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AMOR (I)
ZAMBRANO, María. Dos fragmentos sobre el amor. 1982
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Uma das indigências do tempo presente manifesta-se na dificuldade de o amor encontrar lugar de acolhimento na mente e na alma contemporâneas, pois, embora exista, vê-se compelido a justificar-se incessantemente, sendo frequentemente reduzido a sentimento, instinto, libido ou enfermidade, enquanto a liberdade moderna, sobretudo a liberdade de consciência, converte-se em espaço negativo no qual o amor sufoca como ave asfixiada.
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O amor é confundido com sentimentos ou instintos, ou relegado ao campo da libido.
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A mentalidade contemporânea exige que ele se justifique racionalmente.
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A liberdade assume forma negativa e torna-se ambiente inóspito para sua vitalidade.
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A liberdade moderna, ao tornar-se negatividade e simples possibilidade vazia, abandona o amor como princípio gerador, deixando o homem entregue a uma liberdade sem realização, privada da força criadora que o amor inaugura como luz e verbo da vida.
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A liberdade é concebida como possibilidade sem efetivação.
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A ausência do amor gera um vazio existencial.
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O amor é associado à realização concreta do futuro.
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A vida vivida no lado negativo da liberdade corresponde à experiência da ausência do amor, na qual as energias antes integradas por ele se dispersam, produzindo uma pseudoliberdade que se manifesta sob a forma de direitos e autonomias desvinculados de sua fonte inspiradora.
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A retirada do amor não provoca perda imediata perceptível.
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Direitos e energias emergem de forma aparentemente fortalecida.
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A liberdade resultante é instável e rapidamente se esgota.
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Desde o Romantismo, embora o amor tenha ascendido à superfície da vida e encontrado defensores, sobretudo entre os poetas, sua presença efetiva é substituída por sucedâneos legitimados socialmente, enquanto sua rebeldia se perde no vazio da pseudoliberdade contemporânea.
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Os poetas permanecem como seus principais servidores.
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Não há proibição explícita contra o amor.
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O que se aceita socialmente são suas formas substitutivas.
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As forças que outrora se opunham ao humanismo passaram a assumir sua linguagem, promovendo uma exaltação do homem reduzido à sua realidade psicológico-biológica e às suas necessidades justificáveis, mediante renúncia ao amor e à herança divina em nome de uma liberdade autodecidida.
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O homem se afirma como coisa com necessidades determinadas.
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A liberdade serve para legitimar nova submissão à necessidade.
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O amor é trocado por funções orgânicas e complexos psicológicos.
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O idealismo constitui uma das tentativas modernas de libertar-se do divino ao absorvê-lo na consciência ou na história, eliminando o mistério do Deus oculto e suprimindo a possibilidade de queixa ou alteridade diante de um absoluto plenamente revelado.
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O sujeito do conhecimento é divinizado.
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A história é interpretada como processo divino.
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Desaparece a referência ao Deus absconditus.
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O positivismo representa a tentativa oposta de libertar-se do divino ao reduzir toda realidade a fatos submetidos a causas e cálculos, transformando a razão em contabilidade e excluindo o incalculável que caracteriza o divino.
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A ratio é entendida como cálculo.
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O divino é visto como ameaça à ordem dos fatos.
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A realidade humana é reduzida a encadeamentos causais.
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O amor, convertido em fato submetido a julgamento e racionalização, perde sua força transcendente e torna-se episódio necessário ou exercício de direito, esvaziado de sua dimensão avassaladora e divina.
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A paixão é analisada e neutralizada.
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O amor é reduzido a acontecimento justificável.
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Sua potência criadora é anulada.
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Quando não aceito como amor, ele retorna sob a forma de nêmesis e necessidade implacável, convertendo-se em fatalidade histórica e prisão do eterno retorno, consequência da retirada do divino sob forma humana.
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O amor rejeitado transforma-se em justiça inexorável.
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A história assume caráter de pesadelo repetitivo.
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A ausência do divino gera condenação histórica.
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A ausência do amor manifesta-se no seu confinamento à paixão individual desqualificada como simples fato, submetida a julgamento por uma razão que lhe nega lugar, deixando-o vivo porém sem força criadora.
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O amor é processado por uma consciência que o exclui.
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A paixão torna-se trágica por estar submetida à justiça.
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O amor permanece vivo, mas enterrado.
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A predominância de uma nêmesis histórica decorre da tentativa de absorver totalmente o divino ou de eliminá-lo, suprimindo o espaço de transcendência do amor e produzindo asfixia semelhante à de épocas dominadas por deuses opressivos, sendo apenas na Grécia que o eros surgiu como força mediadora entre humano e divino, criador de distância, limite e sentido para a paixão.
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A absorção total do divino equivale à sua negação.
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A ausência de transcendência elimina o espaço de mediação.
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O eros grego une mantendo distância.
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O amor transforma o padecimento em ato e inaugura ordenação da vida humana.
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