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§4

** § 4. A consciência como tema da fenomenologia atual **

1. Impõe-se a questão de qual seja o tema ou o contexto de ser, pertinente à matéria, que constitui o objeto da investigação hoje designada fenomenologia, podendo-se dar de início uma determinação inteiramente formal dela em conexão com a posição que Husserl mais avançou até agora em Ideias para uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica, segundo a qual a fenomenologia é a ciência eidética descritiva da consciência transcendentalmente pura.

  • Essa determinação importa apenas como indicação de que a consciência é o tema examinado na fenomenologia, colocando-se a questão de como aquilo que se designa consciência chega a gozar do privilégio peculiar de fornecer o tema de uma ciência fundamental tal como a fenomenologia pretende ser.
  • Pergunta-se se é possível tornar esse privilégio peculiar inteligível a partir daquilo com que já se travou conhecimento, e fazê-lo de tal modo que se mostre que o campo de ser designado “consciência” não goza dessa posição de prioridade acidental ou arbitrariamente, mas antes que esse privilégio se funda em possibilidades distintivas que a existência traz em si mesma e que já estão pré-figuradas na filosofia grega.
  • Se se conseguir demonstrar isso, ver-se-á que essas transformações (Wandlungen) estão elas mesmas fundadas e motivadas na própria existência, e que a história que oferece tais possibilidades e transformações não é algo contingente e remoto que se situa atrás de nós e ao qual ocasionalmente se recorre para ilustrar opiniões, vendo-se antes que, nas transformações da história, nada mais se encontra senão a própria existência.

2. Por essa razão, a presente consideração não é uma narração histórica, mas um olhar concreto para possibilidades bastante determinadas da própria existência, adquirindo-se, ao expô-las e vê-las em conjunto com o já dito, a base para uma diferenciação fundamental a ser feita no início da investigação.

** a) A filosofia grega sem um conceito de consciência **

3. Torna-se compreensível que algo como a consciência seja tema da filosofia a partir do momento em que se lembra que os gregos não conhecem a consciência nem nada semelhante a ela, não havendo na filosofia grega nenhum conceito de consciência.

  • Ao mesmo tempo, é preciso dizer que aquilo que, entre outras coisas, é concebido sob os conceitos fenomenológicos específicos atuais de consciência já se encontra precisamente entre os gregos, tendo Aristóteles visto, no curso da análise do perceber, que co-percebemos um próprio ver como ente, tendo-se uma aisthesis do ver.
  • Ele se pergunta que tipo de perceber é aquele com que se percebe o ver e semelhantes, colocando-se igualmente, no caso da noesis, a questão de saber se o pensar (Vermeinen) que pensa o perceber tem o mesmo caráter de ser, permanecendo ambas as questões em aberto.
  • Do ponto de vista dos dados de fato específicos da pesquisa atual, pode-se chamar isso de uma visão muito mais fundamental desse contexto do que a decisão precipitada subjacente à orientação da psicologia moderna, a saber, a de que a percepção do ver, a do pensar e assim por diante seriam uma única e mesma coisa, a percepção interna.
  • Seja como for que se decida essas questões, o perceber como alguém se conduz tornou-se um tema do exame, não devendo o que aqui é percebido ser interpretado como uma experiência ou existência mental em sentido moderno.
  • Apesar disso, a filosofia grega tardia revela um conhecimento daquilo que hoje se designa “consciência” ou “autoconsciência” — conhecimento não pela via da reflexão filosófica, mas antes extraído da experiência natural daquilo que hoje se chama, em sentido bastante acentuado, “consciência moral” (syneidesis).
  • Assim, isso entra na consciência de vida cristã e sofre uma explicitação ulterior na teologia, não sendo, porém, de modo algum, aquilo assim designado um objeto de consideração, estando fora de cogitação, para a consciência grega e cristã, que algo como a consciência se tornasse tema de uma investigação.

** b) A irrupção da fenomenologia nas Investigações Lógicas de Husserl e sua tendência básica **

4. Para compreender a reviravolta do campo temático, do ente que é o mundo para o ente que é consciência dele, é necessário esboçar os traços da estação terminal, isto é, da fenomenologia atual, na medida em que isso se torna necessário para o exame.

