18 Preconceitos ao ser
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Subjetividad radical y descomposicíon del ser: Una aproximación a la ontología de Martin Heidegger. México: Plaza y Valdés, 2007.
§ 18. Os preconceitos sobre o ser
1. A análise do perguntar mostrou que o como de todo perguntar é pressuposto, não como conteúdo, mas como o indeterminado a ser esclarecido pelo perguntado, de modo que a pergunta pelo ser, levada a sério fenomenologicamente, não pode partir de um conteúdo determinado, como na pergunta o que é o ser, mas apenas do como que possibilita toda determinação do ser, sendo o olhar dirigido ao pré-dito sobre o ser, aos preconceitos, um possível guia da indagação.
2. No § 1 de Ser e tempo enunciam-se esses preconceitos: o conceito de ser é o mais universal e vazio, resiste a toda definição, não precisa ser definido por ser usado e compreendido por todos constantemente, tornando-se óbvio e claro como o sol aquilo que, oculto, inquietava o filosofar antigo, a ponto de quem insiste em perguntar por ele ser acusado de erro metodológico.
3. Esses três preconceitos, universalidade, indefinibilidade e obviedade do ser, expressam claramente o esquecimento do ser que motiva a necessidade de repetir explicitamente a pergunta pelo ser, constituindo a relação temática esquecida com o ser e três maneiras de relacionar-se com ele, pois o se diz presente em todo juízo sobre o ser exprime algo já dado ou pressuposto, de modo que o preconceito expressa o pressuposto na apreensão do ser.
4. Esses preconceitos, enquanto modos de relação temática com o ser, são diferentes e indicam as diversas formas de falar do ser, suscitando a questão de saber de que depende essa diversidade, se se fala de coisas diferentes, se há relação entre essas formas ou se são independentes e arbitrárias, e se alguma delas anuncia a possibilidade de uma tematização diferente, questões que a tradição filosófica ajuda a esclarecer.
5. No primeiro livro da República, o Trasímaco, a pergunta pela justiça recebe três respostas que a descrevem como relação correta do ser humano consigo e com os outros, mediada pelas coisas, mas que divergem quanto a essa correção, defendendo Céfalo uma justiça de igualdade como devolver o recebido, Polemarco uma justiça de reposição como fazer bem aos amigos e mal aos inimigos e Trasímaco o direito do mais forte, o que conduz à questão da extensão da justiça, que abrange os amigos para Céfalo, os aliados políticos para Polemarco e apenas a si mesmo para Trasímaco.
6. No capítulo Da redenção do Zaratustra, Nietzsche também se refere a três modos de pensar e dizer o que são as coisas, ao perguntar o corcunda por que Zaratustra fala de um modo com eles, de outro com seus discípulos e de outro ainda consigo mesmo.
7. Há assim um primeiro modo de falar, aquele com que Zaratustra se dirige ao povo, à maneira corcunda, outro com que dialoga com os discípulos, à maneira discipular, e um último, com que fala consigo mesmo, que se realiza em silêncio, segundo A mais silenciosa de todas as horas.
8. Tanto um texto do início da filosofia ocidental, o Trasímaco, quanto um que anuncia seu fim, o Zaratustra, explicitam modos de pensar e dizer as coisas, entre os quais um primeiro de extensão visivelmente maior, o dos amigos e do povo, que indica a acessibilidade de um modo de ver explorado por retores e equilibristas e que designa, mais que uma quantidade, a regularidade do modo de ser da maioria, que se relaciona com as coisas simplesmente presentes, suposto cuja presença a filosofia tematizou como ousía e chamou metafísica, a qual desde Aristóteles toma dupla direção, pensando o ente em sua simplicidade e em sua universalidade, como ontologia, e delimitando-o em sua totalidade a partir do não-ente, como teologia, de sorte que a metafísica é ontologia por seu objeto e teologia por seu modo, onto-teologia, copertença da pergunta pelo fundamento do ser e pelo ser do fundamento.
9. Esse duplo caráter da metafísica como onto-teologia aponta o ente em sua totalidade, em sentido universal e supremo, e a posterior incorporação da teologia cristã a essa interpretação, sobretudo na Idade Média, não depende da autoridade eclesiástica, mas do modo como o que é se expõe no aberto desde a Antiguidade grega.
