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2 Atenção

Le sujet de la surprise: Un sujet cardial. Zeta Books, Bucarest, 2018

1. Atenção e surpresa: os dois pratos da balança

  • A atenção e a surpresa são palavras correntes que se referem a situações particulares e colocam em relação com a experiência imediata, ultrapassando os termos filosóficos genéricos de consciência e experiência ou as categorias científicas de cognição e emoção.
  • A atenção e a surpresa parecem excluir-se e opor-se à primeira vista, como ilustra o episódio da filha que surge subitamente na cervejaria enquanto a mente está perdida na organização de um colóquio, provocando um sobressalto justamente pela falta de atenção presente naquele instante.
  • A amplitude da abertura atencional gera menos surpresa, como mostram os pequenos exemplos de trajetos de bicicleta em que a atenção aberta reduz a probabilidade de ser surpreendido, sugerindo que a falta de atenção intensifica a surpresa e que a atenção mais aberta a minimiza.
  • Longe de se excluírem mutuamente ou de se oporem de modo binário, atenção e surpresa revelam-se intrinsecamente unidas no mesmo sujeito, como os dois pratos de uma balança: quando a atenção diminui a surpresa aumenta e vice-versa, formando uma dinâmica antinômica codeterminada e ritmicamente pendular em que nenhuma existe sem a outra.
  • Como não há nada mecânico ou puramente quantitativo nessa relação, a qualidade da atenção depende da forma da surpresa que surgirá e reciprocamente, de modo que a questão central não é apenas se há atenção ou não e em que intensidade, mas como se está atento, já que a qualidade da atenção determina a qualidade da surpresa.
  • A atenção é objeto de estudo antigo na psicologia desde o fim do século XIX e na neurociência desde os anos 1940, mas permanece um tema transversal difícil nas ciências, estando presente de forma marginal na filosofia como complemento do pensamento, da percepção ou da memória em autores como Agostinho, Descartes, Malebranche, Husserl, Bergson ou Simone Weil.
  • Existem duas formas principais de atenção tanto na literatura científica quanto na filosófica: a atenção focalizada, mais conhecida como concentração ou seleção, corresponde ao padrão-ideal com o qual se medem os desvios em termos de distração, falta de atenção, déficit ou transtorno, sendo por isso objetivável mas também abstrata em sua inacessibilidade.
  • Em oposição a essa primeira forma, existe a atenção-vigilância, aberta e móvel, definida por suas variações, menos padronizada e mais difícil de objetivar, porém mais condizente com a forma como cada sujeito vive a atenção como realidade em movimento e modulação, entendida daqui em diante como dinâmica de oscilações e gradações cujos graus e pontos limite constituem a própria atenção.
  • A surpresa constitui fenômeno ainda menos explorado, vinculado cientificamente a protocolos experimentais recentes do sobressalto e da reação cardíaca, sendo raramente mencionada como conceito filosófico embora evocada através do léxico do choque, do golpe, da interrupção ou da ruptura, situada equivocamente ora no lado emocional ora no lado cognitivo conforme o autor.
  • A surpresa aparece como reveladora da atenção ou de sua falta, e a atenção igualmente revela a surpresa por contraste, podendo isso ocorrer como perturbação ou como aguilhão que reordena a atenção, de modo que a surpresa se manifesta como indicação da ativação gradual da vigilância.

