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Essência e existência

TYMIENIECKA, Anna-Teresa. Essence et Existence. Paris: Aubier, 1957.

Introdução

1. A aparente evidência das noções de essência e existência, profundamente integradas ao repertório conceitual da filosofia, não elimina sua problematicidade, pois, apesar da longa história de suas elaborações, ambas permanecem no centro de controvérsias filosóficas fundamentais.

2. A persistência dessas controvérsias decorre de que essência e existência se encontram no cruzamento dos grandes problemas filosóficos, cujas articulações já se delineavam no nascimento da filosofia grega, antes mesmo de sua elaboração conceitual precisa.

3. Antes de distinguir-se da ideia, a essência é pressentida como permanência diante das oposições entre uno e múltiplo, repouso e movimento, inteligível e sensível, pois a tentativa de conciliar a semelhança e a diferença dos seres, bem como a pluralidade das coisas em devir e sua unidade, conduz o pensamento a ultrapassar o sensível e a estabelecer ideias imateriais e inteligíveis mediante as formas e a participação.

4. A natureza inteligível da essência anuncia-se no movimento pelo qual o pensamento se eleva às ideias e, simultaneamente, procura reconciliá-las com o sensível, uma vez que sua separação somente adquire sentido filosófico enquanto permite compreender a realidade sensível.

5. O problema da comunicação entre as ideias, do qual dependem a atribuição e a linguagem, conduz em Aristóteles à elaboração da essência em relação à definição e à distinção lógica entre aquilo que uma coisa é e o fato de ela ser, posteriormente precisada por Tomás de Aquino como distinção real nas criaturas e identidade em Deus, tornando essência e existência princípios correlativos capazes de esclarecer tanto as divisões do real quanto sua unidade originária, sem instaurar uma separação irremediável entre os seres concretos e o ser.

6. A redução da essência à existência ou da existência à essência compromete uma parcela decisiva da experiência e reduz o mundo a uma única dimensão, insuficiente para explicar a diversidade de seus aspectos ou a ligação fundamental que os reúne.

7. A distinção entre essência e existência, preservada sem convertê-las em realidades separadas, permite compreender mais adequadamente a unidade do conjunto e a continuidade entre a criatividade própria do espírito e a realidade concreta.

8. A diversidade das orientações filosóficas torna precária a determinação do significado de essência e existência e exige esclarecer se são efetivamente distintas ou reciprocamente redutíveis, bem como o fundamento de sua diferenciação e a natureza dos vínculos que as unem.

9. As noções de essência e existência conservam as marcas das condições problemáticas de seu surgimento, que continuam orientando suas possibilidades de interpretação.

10. A essência, concebida como intermediária entre unidade e multiplicidade, pode ser recusada por Hegel na medida em que parece separar arbitrariamente aquilo que se encontra unido na realidade concreta.

11. A vinculação da essência ao inteligível, ao racional e ao conhecimento a priori submete seu reconhecimento às diferentes posições epistemológicas, levando empiristas, nominalistas e positivistas a contestar uma essência especificamente inteligível no sensível, enquanto os racionalistas tendem a reconhecê-la como determinação própria dos seres.

12. O significado de essência e existência varia conforme a reflexão privilegie os seres particulares ou o Ser, de modo que, em Bergson, a primazia absoluta da duração indivisa e do impulso criador faz da essência um recorte artificial da continuidade do Ser e da existência singular uma manifestação transitória dessa continuidade.

13. Quando o ser humano recebe uma posição privilegiada em sua relação com o Ser, como em Lavelle, a essência pode constituir o caminho de participação no Absoluto, efetivado pela existência espiritual humana.

14. Quando a essência se identifica, como em Husserl, com significações ideais apreendidas diretamente e investigadas no âmbito absoluto da consciência transcendental, ela inicialmente se separa da existência concreta e fluente, embora as exigências da própria análise transcendental reconduzam a investigação ao concreto, ao humano e à subjetividade primordial, restituindo à existência sua importância.

15. As tentativas contemporâneas de abandonar ou preservar essência e existência retomam questões análogas às controvérsias clássicas, mas ampliam seu alcance ao colocar em discussão o próprio sentido e a legitimidade de uma investigação filosófica dessas noções.

16. A diversificação contemporânea dos caminhos do conhecimento, especialmente no existencialismo, reformula o problema da essência e da existência como momentos do ser e aproxima existencialismo e relativismo pela flexibilização das formas de pensamento, das categorias lógicas e das posições críticas, apesar das origens e preocupações profundamente distintas dessas correntes.

17. A distinção estabelecida por Jaspers entre conhecimento objetivo e conhecimento existencial separa a consideração de objetos exteriores, abstraída do sujeito que conhece, da realização histórica de modos de ser que não se deixam compreender por uma objetividade pura.

18. Ao restringir o conhecimento conceitual e estático às categorias esquemáticas da objetividade, Jaspers e grande parte das filosofias da existência mantêm a essência no plano epistemológico e ontológico do objetivamente cognoscível, fazendo suas estruturas inteligíveis dependerem do entendimento e do aspecto sob o qual os objetos se apresentam a ele.

19. A existência humana e a transcendência, compreendidas como domínios não objetivos e dinamicamente fluidos, permanecem além do alcance do entendimento e não podem ser objetivadas por estruturas categoriais.

