Psiquiatria
DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.
Introdução
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1. Teorias clássicas, psicanálise e fenomenologia situam-se no horizonte da consciência normal, reflexiva, neurótica ou intencional, abordando a psiquiatria nova dimensão que a desloca dessa normalidade habitual, permitindo experiências-limite reconduzir-nos, por contraste, ao cerne da questão.
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2. Constitui-se a psiquiatria sobre descontinuidade entre psicoses e neuroses, interessando-se a psicanálise sobretudo por estas últimas e declarando-se incompetente quanto às primeiras, não sendo, contudo, tal descontinuidade tão estanque quanto parece, havendo grande amostragem de perspectivas intermediárias, como as neuroses graves de que fala Freud no Compêndio.
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3. Nasce a psiquiatria no fim do século XIX, tendo numerosos cientistas interessados no psiquismo formação médica e psiquiátrica — Freud, Jung, Ferenczi, Karl Abraham, Adler, Bleuler (que renomeia a dementia praecox de Kraeplin como esquizofrenia), Rank, Wilhelm Reich, Steckel.
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4. Considera-se a neurose patologia da consciência normal, consciente o sujeito dos transtornos afetivos que não alteram a integridade de suas funções mentais; já na psicose, que afeta essencialmente o comportamento, o doente não reconhece mais seu caráter mórbido, correspondendo mais de perto ao que antigamente se chamava loucura ou demência, analisada com lucidez por Schopenhauer no Suplemento XXXII.
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5. Existem casos mistos, como a psiconeurose (1896) e a esquizo-neurose ou esquizose, podendo descrever-se processos pelos quais estado emocional se cristaliza em neurose e assume feição psicótica — abatimento em depressão ou melancolia, exaltação em obsessão e mania, cólera em neurose histérica ou esquizofrenia —, sem determinismo linear.
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6. Privilegiar-se-á a psiquiatria existencial (Daseinsanalyse), démarche teórica e prática que integra ao tratamento das psicoses a componente fenomenológica do vivido humano, examinando-se sua fundação por Binswanger e seus desenvolvimentos por Boss, Tellenbach, Blankenburg, Tatossian e Kimura.
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7. L. Binswanger (1881-1966), autor de Melancolia e mania (1960), figura dominante da introdução da fenomenologia na psiquiatria, entrando em contato com Bleuler e Jung em Zurique, percebendo cedo a insuficiência da abordagem psicanalítica para a compreensão do ser humano em sua totalidade, oferecendo-lhe a fenomenologia e a filosofia existencial instrumentos mais radicais para questionar oposições metafísicas não interrogadas — corpo/alma, interior/exterior, si/outro, real/ideal.
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8. Em Introdução aos problemas da psicologia geral (1922), conjuga Binswanger ensinamentos de Freud e Husserl, repensando, após ler Ser e Tempo, o inconsciente freudiano nos termos do Dasein lançado no mundo, retornando finalmente, sob influência de Szilasi, a Husserl e sua fenomenologia genética, qualificada de fenomenologia empírica, buscando compreender as psicoses como fenômenos transcendentais que afetam a existência inteira, não se contentando com descrições existenciais como as de Jaspers ou Minkowski.
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9. Busca compreender, quanto à esquizofrenia, melancolia e mania, o mundo do doente e seus momentos estruturais (Aufbaumomente), com base na assertiva husserliana de que o mundo da experiência se desdobra segundo presunção de continuidade concordante de seu estilo constitutivo, entrando essa concordância em colapso no esquizofrênico, com dissociação das funções psíquicas e perda de realidade do eu empírico.
A melancolia
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1. Insiste Binswanger no momento deficiente de cada psicose vista a partir da estrutura do mundo do doente, fornecendo desestruturação da continuidade temporal e dissolução dos laços intersubjetivos a indicação da tendência psicótica, verificando-se quiasma entre as duas psicoses: falha da continuidade temporal no melancólico, relações enfáticas e multiplicadas com o outro na mania.
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2. A chave da consciência melancólica reside na autocondenação, imputando-se o doente a culpa e responsabilidade de evento catastrófico que não provocou, engendrando esse estilo de perda, realizada e não apenas possível, afetos violentos — sofrimento, angústia — que podem desembocar em tendência suicida.
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3. A forma gramatical da autocondenação indica o peso do passado: retornando incessantemente ao tempo anterior ao evento, limita o doente extremamente os possíveis, impossibilitando projetar-se no futuro, residindo o momento deficiente da consciência melancólica na perda da flexibilidade do fluxo de consciência, do presente vivo, capturada a protenção pela retenção.
