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Entrada dos Deuses

Marc Richir. La naissance des dieux. Paris: Hachette, 1995.

A entrada dos deuses

  • um exame atento dos materiais antropológicos disponíveis revela uma correlação perturbadora entre o surgimento dos deuses no pensamento humano e a instituição do Estado, isto é, do rei ou déspota exercendo poder coercitivo sobre a sociedade
    • essa instituição não é natural, sendo a figura régia afetada por instabilidade incontrolável entre o governo sábio e justo e a tirania arbitrária destrutiva da sociedade
    • o poder coercitivo é sempre carregado de ameaças, sempre mais ou menos coextensivo a uma catástrofe simbólica que supostamente deveria conter, havendo sempre já nele o afastamento entre a instituição e a fundação, ambas necessariamente simbólicas
    • a instituição de um poder de um déspota sobre os demais homens, com o escândalo da servidão voluntária, permanece para sempre um enigma — o enigma mesmo de sua instituição simbólica, que distribui em termos reconhecíveis toda a esfera do pensável, do vivível e do praticável — enigma esse que resta a elaborar nos próprios quadros dessa distribuição, no seio de uma fundação que é fundação da legitimidade do sistema despótico
  • para isso, o pensamento recorre, seja mitológico ou filosófico, ao único procedimento praticável: pensar a sociedade antes da sociedade, num “antes transcendental” sem nada de histórico, de modo a fazer surgir a sociedade tal como aparece com a figura do déspota
    • sendo a única sociedade política concebível nessa instituição simbólica a sociedade governada por um rei, a sociedade de antes da sociedade é uma “sociedade” pré-política, representada, desde a sociedade política, como um “estado de natureza” pelos filósofos, ou, em Hesíodo e ainda em Platão, como uma “Idade de Ouro” da humanidade
  • essa representação, que dominou por dois milênios o pensamento social e político e ainda o domina na maior parte das vezes, consiste em pensar que não há sociedade possível sem poder coercitivo — sendo a anarquia sinônimo de caos — reduzindo o campo do político ao campo de ação do poder, frequentemente com certo desencantamento
    • esse tipo de representação muito exclusivo foi recentemente posto em questão em profundidade pelos trabalhos de Pierre Clastres sobre as sociedades ameríndias como sociedades contra o Estado, onde toda irrupção de um poder coercitivo é contida por um sistema complexo de trocas simbólicas capazes de neutralizar a emancipação da chefia indígena em relação à sociedade
    • relacionando esses trabalhos com os de Lévi-Strauss sobre os mitos ameríndios, percebe-se que essas sociedades, sede de um pensamento ativo do “contra o Um”, nas palavras de La Boétie, elaboram simbolicamente sua condição em mitos onde não há deuses, ao menos no sentido em que há deuses na mitologia
    • conforme demonstrou Lévi-Strauss, os mitos caracterizam-se por serem originariamente múltiplos e indefinidos, remetendo uns aos outros, cada um propondo uma resposta local a uma questão simbólica local, com articulação em relatos que sempre envolvem metamorfoses de tal ou qual personagem em seres “naturais” ou “celestes” para nós
    • é por um efeito de ótica etnocêntrico que certos personagens de mitos podem ser assimilados a “deuses”: trata-se de fundadores míticos da civilização, inventores da agricultura ou de outras técnicas, “heróis culturais” às vezes destinados, uma vez cumprida sua tarefa, a deixar o mundo dos homens, jamais objeto de culto especial, com nomes mais comuns que pessoais, não sendo deuses propriamente ditos ainda que possam ser vistos como “ancestrais” dos deuses
    • quanto à questão de saber se os “selvagens” acreditavam em seus mitos, cabe responder, como Lévi-Strauss, que essa questão é exterior ao problema, tendo aqueles que os ouvem, tanto quanto os anônimos que os inventam, relação equivalente, mutatis mutandis, à que se tem com uma peça musical, não visando o mito, não filosófico, dizer um ser ou exprimir uma verdade, não sendo nem verdadeiro nem falso, tratando apenas de uma questão de sentido
  • a grande força da demonstração de Pierre Clastres consistiu em mostrar que, ao contrário da representação comum aos colonizadores, essas sociedades eram igualmente, embora de maneira totalmente distinta das sociedades estatais, sociedades políticas por inteiro
    • sem supor que tenha havido uma Idade de Ouro comum a toda a humanidade antes da irrupção do déspota — o que seria projetar mais sutilmente a representação de um “estado de natureza” como estado “originário” da cultura —, pode-se dizer que, do ponto de vista da situação arquitetônica global dos problemas e questões antropológicas, trata-se ao menos de uma espécie de “dimensão transcendental” oculta de toda sociedade estatal, à qual esta toca ao menos implícita ou lateralmente por sua representação simbólica da sociedade “antes” da sociedade
    • há fortes presunções, ainda que permaneçam apenas presunções, de que as sociedades pré-históricas, distribuídas em pequenos grupos nômades, tenham vivido quase fatalmente nesse “sistema” de sociedades contra o Estado, como testemunha o pano de fundo de mitos, no sentido estrito evocado, presente sob a forma transformada de contos e lendas em quase todas as sociedades humanas
  • nesse contexto, a mitologia, que já é muito mais que um corpus de mitos, é coextensiva ao surgimento dos deuses e, como indicado, ao surgimento do Estado, conduzindo a pensar que a questão central da mitologia é a questão teológico-política, já que o déspota não pode se instituir sem que haja, correlativamente, remanejamento em profundidade do pensamento mítico num sentido teológico, isto é, mediante a instituição de deuses
