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estudos:wahl:gandillac

Resumo biográfico

Resumo de entrada escrita por Maurice de Gandillac na Encyclopaedia Universalis – Dictionnaire des Philosophes

  • Formação intelectual e trajetória acadêmica inicial
    • Jean Wahl afirma-se desde cedo como aluno de excepcional brilhantismo no liceu Janson-de-Sailly, em Paris
      • Essa precocidade intelectual prepara sua entrada na elite do sistema filosófico francês
    • Após um ano de preparação no liceu Louis-le-Grand, ingressa em 1907 na Escola Normal Superior
      • A normalização rigorosa da formação filosófica francesa fornece-lhe instrumentos técnicos sólidos
    • Em 1910, obtém a agregação em filosofia como primeiro colocado
      • Supera Gabriel Marcel, com quem manterá diálogo intelectual constante
    • Doutor em letras em 1920, inicia carreira docente em Besançon, Nancy e Lyon
      • Essa passagem pela província antecede sua consagração parisiense
    • Em 1936, é chamado à Sorbonne
      • Ensina ali quase ininterruptamente até a morte, excetuado o período da Segunda Guerra Mundial
    • Ao longo de cerca de sessenta anos, exerce influência profunda sobre várias gerações
      • Essa influência ultrapassa amplamente o meio universitário estrito
  • Estilo pessoal, método pedagógico e presença intelectual
    • Apesar da aparência frágil e do temperamento reservado, impõe-se pela intensidade intelectual
    • Sua influência decorre de múltiplos fatores combinados
      • Cultura filosófica vastíssima
      • Familiaridade profunda com todas as artes
      • Vocação poética pessoal, exercida de modo bilíngue
        • O inglês lhe é tão natural quanto o francês
      • Curiosidade intelectual sem fronteiras disciplinares
    • O método pedagógico caracteriza-se por uma forma singular de exposição
      • Uso sistemático do questionamento
      • Hesitações aparentes que funcionam como dispositivos heurísticos
      • Exploração de aporias que conduzem ao cerne do real
    • O ensino não visa a transmissão dogmática de sistemas
      • Procura antes provocar o pensamento em seu movimento próprio
  • Guerra, perseguição e exílio
    • Após o êxodo de 1940, encontra-se em Bayonne
    • É formalmente reconvocado à Sorbonne em outubro de 1940
    • Em dezembro, o regime de Vichy decreta a aposentadoria compulsória de professores de origem judaica
    • Wahl continua a ensinar clandestinamente em um quarto de hotel
      • Denuncia abertamente a colaboração e o imobilismo moral
    • Preso em julho de 1941
      • Sofre encarceramento e internamento em Drancy
    • Libertado em novembro graças a intervenções externas
      • Sai profundamente enfraquecido
    • Emigra para os Estados Unidos em 1942
      • Leciona no Mount Holyoke College
    • Retorna a Paris em 1945
      • Transforma seu apartamento em espaço de encontro intelectual internacional
  • Papel institucional e animação da vida intelectual
    • Diretor da Revue de métaphysique et de morale
    • Presidente da Sociedade Francesa de Filosofia
    • Fundador e animador do Collège philosophique
    • Professor visitante em diversas universidades
      • Chicago
      • Berkeley
      • Tunísia
    • Presença constante em congressos filosóficos
    • Participação ativa em concertos, exposições e eventos artísticos
    • Figura central de articulação entre filosofia, literatura e artes
  • Teses de 1920 e eixos fundamentais do pensamento
    • As teses publicadas em 1920 revelam os vetores centrais de sua reflexão
    • Análise da concepção cartesiana do tempo
      • Identificação da ameaça do descontínuo
    • Estudo das filosofias pluralistas inglesas e americanas
      • Crítica do neo-hegelianismo inglês
      • Valorização do caráter trágico do singular
      • Destaque da ideia de um Deus finito
        • A vitória não é necessária nem garantida
    • Afirmação precoce de uma filosofia não totalizante
      • Atenta ao contingente, ao singular e ao trágico
  • Leitura de Platão e dialética não sistemática
    • A Estudo sobre o Parmênides de Platão evidencia método rigoroso e original
    • As hipóteses do diálogo são interpretadas como dissociação da ideia de unidade
      • A unidade aparece em sua diversidade concreta
    • Mobilização de fontes eleáticas, heraclíticas e sofísticas
    • Interpretação do diálogo como nó gordiano da filosofia
    • Ênfase em uma dialética empírica
      • Mais flexível que os modelos cartesiano e espinosista
    • As antilogias não são resolvidas abstratamente
      • Produzem uma catarse
      • Revelam gerações e lutas das formas
  • Hegel, negatividade e consciência infeliz
    • Wahl identifica, nos escritos de juventude de Hegel, uma experiência viva do negativo
      • O negativo é compreendido como ruptura e dilaceração
    • Em 1930, publica O Mal-estar da consciência na filosofia de Hegel
      • Os temas religiosos assumem papel central
    • A obra inaugura nova leitura de Hegel na França
      • Torna possível a posterior recepção por Kojève e Hyppolite
    • A leitura de Wahl articula herança teológica e antecipação moderna
      • Influência de textos místicos, como os de Mestre Eckhart
      • Antecipação do problema nietzschiano do desespero
    • A razão hegeliana é interpretada como Vernunft viva
      • Mais próxima do coração do que do entendimento abstrato
  • Articulação entre tradições filosóficas
    • Wahl percebe precocemente a importância da fenomenologia e do existencialismo
    • Reconhece simultaneamente seus limites
    • Interpreta essas correntes como prolongamento de uma linhagem mais antiga
    • Atua como mediador decisivo dessas correntes na França
  • Vers le concret e a recusa do abstrato fechado
    • O título indica uma orientação metodológica fundamental
      • Movimento em direção ao concreto
    • Análise de três itinerários filosóficos
      • William James
      • Whitehead
      • Gabriel Marcel
    • Cada itinerário é concebido como questionamento e oscilação
    • O negativo é compreendido como fator de cisão do pleno
      • Separação entre objetos e eventos
    • Em Marcel, encontro do mistério do não-problematizável
  • Kierkegaard, limite e transcendência
    • As Estudos kierkegaardianos constituem obra de erudição excepcional
    • O motivo do muro intransponível sintetiza a posição de Wahl
      • O limite é simultaneamente acolhimento e obstáculo
    • A dialética verdadeira conduz da realidade à extinção extática
    • Recusa sistemática de toda sistematização totalizante
  • Obras tardias e coerência do percurso
    • O Tratado de metafísica enfrenta frontalmente as aporias fundamentais
      • Ser e não-ser
      • Natureza e liberdade
    • Recusa explícita de fechar essas aporias em sistema
    • As obras posteriores prolongam e diversificam o mesmo núcleo
      • Existência humana e transcendência
      • História da filosofia francesa
      • Pensamento da existência
      • Estudos sobre Nietzsche
      • Experiência metafísica
    • Produção paralela de prefácios, artigos, catálogos e poemas
    • Atuação constante em colóquios e cursos públicos
      • Convite a uma sabedoria sóbria diante da dispersão do ser
  • Unidade profunda da obra
    • O itinerário intelectual de Wahl mantém firme coerência
    • A recusa do sistema não implica dispersão
      • Implica fidelidade às aporias do real
    • A filosofia é compreendida como experiência viva do pensamento
      • Aberta
      • Trágica
      • Inacabável
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