estudos:zarader:pensar-2000
O PENSAMENTO (2000:86-88)
ZARADER, Marlène. A Dívida Impensada. Heidegger e a Herança Hebraica. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.
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A segunda parte do curso O que chamamos pensar? (GA8) apresenta um movimento revelador que distingue entre a determinação tradicional do pensamento, fundada no logos grego como enunciado, e sua essência verdadeira, que exige um abandono provisório dessa tradição em favor de uma outra origem na língua alemã, onde o pensamento é definido como memória, recolha e reconhecimento.
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A clivagem inicial da interrogação separa a determinação do pensamento que tem força de lei na doutrina tradicional, circunscrita ao logos como enunciado, lógica e julgamento, da essência verdadeira do pensamento, que requer condições para que se pense conforme a essência.
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A busca pela outra essência do pensamento leva a um abandono provisório da derivação grega do logos em direção à língua alemã, onde a velha palavra Gedanc define o pensamento como memória, recolha e reconhecimento.
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O “salto” da definição dominante para a essência oculta do pensamento não se reduz a uma simples passagem de uma língua a outra, pois a essência impensável alcançada pela meditação do alemão revela-se a mesma que se abrigava no dizer original do logos nos textos de Heráclito e Parmênides, onde o logos tinha o sentido de Gedanc.
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A meditação do alemão, nas primeiras lições, conduz a uma essência do pensamento que, nas lições seguintes, se revela idêntica à que estava presente no logos original dos pré-socráticos.
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O logos original, em Heráclito e Parmênides, não tinha o sentido de logos-enunciado, mas sim o sentido do alemão Gedanc.
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Dois caminhos aparentemente diferentes se abrem para alcançar a essência impensável do pensamento: a meditação do logos original nos fragmentos pré-socráticos e a escuta da língua alemã em suas palavras diretoras, ambos convergindo no mesmo termo, pois a “própria coisa” só vem à presença em sua palavra.
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A meditação do logos original, tal como ressoa nos fragmentos pré-socráticos, ensina a essência do pensamento experimentada na alvorada da linguagem.
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A escuta da língua alemã, apoiada em palavras como Gedanc, denken ou Gemüt, é orientada pela atenção à “própria coisa”, que só se apresenta em sua palavra.
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Apesar da diferença de origem, ambos os caminhos coincidem no seu termo, pois a coisa mesma sempre esteve abrigada nas palavras inaugurais.
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A diferença e a proximidade entre os caminhos para pensar a linguagem e aqueles estabelecidos no curso Was heisst Denken? revelam que, neste último, a essência impensável é buscada na interrogação da única língua alemã, enquanto a meditação prévia da linguagem torna audível que a própria coisa do pensamento só pode vir na palavra.
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No curso Was heisst Denken?, a essência impensável é procurada e alcançada por meio da interrogação da única língua alemã, que no outro caminho intervinha apenas a título acessório.
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A proximidade entre os caminhos reside no fato de que, em ambos, o que está em questão é o próprio desenvolver da coisa, cuja vinda à palavra só a meditação prévia da linguagem podia tornar audível.
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Os dois caminhos, um originado no passado longínquo e outro acessível a cada instante, confluem necessariamente para a mesma coisa, pois a coisa mesma sempre esteve abrigada nas palavras inaugurais e estas nunca dizem mais do que a própria coisa quando deixadas falar, uma confluência que é prescrita tanto por seu próprio plano quanto pelo quadro geral que os abriga.
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O caminho que tem origem no passado mais longínquo e o caminho que se abre a cada instante, se soubermos deixar desenvolver aquilo em que estamos apanhados, dizem a mesma coisa no fim.
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A própria coisa sempre esteve abrigada nas palavras inaugurais, e as palavras inaugurais nunca dizem nada mais do que a própria coisa quando as deixamos falar.
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A reunião final dos dois caminhos é prescrita tanto por seu próprio plano quanto pelo quadro geral em que estão inseridos.
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O pensamento de Heidegger, a partir da viragem, embora se esforce por romper com as categorias da presença ao afirmar que o ser se dispensa enigmaticamente como retirada, não consegue ir até o fim dessa ruptura, pois pressupõe que o ser tenha, em algum momento, se revelado como a retirada que é, e que a verdade do ser tenha ocorrido, ainda que num instante fugaz.
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O ser é visto como retirando-se essencialmente, ou seja, como estando em esquecimento.
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É necessário, para Heidegger, que o ser não tenha sido sempre esquecido, mas que tenha, por um instante, se revelado como a retirada que é, e que o ato decisivo de sua subtração tenha de fato ocorrido.
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Essa necessidade implica que a verdade do ser tenha ocorrido, ainda que num tempo “relâmpago” e no único registro da “experiência”.
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