permite ainda aproximar a controvérsia sobre o “em-si” da questão da temporalidade no Sofista.
2. O percurso interpretativo parte da apresentação da passagem problemática e de observações preliminares acerca da proximidade e da distância entre Heidegger e a pesquisa contemporânea, examina duas versões da interpretação tradicional, esclarece a afirmação heideggeriana de que o “em-si” possui estrutura relacional a partir da compreensão (Verstehen) e da temporalidade de Ser e tempo (Sein und Zeit), relaciona essa tese à objeção de Michael Frede e finalmente contrapõe duas respostas contemporâneas, uma defensora da leitura tradicional e outra que admite um “em-si” relacional.
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Mesmo caso a interpretação tradicional da prova de 255c9–e2 permaneça correta, subsistem passagens estratégicas do Sofista nas quais Platão parece falar das Formas relativamente a elas mesmas.
** II. A demonstração **
3. Em Sofista 255c9–e2, a distinção entre ser e alteridade é estabelecida mediante a afirmação de que alguns entes são ditos em si mesmos, autá kath’hautá, enquanto outros são sempre ditos relativamente a outros, prós álla, ao passo que a alteridade somente pode ser dita em relação a algo diferente.
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Se ser e alteridade fossem o mesmo gênero, seria possível que alguma coisa outra fosse outra sem ser relativamente a outra coisa, uma vez que o ser abrange tanto aquilo que é dito em si quanto aquilo que é dito relativamente.
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Como tudo aquilo que é outro é necessariamente outro relativamente a algo diferente, a natureza da alteridade deve ser reconhecida como um quinto gênero distinto do ser.
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A força da demonstração depende, portanto, do estatuto concedido à oposição entre aquilo que é dito kath’hautó e aquilo que é dito prós állo.
** III. Dificuldades preliminares **
4. A distinção entre alteridade e ser não pode ser demonstrada simplesmente por sua extensão, porque ambos se aplicam exatamente aos mesmos entes — a tudo aquilo que é — e permanecem extensionalmente equivalentes inclusive sob uma perspectiva modal, razão pela qual Heidegger procura diferenciá-los por seu conteúdo categorial e não pelo domínio dos objetos aos quais se aplicam.
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Ser e alteridade possuem, para Heidegger, conteúdos categoriais diferentes, embora compartilhem o mesmo domínio de presença categorial.
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Platão não teria distinguido suficientemente o conteúdo categorial de uma determinação do domínio ôntico no qual ela se aplica, isto é, o plano ontológico do plano ôntico.
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Essa crítica aproxima-se de interpretações linguísticas contemporâneas que atribuem ao Sofista insuficiente distinção entre funções diferentes de expressões como “mesmo”, usadas ora predicativamente, ora como nomes abstratos.
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Permanece, contudo, controverso tanto o grau de consciência platônica dessa distinção quanto a real necessidade de explicitá-la para que a estratégia filosófica do diálogo funcione.
5. Uma segunda dificuldade reside na possível circularidade da demonstração, porque provar que a alteridade é diferente do ser já parece pressupor um significado operante da própria alteridade cuja autonomia se pretende demonstrar.
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O Estrangeiro acabara de estabelecer que a mesmidade difere do ser, e Heidegger considera possível que a autonomia da alteridade seja derivada desse resultado anterior.
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Stanley Rosen radicaliza o problema ao sustentar que os gêneros máximos parecem precisar ser previamente inteligíveis como constituintes elementares de todo discurso racional antes de poderem ser analisados ou definidos.
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A investigação dos gêneros fundamentais tende, assim, a mover-se numa estrutura inevitavelmente indireta ou circular, pois os conceitos empregados na demonstração são precisamente aqueles cuja natureza se deseja esclarecer.
** IV. Interpretações tradicionais **
6. A interpretação categorial inaugurada por Francis Macdonald Cornford compreende autá kath’hautá e prós álla como designações, respectivamente, de predicados ou propriedades não relacionais e relacionais, distinguindo aquilo que possui significado completo por si mesmo, como “homem”, daquilo que exige um complemento relacional, como “maior que”.
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O ser participa das duas categorias porque tanto propriedades não relacionais quanto relacionais são entes.
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A alteridade, ao contrário, nunca existe como propriedade não relacional, pois ser outro significa necessariamente ser outro que alguma coisa.