    • será preciso dar conta disso numa espécie de fenomenologia da instituição despótica, que desembocará num esboço de fenomenologia da religião
    • o pensamento mitológico se vê confrontado à tarefa de elaborar a fundação global de toda a sociedade, isto é, também da realeza, nos termos que lhe fornece sua instituição simbólica, o que significa que a mitologia será primeiramente, de certo modo, o mito da fundação do Estado, por re-presentação sempre já codificada desde a própria instituição do Estado, do Estado antes do Estado, dessa instituição antes de si mesma, num “antes” transcendental ou passado transcendental que jamais teve lugar, de modo a pensar globalmente essa instituição no próprio movimento de seu fazer, numa gênese em que, elaborando-se de maneira dotada de sentido, ela se legitima
    • é precisamente nessa gênese que os deuses vêm desempenhar papel essencial, entrando em cena
  • não se deve ser vítima da ilusão que podem dar os grandes relatos mitológicos eruditos de fundação, tais como se apresentam por escrito na Mesopotâmia ou na Grécia, na Teogonia de Hesíodo, onde aquilo que se chama “o Estado antes do Estado” é representado pela sociedade dos deuses, e onde a fundação se elabora como fundação da ordem cosmo-sócio-política, como cosmogonia e teogonia da qual se destaca uma soberania divina, de certo modo antes do homem e sem ele
    • trata-se manifestamente de uma “reconstrução”, por assim dizer a priori, unitária, que tende a se dar como “toda feita”, pois sempre já feita, quase eterna, e cuja sociedade deve desposar da melhor forma a ordem final, como se os deuses tivessem poupado aos homens o trabalho de fundação, restando apenas contá-lo, numa espécie de hipnose ou clarividência transcendental — à qual se retornará — a respeito de uma “verdade” tida por intangível
    • o caso grego mostra tratar-se de um trabalho “especializado” e “erudito”, efetuado a posteriori, apagando, como é flagrante no caso mesopotâmico das fundações de grandes impérios, os traços de sua elaboração
    • em primeira aproximação, pode-se dizer que a reconstrução mitológica num relato unitário encontra, em seu “nível”, que é o do pensamento mitológico, o problema de uma possível regressão ao infinito, a ser “bloqueada” pela representação simbolicamente codificada de uma catástrofe inicial — verdadeira catástrofe cósmica do começo —, sendo necessário disciplinar progressivamente essa mesma catástrofe, dividindo-a por repetições cada vez mais atenuadas, e cujos pontos de fuga de instabilidade possíveis é preciso deter pela entrada em cena dos deuses ao longo do relato
  • a isso é preciso ainda acrescentar um ponto da mais alta importância: a fundação da sociedade, logo do Estado, logo do déspota, só pode andar de par com a legitimação da dinastia em sua homogeneidade e continuidade, o que torna a tarefa do pensamento mitológico extremamente complexa
    • trata-se, através da legitimação da linhagem real, de elaborar simbolicamente as regras de parentesco e as relações entre os sexos, algo que se regula progressivamente, nos relatos mitológicos eruditos e canônicos, através de diferentes tipos de procriação, por cissiparidade ou união sexual, e de múltiplas relações incestuosas, fatais onde o número de deuses e deusas é originalmente limitado
    • o protótipo das relações legítimas de parentesco será fornecido, nesse sistema, pela hereditariedade genealógica do poder, no seio de uma continuidade fundada em gerações divinas, sendo os primeiros reis legítimos tidos como descendentes do rei dos deuses
    • o que é próprio também à fundação mitológica não é apenas a legitimidade teológico-política do poder, mas a legitimidade de sua transmissão genealógica: uma das formas essenciais do pensamento mitológico, talvez mesmo sua forma principal, é a colocação em genealogia e em transmissão de poderes, eles mesmos advindos de um poder supremo, designada pelo barbarismo “genealogização”, inteiramente estranha ao pensamento mítico
    • isso não vai sem colocar ao pensamento questões bastante temíveis, na realidade jamais verdadeiramente resolvidas: é preciso deter-se em algum ponto em deuses para começar a genealogia e dar início à fundação, mas, se a teogonia é cosmogonia e fundação política, é preciso extrair, por sua vez, o sentido do poder supremo a partir do emaranhado dessas genealogias a partir de deuses
    • há assim, nesse sentido, no pensamento mitológico, um problema que só se pode chamar de “transcendental”, entendendo por isso aquilo que, no “antes”, é próprio para engendrar o “depois” de outro modo que não por uma pura e simples repetição tautológica
  • a fundação, a elaboração simbólica da legitimidade do Estado, logo do déspota, decididamente não é assunto simples, pois implica uma transformação coerente cujo relato deve articular os termos e as peripécias
  • se o pensamento mitológico é a elaboração, nos termos dados pela instituição simbólica do despotismo, da legitimidade dupla, teológico-política e genealógica, desse mesmo despotismo, a questão passa a ser: como pôde se constituir um corpus mitológico, e constituir-se com deuses, admitindo que estes formam ao menos parte dos termos simbólicos instituídos com a instituição do despotismo, e que enredamento e que desintrincação das genealogias humanas e das genealogias divinas isso supõe
    • não será possível responder a essa questão estudando os grandes relatos mitológicos canônicos, da Mesopotâmia ou da Grécia, mas sim, na medida do possível, apreendendo ao vivo a elaboração simbólica da fundação do Estado, estudando aquilo que se convencionou chamar “lendas de fundação”
    • para isso, o caso grego é inteiramente exemplar, pois, apesar de imensas lacunas, a documentação é abundante e também próxima de nós
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