EREIGNIS (1936-1942)
VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.
1. Traça-se o desenvolvimento dos escritos não públicos de Heidegger sobre “o evento” (das Ereignis) entre 1936 e 1942, mantidos ocultos junto com os Cadernos Negros (Schwarze Hefte) e destinados à publicação póstuma somente após a edição completa dos cursos de preleção, sendo Contribuições à Filosofia (Do Evento) [Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)] o primeiro desses escritos e considerado por muitos a segunda obra maior de Heidegger depois de Ser e Tempo, publicado em alemão em 1989 e traduzido ao inglês em 1989 e novamente em 2012, seguido pelos volumes Meditação (Besinnung), A História do Beyng (Die Geschichte des Seyns), Sobre o Início (Über den Anfang) e O Evento (Das Ereignis), publicados em alemão entre 1997 e 2009.
2. Esses volumes não configuram obras filosóficas no sentido tradicional, assemelhando-se antes a coletâneas de notas, reflexões e exposições de caráter desigual, nas quais se busca uma linguagem que não fale sobre o ser, mas deixe emergir um sentido de ser (Sein) no próprio pensar e dizer, abrindo caminhos para pensar a ocorrência do ser em sua historicidade como evento, com vistas a preparar “o outro início”, razão pela qual tais escritos são denominados “poiéticos” (com referência ao grego ποίησις), ainda que na Alemanha recebam o nome de “tratados sobre a historicidade do seer” (seynsgeschichtliche Abhandlungen).
3. O sentido de ser que se busca evocar carece de fundamento, não podendo ser explicado, mas apenas compreendido performativamente, escapando ao pensamento em termos de atividade e passividade, sujeito e objeto, o que se aproxima em certa medida do que ressoa no poema “O Peregrino Querubínico” [Der Cherubinische Wandersmann], de Angelus Silesius (“a rosa é sem porquê; floresce porque floresce”), com a diferença de que o sentido de ser heideggeriano, na transição da metafísica para o outro início, carrega também um sentido de perda marcado por “choque” ou “horror”, de modo que “a verdade do seer” (die Wahrheit des Seyns) guarda uma dimensão abissal que é ao mesmo tempo reveladora de possibilidades mais plenas de ser.
4. Existem outros textos não públicos escritos no mesmo período, voltados ao engajamento crítico com a própria época a partir da compreensão do ser como evento histórico.
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Pertencem a esse conjunto os Cadernos Negros (Schwarze Hefte), sob os títulos “Considerações” (Überlegungen) e “Notas” (Anmerkungen), que recebem grande atenção também fora da academia sobretudo por conterem observações antissemitas perturbadoras.
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Pertencem também aos escritos não públicos dois volumes de notas — cerca de 1.480 páginas — sob o título Sobre o Pensamento do Evento.
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Distinguem-se os escritos poiéticos dos Cadernos Negros, na medida em que os primeiros voltam-se mais estritamente ao desvelamento dos aspectos mais ocultos do ser histórico, ao passo que os segundos contêm reflexões de caráter mais polêmico sobre os acontecimentos da época, havendo, contudo, sobreposições entre ambos que tornam necessário, ao menos em parte, o recurso aos Cadernos Negros para o engajamento com os escritos poiéticos.
5. Entre o primeiro e o último volume publicado dos escritos poiéticos, todos redigidos pouco antes e durante a Segunda Guerra Mundial, evidenciam-se deslocamentos marcantes na tonalidade e no movimento do pensamento heideggeriano.
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Ocorre um deslocamento de um pathos mais nietzschiano, no qual se busca um “empoderamento” (Ermächtigung) do ser, para uma atitude mais “mística”, de resposta ao que se denomina “o chamado silencioso do ser” (der stille Ruf des Seins).
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Ocorrem também deslocamentos na conceitualidade e na direcionalidade do pensamento, afastando-se cada vez mais da primazia do ser humano, de modo que a origem da linguagem passa a ser buscada no seer histórico (grafado com “y” para marcar um sentido mais originário de ser), e o pensamento vem a si mesmo a partir daquilo que lhe é atribuído no “de” pertencente ao seer.