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Consequentemente, alteridade e ser não podem ser o mesmo gênero.
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A demonstração depende, nessa leitura, de uma classificação exaustiva entre propriedades absolutas e propriedades relativas.
7. Uma segunda interpretação tradicional mantém a oposição entre o não relacional e o relacional, mas transfere a distinção do domínio dos predicados para dois usos do verbo “ser”, um completo e outro incompleto.
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Autá kath’hautá corresponderia ao uso completo de “ser”, como em “Jane é”, no qual nenhuma complementação seria necessária para formar a expressão relevante.
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Prós álla abrangeria usos incompletos de “ser”, como em “Jane é lenta”, nos quais o verbo precisa de complementação.
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Como “ser outro” apresenta apenas uso incompleto e relacional, enquanto “ser” admite também uso completo, alteridade e ser devem constituir gêneros distintos.
** V. A crítica heideggeriana à concepção platônica do kath’hautó **
8. Heidegger parece compartilhar com as interpretações tradicionais a pressuposição inicial de que aquilo que é dito autó kath’hautó não é relacional, enquanto aquilo que é dito prós állo o é, traduzindo essa oposição fenomenologicamente como duas direções nas quais o lógos pode desvelar os entes: na presença simples em que são aquilo que são e na modalidade do ser-em-relação-a.
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A aproximação é reforçada pela conexão estabelecida entre Sofista 255c13–14 e a distinção do Filebo entre coisas belas em si mesmas, kath’hautá, e coisas belas relativamente a algo, prós ti.
9. A contribuição mais radical de Heidegger consiste, porém, em recusar que o kath’hautó possa ser genuinamente independente do prós ti, pois a relação constitui também um momento estrutural a priori do “em-si” e, neste caso, o relacionar-se volta-se reflexivamente para a própria coisa.
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A afirmação parece inicialmente paradoxal porque Heidegger critica justamente a dialética platônica por permanecer no lógos e não alcançar plenamente as próprias coisas.
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Quando Platão aparentemente reconhece coisas que existem “em si mesmas”, Heidegger responde que mesmo esse “em-si” permanece internamente estruturado por relação.
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A crítica não afirma simplesmente que não exista um “em-si”, mas que aquilo que aparece como presença objetiva independente já repousa sobre uma estrutura relacional mais originária.
10. O paradoxo diminui quando se enfatiza o légesthai de 255c14, pois o Estrangeiro não afirma simplesmente que algumas coisas são em si mesmas, mas que algumas coisas são ditas em si mesmas, permanecendo assim no horizonte linguístico do légein que Heidegger considera incapaz de alcançar puramente as coisas enquanto tais.
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A dialética platônica permanece vinculada às determinações produzidas pelo discurso.
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O acesso pleno às coisas exigiria libertar-se tanto da mediação linguística quanto de qualquer perspectiva determinada para alcançar o puro ver, noeîn.
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Ainda permanece, entretanto, a questão decisiva de por que a concentração platônica no dialégesthai impediria Platão de apreender a estrutura relacional das próprias coisas.
11. A afirmação de que o prós ti constitui um momento estrutural a priori do kath’hautó torna-se inteligível à luz da análise de Ser e tempo (Sein und Zeit), na qual o ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) cotidiano não encontra inicialmente objetos isolados dotados de pura presença, mas utensílios inseridos em redes de remissão e definidos por sua serventia.
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Aquilo que aparece no mundo possui primordialmente estrutura de “algo para”, vinculando-se sempre a outros utensílios num complexo referencial composto, por exemplo, por tinta, papel, mesa, lâmpada e mobiliário.
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Um utensílio não aparece originariamente como simples coisa subsistente, mas como algo utilizável dentro de uma totalidade de relações.
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Somente quando a rede funcional sofre ruptura o ente começa a aparecer como objeto destacado em sua presença objetiva.
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Mesmo essa presença objetiva continua derivada da relação originária com sua utilizabilidade, como ocorre com uma caneta sem tinta que se mostra precisamente como caneta que precisa ser reparada.
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O prós ti pode, assim, ser entendido como indicação da relacionalidade primordial dos entes encontrados no mundo, enquanto o kath’hautó corresponderia a uma presença objetiva derivada desse fundo relacional e permanentemente dependente dele.
