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obra:ga17:ga17-25-30-phantasia

GA17:25-30 – ENGANO E ILUSÃO

** c) A possibilidade do engano, o λόγος ἀποφαντικός e a αἴσθησις **

1. A possibilidade do engano e da ilusão, tal que alguém pudesse afirmar que “no mundo há apenas aparência”, repousa no fato de que o falar propicia a possibilidade de ter o mundo em seu caráter de ser-aí, possuindo em si mesmo a possibilidade do acesso e da conservação, não sendo, contudo, o logos apophantikos o logos em geral, nem mesmo o logos decisivo, ainda que ele detenha o papel dominante e diretor na história da autointerpretação do pensamento em todas as questões referentes ao falar, à determinação dos conceitos e à interpretação da existência.

  • A unidade não tem, para Aristóteles e para os gregos, um sentido meramente formal, como se todo objetivo enquanto tal fosse já um, estando a questão da unidade estreitamente ligada à questão do ser, do ser no sentido de existir.
  • A questão da unidade do logos apophantikos equivale à questão de saber o que o caracteriza como um, sendo esse caracterizar-se um processo de tornar evidente o hen (hen delon), isto é, a função significativa do legein, na qual um ente é apontado como existente, especificando o caráter unitário desse ente.
  • As instâncias individuais de posição são perpassadas pela tendência ao significar própria do tipo de legein que visa apontar um estado de coisas específico, não se chegando ao logos caso se partisse da mera nomeação, sendo a função primordial do significar a ostensão, o apontar algo.

2. Em De anima, Aristóteles ressalta que os filósofos anteriores dedicaram atenção demasiado escassa ao fato de que o homem passa a maior parte de seu tempo no engano, sendo o engano muito mais frequente entre os homens do que comumente se crê, não bastando tratá-lo como problema apenas de passagem e não em princípio.

  • Não basta, quanto ao modo pelo qual o mundo se torna acessível, destacar apenas a aisthesis (percepção) e a noesis (pensamento), sendo necessário chegar a uma compreensão da phantasia (fantasia), do ter algo aí que não está presente.
  • O engano e a ilusão surgem com base em conexões da phantasia com a aisthesis e a noesis.

3. A aisthesis é, como tal, um processo de destacar (Abheben) algo de algo outro, isto é, um distinguir, sendo, ao selecionar-se algo, o selecionado destacado enquanto tal de algo outro (pros allon).

  • Algo pode ser percebido de tal modo que, existindo junto com outros, seja destacado deles, não sendo o krinein (julgar, discriminar) formal, mas antes, nesse processo de destacar algo de outros, o destacado se torna acessível e pode ser apreendido como aí.
  • Esse krinein é constitutivo não apenas da aisthesis, mas também da noesis, distinguindo essas duas possibilidades o modo de ser humano, sendo o homem o tipo de ente que, à sua maneira, tem o mundo aí ao tornar as coisas acessíveis a si mesmo, destacando-as umas das outras, sendo capaz de mover-se (kinesis kata topon) nesse modo de destacar e articular as coisas.

4. As condições sob as quais se encontra a função básica da aisthesis (conhecida como krinein) são tratadas em De anima III, 2, 426b8ss, caracterizando-se um ente vivo existente pelo fato de ser um ser-em-possibilidade, e, de fato, em uma possibilidade definida, capaz de algo, tendo em si possibilidades inteiramente determinadas, delimitadas e pré-figuradas daquilo que pode fazer, e, de fato, do que pode fazer em relação ao mundo no qual esse ente com tal capacidade tem seu ser.

  • Dynamis e energeia têm aqui sua origem, aparecendo já em Platão, decerto, mas ainda não em sua significação fundamental, pertencendo, para Aristóteles, à determinação categorial básica do ser.

5. Toda instância de perceber está dirigida, enquanto tal, ao hypokeimenon aistheton (o perceptível subjacente), ao que está à mão (das Vorliegende), ao que já está aí na existência antes de toda atividade, sendo o hypokeimenon, para um grego, algo aí desde o princípio, não precisando, porém, o que está à mão ser primeiro produzido, podendo um hypokeimenon ser percebido, constituindo o perceber o acesso específico ao que está à mão.

  • Cada sensação, inerindo no órgão enquanto tal, refere-se ao objeto sensível subjacente presente e discrimina as diferenças presentes nesse objeto sensível subjacente, como o branco e o preto para a visão, o doce e o amargo para o paladar.

6. As diferenças, presentes tal como estão no que pode ser e é percebido, são destacadas: branco e preto, doce e amargo.

7. Uma vez que também o branco, o doce e cada um dos sensíveis são discriminados uns em relação aos outros, pergunta-se por meio de que também se percebe que diferem, sendo necessário que isso ocorra na percepção, distinguindo-se, com efeito, o branco e o doce de modo tão imediato quanto o branco e o preto, e não em um mero pensar, mas ao ter esses dados aí, não se devendo introduzir aqui o contraste entre pensamento e sensibilidade, sendo a diversidade desses dados originalmente percebida.

8. Aristóteles pergunta de que modo se está em posição de simplesmente apreender esse ser-outro, sendo aparentemente necessário que isso se dê por meio do perceber, pois ambos são, de fato, aistheta, tornando-se claro, a partir daí, que não basta recorrer ao tato para ajuda, estando em jogo algo bastante distinto.

9. Não é possível discriminar, por meio de algo separado, que o doce é diferente do branco, sendo necessário antes que ambos sejam evidentes relativamente a algo uno.