20. Nessa perspectiva, essência e existência perdem sua posição de conceitos fundamentais, pois a existência deixa de designar uma permanência ou um modo do Ser, enquanto a essência se reduz a uma expressão conceitual abstrata, privada de conteúdo concreto e de alcance ontológico próprio.

21. A perda do estatuto clássico de essência e existência desloca a controvérsia para novas possibilidades de investigação, pois a existência humana pode ser abordada por aproximações conceituais que evitem sua reificação, enquanto a fenomenologia permite recorrer à essência para compreender rigorosamente o vivido além da oposição sujeito-objeto, reabrindo os problemas da significação, da expressão, da apreensão do inobjetivável e da comunicação recíproca entre consciências e existências.

22. O relativismo, compreendendo também positivismo, pragmatismo e historicismo e alcançando uma expressão radical na teoria operatória das ciências, reativa o problema dos momentos do ser precisamente ao negar-lhes validade filosófica e científica, pois a rejeição da permanência elimina o fundamento da pergunta pelo ser enquanto realidade imutável.

23. Ao relacionar a multiplicidade do pensamento à diversidade dos tipos humanos e às transformações históricas das civilizações, o relativismo substitui a unidade do ser por mundos particulares dependentes de perspectivas, conduzindo, em sua radicalização, a uma pluralidade de universos subjetivos continuamente modificados por condições sociais e culturais, sem referências permanentes que permitam compreender sua evolução ou estabilizar a própria consciência.

24. A substituição do ideal de certeza pela verificabilidade empírica submete a ciência a uma sucessão de hipóteses cuja legitimidade depende das operações que possibilitam e dos resultados verificáveis que produzem, sem assegurar que cada hipótese constitua uma aproximação progressiva de uma realidade verdadeira e definitivamente cognoscível.

25. O abandono de uma natureza permanente do universo e de estruturas permanentes do espírito faz desaparecer essência e existência como momentos do ser, enquanto a retomada dessa questão se apresenta como desafio ao relativismo e como exigência de reencontrar na filosofia do ser uma fonte originária de clareza e certeza.

26. A ontologia de Nicolai Hartmann situa no centro da investigação o ser como universal superior às particularidades e procura libertar essência e existência do peso da tradição ao vinculá-las diretamente às noções de ser-assim e ser-aí, permanecendo em questão até que ponto essa reformulação efetivamente supera a herança clássica e renova decisivamente o problema.

27. A ontologia de Roman Ingarden apresenta-se como investigação aparentemente independente de pressupostos doutrinais sobre o Ser ou o conhecimento, sustentada pela análise dos conteúdos ideais que oferecem os seres concretos em sua determinação absoluta e da qual emergem as noções de essência e existência, retomando assim a aspiração aristotélica de fundar a filosofia na análise do ente concreto.

28. A fecundidade da ontologia de Ingarden depende de verificar em que medida sua estrutura própria e sua fidelidade à aspiração aristotélica da filosofia perene permitem esclarecer, precisar e enriquecer os problemas da essência e da existência.

29. A investigação das permanências primeiras ultrapassa o domínio da controvérsia abstrata ao interrogar a necessidade de reintegrar essência e existência às sistematizações científicas, uma vez que ciência e filosofia participam também das técnicas materiais e morais cujas aplicações influenciam a vida social, a orientação espiritual das comunidades e a consciência que a humanidade conserva ou adquire de si.

30. O abandono de toda permanência ameaça a validade dos valores que orientam a ação humana, pois sua significação se apoia na certeza filosófica de que o ser possui permanência e de que dele procedem a essência inteligível do mundo, a existência concreta do real e os critérios pelos quais o ser humano conduz sua vida conforme a consciência de sua própria essência.

B. Objeto e método; apresentação dos filósofos

1. Roman Ingarden e Nicolai Hartmann oferecem uma base especialmente fecunda para a investigação da essência e da existência porque representam tendências distintas do pensamento contemporâneo, dedicam pesquisas extensas ao problema e procuram superar sua formulação tradicional, compartilhando a exigência da filosofia como ciência rigorosa e uma forte herança aristotélica, embora desenvolvam orientações profundamente diferentes.

2. A comparação entre essas filosofias exige compreender inicialmente a dependência de suas concepções de essência e existência em relação ao conjunto de cada pensamento, para então esclarecer o significado dos momentos do ser e a configuração específica de suas relações em ambos os sistemas.

3. O esclarecimento das condições primeiras de toda concepção de essência e existência requer articular a exposição geral das duas filosofias, a investigação particular dos momentos do ser e sua análise comparativa, atribuindo atenção especial ao problema da distinção entre esses momentos e ao significado que suas relações assumem nas doutrinas examinadas.

4. O método analítico procede pela justaposição e comparação dos problemas centrais da essência e da existência, buscando nas conexões e interpenetrações dos elementos de cada filosofia as razões de suas características próprias e das diferenças entre suas formulações.

5. A análise deve preservar as configurações originárias dos problemas e orientar a crítica pelas exigências internas do pensamento investigado, evitando impor perspectivas externas que não sejam justificadas pelo exame atento de sua própria articulação.

6. A delimitação temática exige uma abordagem a-histórica concentrada na problemática da essência e da existência, embora reconheça a continuidade dos dois filósofos com tradições anteriores e, especialmente em Ingarden, com a fenomenologia proveniente de Brentano, Twardowski, Meinong e Husserl, cujas investigações sobre ontologia formal, ideias e essências constituem o horizonte pressuposto de sua elaboração crítica.

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