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** § 3. Recapitulação dos dados de fato reunidos a partir da interpretação de Aristóteles. Antecipação do predomínio do cuidado com a ideia de certeza e evidência sobre a libertação de possibilidades de encontro com dados de fato fundamentais **
1. Ao recapitular o resultado da análise, deve-se dizer que se estabeleceram: 1. dados de fato específicos que remetem à existência do mundo e à existência da vida humana, tendo o estado da matéria conduzido a uma caracterização fenomenológica do mundo e a uma orientação específica do ente existente (Daseiendem), fazendo-o no sentido de a) um tipo distintivo de ser que se mostra em si mesmo, e b) o caráter de logos como possibilidade existente da vida humana.
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Há aqui uma conexão na medida em que o logos, enquanto apofântico, tem a possibilidade de apontar aquilo que se mostra, tendo esses dados de fato, a existência do mundo e da vida, tornado-se tão evidentes que certas possibilidades neles se manifestaram.
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A existência do mundo pode subitamente reverter-se em algo que se autodissimula, podendo o logos ser do tipo que disfarça a existência, revelando essa conexão um destino que reside na própria existência, o fato de que aí está presente, com seu ser, a possibilidade do engano e da mentira.
2. O objetivo da interpretação até este ponto não foi tornar inteligível o desenvolvimento de um termo (isto é, “fenomenologia”) sob alguma forma anedótica, mas antes despertar o interesse pela própria matéria, de tal modo que a direção para a qual as coisas se encaminhavam não se tornasse transparente de imediato, sendo necessário aprender a ler e a escutar ao modo de um esperar.
3. O pano de fundo da interpretação permanece enraizado na própria matéria na medida em que seu interesse é tornar inteligível aquilo que hoje é conhecido sob a rubrica “fenomenologia”, o que só pode significar tornar inteligível o tipo de matérias tratadas nessa disciplina, isto é, com que tipo de matérias a fenomenologia atual pretende trabalhar.
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Para obter essa triagem, é necessário um horizonte de matérias, sendo diante desse horizonte que se deverá decidir em que medida os dados de fato da fenomenologia atual ainda estão conectados com aquilo que se apontou sobre a matéria.
4. Para caracterizar, desde o início, o desenvolvimento no qual Aristóteles configurou as constantes básicas da investigação filosófica, deve-se dizer que os desenvolvimentos posteriores, no estabelecimento dos dados de fato da filosofia e na motivação dos diversos caminhos pelos quais esses dados foram trabalhados, foram guiados pelo predomínio de uma ideia vazia e, por isso, fantástica, de certeza e evidência.
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Esse predomínio de uma ideia específica de evidência predomina sobre todo esforço genuíno de libertar a possibilidade de encontro com as matérias genuínas da filosofia, predominando o cuidado com um saber específico e absoluto, tomado puramente como ideia, sobre toda questão a respeito das matérias que são decisivas, isto é, todo o desenvolvimento da filosofia se inverte.
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Os começos desse desenvolvimento já estão presentes em Aristóteles e nos gregos e não são acidentais, como a noção segundo a qual a existência do mundo, tal como se apresenta, é tomada como o mundo específico da ilusão, de modo que, no futuro, todas as questões decisivas da filosofia sejam recolhidas puramente a partir da ideia de assegurar uma certeza absoluta, juntamente com a tendência a superar a existência do mundo como algo contingente.
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Acrescente-se a observação de que esse desenvolvimento não provém das tentativas de uma ciência de obter seu modo distintivo de acesso à sua matéria, mas antes de uma ideia que a própria existência fabrica para si, até certo ponto, de uma inteligência que enlouqueceu.
5. Por meio da interpretação dos componentes do termo “fenomenologia”, confrontou-se com dados de fato inteiramente determinados da existência: o ser do mundo e a vida enquanto ser-em-um-mundo, tendo-se visto, de imediato, sob esses dois respeitos, que o ser do mundo tem o caráter de mostrar-se e que o ser da vida comporta uma possibilidade básica de falar sobre a existência de tal modo que o ser é apontado por meio da fala.
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O ser do mundo e o ser da vida têm entre si uma conexão bastante específica, graças ao ser do falar, podendo a existência do mundo, nesse mostrar-se, reverter-se em um modo de apresentar-se-como algo outro, sendo a vida, em si mesma, capaz de ocultar o mundo existente.
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Assim, tanto as possibilidades da existência quanto as possibilidades da vida revelam a existência como ameaçada de um modo específico, ameaça que se expressou dizendo que a existência traz em si mesma as possibilidades do engano e da mentira.
6. Se se ater apenas aos resultados da análise sem referência ao tema “fenomenologia”, parece que nenhum progresso foi feito, mas que se está antes abruptamente confrontado com dados de fato específicos, sendo necessária, contudo, para compreender a conexão, isto é, para compreender o ser e o caráter da matéria com que a fenomenologia trabalha, uma orientação a um horizonte da matéria.
