Ciências cognitivas
DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.
Introdução
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1. A questão da consciência constituiu-se progressivamente em relação aos temas da alma substancial, do espírito como operação funcional e da estrutura da reflexividade; em demarcação e continuidade com o inconsciente; no aprofundamento da experiência do corpo, do mundo e do outro; e, por fim, a partir do esclarecimento negativo fornecido pelas patologias da consciência, encontrando esse lento trabalho multidisciplinar eco notável no debate contemporâneo entre as disciplinas científicas.
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2. Em psicologia (Piaget, Gendlin), em neurobiologia (Varela) e mesmo na física (M. Bitbol, Physique et philosophie de l'esprit, 2000), toma-se posição em favor da irredutibilidade do fenômeno da consciência a qualquer explicação empírica, mental, neuronal ou físico-química, opondo-se tais avanços às posições reducionistas experimentalistas externalistas que recusam considerar a experiência interna vivida em primeira pessoa.
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3. A questão remonta ao início do século XX, ao debate entre introspeccionismo (Wundt, James, Külpe, Titchener, Binet) e behaviorismo (Watson, Skinner, Thorndike, Lashley), dominante entre 1920 e 1950, e à emergência da psicologia da forma (Ehrenfels, Stumpf, Wertheimer, Köhler, Koffka, Lewin, depois Goldstein, von Weizsäcker, Buytendijk, Gurwitsch), confirmando esta avanço precoce do introspeccionismo experimental.
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4. Ao pôr em evidência a irredutibilidade da consciência como forma unitária de organização a processos biológicos dos quais ela emerge, pode a Gestaltpsychologie aparecer como precursora notável das teorias atuais da emergência nas ciências cognitivas.
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5. Nascem, nos anos quarenta, nos Estados Unidos, as ciências cognitivas, feixe de disciplinas animadas pelo cuidado convergente de compreender a estrutura da cognição — neurobiologia, matemática, inteligência artificial, engenharia, linguística, psicanálise, economia, antropologia —, tomando fonte na descoberta da cibernética, teorização sistemática do controle e da comunicação entre vivente e máquina, nas Conferências Macy (1946-1953), retraçando J.-P. Dupuy essa história em Aux origines des sciences cognitives (1994).
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6. Apesar dessa audácia inicial, verifica-se encontro malsucedido entre cibernética inicial e fenomenologia, e entre esta e a psicologia da forma, devido a concepção lógico-matemática simbólica da cognição (McCulloch & Pitts), sendo apenas a segunda cibernética, colocando em primeiro plano a autoorganização dos sistemas biológicos (Atlan, Maturana, Varela, Petitot), que fará a ponte com a fenomenologia.
Das psicologias à filosofia do espírito
As psicologias
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1. Não há “a” psicologia, residindo a tensão inicial na oposição entre psicologia experimental e psicologia filosófica, redobrando-se a dificuldade quando se reivindica entendimento simultaneamente fenomenológico e experimental da psicologia.
Uma tensão constitutiva da psicologia: a relação entre ciência e filosofia
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2. Nascendo como ciência experimental com Helmholtz e Fechner no século XIX, entenderão os psicólogos na psicologia filosófica abordagem demasiado especulativa, como fará Piaget em Sagesse et illusion de la philosophie, distinguindo-se assim duas formas antinômicas de psicologia segundo se privilegie ciência ou filosofia, respondendo Helmholtz (Optique physiologique) e Fechner (Elemente de Psycho-physik) pelos dois grandes marcos fundadores da disciplina experimental.
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3. Ao réquisito zombeteiro de Piaget contra a filosofia responde a acusação flamejante de Canguilhem (1958) contra a psicologia, defendendo P. Engel (1996) posição intermediária segundo a qual a psicologia pode renovar a abordagem filosófica e mesmo firmar seus conceitos.
A ideia de “fenomenologia experimental”: em que sentido se pode falar de psicologia fenomenológica empírica?
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1. Wundt (1832-1920) inaugura método experimental de introspecção sistemática (1896), reservando à psicologia, distinta da física, a experiência consciente como objeto, vendo na introspecção método próprio, o exame cuidadoso dos próprios estados, atendo-se, sem ser atomista, aos elementos simples do pensamento, o que leva H. Gardner a falar de “química mental”.