12. A dificuldade reaparece porque o próprio Heidegger reconhece que Platão apreendeu a estrutura relacional do lógos ao analisar como o discurso destaca algo dentro de um ente previamente dado e o toma sempre como alguma coisa.
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A distinção platônica entre perí hoû e hótou é interpretada como explicitação da maneira pela qual o ente previamente dado, aquilo acerca do qual se fala, é articulado discursivamente sob determinada determinação.
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Na proposição “Teeteto está sentado”, Teeteto é previamente dado como aquilo acerca do qual se fala e é tomado como sentado mediante a estrutura discursiva do como.
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Heidegger reconhece, portanto, que Platão percebeu que o lógos nunca apreende simplesmente algo “em si”, mas sempre algo como algo.
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O problema desloca-se então da presença ou ausência de relacionalidade para o nível no qual Platão teria situado essa estrutura.
13. A limitação platônica residiria em compreender a estrutura do “como” predominantemente no plano lógico e apofântico, sem alcançar seu fundamento existencial mais originário no modo de ser do ser-aí (Dasein).
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O ser-no-mundo permite manejar e utilizar os entes porque o próprio ser-aí possui uma possibilidade de ser que Heidegger denomina compreensão (Verstehen).
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A compreensão desvela o mundo e desenvolve-se mediante interpretação, Auslegung, na qual os entes são sempre compreendidos a partir de sua serventia e de seu “para-quê”.
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A interpretação é pré-predicativa: não é necessário formular uma proposição para que algo já tenha sido compreendido como algo.
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O “simples ver” já constitui interpretação, pois nunca se encontra primeiro um objeto neutro para posteriormente lhe acrescentar uma determinação.
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O “como” existencial-hermenêutico precede, portanto, o “como” apofântico da proposição, e Platão teria permanecido principalmente neste segundo nível.
14. A relacionalidade existencial do “como” encontra fundamento ainda mais profundo na temporalidade (Zeitlichkeit) da compreensão, especialmente em sua orientação para o futuro, porque compreender significa projetar possibilidades e o futuro constitui o fundamento ontológico desse poder-ser.
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A estrutura do “como” deriva da temporalidade do compreender e não simplesmente de operações linguísticas ou lógicas.
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A temporalidade é originariamente ekstática, isto é, existe “fora de si” ao articular futuro, passado e presente.
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Essa ekstasis reforça, em vez de enfraquecer, o caráter relacional do ser, porque a própria abertura temporal pela qual o mundo se mostra já é uma estrutura de ultrapassamento de si.
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A crítica heideggeriana a Platão alcança assim seu sentido mais radical: não reconhecer a primazia do prós ti significa não reconhecer a temporalidade ekstática subjacente à compreensão do ser.
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A dialética teria impedido Platão de apreender suficientemente a estrutura temporal e relacional do ser em geral e do kath’hautó em particular.
15. A questão decisiva torna-se então saber se Platão realmente deixou de compreender a estrutura relacional do autó kath’hautó, problema que reaparece de maneira particularmente aguda na objeção formulada por Michael Frede contra as interpretações tradicionais da demonstração.
** VI. Objeção às interpretações tradicionais: e quanto à identidade? **
16. A objeção de Michael Frede sustenta que prós álla parece exigir referência a algo diferente, mas existem predicados relacionais e usos incompletos do verbo “ser”, especialmente aqueles vinculados à identidade, que estabelecem relações reflexivas e não remetem necessariamente a algo diferente do próprio sujeito.
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A expressão “é o mesmo que” é relacional, mas pode relacionar algo consigo mesmo.
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O “é” de identidade também constitui uso incompleto do verbo sem exigir um segundo objeto realmente diferente.
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Consequentemente, prós álla não pode abranger todos os predicados relacionais nem todos os usos incompletos de “ser”, como pressupõem as interpretações tradicionais.
17. A proximidade com Heidegger é significativa porque tanto Frede quanto Heidegger identificam o problema das relações que algo mantém consigo mesmo, mas divergem sobre aquilo que esse problema demonstra.
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Heidegger conclui que Platão não conseguiu apreender plenamente a relacionalidade do “em-si” e da mesmidade por limitações filosóficas de sua ontologia.
