AGORA E INSTANTE (1982:141-144)
ZIMMERMAN, Michael E. Eclipse of the Self. Athens: Ohio University Press, 1982.
Foi sem dúvida, S. Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do instante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial. Ele permanece preso ao conceito vulgar de tempo que determina o instante com o auxilio do agora e da eternidade. Quando K. fala de “temporalidade”, ele quer referir-se ao “ser e estar-no-tempo” do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o instante experimentado existenciariamente, instante pressupõe uma temporalidade mais originária, embora existencialmente não explicitada com relação ao “instante”, cf. K. Jaspers, Psychologie der Weltanschauungen, 3a edição, 1925, p. 108s e também o “Referat Kierkegaards”, p. 419-432. [SZ:338 nota, tr. Marcia Schuback]
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Kierkegaard critica a concepção da eternidade como infinidade de instantes e a interpreta como qualificação da existência que transfigura a temporalidade do eu em um momento decisivo no qual o indivíduo experimenta a presença do eterno em sua existência finita.
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A decisão crucial consiste em resolver repetir a vida de Cristo, assumindo o peso da própria cruz.
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No próprio ato de assumir a cruz, o fardo da culpa e do pecado é aliviado.
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A vida desesperada do egoísta surge da incapacidade de reconhecer que não é autocriação nem autossustentação.
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O egoísta tenta dominar o mundo para compensar a finitude que resente.
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A libertação ocorre quando a vida é reconhecida como dom que exige gratidão.
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A gratidão implica aceitar e afirmar limitações e dor.
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Essa aceitação só é possível porque o redimido vive numa nova temporalidade em que se experimenta como tornando-se aquilo que já é.
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O desdobramento espiritual é compreendido como renascimento contínuo de Cristo na alma.
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A fé tende a enfraquecer, exigindo repetição do compromisso e antecipação da presença de Deus na vida finita.
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A noção kierkegaardiana de repetição oferece modelo para a ideia heideggeriana de wiederholen.
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Recuperar o passado significa deixar atuar a potência interior sem obstáculo da vontade própria ou do egoísmo.
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Na temporalidade autêntica, cada momento realiza aquilo que sempre se foi e sempre se será.
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A experiência da eternidade é descrita como espiral de autodesdobramento.
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Deus anuncia sua natureza eterna ao dizer “I Am who Am”.
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A semelhança com Deus realiza-se ao tornar-se aquilo que já se é: amor finito ou abertura.
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A perversidade da vida reside na negação da presença duradoura do amor.
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Heidegger considera a análise kierkegaardiana da temporalidade e da autenticidade penetrante, porém restrita ao âmbito existentiell-ôntico, propondo uma investigação existencial-ontológica das condições que tornam possível qualquer momento de visão ou antecipação resoluta da morte.
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A vida do cristão fiel é apenas uma forma de apropriação da herança e de tornar-se autêntico.
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O objetivo heideggeriano é responder à questão do sentido do Ser mediante análise do ser humano.
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Toda resolução particular pressupõe alguma autocompreensão.
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Na resolução da fé, o indivíduo compreende-se como filho de Deus chamado à obediência.
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Não há garantia de que essa escolha seja a mais apropriada.
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Todo ato de fé ou resolução envolve risco.
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Heidegger resume em Ser e Tempo sua avaliação de Kierkegaard ao reconhecer sua aguda percepção existentiell do momento de visão, mas afirmar que ele permaneceu preso à concepção ordinária do tempo como sucessão de agoras e à definição do instante mediante agora e eternidade.
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Kierkegaard entende temporalidade como estar-no-tempo.
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O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora.
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A experiência existentiell do instante pressupõe temporalidade mais originária não explicitada existencialmente.
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A interpretação existencial exigiria compreensão da relação entre tempo e Ser.
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Kierkegaard permanece vinculado à tradição metafísica representada por Hegel.
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A inversão do essencialismo hegeliano em existencialismo não o liberta da concepção do Ser como presença constante.
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Há percepção da ligação entre mudança da temporalidade humana e alteração da autocompreensão.
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Como teólogo cristão, Kierkegaard não realiza investigação filosófica independente das condições da fé.
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Sua abordagem combina existentiell e existencial com predominância do primeiro.
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A diferença entre Kierkegaard e Heidegger torna-se visível ao comparar Either/Or e Ser e Tempo.
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A equidade da interpretação heideggeriana de Kierkegaard é questionada, sobretudo quanto à relação entre temporalidade e eternidade, pois Kierkegaard não reduz o instante a subjetivismo nem pretende cancelar passado e futuro.
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Heidegger recorre a Karl Jaspers e à Psychologie der Weltanschauungen para corroborar a primazia do momento vivido sobre o cálculo racional.
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Jaspers descreve o Augenblick como realidade singular e concreta da vida espiritual.
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Kierkegaard busca unir passado e futuro no Augenblick e mostrar a presença do eterno no temporal.
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Sua orientação religiosa admite a eternidade em certo sentido além do tempo.
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Heidegger identifica eternidade com temporalidade autêntica.
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Influenciado por Nietzsche, Heidegger afasta-se do ideal de eternidade como realidade imutável.
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A relutância heideggeriana em reconhecer plenamente Kierkegaard pode relacionar-se ao distanciamento de suas próprias origens teológicas.
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Com o desenvolvimento de seu pensamento, Heidegger reconhece a influência decisiva dessas origens.
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