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2. Külpe, fundador da Escola de Würzburg, e seu aluno Titchener desenvolvem objeções ao método introspectivo wundtiano com base em resultados contrários à tese wundtiana (herdada de Berkeley) de que o pensamento é sempre acompanhado de imagens, opondo-se “pensamento sem imagem” (Locke/Külpe) a “pensamento imageado” (Berkeley/Wundt), evidenciando K. Bühler tarefas mais complexas que davam melhor conta do funcionamento global da consciência.
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3. Desde 1890, Ehrenfels, fundador da Escola de Graz, demonstra, a partir da percepção da melodia, o fenômeno da Gestalt, qualidade global da forma irredutível à soma de suas partes, sendo Stumpf (1848-1936) a figura fundadora, interessando-se, sob influência de Brentano, menos pelos conteúdos que pelos atos e processos mentais, elaborando o que Spiegelberg chamará “fenomenologia experimental”, tendo por aluno Wertheimer, que demonstra o caráter global da percepção do movimento estroboscópico aparente, e depois Koffka e Köhler.
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4. Desenvolvem Goldstein, von Weizsäcker, Buytendijk, Gurwitsch e von Uexküll, entre 1920 e 1950, estudos visando determinar a forma prenhante e autorreguladora da organização perceptiva e corporal, vendo nos gestaltistas precursores de peso tanto o emergentismo científico (Piaget, Gendlin, Maturana e Varela) quanto a démarche genética em fenomenologia (Spiegelberg, Ihde, Casey).
O que é a filosofia do espírito?
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1. O espírito no sentido da dimensão mental (mind) não é o espírito no sentido da realidade espiritual (spirit), não pretendendo a philosophy of mind tomar posição sobre a natureza do espírito, recortando de modo geral a ideia de psicologia filosófica.
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2. P. Engel (1994) traça via média entre apriorismo (a abordagem cotidiana e conceitual do espírito permanece imune às descobertas científicas) e eliminativismo (as descobertas científicas modificam radicalmente nossa concepção do espírito, tornando-se a filosofia do espírito neurofilosofia), defendendo antes inter-afecção dos conceitos filosóficos e das descobertas científicas.
Materialismos reducionistas
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1. O fisicalista (Helmholtz, Fechner, D. Armstrong) defende concepção ontológica do naturalismo, não havendo estados mentais além das entidades físicas, sendo a teoria da identidade entre espírito e cérebro sua versão metodológica, distinguindo-se duas formas de tal naturalismo, epifenomenalista (o mental acompanha o físico sem eficiência causal) e eliminativista (suprime-se o nível mental), não fazendo nenhuma delas justiça ao problema da causalidade mental, disputado por J. Kim através da noção de exclusão explicativa.
Uma filosofia do espírito não-reducionista
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1. Representa o funcionalismo posição não-reducionista genérica, ocupando cada estado mental papel causal definido por suas relações aos demais, propondo Putnam versão lógico-simbólica forte e Fodor versão material, buscando Davidson (“monismo anômalo”) e Dennett (“heterofenomenologia”) conceber o espírito de modo não-reducionista recusando todo dualismo remanescente.
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2. Sustenta Davidson (Essays on Action and Events, 1980) ser o mental, ao contrário do físico, de tipo holístico, não podendo atribuir-se estado mental sem atribuir muitos outros ao mesmo tempo, formulando isso como “anomia do mental”, não permitindo, contudo, tal tese articular claramente a relação entre nível físico e nível psicológico.
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3. Radicaliza Dennett (Consciousness Explained, 1991) a posição de Davidson, defendendo antidualismo metodológico mas evidenciando, no seio da esfera mental, a dimensão da consciência, recusando a equivalência entre espírito e consciência, mas condicionando a validade da vida da consciência à validação por terceiro, ponto de vista objetivo externo — a heterofenomenologia, oposta à autofenomenologia em primeira pessoa.
O debate sobre a consciência nas ciências cognitivas: do reducionismo ao emergentismo enativo e ao empirismo transcendental
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1. Ao contrário do eliminativismo e do epifenomenismo, reducionistas de facto, e do funcionalismo, que permanece formal ou monista mental, as teorias da emergência propõem naturalização não-reducionista, oferecendo alternativa à explicação redutora do superior pelo inferior, seja fisicalista, seja computacionalista.