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Frede, ao contrário, considera que o problema recai sobre as interpretações tradicionais, que não conseguem reconstruir corretamente a relação reflexiva de identidade pressuposta pela própria passagem.
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Frede supõe, portanto, que Platão compreendeu ao menos certas modalidades de relação reflexiva, enquanto Heidegger atribui ao pensamento platônico uma insuficiência estrutural nesse ponto.
18. A tensão entre essas posições permite organizar as interpretações contemporâneas em duas grandes estratégias destinadas a fornecer uma explicação consistente da relação de algo consigo mesmo: preservar as interpretações tradicionais mediante ajustes ou abandonar o caráter não relacional do kath’hautó e compreendê-lo como uma modalidade especial de relação reflexiva.
** VII. Primeira reação: defesa das interpretações tradicionais **
19. As defesas contemporâneas da interpretação categorial procuram responder à objeção de Frede sobretudo esclarecendo o estatuto de predicados reflexivos como “ser o mesmo que”, embora os argumentos formulados possam também ser adaptados, com algumas limitações, à leitura que distingue usos completos e incompletos do verbo “ser”.
20. Uma primeira defesa procura mostrar que prós álla não exige necessariamente diferença extensional entre o sujeito e aquilo que completa o predicado relacional, admitindo como “outro” algo apenas intencionalmente distinto.
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Proposições como “David Cameron é o mesmo que o primeiro-ministro do Reino Unido” relacionam expressões intencionalmente distintas que possuem a mesma extensão.
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Algo semelhante poderia ocorrer na formulação contrafactual “movimento é o mesmo que repouso”.
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Desse modo, “ser o mesmo que” poderia aparentemente permanecer no campo de prós álla sem exigir dois indivíduos numericamente distintos.
21. Essa solução, contudo, não basta para preservar a interpretação categorial, porque a oposição tá mén/tá dé parece exigir duas classes exaustivas e mutuamente exclusivas, de maneira que prós álla precisaria incluir todos os predicados relacionais e não apenas alguns deles.
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Existem relações reflexivas como “David Cameron é o mesmo que David Cameron” ou a afirmação platônica de que o movimento é o mesmo por participar da mesmidade relativamente a si próprio.
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Nesses casos não há diferença nem extensional nem intencional entre os termos.
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Portanto, mesmo uma interpretação flexível de álla como diferença intencional não consegue incluir todos os predicados relacionais dentro da categoria prós álla.
22. Uma resposta possível consiste em abandonar o caráter exaustivo da oposição tá mén/tá dé e admitir uma terceira classe implícita de predicados relacionais relativos a si mesmos, prós heautó, situada entre os predicados não relacionais e aqueles relativos a algo diferente.
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A solução preserva relações reflexivas como “ser o mesmo que si próprio”.
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Seu custo consiste em reconhecer que a passagem não apresenta explicitamente uma classificação exaustiva, enfraquecendo uma das premissas fundamentais da leitura categorial tradicional.
23. Outra estratégia identifica prós álla a prós ti e entende “relativamente a outros” como maneira não rigorosa de designar a relação em geral, que também poderia incluir relações reflexivas como “ser o mesmo que”.
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O uso aristotélico de prós héteron para designar os relativos em geral fornece apoio lexical externo para essa interpretação.
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Se prós álla equivaler a prós ti, a categoria relacional pode abranger tanto relações com algo diferente quanto relações de identidade consigo mesmo.
24. A assimilação de prós álla a prós ti também favorece a segunda versão da interpretação tradicional, porque todos os usos incompletos de “ser”, inclusive os usos identitários, poderiam então pertencer ao lado prós álla, enquanto autó kath’hautó continuaria designando apenas os usos completos de “ser”.
25. Essa estratégia permanece discutível por depender sobretudo de testemunhos exteriores ao corpus platônico, especialmente Aristóteles, ainda que sua proximidade lexical e conceitual com o Platão tardio possa conferir alguma plausibilidade à aproximação.
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Tentativas de encontrar no próprio corpus platônico uma equivalência entre prós ti e prós héteron, particularmente no Filebo, reduzem a dificuldade sem eliminá-la.
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A interpretação categorial continua precisando atribuir a prós álla o sentido mais amplo de prós ti, em vez de aceitar diretamente seu significado literal de relação com algo diferente.