10. Ao permanecer-se na percepção, tem-se o branco enquanto tal no ver, o doce enquanto tal no saborear, colocando-se a questão de como se chega a perceber que ambos são diferentes, devendo tanto o que é percebido no saborear quanto o que é percebido no ver ser evidentes aqui relativamente a uma coisa, tendo de ser evidentes aqui para essa coisa enquanto o que são.

  • A mesma exigência vale para o caso em que se vê “verde” e outrem vê “vermelho”: como ocorre que esse dado de fato — que é, de fato, um dado de fato — nos é acessível em seu caráter unitário e pode assim ser apreendido?
  • No ato primordial de perceber, em seu modo de destacar algo contra algo outro, já há um modo de falar, sendo necessário que se diga que uma coisa é o hen ao dizer que são diferentes, sendo o falar uno com o modo de perceber, já estando o falar em ação nesse distinguir.
  • Somente com base na comunicação possível é que se consegue tornar um dado de fato unitário acessível a vários indivíduos em seu caráter unitário, estando aqui o logos em ação como logos comunicante, sendo por meio dele que o mundo se torna acessível em sua articulação unitária, constituindo essa a função primordial que o logos tem enquanto comunica.
  • Se se faz uma asserção sobre um dado de fato especificamente percebido, fazendo-o no mundo público da existência, então “co-municação” (Mit-Teilung), em sentido preciso, significa tornar o que é dito tão acessível a outrem que se compartilha com ele, tendo-se então ambos a mesma coisa, devendo-se atentar aqui ao sentido médio-passivo de apophainesthai, significando a “voz média”: para si mesmo, para aquele que fala, de tal modo que, para ele, o dado de fato possa ser apreendido e retido como percebido.

11. Se o logos ainda está em ação aqui, ele o está ainda mais onde o perceber procede naturalmente como aisthesis kata symbebekos, exigindo-se aqui a mesmidade do tempo, a existência temporal do falar juntamente com o que é percebido no perceber.

  • O poder perceber o que é assim (isto é, kata symbebekos) perceptível do mundo funda-se no fato de se ser contemporâneo daquilo que deve ser percebido (en akhoristo khrono, em tempo não separado), não sendo a temporalidade algo opcional quando se quer perceber algo no mundo.
  • No sentido do próprio perceber e do que é percebido já está contido o fato de que é percebido como agora existente, havendo, se por exemplo se exprime uma percepção, ao menos tacitamente, o fato de que o percebido está agora aí, não sendo o tempo deduzido para Aristóteles, mas recuperados igualmente, tanto o tempo quanto sua mesmidade, a partir do próprio dado de fato.

12. A diferença entre “branco” e “preto” no perceber não se introduz por meio de um argumento, tornando-se antes viva na fala, sendo a aisthesis um krinein, tendo parecido estranho a alguns que se encontrasse um logos no simples perceber, e tendo alguns imputado a Aristóteles a tese de que o perceber já seria um juízo, sendo, contudo, a aisthesis caracterizada não diretamente como logos, mas como algo semelhante a um logos.

13. A aisthesis é uma alloiosis, um “tornar-se diferente”, na medida em que o homem, concretamente vivo em seu mundo, percebe algo e a aisthesis nele está aí como um modo de ser e de comportar-se para com seu mundo, tornando-se aquele que percebe, ele mesmo, alguém diferente na medida em que, ao perceber, assume agora uma postura determinada frente ao seu mundo.

  • A aisthesis é um paskhein, um ser-afetado, precisando-se o aspecto da alloiosis: por meio do perceber, algo se passa naquele que percebe, acontecendo, no perceber, algo precisamente a quem percebe.
  • A aisthesis é um krinein: no modo de destacar algo contra algo outro, o aspecto (Aussehen) é explicitamente apropriado, não abandonando, porém, a aisthesis o modo pelo qual é realizada, designando Aristóteles essa mesma conexão de tal krinein como um modo determinado de fala (logos tis), tendo o logos a função de apontar o percebido enquanto tal, sendo esse dado de fato, o de ser diferente, apropriado no modo específico de falar, possuindo o perceber um modo distintivo de falar, sendo ele mesmo algo que fala de muitos.
  • A aisthesis permanece no meio (mesotes), se se imagina a multiplicidade das cores, devendo de algum modo situar-se no meio, não podendo fixar-se em uma cor, devendo poder olhar para ambos os lados, permanecendo o ver no meio de todas as cores e podendo assim compreender todas igualmente bem, dizendo respeito o meio ao tipo e modo possíveis de poder apreender algo.
  • O caráter de ser do perceber é dynamis: a capacidade de perceber, o ter uma possibilidade determinada, o ser de tal modo que há a possibilidade de vir a ser o ente que percebe, constituindo o ter essa possibilidade um modo bastante específico de ser de algo vivo, devendo todas as determinações até aqui nomeadas ser compreendidas a partir dessa determinação básica.

14. A aisthesis está presente no tipo de ser que tem linguagem, estando sempre, vocalizada ou não, de algum modo falando, não apenas falando a linguagem no curso do perceber, mas orientando-o, vendo-se por meio da linguagem.

  • Na medida em que a linguagem é tomada em sentido tradicional e não em sentido primordial, ela é precisamente o que encobre as coisas, sendo, contudo, a mesma linguagem que tem justamente a função básica da ostensão.
  • Torna-se assim compreensível que, na existência do homem, na medida em que ele tem existência porque tem linguagem, esteja também presente a possibilidade do engano e da ilusão.
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