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4. Esse defeito de abertura ao porvir traduz-se também por fechamento em relação aos outros, desenvolvendo o doente comportamento pusilânime que se traduz por retraimento do mundo comum, respondendo-se delírio de pequenez e sofrimento de ser-no-mundo até o constatar não haver mais suporte na existência, restando apenas o abandono completo, o suicídio, limitando-se o papel do outro a destinatário paciente das queixas incansáveis.
A mania
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1. Sendo o referencial fenomenológico da consciência melancólica a consciência do tempo imanente vivido husserliana e a temporalidade existencial heideggeriana, exige a patologia maníaca outro tipo de referencial, voltando-se o maníaco, desviando-se de si, para os outros, a sociedade, sendo o referencial apropriado de tipo intersubjetivo.
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2. Reside o momento deficiente da patologia maníaca na deficiência da apresentação do outro e na impossibilidade de constituir mundo intersubjetivo comum, estando o maníaco inteiramente voltado para os outros, dominando exageradamente o mundo comum da intersubjetividade, sendo tudo público, não pertencendo mais nada à esfera do íntimo, do privado.
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3. A impossibilidade de constituir mundo comum traduz-se por intromissões incongruentes no mundo dos outros, sendo a consciência maníaca consciência estilhaçada em presenças isoladas, momentâneas, triviais e coisificadas, sem elo habitual nem ancoragem sedimentada, comprometida a unidade da temporalidade da vida, reduzida a estrutura temporal ao atual e ao temporário.
O desenvolvimento da psiquiatria existencial
Médard Boss: a Daseinsanálise contra a psicanálise
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2. Retoma Boss, em Daseinsanalyse e Psicanálise (1957), a crítica heideggeriana à psicologia como metafísica da subjetividade, invalidando a leitura de Binswanger do ser-no-mundo como nova propriedade do sujeito, propondo em Eu sonhei… (1975) nova compreensão do sonho fundada na continuidade entre existir-desperto e existir onírico, criticando Freud por supor mini-homem onisciente dentro do homem sonhador.
Tellenbach: do endon melancólico ao atmosférico
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1. Em Melancolia (1961), evidencia Tellenbach o caráter endógeno dessa psicose, forjando o termo endon para a zona concernida, terceiro campo etiológico global e transsubjetivo, manifestando-se nos fenômenos rítmicos da vida — vigília/sono, ciclo menstrual — e nos de motricidade, escapando à vontade do indivíduo.
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2. Ressaisi Tellenbach, na esfera do Endon, o typus melancholicus, caracterizado por espírito de ordem, tendência à manutenção do dado, fanatismo do programa, sentido do sério, sentimento de culpa, fechamento à mudança, evitação do risco, constituindo forma de hipernormalidade patológica.
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3. Em Gosto e atmosfera (1968), destaca-se a noção de atmosférico, aproximando-se do Endon por sua globalidade, receptividade e irredutibilidade a explicação psicológica causal, dando primazia ao sentido oral (olfação, gustação) sobre visão e audição, definindo conhecimento de imersão difusa e global no mundo.
Blankenburg: esquizofrenia e intersubjetividade
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1. Em A perda da evidência natural (1971), interessa-se Blankenburg pelas formas pauci-sintomáticas da esquizofrenia, buscando elucidar o que é viver com os outros, mobilizando a problemática husserliana da intersubjetividade sem, contudo, limitar-se a análise puramente transcendental, mantendo-se sensível à descrição de Jaspers.
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2. Situa-se seu objeto privilegiado nas formas pré-delirantes de esquizofrenia, apoiando-se na fenomenologia mundana da atitude natural de Schütz e na fenomenologia da desumanização e re-humanização de Fink, buscando descrever a continuidade, não a ruptura radical binswangeriana, entre atitude natural e atitude transcendental, permanecendo o esquizofrênico em contato com o mundo dos outros ainda que dissociado da continuidade intersubjetiva.
Tatossian: a “psiquiatria fenomenológica” como continuidade empática entre doente e médico
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1. Marcado pelo trabalho de Binswanger, apresenta Tatossian tese pioneira sobre esquizofrenia paranoide (1957), abordando depois todas as formas de psicose e ressaisindo a herança histórica da psiquiatria fenomenológica.