26. Uma defesa mais radical propõe alterar a leitura textual de prós álla para prós allēla, apoiando-se em determinados manuscritos e fazendo da passagem uma oposição entre termos completos e pares de termos reciprocamente relacionados.
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Prós allēla introduziria relações recíprocas compostas por um predicado e seu converso, como “maior que” e “menor que”.
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Relações simétricas como “outro que” e “mesmo que” também poderiam ser incluídas porque nelas a relação coincide com seu converso.
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A objeção de Frede perderia força, uma vez que todos os predicados incompletos, inclusive os de identidade, seriam acomodados nessa estrutura.
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A dificuldade consiste na assimetria entre um lado da distinção, constituído por um termo completo, e o outro, constituído por um par de termos incompletos, estrutura que não parece harmonizar-se naturalmente com a oposição tá mén/tá dé nem com a referência comum tôn óntōn.
** VIII. Segunda reação: um kath’hautó relacional **
27. Uma alternativa mais profunda consiste em abandonar a identificação do kath’hautó com o não relacional e admitir que relações reflexivas pertencem precisamente ao lado autó kath’hautó, diferenciando-as das relações que algo mantém com outra coisa.
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Essa estratégia não precisa reinterpretar prós álla como prós ti.
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Não precisa alterar o texto para prós allēla.
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Tampouco precisa acrescentar uma terceira categoria ausente da passagem.
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Sua questão decisiva passa a ser quais tipos de relações reflexivas podem legitimamente ser atribuídos ao kath’hautó.
28. Numa primeira versão relacional, o Estrangeiro distinguiria propriedades que relacionam algo consigo mesmo de propriedades que relacionam algo a outra coisa.
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“Ser o mesmo que” constituiria exemplo de propriedade reflexiva pertencente ao kath’hautó.
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“Ser outro que” pertenceria necessariamente ao prós állo, porque nada pode ser outro que si mesmo.
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O ser participaria das duas espécies de relação, enquanto a alteridade apenas da relação com algo diferente.
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A distinção entre ser e alteridade seria, assim, preservada sem negar o caráter relacional do “em-si”.
29. Uma segunda versão interpreta a diferença entre kath’hautó e prós állo em termos de dois usos relacionais e incompletos do verbo “ser”, um correspondente à identidade e outro à predicação.
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A passagem deveria ser compreendida no contexto das discussões anteriores de Sofista 251–252, nas quais são distinguidas proposições identitárias, como “homem é homem”, e predicativas, como “homem é cruel”.
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O “é” do kath’hautó seria o uso identitário no qual o sujeito é completado por ele mesmo.
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O “é” do prós álla corresponderia ao uso predicativo no qual o sujeito é completado por algo diferente.
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A expressão synkhōreîn em 255c poderia pressupor justamente essa distinção anteriormente adquirida pelos interlocutores.
30. Nessa leitura, quando “x é” recebe como complemento algo diferente de x, produz-se predicação, enquanto, quando recebe o próprio x como complemento, produz-se uma afirmação de identidade, de modo que a alteridade, sempre completada por algo diferente, não pode coincidir com o ser, que admite ambas as formas.
31. A interpretação encontra, contudo, uma dificuldade na estrutura tá mén… tá dé…, que parece introduzir duas classes mutuamente exclusivas de entes, enquanto tanto o “é” de identidade quanto o “é” de predicação podem aplicar-se aos mesmos entes.
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Tudo pode ser objeto tanto de uma afirmação identitária quanto de alguma predicação.
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Seria possível tentar interpretar tôn óntōn como “instâncias do verbo ser” e dividir tais instâncias em usos identitários e predicativos.
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Essa solução, porém, atribui à expressão tôn óntōn um sentido artificial e excessivamente técnico.
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O mesmo problema afeta a leitura tradicional baseada na distinção entre usos completos e incompletos do verbo, já que ambos também podem aplicar-se aos mesmos entes.
32. Uma terceira possibilidade associa os dois lados da distinção a duas maneiras diferentes de participar do ser e, correlativamente, a duas classes diferentes de entes: gêneros e particulares sensíveis.
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Todo gênero possui uma natureza própria e é ente também por ser idêntico a si mesmo, podendo portanto participar do ser relativamente a si próprio, kath’hautó.
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Os particulares sensíveis não possuiriam uma natureza dessa mesma maneira e seriam aquilo que são por participar de propriedades diferentes deles, relacionando-se sempre ao ser prós állo.