2. Fragmentos arqueológicos erráticos: situações hipofilosóficas sem narração hermenêutica

  • Atenção e surpresa não são conceitos de atualidade na história da filosofia, o que leva a questionar onde estariam as filosofias da atenção e os filósofos ou filósofas da surpresa.
  • Uma tradição de autores propôs análises sobre a atenção: Agostinho, nas Confissões, define-a como presente das coisas presentes, ligada etimologicamente à espera; Fílon de Alexandria apresenta-a como presença a si mesmo e técnica particular de cuidado.
  • Para Descartes, além de situar a atenção numa teoria intelectualista da mente centrada no domínio, na vontade, no julgamento e no esforço, ela aparece como operador modal do conhecimento mais ou menos verdadeiro dos objetos, e a admiração é descrita como súbita surpresa da alma que leva a considerar com atenção objetos raros e extraordinários.
  • Leibniz concebe a atenção como função modal de aplicação do pensamento, distinta da percepção passiva, enquanto Malebranche a vê como espera sem expectativa, segundo o fio agostiniano da atenção-espera, evidenciando a dupla posição da história filosófica da atenção entre atenção-espera e atenção-função modal, à qual se somam Locke, Hume, Condillac, Wolff, Maine de Biran, Fichte, Bergson e Husserl, sem que isso torne a atenção tema central de uma filosofia.
  • A surpresa também foi abordada ou ao menos evocada por uma linha de filósofos que inclui Aristóteles na Poética, Retórica e Metafísica, Descartes nas Paixões da Alma, além de Adam Smith, Peirce, Dewey, Heidegger, Maldiney de modo central e Levinas com regularidade, sem que isso a torne questão de exames oficiais de filosofia.
  • No fundo, atenção e surpresa são hipofilosóficas, tratadas por filósofos isolados em contextos distintos sem filiação hermenêutica, sendo limitadas à psicologia empírica ou renomeadas com conceitos mais aceitáveis como assombro ou admiração para a surpresa e reflexão ou consciência como substitutos da atenção.
  • A estratégia do Teeteto de Platão, de Descartes nos artigos 76-78 das Paixões da Alma e de Fichte para a atenção mostra a dificuldade de atribuir a esses fenômenos posição metafísica, empírica ou transcendental determinada, pois ambos perturbam as divisões conceituais e exercem pressão sobre o pensamento.
  • Apesar de filósofos de diferentes épocas terem se ocupado da surpresa e da atenção, é difícil encenar uma hermenêutica que pressuponha filiação e inscrição num motivo articulado e contínuo, o que leva a questionar a razão dessa marginalidade filosófica.

3. Alerta, ativação, sobressalto: os nomes científicos da atenção e da surpresa

  • Atenção e surpresa são questões bem estabelecidas na psicologia, cujas correntes floresceram na Alemanha, no mundo anglo-saxão e na França no fim dos séculos XIX e XX, sendo posteriormente ampliadas pela neurologia e psicologia cognitiva através de trabalhos pioneiros sobre vigilância, escuta dicótica e as três formas de atenção descritas por Posner.
  • Trabalhos mais recentes trataram da atenção conjunta, da cegueira atencional, da atenção e consciência, além do trabalho pioneiro de Ekman sobre expressões faciais que permitiu estudar a surpresa e sua relação com o medo, da roda das emoções de Plutchik e de pesquisas neuroanatômicas sobre o sobressalto como indicador de momento emocional.
  • Na ausência de legitimidade filosófica, descobre-se validade científica: o caminho por excelência para o estudo da atenção passa pelos conceitos de arousal e alertness, ligados a uma dinâmica corporal pré-consciente identificada no sistema reticular do cérebro, enquanto a via da surpresa é a do startle, reflexo corporal provocado por estímulo visual, sonoro ou tátil.
  • Atenção e surpresa têm legitimidade no campo experimental das ciências da vida, sobretudo na etologia, unificando-se na experiência de alerta e sobressalto que remete a uma dimensão comum instantânea e passiva do ser, o que permite supor que a filosofia optou implicitamente por manter distância desse terreno ocupado pela ciência experimental.
  • O estatuto empírico maior da atenção e da surpresa dificilmente pode ser reinvestido no nível transcendental ou ontológico sem disfarce, o que explica a escolha husserliana de construir uma filosofia transcendental que critica o psicologismo e prefere analisar percepção e recordação, ou forjar conceitos como intencionalidade e epoché.

