A QUESTÃO NÃO É O SER, MAS A INTELIGIBILIDADE (2015:11-12)
SHEEHAN, Thomas. Making Sense of Heidegger: A Paradigm Shift. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015
É conosco, seres humanos, que ser entra em ação. [GA73.1:90]
Ser: aquilo que aparece apenas e especificamente no homem. [GA73.1:337]
Não pode haver ser dos entes sem o homem. [GA89:221]
Ou ainda: Quando Heidegger afirma que, no mundo moderno, “as coisas, é certo, ainda são dadas… mas o ser as desertou”, esta “deserção” não significa o desaparecimento da “exterioridade” das coisas (a sua existentia ou Vorhandensein), mas refere-se, antes, à perda da compreensão de como as coisas se tornam significativamente presentes: “Onde a luta [πόλεμος] cessa, as coisas não desaparecem certamente, mas o mundo [i.e., a clareira doadora de sentido] desaparece.” [GA40:67]
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A filosofia de Heidegger gira em torno da questão do Ser, cujo significado é investigado a partir de um distanciamento crítico em relação à metafísica tradicional.
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A pergunta fundamental que moveu Heidegger é “o que significa Ser?”, conforme registro nos Seminários de Zollikon.
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O termo “Ser” provém do léxico da metafísica realista tradicional, no qual designa a substância (essência e/ou existência) de algo considerado real.
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A obra de Heidegger promove dois afastamentos principais em relação à metafísica e sua preocupação tradicional com o “Ser”.
O foco da filosofia heideggeriana não é o Ser em si, mas a sua proveniência, a fonte oculta da qual o Ser emerge e que a ontologia clássica negligenciou.-
O objetivo é o “donde” do Ser, aquilo a partir do qual e através do qual o Ser acontece.
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Inicialmente, esse “donde” foi denominado de inteligibilidade do Ser (sentido do Ser) e, posteriormente, reformulado como clareira ou aberto para o Ser dos entes.
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A metafísica tem o Ser como seu tema, enquanto Heidegger busca a essência ou a fonte do Ser, que constitui o fundamento da própria metafísica.
A filosofia heideggeriana promove uma revolução copernicana ao instituir uma ontologia fenomenológica, cujo acesso é condicionado pela redução fenomenológica e que se concentra na correlação entre o homem e o Ser.-
A redução fenomenológica é a condição indispensável para adentrar a filosofia de Heidegger.
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O objeto de consideração não é o real em sua independência do pensamento, como na metafísica tradicional, mas as coisas na medida em que se presentificam de modo significativo para os seres humanos, no âmbito de suas ocupações.
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O trabalho fenomenológico, portanto, ocupa-se exclusivamente do sentido, do significado e da significação, interpretando a essência da “mente” como ser-no-mundo.
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O emprego da terminologia ontológica da metafísica por Heidegger, como na afirmação de que “o Ser deixa as coisas se fazerem presentes”, deve ser compreendido no âmbito da apreensão humana, referindo-se à chegada das coisas ao reino da percepção humana.
O Ser, na acepção heideggeriana, somente entra em jogo na e por meio da relação com os seres humanos, referindo-se à perda da compreensão de como as coisas se tornam significativamente presentes.-
O Ser é aquilo que aparece específica e unicamente no homem, não havendo Ser do ente sem o homem.
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A afirmação de que, no mundo moderno, “o Ser desertou das coisas” não significa o desaparecimento da existência dos objetos, mas sim o fim do mundo como a clareira que doa significado.
A decisão de Heidegger em manter o termo “Ser” para designar a inteligibilidade das coisas, em vez de abandoná-lo à metafísica, é apontada como a origem de uma série de equívocos e incompreensões que persistem sobre sua filosofia.-
Ao não renunciar à palavra “Ser” em favor de uma articulação fenomenológica mais clara do seu objeto de estudo, Heidegger abriu uma caixa de Pandora de pistas falsas.
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As confusões desnecessárias que dificultam a compreensão de sua obra, tanto para filósofos analíticos quanto para heideggerianos, são atribuíveis em grande parte à própria escolha terminológica de Heidegger.
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