10. Ao dizer o que é o ente enquanto tal, a metafísica fixa o quadro de referência de todo ente possível, sua entidade como presença, de modo que ser já está determinado pelo estar-aí, o que implica, por um lado, uma independência ontológica do ente em relação ao observador, depois rotulada realismo ingênuo, e, por outro, uma determinação entitativa exotérica, pois o ser de algo lhe advém do sentido universal e supremo da totalidade do ente, fundamentação que já sustenta as interpretações criacionistas, de modo que a metafísica grega e a filosofia medieval podem ser pensadas epocalmente como interpretações exotéricas.
11. O dito em geral e compreendido pela maioria em harmonia com o quadro exotérico pode romper-se e conduzir a uma proposta que pense suas consequências, numa relação diferente com o tematizado, que já não se contenta com o apoio universal e supremo, mas propõe um caminho, um método, que questiona o acoplamento do dado ao quadro exotérico e abre outro acesso, transformando a relação exotérica em questão de método e definição, nível representado pelos aliados em Platão e pelos discípulos em Nietzsche.
12. A ideia de método surge em sentido estrito na modernidade, com Descartes, para quem investigar a verdade exige um método, sendo a ciência nada mais que método e projeto de legitimação da objetividade, que restringe a investigação aos objetos cujo conhecimento seguro e indubitável está ao alcance da capacidade natural, os objecta proposita, nos quais já está decidido o que pode ser tema da ciência.
13. As possibilidades de tematizar algo passam a ser dadas de antemão pela proposta metódica correspondente, já não sendo o caráter exotérico que determina o que as coisas são, mas o método esotérico da ciência moderna.
14. Um terceiro modo de falar das coisas não corresponde nem ao quadro de compreensão assimilado pela autoridade da universalidade suprema nem à investigação escolar apoiada no método, mas realiza-se necessariamente como execução por parte de cada um, como experimentaram Trasímaco em sua solidão e Zaratustra em seu silêncio.
15. O fato de Ser e tempo partir dos preconceitos sobre o ser levou a considerá-los aspectos a serem superados a partir de um ponto de partida radicalmente afastado deles, suscitando a questão de qual seria um ponto de partida sem pressupostos, à qual responde o final do § 62, segundo o qual a filosofia não deve negar seus supostos nem contentar-se em admiti-los, mas reconhecê-los e expor, em estreita relação com eles, aquilo para o qual são supostos.
16. Se não se trata de admitir ou negar supostos, a tematização dos preconceitos pode ser entendida como tematização das diversas formas, mais ou menos radicais, de tematizar o ser, cabendo perguntar se alguma delas dá lugar à analítica existencial ou se todas devem ser descartadas, e, já que o final do § 1 afirma que considerar os preconceitos mostra o que significa repetir a pergunta pelo ser, se algum deles aproxima mais dessa reelaboração.
17. Como no Trasímaco e no Zaratustra, também em Ser e tempo descobre-se uma relação com o tematizado que apenas busca situar o desconhecido em esquemas conhecidos, expressa no primeiro preconceito, a universalidade do ser, que absorve toda tematização do ser como o mais geral ou analógico, interpretação exotérica que o submerge no dado e o antecipa, possibilitando a compreensão mais simples e vulgar do ser, mas fechando outro acesso, sendo a ela que se dirige a crítica de Levinas ao totalitarismo ontológico, insuperável se essa fosse a única possibilidade de pensar o ser, o que não é o caso.
18. A interpretação exotérica pode passar a uma interpretação esotérica a partir de um método, papel desempenhado pela lógica, colocada na tradição como caminho filosoficamente adequado a toda problemática ontológica e que, separando-se do vulgo guiado pela autoridade metafísica, pertence à escola e ao discipulado que afinam os modos de acesso, pensando as conclusões do acesso geral e chegando, a partir da universalidade, à consequência lógica da indefinibilidade do ser, com a qual nada mais haveria com que se ocupar e toda tematização do ser se converteria em pseudoproblema.