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2. O computacionalismo nasce da segunda fase da cibernética, sendo a cognição computação, tratamento informático de representações simbólicas com realidade física, situando-se a computação simbólica nos planos físico e semântico, sendo este irredutível àquele, manipulando um computador apenas o código físico sem acesso a seu valor semântico.
O conexionismo
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1. Aparece a alternativa emergentista desde as Conferências Macy, questionando a lógica como abordagem principal, verificando-se que o cérebro funciona a partir de interconexões distribuídas aleatoriamente e reconfiguradas a cada instante, ressurgindo tais concepções precoces no fim dos anos setenta com os modelos de autoorganização em física e matemática não-lineares (Prigogine & Stengers).
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2. As duas dificuldades principais do computacionalismo devem-se à concepção subjacente do tempo (tratamento sequencial que não dá conta do afluxo paralelo de informações) e do espaço (localidade que impede autorregulação imanente), tornando-se assim o estudo do cérebro e das interconexões neuronais, e não o sistema do computador, o paradigma do estudo da cognição.
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3. O termo conexionismo procede da ideia de que o cérebro corresponde a rede de conexões neuronais traduzindo propriedades globais do comportamento humano, resultando o sistema cognitivo de propriedades neuronais locais das quais emerge configuração global, correspondendo o conexionismo a funcionalismo generalizado, sendo hoje o mecanismo de percepção e reconhecimento visuais compreendido como emergência de estado global a partir de funcionamentos locais em ressonância (Varela & Singer).
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4. Aposta O. Flannagan (1992), em debate com Dennett, numa “método natural” que permite circulação regrada entre os níveis neurológico, psicológico e fenomenológico, embora tanto Flannagan quanto Dennett façam uso extremamente impreciso da fenomenologia, confundindo-a com apelo genérico à experiência, aos qualia, ao sujeito.
Da enação à neurofenomenologia
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1. Centra-se todo o projeto de Varela no terreno do fazer e da prática, propondo cedo o modelo da “enação” alternativa radical ao que, no seio do emergentismo, permanece dependente do paradigma representacional do espírito.
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2. Em L'Inscription corporelle de l'esprit (1991), coloca-se em primeiro plano o modelo emergentista da enação, revelando a consideração de nossa atividade cognitiva cotidiana a insuficiência do modelo conexionista, que se atém à representação de mundo exterior pré-determinado, fazendo valer a enação uma cognição viva que joga com o aleatório e o imprevisível.
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3. Descreve Varela a estrutura enativa da cognição reinvestindo o modelo autopoiético elaborado com Maturana (1986), colocando no centro do conhecimento um “acoplamento operacional” entre o vivente e seu meio, entendida a evolução, não como adaptação seletiva determinada, mas como “deriva natural” que deixa emergir regularidades sem constrangê-las.
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4. As pesquisas de Varela focalizam-se na importância de metodologia regrada em primeira pessoa para o estudo da dinâmica neuronal, sendo na redução e em seu critério de evidência intuitiva que se descobre o impulso de démarche renovada, nomeando essa abordagem, desde 1996, “neurofenomenologia”, oferecendo Husserl, mais que Merleau-Ponty ou Heidegger, suporte metodológico rigoroso a essa requisição científica centrada no vivido em primeira pessoa, apostando-se numa “cogeneratividade” mútua das análises empírica e transcendental (Varela, 1997).
Uma fenomenologia renovada: o empirismo transcendental
Avanços mútuos
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1. Dada a crítica radical husserliana ao naturalismo da démarche científica, só se pode entrar em discussão com o discurso científico fazendo fundo sobre a “despositivização” completa deste, reivindicando Husserl o título de “verdadeiro positivista”, exigindo ancoragem fiel no dado e apreensão própria deste pela consciência, sendo apenas modo de cientificidade absolutamente não-reducionista o interlocutor autorizado do modo fenomenológico de filosofar.
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2. Distinguem-se três atitudes: computacionalista cognitivista (o espírito encerrado no modelo da informação); conexionista emergentista (o espírito como rede de neurônios interagindo localmente produzindo estado cognitivo global sub-simbólico); e enativa, ou emergentista encarnada (deslocando o centro de gravidade da representação para a ação de indivíduo situado em ambiente dado).