  • A investigação que se designa “fenomenologia” apareceu pela primeira vez sob o título explícito de Investigações Lógicas, movendo-se essas investigações no âmbito de uma disciplina tradicional chamada “lógica”.
  • De um ponto de vista puramente pessoal, esses temas eram óbvios para Husserl, uma vez que ele foi conduzido das investigações matemáticas às considerações lógicas em um esforço por compreender a especificidade do pensamento matemático.
  • As Investigações Lógicas não são motivadas pela ambição de elaborar algo como um novo manual de lógica, sendo antes seu propósito principal fazer dos objetos de que a lógica se ocupa, pela primeira vez, um tema de tal modo que a investigação a eles referente seja colocada em posição de efetivamente poder trabalhar as matérias — que os objetos específicos dessa disciplina sejam trazidos a uma intuição específica que os identifique.
  • “Intuição” significa aqui simplesmente: tornar presente a si mesmo o objeto em si mesmo, tal como ele se apresenta, sendo a tendência básica dessas Investigações Lógicas fazer dessa “apresentação” algo metodicamente assegurado, tendência que só poderia ser genuinamente eficaz por meio de uma investigação que desvela a matéria.
  • Os “resultados” dessas investigações são tão fecundos que renderam frutos na filosofia contemporânea de um modo que hoje já não se pode medir, tendo mesmo aqueles “estimulados” pelas investigações pouca consciência da extensão desse efeito.
  • Todo o curso do exame parte da perspectiva de chegar às próprias coisas, abrindo caminho, através de um saber meramente verbal, até as próprias coisas.

** c) A orientação da filosofia grega e a questão de sua reviravolta **

5. Coloca-se a questão de como se chega a que a consciência se estabeleça como o campo da investigação, seguindo-se, da definição de fenomenologia, que a consciência, submetida a uma purificação (Reinigung) bastante específica, se torna o objeto da filosofia.

  • A consciência não se torna um tema possível de investigação sem mais nem menos, colocando-se duas questões a responder: 1. como se chega a que a consciência seja instituída como tema? e 2. como se chega a que ela necessite de uma purificação?

6. Para compreender a peculiaridade desse exame, é preciso ter constantemente em mente o que se reuniu em conexão com a interpretação de Aristóteles, devendo-se, por meio da enumeração de certas categorias em termos das quais os gregos caracterizavam o ser, ter obtido um primeiro vislumbre das motivações decisivas para eles em sua investigação.

  • Essas várias categorias de ser sofrem, no trabalho filosófico dos gregos, um exame distintivo e principal, aproximando-nos necessariamente da orientação da filosofia grega o tipo de análise do ser assim dirigido, querendo-se ver o que dela permanece em ação na filosofia posterior.

7. A multiplicidade dos entes é primeiramente dividida pelos gregos entre o tipo de ente que sempre é e o tipo de ente que também pode ser de outro modo, sendo característico dessa divisão que ela diz respeito a todo o domínio dos entes.

  • Essa divisão básica está, por sua vez, em ação nas quatro determinações básicas do ser, determinações que, para Aristóteles, não estão de algum modo dadas de antemão em um sistema, mas são antes motivações vitais nas quais a investigação se move: 1. to on ton kategorion (o ser das categorias); 2. to on dynamei-energeia (o ser da potência-o ser do ato); 3. to on kata symbebekos (o ser do que acompanha algo outro); 4. to on hos alethes (o ser como verdadeiro).

8. Quanto à primeira, ela é transmitida pela perspectiva assumida em relação ao logos, sendo kategorein (provar) uma forma mais forte de legein (dizer): demonstrar algo com certeza a alguém, atuando a categoria em orientação constante para aquela possibilidade de existir que é caracterizada como fala, possibilidade na qual o mundo existente em torno está “aí” (“da”).

9. Quanto à segunda, ela é extraída de uma compreensão específica da própria vida, na medida em que “estar vivo” significa ser-uma-possibilidade, referindo-se ambas (potência e ato) apenas à vida enquanto existência em um mundo.

  • A “vida” é ela mesma, com isso, concebida como um acontecimento mundano (weltlich Vorkommendes) que tem a peculiaridade de ser autêntico em seu estar-presente-como-acabado (Fertig-anwesend-sein), sendo precisamente a “vida” (enquanto ser-no-mundo), na ontologia grega, que é uma ontologia do “mundo”, aquilo que fornece os caracteres distintivos.

10. Quanto à terceira, ela abrange ambos, a saber, a existência do mundo e a da vida, repousando o olhar dos gregos sobre aspectos circunstanciais na medida em que são precisamente esses aspectos que constituem o caráter peculiar do ser.

11. Quanto à quarta, ela diz respeito a um fenômeno básico da existência que, para os gregos, não é caracterizado com maior precisão, tendo os gregos, apesar disso, se adiantado à epistemologia atual nesse ponto, surgindo essa determinação em vista do traço peculiar de que o mundo está “aí” (“da”) — de que um ente está em um mundo, um mundo que está “aí”, aberto.

12. Vê-se, assim, que, no conjunto, todas as quatro direções são extraídas do dado de fato do ser-no-mundo, nada emergindo a respeito da consciência, ainda que haja em Aristóteles algo como um tratado Peri psykhes (Sobre a alma).

  • Coloca-se então a questão de como se chega a uma reviravolta tão radical que aquilo que se chama “consciência” passa a ser o tema de toda a filosofia.
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