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GA13 Habel

Aus der Erfahrung Denkens (1910-1976) [1983]

Hebel - O Amigo da Casa

  • Conhecer a trajetória de vida de Hebel é importante porque foi ela que fez brotar a fonte poética adormecida nesse homem: nascido em Basileia em 1760, perdeu o pai no primeiro ano de vida e a mãe aos 13 anos, passou mais da metade da vida longe da terra natal e nunca realizou seu único sonho de ser pároco em uma aldeia do Markgräflerland.
  • Karlsruhe já era distância para Hebel, porque a proximidade da terra natal o atravessava de modo irresistível; a saudade da terra natal gerou os Poemas Alemânicos de 1803, e o dialeto que os caracteriza não é limitação, mas a fonte misteriosa de toda língua viva — do dialeto flui o que o espírito da língua guarda em si.
  • O espírito de uma língua autêntica guarda as relações inaparentes mas sustentadoras com Deus, com o mundo, com os seres humanos e com as coisas; esse alto e válido vive na língua e morre com ela quando ela perde o afluxo do dialeto — por isso Hebel chamava seus poemas de poesia nobre, mesmo permanecendo no horizonte de seu pequeno povo.
  • A língua escrita do Cofrezinho é a mais simples, luminosa, encantadora e meditativa que já foi escrita em alemão, e seu segredo está em Hebel ter conseguido incorporar a língua do dialeto alemânico à língua culta, fazendo-a ressoar como eco puro da riqueza do dialeto — isso também ilumina o segredo dos Poemas Alemânicos.
  • Hebel não partia de inspirações que expressava no dialeto; ao contrário, mantinha-se em escuta ao afluxo do espírito dessa língua, de modo que ela se cristalizou em poemas singulares; e porque enraizados no que é próprio do solo, esses poemas alcançam o amplo e superam as aparentes limitações do dialeto.
  • A intenção de Hebel com o almanaque era torná-lo uma aparição luminosa e permanente, acolhida livremente, voltada ao bem dos leitores e com os mais elevados parâmetros — o almanaque podia mostrar o permanente no inaparente e despertar a leitura meditativa, ao contrário da imprensa ilustrada moderna, que dispersa e nivela tudo na superfície do efêmero.
  • O nome Hausfreund — amigo da casa — é o traço fundamental do poetar de Hebel: não é apenas o título do almanaque, mas o nome que nomeia o que o poeta é em sua essência; as Cartas de Hebel pertencem à unidade de toda sua obra poética, pois somente quem assume cada vez mais claramente ser o Hausfreund poderia escrevê-las.
  • A palavra habitar, pensada de modo amplo e essencial, nomeia a peregrinação do ser humano da terra ao céu, do nascimento à morte, entre alegria e dor, obra e palavra; esse múltiplo entre é o mundo, a casa que os mortais habitam, e o Hausfreund é o amigo dessa casa em sentido amplo — não apenas das moradias singulares, mas do próprio mundo como habitação.
  • O Cofrezinho abre-se com as Reflexões sobre o Edifício do Mundo, e as contemplações dos astros não são simples divulgação iluminista: o Hausfreund mostra a natureza em sua calculabilidade científica, mas a reconduz simultaneamente à naturalidade da natureza — aquilo que os gregos chamaram de Physis — mais velha em sua essência que a natureza como objeto da ciência moderna.
  • O próprio Hausfreund da terra é a lua, segundo Hebel: como a lua ilumina com luz suave que é reflexo do sol, o poeta Hebel traz uma luz branda — recebida, não acendida por si mesmo — que ele rediz a quem habita a terra com ele; seu olhar é velante e discreto, não curioso, e seu dizer guarda o essencial sem dizê-lo todo, pois o Hausfreund pensa muito do que diz ao leitor inclinado, mas deixa o propriamente essencial no não-dito.
  • Predicar, no sentido originário do latim praedicare, significa anunciar, louvar e fazer resplandecer o que se tem a dizer; esse é o sentido do dizer poético, e as Reflexões sobre o Edifício do Mundo são portanto poéticas — o dizer enobrecedor que eleva a língua ao simples, transformando tudo no brilho suave da palavra que ressoa em calma, é o que caracteriza o poetar de Hebel.
  • O problema mais inquietante do presente, para o qual ainda não se tem o nome certo, é que a natureza tecnicamente dominável da ciência e a natureza natural do habitar histórico do ser humano se afastam cada vez mais aceleradamente uma da outra, que a calculabilidade da natureza é tomada pela única chave do mistério do mundo, que a natureza natural afunda na nulidade de uma fantasia e que nem mesmo a poesia é mais capaz de ser forma determinante da verdade — o mundo de hoje erra por uma casa da qual falta o Hausfreund.
  • O segredo da língua de Hebel está em ter incorporado o dialeto alemânico à língua culta, fazendo-a ressoar como eco puro daquele; mas a própria língua materna vai sendo esquecida no presente, porque domina a concepção de que a língua é apenas instrumento de informação — verdade é que a língua fala, e o ser humano só fala à medida que corresponde à língua; a máquina linguística, ao regular e medir o uso possível da língua, domina a essência do ser humano, não o contrário.
  • A língua é o caminho e a passagem entre a profundeza do sensível e a altura do espírito mais ousado: o ser humano é planta que precisa brotar com as raízes da terra para poder florescer no éter; o Verbo percorre como sentido sensível a amplidão do espaço de jogo entre terra e céu, e a língua mantém aberto o âmbito em que o ser humano habita o mundo — Johann Peter Hebel, o poeta, caminha com lúcido entendimento por esses caminhos, e só se pode acompanhá-lo buscando a amizade com o amigo que, como poeta, é amigo da casa do mundo.
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