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Os últimos volumes publicados assemelham-se a exercícios meditativos repletos de variações repetitivas de som e palavra no limiar do dizível, nos quais se medita, voltado ao silêncio e à ocultação, seguindo disposições afetivas (Stimmungen) compreendidas como oriundas do seer histórico e por ele desveladas.
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Concomitantemente ao deslocamento de tonalidade, ocorre também um deslocamento na atitude em relação à última época da metafísica, isto é, a época presente.
6. A tentativa de evocar um sentido mais primordial de ser é motivada pelo chamado abandono dos entes pelo ser (die Seinsverlassenheit des Seienden), que caracteriza o modo como o ser ocorre na metafísica.
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A história do ser evoluiu no Ocidente de tal maneira que a relação com as coisas e os acontecimentos é cada vez mais determinada pela maquinação (Machenschaft), isto é, pela fabricabilidade e calculabilidade, e pela vivência (Erlebnis), isto é, pela integração de tudo em um sentido subjetivo e não genuíno de “vida”.
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A maquinação e sobretudo a vivência dominam de tal modo a época presente que a possibilidade de um questionamento mais profundo do ser corre o risco de desaparecer.
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É digno de nota que, enquanto nos primeiros escritos poiéticos a postura diante da implantação maquinacional do ser é de resistência, nos últimos escritos poiéticos essa postura se transforma: em vez de resistir à maquinação e ao abandono dos entes pelo ser, deixa-se que ambos “passem”.
7. Distingue-se uma abordagem mais expositiva dos textos de um engajamento mais livre, íntimo e também mais crítico com eles, resultando em capítulos expositivos ou interpretativos, que oferecem estruturas para a navegação por esses textos difíceis e explicam na medida do possível os principais conceitos, seguidos cada um por um capítulo que explora mais livremente temas e questões relacionados ao capítulo anterior.
8. O capítulo 1 introduz os escritos poiéticos de Heidegger em vista de seu projeto anterior, Ser e Tempo, com atenção especial ao papel da história e da linguagem, apresentando ao final as questões que orientam a leitura proposta.
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O capítulo 2 dedica-se a Contribuições à Filosofia (GA65), e o capítulo 3, a ele relacionado, questiona o problema da fundamentação (Begründung) no contexto da diferenciação entre seer e entes, além das questões do corpo, da decisão e da performatividade da escrita.
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O capítulo 4 dedica-se a Meditação (Besinnung) e A História do Seer (Die Geschichte des Seyns) (GA66 e GA67), e o capítulo 5, a ele relacionado, engaja a difícil questão do pensamento heideggeriano em relação ao seu contexto histórico na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as questões de seu nacionalismo e antissemitismo, o que exige um exame dos Cadernos Negros do mesmo período.
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O capítulo 6 dedica-se a Sobre o Início (Über den Anfang, GA70), e o capítulo 7, a ele relacionado, reflete sobre a mudança maior que se opera nesse volume, o deslocamento de disposição afetiva no texto e o movimento heideggeriano de pensar o evento como início (Anfang), investigando o modo como o pensamento passa a se compreender em um movimento de partida rumo à dimensão mais inceptiva e abissal do seer, para além mesmo do seer, com a introdução da difícil noção do “sem-ser” (das Seynlose).
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O capítulo 8 dedica-se a O Evento (Das Ereignis, GA71), e o capítulo 9, a ele relacionado, investiga a linguagem e o modo como, após o descenso à dimensão mais abissal do ser, emerge uma nova “cosmologia” (a quadratura de deuses, humanos, terra e céu) e um repensar das coisas como sítios de reunião e desvelamento de um mundo que ainda não está aí e nunca esteve.
9. No capítulo conclusivo, o décimo, reúnem-se os diferentes fios interpretativos emergidos da leitura dos escritos poiéticos de Heidegger, com foco especial nas questões da disposição afetiva, da linguagem, do corpo e da história em seu pensamento.