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Alguns entes — os gêneros — participariam então do ser relativamente a si mesmos, enquanto os particulares o fariam relativamente a outra coisa.
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Tudo aquilo que participa da alteridade, ao contrário, participa dela necessariamente relativamente a algo diferente.
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A diferença estrutural entre ser e alteridade estaria novamente assegurada sem reduzir kath’hautó ao não relacional.
33. Essa interpretação atribui ao Estrangeiro precisamente uma concepção próxima daquela que Heidegger julgava inacessível a Platão: a distinção entre entes ditos relativamente a si mesmos e entes ditos relativamente a algo diferente.
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A própria definição do ser como dýnamis, capacidade de afetar e ser afetado, poderia fornecer evidência adicional de que Platão reconhecia uma relacionalidade intrínseca ao ser.
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A força desse argumento permanece limitada porque é controverso se a definição de ser como dýnamis, formulada na seção aporética, continua válida na parte construtiva do diálogo.
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Também permanece necessário determinar se tal definição expressa a posição filosófica de Platão ou apenas uma hipótese argumentativa atribuída ao Estrangeiro de Eleia.
34. Todas as interpretações relacionais enfrentam ainda uma objeção textual simples: se Platão pretendesse distinguir explicitamente a relação consigo mesmo da relação com algo diferente, seria mais natural escrever prós heautá em vez de autá kath’hautá, razão pela qual o texto não resolve de modo inequívoco a controvérsia.
** IX. Conclusão **
35. A observação heideggeriana acerca do caráter intrinsecamente relacional do “em-si” fornece um princípio fecundo para reconstruir sinteticamente as interpretações contemporâneas de Sofista 255c9–e2 e para tornar visíveis as dificuldades específicas que cada leitura enfrenta, especialmente no tratamento das relações reflexivas.
36. Mesmo que a interpretação segundo a qual Platão contrapõe relações consigo mesmo e relações com algo diferente não seja aceita e a leitura tradicional permaneça correta, o Sofista contém passagens estratégicas em que as Formas são explicitamente ditas relativamente a elas mesmas.
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Para afirmar que algo constitui uma Forma ou gênero, Platão não se limita a dizer simplesmente que “x é”, mas formula estruturas identitárias do tipo “x é x”.
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Nessas formulações, as Formas não são ditas relativamente a algo diferente nem de modo absolutamente não relacional, mas relativamente a elas mesmas.
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A reflexividade parece, portanto, integrar efetivamente ao menos alguns modos platônicos de falar acerca das Formas.
37. A Forma ou gênero “sofista” fornece outro exemplo de relação consigo mesmo, pois sua definição não se limita à tautologia “sofista é sofista”, mas explicita aquilo que o sofista essencialmente é através da longa determinação dialética que o situa como pertencente à produção humana de imagens, à imitação aparente, à contradição discursiva e ao uso insincero e ignorante da palavra.
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A determinação não relaciona simplesmente o sofista a algo exterior, mas explicita sua própria essência mediante articulações internas.
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Dizer o sofista dessa maneira significa relacioná-lo consigo mesmo enquanto aquilo que ele propriamente é.
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A reflexividade deixa, assim, de possuir caráter meramente tautológico e torna-se uma explicitação estrutural da essência.
38. As duas maneiras de dizer a Forma do sofista relativamente a si mesma diferem porque a segunda depende do processo dialético temporal mediante o qual sua essência foi gradualmente determinada ao longo do diálogo.
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A afirmação tautológica da identidade da Forma é imediata, enquanto sua determinação essencial resulta de uma investigação sucessiva.
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O processo dialético pode novamente ocorrer sempre que o Sofista é lido ou quando se retoma filosoficamente a pergunta pelo que é a sofística.
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A pesquisa dialética aparece, portanto, como apreensão temporal de uma essência que provavelmente não é ela mesma temporal.
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Essa estrutura enfraquece a acusação heideggeriana de que Platão teria permanecido cego à temporalidade constitutiva da abertura humana do mundo.
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O Sofista pode ser compreendido, ao contrário, como elaboração propriamente filosófica dessa dimensão temporal, na qual o desvelamento de uma essência exige um percurso dialético que se desenvolve no tempo.