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3. Compartilham teoria fenomenológica da redução-constituição e teoria da emergência o cuidado de distinguir níveis descritivos sem esmagá-los uns nos outros e de refletir seu modo de relação possível sobre a base de sua singularidade irredutível, sendo a análise funcional da consciência constitutiva recortada por: ênfase na elucidação interna contra determinação apenas externa; atenção à síntese regrada que faz do todo dimensão irredutível às partes; e compreensão dessa síntese em termos de conexões.
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4. Ressaisível a determinação estática da constituição segundo três traços: Fundierung (fundação, não fundamento substancial mas hierarquia de atos primários e secundários), Schichtung (estratificação por camadas, exemplificada nas Ideias diretrizes… II: matéria sensível, psiquismo, mundo do espírito) e Objektivierung (objetivação, doação de sentido a um objeto), retendo também a hipótese emergentista esse duplo traço de legalidade do aparecer e irredutibilidade da consciência à base neuronal.
Revisitar a fenomenologia: a redução como práxis
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1. A retomada da fenomenologia no quadro científico empírico conduz a acentuar a cogeneratividade originária do empírico e do transcendental em favor do empírico, ao passo que a fenomenologia revisitada pelo empírico conduz antes a pensar essa cogeneratividade em favor do transcendental, privilegiando L. Landgrebe o vertente transcendental e E. Strauss sua inflexão empírica.
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2. Situando-se, como filósofo mais que praticante, no vertente transcendental do empirismo transcendental, engaja-se numa reinervação da redução fenomenológica como práxis e na evidenciação de uma dinâmica da consciência, nome concreto da redução, cuja metodologia é ao mesmo tempo pragmática e procedural.
A importância retrospectiva de James
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1. Os Principles of Psychology apresentam-se como manual de fenomenologia concreta que reúne, levando-as ao ponto máximo de intensidade, as démarches de Stumpf, Husserl e Bergson: como o primeiro, James é sensível à démarche introspeccionista experimental que recusa o elementarismo wundtiano; como o segundo, é atento à fluidez da vida da consciência, dando conta dela com o “specious present”, análogo empírico do presente vivo husserliano; como o terceiro, exprime-se em linguagem finíssima que capta o fluxo da consciência (stream of consciousness).
O psicólogo científico
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1. Formado na escola de Wundt, dele rapidamente decepcionado, interessa-se James pelas funções da atividade da consciência, considerando a observação introspectiva o fundamento primeiro e sempre necessário, combinando démarche introspectiva em primeira pessoa e experimentação em terceira pessoa, o “método comparativo”, subordinada esta àquela.
O filósofo fenomenólogo
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1. A ênfase de James nas funções da consciência aproxima-se do privilégio dado por Stumpf à descrição dos atos, situando ambos sua análise em proximidade com a análise husserliana estática, causando estranheza a recusa comum, em Stumpf e James, das operações metodológicas que cristalizam para Husserl esse entendimento em termos de atos e funções — a redução e a intencionalidade.
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2. Defende James, contudo, “empirismo radical” (1912), concebendo a consciência como “fluxo de consciência” sem a consciência, propriedade primordialmente não-substancial que retoma em parte do Essay de Locke, aproximando-se assim da concepção genética da fenomenologia husserliana, que insiste igualmente na vida originária da consciência em sua dinâmica de advir.
O escritor e a dimensão espiritual
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1. Os escritos de James têm estilo, oferecendo o cotidiano, mas também a literatura e a história, ampla matéria de descrição da vida psíquica, permitindo sua imaginação viva dar conta de fenômenos tão diversos quanto memória, hábito, atenção, vontade, imaginação, sensorialidade, sonho e alucinações.
Conclusão
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1. A metafísica do fluxo consciencial delineada nos últimos escritos não tem o caráter geral e abstrato de uma visão de mundo, encarnando antes James a fluidez da consciência em numerosos exemplos tirados do cotidiano e na própria mobilidade efervescente de sua escrita, captando assim, no mais concreto de nossa experiência e sobre base de agnosticismo assumido, a dinâmica de autotranscendência da consciência de que tantas tradições religiosas e espirituais têm testemunhado através de seus escritos há milênios.