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Deu-se uma pista para considerar uma reviravolta inteiramente peculiar: o predomínio do cuidado com a ideia de uma certeza e evidência vazia e, por isso, fantástica, anterior a toda tentativa de libertar a possibilidade de um encontro com dados de fato específicos e fundamentais, levou a pôr de lado aquilo que originalmente era tema da consideração.
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De fato, levou a pô-lo de tal modo à margem que não apenas se perdeu de vista o campo temático, mas, o que é pior, a escolha da perspectiva não foi guiada por uma certa apropriação das matérias em questão, mas antes por uma ideia definida de ciência — que a ideia de um tipo definido de saber determina o tema, em vez de, inversamente, uma composição definida da matéria indicar as possibilidades de trabalhá-la cientificamente.
7. Por esse meio, afasta-se uma ideia tradicional de introdução a qualquer ciência, para a qual não se trata de obter algum conhecimento vazio do que seja o “objeto”, do que seja o “método” da ciência em questão, devendo o método emergir durante o confronto crítico com as matérias.
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A ideia tradicional de determinar e desenvolver um projeto de pesquisa trabalha em direção à determinação do “objeto”: o objeto é tal e tal, esse domínio específico da ciência é, conforme o caso, trabalhado por meio de métodos específicos, sendo esse tipo de orientação aqui desconsiderado.
8. Ao se olhar mais de perto e perguntar o que se ganhou até este ponto quanto aos dados de fato, algo surpreendente se apresenta: considerou-se a existência sob a perspectiva de um peculiar mostrar-se-a-si-mesmo, nada se tendo aprendido sobre o caráter de seu conteúdo, mas antes, aparentemente, apenas se estabeleceu uma determinação vazia, não se tendo reunido o que é um objeto.
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Aprendeu-se uma determinação a respeito da existência, uma que a caracteriza em seu como: como ela se mostra em si mesma e como, com base nisso, se oculta, sendo o mesmo o caso na caracterização do logos.
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Aprendeu-se do logos apenas um modo específico e já caracterizado de seu ser, o de ora apontar a própria existência, ora disfarçá-la, não tendo essa existência sido determinada quanto ao seu conteúdo no sentido de um ser natural ou de uma realidade histórica, mas antes de modo aparentemente vazio: apenas como ela existe.
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Ao terem sido enfatizadas essas determinações características da existência (a saber, que o que importa é como ela existe), já se foi, na interpretação, além do que era compreensível aos gregos no contexto de seu exame da existência.
9. Ao comparar-se esse caráter-de-como (Wie-Charakter) da existência com outros que os gregos conheciam, vê-se que estes dizem respeito a determinações do que as coisas são (Was-Bestimmungen), havendo diversos respeitos sob os quais a existência é caracterizada, respeitos radicados na própria matéria: 1. pragmata, as coisas com que “se” tem de lidar, sendo o ente dirigido nesse respeito; 2. khremata, as coisas na medida em que são usadas para necessidades que a própria existência do mundo motiva e requer; 3. poioumena, as coisas no mundo que são produzidas, que são feitas e estão disponíveis como erga (dispositivos) para 1. e 2.; 4. physika, as coisas existentes do mundo que não são produzidas, mas que são em si mesmas, vindo a ser com base em seu ser específico, mas sendo ao mesmo tempo capazes de ser aquilo a partir do qual algo pode ser produzido (madeira, ferro), tendo assim relação com 3.; 5. mathemata, o tipo de entes que têm o caráter específico de poder ser aprendidos e a respeito dos quais há um tipo de saber que pode ser comunicado a todos sem que eles tenham, com isso, uma relação prática com as matérias; 6. dentro de cada uma dessas caracterizações e do ser por elas nomeado, há coisas paradigmáticas que têm o caráter peculiar de ser designado ousia.
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Contudo, para ver a conexão entre ousia e os demais conceitos de ser, deve-se notar que esse conceito filosófico, aparentemente tão abstrato, designa posses, propriedade, o que está disposto ao redor de alguém em casa, o “domicílio” (Anwesen).
10. Na interpretação realizada, não se encontraram essas categorias do mundo, tendo-se ouvido apenas falar de phainomena, fornecendo a ousia o caráter básico do ente enquanto é: a presença (Anwesenheit), sendo isso também intencionado, implicitamente, nos conceitos de “coisa” já assinalados.
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O tipo mais próximo de encontro do ente produz os phainomena em termos do caráter-de-como formal desse tipo de encontro, sendo phainomena precisamente o ser dirigido em todos esses caracteres, mas sendo esse ser apenas no respeito de mostrar-se.
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Reuniu-se essa determinação característica a partir da interpretação e estabeleceu-se para a consideração ulterior, devendo o tipo mais próximo de encontro dos entes e a apreensão não filtrada deles nesse tipo de encontro ser, de algum modo, fenomenologicamente decisivo.