4. Fenomenologias da atenção e da surpresa: defeito ou excesso…

  • Husserl promoveu nova concepção da consciência, Heidegger renovou o pensamento do tempo, Merleau-Ponty evidenciou o caráter crucial da carne e Levinas repensou a alteridade, mas é difícil situar aí a surpresa e sua estrutura primária, a atenção, apesar da importância de ambas nas ciências da vida.
  • Nem Husserl nem seus discípulos alemães ou franceses deram importância central à surpresa ou à atenção, privilegiando antes o afeto, os tons afetivos, as emoções ou a auto-afecção, de modo que a surpresa quase não é mencionada em si mesma e a atenção não integra os temas centrais do sujeito intencional, transcendental ou existencial.
  • O caráter marginal dessas vivências explica-se também porque a fenomenologia é movida por preocupação radical de questionamento e sentido, de modo que o caráter imediato e não problemático da atenção como estado mínimo de alerta e da surpresa como reação reflexa deixa os filósofos com desejo de questões mais profundas ligadas a experiências radicais como a morte, o cuidado do outro ou a crise ecológica.
  • Um terceiro fato correlato é o estatuto não prioritariamente humano dessas experiências, situadas pela semântica de alertness e startle na órbita da animalidade, dificultando sua inclusão numa antropologia que caracterize o humano por direito próprio.
  • Apesar dessa marginalidade, quatro autores reconheceram direito à sorpresa e à atenção: Maldiney e Marion quanto à surpresa, Husserl e Heidegger quanto a ambas.
  • Na conferência de 1904-1905 intitulada Percepção e atenção, Husserl aborda explicitamente a atenção a partir da percepção como atividade fundamental e motora, mas manuscritos do mesmo curso vinculam a atenção a atos afetivos, intencionalidade afetiva ou disposição afetiva, sugerindo situação instável entre adesão à percepção e geração a partir da emoção.
  • Quanto à surpresa, ela aparece poucas vezes nas obras completas de Husserl, definida como crise passiva negativa ou positiva, mas quando tal ruptura empírica se reinsere no curso da concordância intencional perceptiva, desaparece dando lugar à decepção ou ao engano ligados a expectativa cognitiva não cumprida.
  • Em Grundprobleme der Metaphysik, Heidegger confina a surpresa ao animal, numa ontologia descontinuísta que dissocia o animal surpreendido do humano assombrado, situando desde Ser e Tempo a surpresa apenas no plano ôntico, enquanto o assombro humano constitui disposição fundamental de abertura ao mundo que o distingue da surpresa animal.
  • Ainda que se possa ver com Husserl na surpresa uma experiência de interrupção da continuidade temporal, tende-se a trivializá-la como microrruptura rapidamente coberta pela reconexão intencional da mente, sendo necessário buscar experiências mais radicais de ruptura em acontecimentos históricos e coletivos, enquanto a atenção em Ser e Tempo é tematizada apenas como simples ser-surpreendido relegado ao plano inessencial ôntico.
  • Jean-Luc Marion, sem fazer da surpresa conceito central, menciona-a a partir da análise do fenômeno saturado, deslocando-a num gesto metafísico e identificando-a com uma contra-excitação ligada a um acontecimento repensado como alteridade absoluta e irredutível que impossibilita o sujeito de se retomar a si mesmo.
  • Maldiney, por sua vez, escreveu autêntica fenomenologia da surpresa chegando a identificá-la ao real, mas nada disse sobre a atenção, de modo que conferir dignidade filosófica à surpresa parece exigir equipará-la à categoria metafísica da realidade.
  • Atenção e surpresa parecem ser instantâneas da vida ordinária, tênues e evanescentes, cabendo perguntar se seria possível situá-las na duração para inscrevê-las no pensamento como conceitos, sem reduzir a surpresa a simples sobressalto reflexo nem limitar a atenção ao alerta de uma sirene, abrindo caminho a uma metafísica mínima da experiência.