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2. Sustenta que se pode compreender os delírios, contrariamente à tradição que os via como fenômenos deficitários, fazendo, com Tatossian, a consciência psicótica parte de nossas potencialidades mais próprias, desvio absolutamente inerente à nossa consciência mais íntima, revelando-nos algo de nós mesmos.
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3. Aprofundam essa continuidade compreensiva Grivois, colocando no centro relação intersubjetiva forte entre psicótico e psiquiatra (Naître à la folie), e Naudin, descrevendo a alucinação acústico-verbal como epoché esquizofrênica (Phénoménologie et psychiatrie).
Kimura: aida e constituição do si
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1. Psiquiatra japonês influenciado por Heidegger e pelo zen, focaliza Kimura Bin a constituição do si patologicamente alterado, incapaz de situar-se estável e equilibradamente no mundo das relações interpessoais, mobilizando noção-chave aida (entre), espaço da relação onde o si encontra o outro e a si mesmo.
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2. Retomando de Watsuji o conceito, inscreve-o Kimura em sua psicopatologia, apresentando-se a esquizofrenia como contra-aida exemplar, dada a alienação do eu que a caracteriza, entravando os transtornos gerados o processo de individuação e a constituição de aida interpessoal.
No cruzamento dos caminhos: a visão radical de Henry Ey
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1. Desenvolve Ey, sobretudo em A Consciência (1963), visão original da psicopatologia, aproveitando a fenomenologia da vida normal do espírito para estudar as desestruturações da consciência que são as doenças mentais, propondo em retorno fenomenologia renovada do campo de consciência e do Ego, seu polo organizador, integrando também consciência e processos cerebrais subconscientes.
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2. Circunscreve-se o projeto em três orientações: abordar a consciência desde a atividade psiquiátrica, esclarecendo a estrutura do campo da consciência através de sua desestruturação; pensar o ser-consciente desde a dinâmica neurobiológica de um tornar-se-consciente enraizado no corpo e no cérebro; e confrontar essa dinâmica com o fundo do inconsciente tal como tematizado pela psicanálise.
Do campo de consciência e sua desestruturação à autoconstrução do Eu via sua alteração e alienação
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1. Defende Ey concepção dinâmica da consciência, recusando a visão estruturalista e retomando aportes da fenomenologia genética husserliana, da Gestalttheorie e das teorias genéticas de Wallon, Piaget e Janet, descrevendo a desestruturação do campo de consciência (sonho, confusão onírica, dedobramento alucinatório, despersonalização, ciclotimia maníaco-depressiva) e a alteração/alienação do Eu (esquizofrenia, demência, certas neuroses).
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2. Distingue campo de consciência (Bewußtsein) e identidade da pessoa ou consciência de si (Besinnung), compreendendo mania e depressão a partir da primeira categoria, esquizofrenia a partir da segunda, restaurando continuidade forte entre neuroses (alteração do Eu) e psicoses (alienação do Eu).
Uma leitura crítica da psicanálise: o inconsciente faz parte da consciência
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1. Recusa Ey toda oposição entre consciente e inconsciente, defendendo dinâmica genética e dialética entre ambos, mostrando-se hostil à perspectiva lacaniana, que estrutura o inconsciente segundo modelo combinatório linguístico impessoal, considerando antes o inconsciente psíquico freudiano o dado pulsional do vivido, propriedade do ser consciente que o contém, inclusive ao recalcá-lo.
“Neurobiologia do campo da consciência”
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1. Aborda-se cedo a dimensão neurobiológica subpessoal da consciência, integrada de dentro à dinâmica que Ey tematiza, reconhecendo dívida a Guiraud quanto ao papel do velho córtex hipocampo-límbico como sistema de coordenação das motivações emocionais, recusando conceber o cérebro como cadeia de reflexos ou mosaico de centros, vendo antes organização plástica autorregulada dotada de aptidão à indeterminação, garantia de sua liberdade criadora.
Conclusão
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1. Refutando toda oposição entre consciência e inconsciente, bem como toda descontinuidade entre níveis diferentes de abordagem, pensa Ey a unidade emergente contínua que atravessa a dinâmica consciencial em seu impulso originariamente inconsciente, radicalizando o projeto genético husserliano e a dinâmica psíquica freudiana para consoar estreitamente com as perspectivas emergentistas mais recentes das ciências cognitivas, apostando estas, por seu lado, na cogeneratividade entre consciência reflexiva transcendental e processos empíricos subpessoais.
