Legado de Husserl
ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, metaphysics, and transcendental philosophy. Oxford: Oxford university press, 2017.
Introdução
1. A avaliação do legado de Husserl pode ser feita de duas maneiras principais: uma retrospectiva, que considera sua imensa influência sobre filósofos posteriores e tradições como a hermenêutica e o pós-estruturalismo, e uma prospectiva, que pergunta se sua fenomenologia permanece relevante para a filosofia do século XXI.
2. Uma maneira de defender a relevância continuada da fenomenologia husserliana é demonstrar o valor duradouro de suas análises concretas sobre intencionalidade, corporificação (Leiblichkeit), consciência do tempo, autoconsciência e intersubjetividade, mostrando que ainda há muito a aprender com essas investigações para os debates atuais.
3. Contudo, Husserl provavelmente não estaria satisfeito com a mera absorção de suas análises específicas por outros programas de pesquisa; ele estaria mais preocupado com a questão de saber se seu programa e projeto fenomenológico como um todo continuam a florescer, uma vez que ele via a fenomenologia como a culminação da filosofia ocidental.
4. O objetivo dos estudos subsequentes não é explorar detalhadamente as investigações concretas de Husserl, mas sim buscar um objetivo metodológico e metafísico, oferecendo uma interpretação das ambições gerais de sua fenomenologia, abordando questões como se suas análises são primariamente investigações da consciência e qual o seu status, se seu projeto transcendental é distinto e qual seu impacto metafísico, e se sua fenomenologia é meramente descritiva ou também normativa com relação à realidade.
5. As questões sobre o idealismo transcendental de Husserl estão entre as mais controversas e debatidas na fenomenologia desde a publicação das “Investigações Lógicas” (Logische Untersuchungen), e não há consenso na literatura sobre se ele constitui uma posição metafísica, um projeto semântico ou epistemológico que suspende questões metafísicas, ou uma forma de fenomenalismo ou idealismo subjetivo.
6. Apesar da qualidade da erudição recente, mal-entendidos fundamentais persistem na comunidade acadêmica mais ampla, como a caracterização do idealismo transcendental de Husserl como um ponto de partida solipsista e egológico cartesiano desencarnado, que considera inessencial a corporificação (Leiblichkeit) do sujeito pensante ou o fato de ele estar rodeado por outros.
7. Em oposição a essas leituras, argumenta-se que Husserl não era um intuicionista introspectivo sofisticado, nem um fenomenalista, nem um internalista, nem um quietista sobre questões metafísicas, e que ele não se opunha a todas as formas de naturalismo; pelo contrário, uma compreensão adequada de seu idealismo transcendental revela o papel fundamental que ele atribuiu à corporificação (Leiblichkeit) e à intersubjetividade, aproximando-o mais do enativismo contemporâneo do que do representacionalismo internalista tradicional, mostrando que sua fenomenologia trata tanto do mundo quanto da consciência.
8. O livro “O Legado de Husserl” (Husserl's Legacy) visa clarificar a posição de Husserl e sugerir maneiras de dar sentido a suas afirmações centrais, com o objetivo de mostrar que seu idealismo transcendental é mais afim a posições dominantes na filosofia do século XX do que se poderia supor inicialmente, sem, no entanto, oferecer uma defesa independente dessa posição.
9. A base textual para a interpretação será primariamente a edição crítica Husserliana, que inclui não apenas as poucas obras publicadas em vida, mas também, e mais importante, os vastos manuscritos de pesquisa inéditos, que somam mais de 40.000 páginas e cuja edição crítica foi uma das principais tarefas dos Arquivos Husserl em Leuven, fundados em 1939.
10. O uso dos manuscritos de pesquisa não publicados por Husserl enfrenta uma objeção metodológica, pois eles poderiam conter ideias experimentais ou insatisfatórias; no entanto, aderir exclusivamente às obras publicadas seria igualmente problemático, como se vê no caso de Wittgenstein, e há várias razões para não adotar esse princípio restritivo no caso de Husserl.
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Husserl frequentemente expressava reservas sobre suas obras publicadas logo após seu aparecimento, e em alguns casos passou um tempo considerável revisando partes substantivas desses textos, como evidenciado pelas revisões da “Investigações Lógicas” (Logische Untersuchungen) e das “Meditações Cartesianas” (Cartesianische Meditationen) encontradas em seu Nachlass.
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Em seus anos posteriores, Husserl fez várias tentativas de escrever uma apresentação sistemática definitiva de sua filosofia, mas muitas delas permaneceram inacabadas e não resultaram em livros publicados, não por insatisfação com os resultados, mas devido a dificuldades em manter o foco e à distração com outros projetos.
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Devido a seus problemas recorrentes com a conclusão de uma obra sistemática abrangente, Husserl eventualmente começou a trabalhar explicitamente com seu Nachlass em mente, afirmando em cartas que a maior e mais importante parte de sua obra ainda residia em seus manuscritos inéditos, cujo volume era imenso.
11. A publicação continuada da Husserliana tornou disponíveis um número crescente de manuscritos de pesquisa, e o estudo desses novos materiais tornou necessária a revisão e modificação de muitas interpretações dominantes, não apenas porque oferecem novas análises, mas também porque revelaram aspectos de seu pensamento que seriam difíceis ou impossíveis de antecipar através do estudo das poucas obras publicadas.
12. Enquanto os primeiros estudos husserlianos se concentravam em volumes clássicos como as “Investigações Lógicas” (Logische Untersuchungen), “Ideias I” (Ideen I), “Meditações Cartesianas” (Cartesianische Meditationen) e a “Crise” (Krisis), hoje há um consenso generalizado entre os estudiosos de que não é mais admissível basear uma interpretação abrangente em um intervalo tão estreito de publicações, tendo o foco se expandido para incluir todos os volumes da Husserliana, com volumes como “Ideias II” (Ideen II), “Primeira Filosofia II” (Erste Philosophie II), “Sobre a Fenomenologia da Consciência Imanente do Tempo” (Zur Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins), “Análises da Síntese Passiva” (Analysen zur passiven Synthesis) e “Sobre a Fenomenologia da Intersubjetividade I-III” (Zur Phänomenologie der Intersubjektivität I-III) tendo um impacto particularmente dramático, permitindo uma reinterpretação dos volumes clássicos e revelando uma unidade e consistência no desenvolvimento de seu pensamento que, de outra forma, permaneceria oculta.
