estudos:zarader:erorterung-2000
ERÖRTERUNG (2000:131-134)
ZARADER, Marlène. A Dívida Impensada. Heidegger e a Herança Hebraica. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.
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O Erörterung, à semelhança do Ort, caracteriza-se por se orientar para a condição de possibilidade, ou seja, para a origem (Herkunft) e o “a partir de onde” (von woher) de algo, como exemplificado na situação do princípio da razão.
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O primeiro traço da situação é a orientação para a condição de possibilidade, para aquilo a partir de onde algo fala, que é denominado o local (Ort) do princípio.
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O caminho que conduz a esse local e permite sua exploração é chamado de situação (Erörterung) do princípio.
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Uma segunda característica do local, e por conseguinte da situação, é o seu caráter de reunião, pois o local é onde se junta o desenvolvimento essencial de uma coisa, fazendo da situação uma atenção à origem recolhida em unidade.
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O local é definido como aquilo onde se junta o desenvolvimento essencial (das Wesende) de uma coisa.
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A situação, portanto, é uma atenção para com a origem, na medida em que esta é recolhida por modo de unidade.
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A situação, ao se voltar para um princípio metafísico, ocupa-se em localizar e recolher a origem impensável do pensável, sendo que o impensável só faz sentido por ser chamado pelo pensável e por estar nele abrigado como aquilo que o permite.
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O impensável é aquilo para onde o pensamento é reconduzido quando interrogado no sentido daquilo que, reservando-se em seu desdobramento, o permite.
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O impensável pertence ao pensável, pois só é chamado por ele e está de alguma forma pré-planeado e abrigado no que é pensado.
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A formulação do Erörterung no texto sobre Trakl apresenta uma diferença significativa, ao descrevê-lo como passagem do dito ao não-dito, em vez do pensável ao impensável, mudança que parece corresponder à passagem de um texto filosófico para um texto poético.
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No texto sobre Trakl, o movimento do Erörterung é apresentado como passagem do dito ao não-dito, e não do pensável ao impensável.
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Essa diferença parece corresponder à natureza do texto a ser situado: um princípio metafísico expõe um pensamento que remete ao impensável, enquanto um poema diz algo que remete ao não-dito que nele se abriga, para que o pensador o pense.
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Na primeira formulação, o impensável é aquilo que não foi meditado pelo pensamento, mas que permaneceu depositado na língua, de modo que o salto em direção ao impensável abandona o terreno do pensado, mas atinge o do dito, para ouvir a palavra em sua força inicial de nominação.
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O impensável é o que não foi meditado pelo pensamento, mas ficou depositado na língua, como a essência de recolha no legein ou a essência reveladora na aletheia.
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O salto para o impensável atinge a palavra, fazendo-a ressoar em sua força inicial de nominação e permitindo pensar o que o pensamento não havia recolhido, mas que permanecia em espera no abrigo do vocábulo.
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A problemática heideggeriana concede ao pensamento a dupla garantia da história (a “manhã”) e da linguagem (as “palavras”), de modo que o pensamento, ao dirigir-se à essência inicial, encontra necessariamente seu eco na palavra.
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O pensamento, quando se dirige para a essência inicial, não pode deixar de encontrar o seu eco na palavra.
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Romper esse paralelismo implica perder o traço característico da problemática heideggeriana, que é a dupla garantia da história e da linguagem.
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Na segunda formulação, a situação como passagem do dito ao não-dito afasta-se do pensado e do dito para alcançar uma dimensão de silêncio, uma reserva inesgotável e permanente da língua, comparável à terra na obra, de onde surge toda abertura e o explícito.
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O não-dito não é o que falta a um dito específico ou o que ele testemunharia, mas sim o que está reservado em todo o dizer.
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O não-dito é a reserva inesgotável e permanente, como a terra na obra, de onde surge qualquer abertura e tudo o que é explícito.
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As duas formulações heideggerianas do Erörterung diferem porque o salto do pensável ao impensável encontra uma marca depositada na língua, enquanto o salto do dito ao não-dito conduz aquém dessa marca, adquirindo nova liberdade, e, sobretudo, porque o primeiro atinge o impensável que pertence ao pensável, ao passo que o segundo atinge uma reserva inesgotável sem ligação direta com um dito fixado.
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O salto do pensável ao impensável percorre um rego já cavado na língua, uma marca depositada, enquanto o salto do dito ao não-dito conduz aquém dessa mesma marca, ganhando uma nova liberdade.
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A passagem do pensável ao impensável atinge algo que é chamado pelo próprio pensável e que a ele pertence, enquanto a passagem do dito ao não-dito atinge uma reserva inesgotável que não está em ligação direta com um dito fixado, não podendo ser vista como aquilo que lhe falta.
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