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Descartes
DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.
O ego cogito e o problema da consciência em Descartes
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1. Os historiadores da filosofia cartesiana são unânimes — Guéroult, Alquié, Gouhier ou, mais recentemente, Beyssade e Marion — em ver nas Meditações Metafísicas a primeira teoria do sujeito consciente de si mesmo e capaz de identificar-se como tal, conferindo o Ego cogito ergo sum o ser à própria atividade de pensar, definindo-se assim o ser do sujeito cartesiano, na propriedade genérica do pensamento, como ser-consciente, travando-se, contudo, sobre esse acordo geral, debate cerrado quanto à propriedade mais específica que deve determinar prioritariamente a consciência cartesiana, opondo-se os comentadores quanto ao estatuto epistemológico-metafísico, psico-fenomenológico ou transcendental que convém atribuir-lhe.
O cogito como fundamento em verdade das ciências
Da dúvida metódica à certeza indubitável
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1. A primeira Meditação submete à prova da dúvida todas as certezas adquiridas desde a infância, sejam as crenças fornecidas pelos diversos registros da sensorialidade, sejam as veiculadas pela imaginação onírica ou alucinatória, obrigando essa dúvida geral, conduzida metodicamente e levada ao hiperbólico pelo Gênio Maligno, a questionar até a verdade das afirmações matemáticas mais elementares, resultando ao termo dessa meditação inaugural, que inclui hipótese metafísica em que o próprio Deus orquestraria o engano universal, tábula rasa de todas as certezas.
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2. Abre-se então a segunda Meditação e, onde se temia que tudo devesse parar, opera-se constatação eminentemente frágil: resta-me certeza no meio dessa perda de todo o chão, a de que estou duvidando, exercendo ao duvidar minha faculdade de pensar, o que ao menos me pertence, anunciando-se assim o cogito, penso, primeiramente como dubito, duvido, sendo justamente essa reviravolta o que torna a posição cética autocontraditória, pois a própria afirmação de que duvido de tudo porta a marca de verdade que escapa a essa dúvida, opondo-se assim a dúvida metódica cartesiana à dúvida metafísica dos céticos, esta minada por contradição interna.
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Pela própria dúvida que provocou o desmoronamento das certezas, reconquisto certeza única, mais alta, a de meu ser subjetivo como ser pensante, certeza ao mesmo tempo muito tênue — minha e de nenhum outro —, limitada no tempo e, contudo, absolutamente inabalável.
Do ser-consciente e suas cogitationes ao cogito enquanto consciência axiomatizada
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1. A certeza que o sujeito tem de pensar e, por isso, de existir, é o que faz dele ser consciente, e consciente de si mesmo como pensante, incluindo tal ser-consciente (conscius esse) todas as modalidades do pensamento que, enquanto atos desse sujeito, possuem qualidade indubitável de certeza, escapando à dúvida, antes mesmo de provada a existência de nosso corpo, os conteúdos de pensamento correspondentes às hipotéticas ações corporais, declinando-se as cogitationes não apenas em conhecimentos, mas também em juízos, avaliações, imaginações, crenças, vontades, motricidade e sensorialidade.
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2. Há equivalência entre pensamento e consciência, notando Alquié que, em vez de conhecentes, dir-se-ia melhor conscientes, sendo o latim ut ejus immediate conscii sumus, sinônimo assim, para Descartes, cogitatio e consciência, tornando Guéroult igualmente sinônimas a essência do pensamento e a da consciência, não sendo, contudo, propriamente a conscientia sinônimo da coisa pensante, mas antes um pensamento, não havendo pensamento sem esse outro pensamento que é a consciência, decorrendo daí duas consequências: não poder haver pensamentos inconscientes, e funcionar a consciência como operador que reconduz todas as modalidades de pensamento a um sujeito-Ego capaz de pensá-las.
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3. A verdade indubitável alojada no cerne de mim mesmo, que sou esse ser pensante, possui caráter apodítico, tendo alguns partidários da filosofia analítica podido ver no cogito, com razão, axioma performativo, postulado inicial da epistemologia e condição de possibilidade das ciências regionais, sendo essa, por exemplo, a posição de J. Hintikka, que faz do conscius esse o princípio pragmático geral de sua lógica.
Uma ausência de problemática da consciência propriamente dita?
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1. Quer se puxe o ser-consciente para o lado de certeza subjetiva absoluta em primeira pessoa, quer se faça dele o axioma lógico-pragmático em terceira pessoa de que tudo derivar, trata-se menos de descrever critérios e estruturas da consciência do que de extrair fundamento absoluto que sirva de medida de verdade a partir do qual tudo deduzir.
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2. Conscientia aparece apenas uma vez em Descartes, nos Princípios (I, § 9), determinando-se ainda aí a cogitatio; conscius esse é notado apenas uma vez, na Exposição geométrica das Respostas às Segundas Objeções; conscius surge uma vez no texto original latino das Meditationes, em passagem essencial que nem o tradutor nem o próprio Descartes, ao revisar a tradução, verteram por consciente; conscientia não figura nas Meditações, consideradas fundadoras de teoria do sujeito consciente de si, sendo suas ocorrências em francês raras e acessórias — na carta a Gibieuf de 1642 e nas Terceiras Respostas.