5. A dinâmica da atenção e da surpresa: Paul Ricœur entre Martin Heidegger e Paul Valéry

  • Heidegger é um dos poucos filósofos que captaram com perspicácia, já em Sein und Zeit, a dinâmica da atenção e da surpresa, situando-a porém apenas no nível ôntico ao descrever como a possibilidade de ser surpreendido se funda na espera que apresenta algo à mão sem esperar outra coisa em conexão possível.
  • Deixando de lado a pesada linguagem do autor, observa-se que a surpresa e a atenção se excluem mutuamente, pois a surpresa surge da desatenção, provocando reorientação ou mesmo perda da atenção, descrevendo assim Heidegger a dinâmica cotidiana ordinária desses dois fenômenos.
  • O poeta e pensador Paul Valéry, avesso ao conceito e ao sistema, dedicou inúmeras páginas de seus Cahiers à relação entre uma atenção não determinada e a surpresa que ela abre.
  • Paul Ricœur, como ponto intermediário, abre caminho à dignidade da atenção e da surpresa no quadro de uma antropologia fenomenológica que revela sua profunda aliança, sendo essa dinâmica consistente com uma fenomenologia experiencial articulada a uma metafísica minimalista, tal como projetado em 1950 em Le volontaire et l'involontaire.
  • O enfoque antropológico, embora não corresponda a expressão central do léxico ricoeuriano, proporciona entrada importante para descrever de maneira original a relação entre atenção e surpresa, identificando no capítulo sobre fragilidade afetiva o coração, traduzido de Gemüt e feeling, como nó de sua antropologia da falibilidade.
  • Ricœur questiona-se, ao chegar ao limite do que o filósofo pode razoavelmente aceitar, se é possível uma filosofia do coração levada ao nível de uma razão que exija não apenas o puro e o radical, mas também o total e o concreto, dando lugar ao pathos numa filosofia até então dominada pela reflexividade.
  • Esse centro de gravidade situado no coração já havia sido descrito em 1950 em Le volontaire et l'involontaire ao declinar as múltiplas estruturas subjetivas do involuntário, não como lugar de inconsciente orgânico subpessoal, mas como dinâmica do humano unificado, rompendo com as divisões duais e estáticas da antropologia clássica entre razão e paixão, mente e corpo, atividade e passividade, em favor de polaridades e tensões dinâmicas.
  • É com as duas primeiras estruturas do involuntário, motivação e movimento, que a atenção e a surpresa aparecem, abrindo Ricœur a possibilidade de ouvir nessa tensão dinâmica uma figura da estrutura antinômica do homem, embora reconhecendo não pretender resolver integralmente o problema da antropologia filosófica.
  • A atenção situa-se no plano da motivação corporal involuntária e recebe análise ampliada em relação a 1939, enquanto a surpresa recebe o dobro de extensão a partir da análise da espontaneidade corporal e da emoção, ambas sob o signo do tempo concreto e da duração enquanto microprocesso de desdobramento do sujeito vivo.
  • Enquanto a atenção é abordada pela abertura interna da atenção-expectativa segundo a semântica comum attensio-tensio, a surpresa situa-se no coração da vibração corporal experimentada, tremor que reflui no espírito e dá lugar à mini-duração de uma repercussão que reverbera do lado do corpo, numa dinâmica circular.
  • A atenção situa-se sob a égide de um Husserl imbuído do Malebranche de La recherche de la vérité, ancorando-a na abertura interna do sujeito, enquanto a surpresa é trabalhada a partir do tratado cartesiano sobre as paixões aprofundado pelo Système des beaux-arts de Alain, sendo descrita como perturbação nascente e refluxo do espírito no corpo.
  • Para compreender bem essa articulação dinâmica na antropologia concreta de Ricœur, é preciso remeter-se à conferência de 1939 em Rennes sobre a atenção, primeira contribuição do jovem filósofo antes de seu cativeiro de guerra, que propõe esboçar psicologia estritamente descritiva da atenção e mostrar suas incidências nas grandes questões metafísicas da verdade e da liberdade.
  • Os três primeiros pontos dessa conferência tratam, em termos de fenomenologia descritiva, da relação entre atenção e percepção, do estatuto aspectual da atenção que modula o conteúdo da percepção e da especificidade temporal, voluntária ou passiva, do ato atencional, seguidos de um quarto ponto que descreve a atenção em termos dos conceitos metafísicos de verdade e liberdade.
  • Durante as primeiras páginas de 1939, Ricœur segue o exame husserliano de Ideias I, mostrando a conexão entre atenção e percepção e identificando sua contribuição específica na chamada paradoxo da atenção, segundo a qual fixar um objeto o faz aparecer de outro modo mais claro sem que o sentido se altere.
  • Já em 1939 Ricœur evitou dois escolhos filosóficos da atenção, o idealista que a reduz à reflexão e o realista que afirma que ela modifica o objeto, definindo-a como atividade que produz mudança aspectual no objeto sem alterá-lo, o que em psicologia e neurociência se chama modulação e que Husserl chamou desde 1913 de modificação ou mutação atencional.
  • Em 1950 Ricœur repetirá a descrição da experiência da atenção de forma mais condensada, menos preocupado em cumprir o contrato metafísico da verdade e da liberdade, afinando a descrição da atenção como poder de luta consigo mesmo, arte de dominar a duração cujo fluxo é radicalmente involuntário, ou disponibilidade ativa, denominando sua dinâmica estrutural interna de paradoxo em 1939 e de ação estranha ou segredo em 1950.
  • Ao mesmo tempo, em 1950, ao descrever a surpresa como forma mais simples de emoção, Ricœur a aborda em direção oposta à do reflexo, definindo-a como fenômeno circular em que o choque do conhecer e o abalo do corpo se chamam mutuamente e se inscrevem na duração concreta de um fluxo de convulsão e um refluxo de impacto no seio de um rachamento comum do corpo e do espírito.
  • A atenção acentua o que já existia enquanto a surpresa amplifica o instante de pensar na duração, instaurando ambas conjuntamente maior presença receptiva onde o ser já dado se espessa e se amplia, o que, em termos ontológicos menos pesados, poderia ser descrito como acentuação, densidade e aumento do ser, sem criação nem geração, apenas leve sinal de sua presença.
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