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3. Tudo leva a pensar que a problemática do ser-consciente em Descartes está ordenada aos motivos do fundamento metafísico e da verdade epistemológica, tratando-se menos de filosofia da consciência que de filosofia da verdade certa e do fundamento, o que parece dar razão a Balibar e, antes dele, a F. Jacques, havendo verdade absoluta no fato de que pensamos, extremamente limitada, contudo, em sua apodicticidade, não podendo dar lugar, por si só, a análise descritiva e reflexiva das operações da alma, o que supõe levar em conta a união da alma e do corpo, tema de fundo do tratado das Paixões da alma.
Da alma como identidade contínua no tempo ao espírito como saber de si pela reflexão
Critérios de uma definição da consciência
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1. Os predicados da verdade/certeza e do fundamento/razão não se impõem para definir o sujeito como sujeito consciente, requerendo antes a consciência, segundo interrogação de índole mais psicológica, análise de seus estados e atos psíquicos, de seu encadeamento, isto é, também de sua possível unificação e, enfim, das modalidades de sua apreensão retrospectiva, parecendo o tempo em seu escoamento, linha de fundo do encadeamento dos estados de consciência e de sua possível unidade na instância de um si, bem como sua dimensão de retomada rememorante que dá lugar à apreensão reflexiva desse si por si mesmo, componente essencial dupla do estudo da consciência.
A problemática cartesiana da mens: entre psicologia fenomenológica e filosofia transcendental
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1. A mens, enquanto res cogitans, retém bem essas duas propriedades que servem de critérios determinantes à definição moderna de consciência: em primeiro lugar, a identidade temporal de um si — a alma, em Descartes, pensa sempre, enquanto penso, sou, continuando mesmo o sonhador a ter pensamentos, decorrendo a continuidade do pensamento de sua inatismo, nascendo comigo e só morrendo comigo, definindo assim a res cogitans a identidade de um si substancial para além dos estados mutáveis do sujeito.
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O sempre de a alma sempre pensa não implica, contudo, sedimentação da memória, tratando-se de continuidade pontual reatualizada a cada instante, como bem mostra Beyssade.
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2. Em segundo lugar, a apreensão reflexiva, pela mens, de si mesma em suas operações, as cogitationes, sendo o espírito dito mais fácil de conhecer que o corpo já no título da segunda Meditação, saindo engrandecido, do déficit de conhecimento da res extensa submetida às ilusões dos sentidos, o conhecimento da res cogitans por si mesma, sendo a consciência aqui desde logo consciência de si, antes de ser consciência de um objeto, correspondendo tal consciência de si a conhecimento claro e sobretudo distinto de si mesma.
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3. Identifica Descartes, segundo orientação de démarche transcendental avant la lettre, consciência e consciência de si, pensamento e pensamento do pensamento: pensar é saber que se pensa, sendo, contudo, tal conhecimento de si imediato, não possuindo o estatuto que a reflexão tem entre os aristotélicos, o de operação mediata, tendo sido o Padre Bourdin, autor das Sétimas Objeções, quem introduziu o termo reflexão como sinônimo de conscientia em sentido escolástico, ao que responde Descartes negando que seja necessário ato reflexo para que o pensamento pense que pensa, não diferindo o primeiro pensamento do segundo, pelo qual percebemos já ter percebido algo.
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4. Somente a presença, em Descartes, desses dois traços — identidade reatualizada do si no tempo e apreensão reflexiva imediata de si mesmo — explica que pós-cartesianos como Louis de la Forge, Arnauld e Pierre-Sylvain Régis (Regius) tenham generalizado o uso cartesiano do termo consciência segundo essas duas propriedades, mostrando G. Rodis-Lewis o papel desses autores e a metafísica da alma que se delineia neles.
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5. La Forge, no Traité de l'esprit de l'homme (1666), menciona o Pensamento como essa percepção, consciência ou conhecimento interior que cada um sente imediatamente por si mesmo, permanecendo, contudo, tal consciência impessoal e distante tanto do Ego confessional de Agostinho quanto do das Meditações; Arnauld, na Lógica ou a arte de pensar (1662) e depois em Des vraies et des fausses idées (1683), assimila o ser-consciente a reflexão que se pode chamar virtual, presente em todas as nossas percepções, sendo o pensamento essencialmente reflexivo sobre si mesmo, sui conscia; Régis, em seu Système de philosophie (1690), oferece duas definições de consciência, uma estritamente cartesiana e outra, no Glossário, formal e nominal, como testemunho que se presta interiormente a si mesmo sobre algo.
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6. Enquanto esses três autores se atêm ao plano de psicologia depois chamada racional, ou fenomenológica, há em Descartes evidente oscilação entre a dimensão psicológica da consciência e seu motivo transcendental: a primeira propriedade, a identidade contínua do si no tempo, pertence claramente a abordagem psicológica, adotada pelo próprio Descartes e pelos primeiros cartesianos; a segunda, o conhecimento distinto do espírito por si mesmo, introduz acento transcendental que confere à mens o estatuto de condição de possibilidade da experiência (na versão kantiana) ou de estrutura constitutiva da subjetividade (na ótica husserliana), fazendo do momento cartesiano charneira decisiva entre psicologia dos estados de consciência e epistemologia ou metafísica do fundamento, contendo em si, sem verdadeiramente distingui-los nem articulá-los, esses três acentos.
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