QUAL O QUESTIONAMENTO DE HEIDEGGER? (2015:3-5)
SHEEHAN, Thomas. Making Sense of Heidegger: A Paradigm Shift. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015
O tema central e final de Heidegger era o “ser”? Nos seus últimos anos, disse que não era. Quando se trata da “coisa em si” (die Sache selbst) da sua obra, declarou que “já não há espaço nem para a palavra 'ser'”. Então o seu tema era algo “ser-a-mais do que ser” (wesender als das Sein)? E poderia talvez ser o “ser em si”, das Sein selbst, entendido como “algo que existe por si mesmo, cuja independência é a verdadeira essência do 'ser'”? E se assim for, como é que exatamente o “ser em si” difere (se é que difere de todo) do “ser” como o ser dos seres (das Sein des Seienden) ou o ser como o ser dos seres (die Seiendheit des Seienden)? Ou será que o seu tema não era Sein mas talvez Seyn? Ou seria antes Seyn qua Seyn– e se assim for, o que é que isso significa?
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A interrogação sobre o que foi a filosofia de Heidegger concentra-se no problema do significado de “ser” (das Sein), termo cuja centralidade foi afirmada por William J. Richardson e Otto Pöggeler desde os anos 1960, mas cuja indeterminação revela a incerteza fundamental quanto ao que Martin Heidegger efetivamente entende por “ser”.
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Predominância do paradigma interpretativo de Richardson e Pöggeler.
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Persistência da dúvida quanto ao significado de das Sein.
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Necessidade de enfrentar a questão preliminar do sentido de “ser”.
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Para mostrar que o problema do ser inquieta a filosofia ocidental desde a Antiguidade, Heidegger inicia Ser e Tempo com uma citação do Sofista de Platão, na qual o Estrangeiro Eleata interroga Teeteto e Teodoro sobre o significado de τὸ εἶναι e ὄν, revelando a perplexidade diante de um termo supostamente conhecido, mas não compreendido.
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Referência explícita ao Sofista 243e–244a.
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Questionamento do significado de “ser” apesar de seu uso habitual.
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Paralelo implícito entre a perplexidade platônica e a situação diante de Heidegger.
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A dificuldade de compreender o que Heidegger entende por Sein é reforçada por sua observação sobre o fragmento 72 de Heráclito, segundo a qual se diz “é” sem saber o que “é” realmente significa, o que evidencia a obscuridade constitutiva do termo.
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Citação de GA15 sobre o uso irrefletido de “é”.
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Persistência do problema do significado de Sein.
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Centralidade dessa perplexidade para o projeto heideggeriano.
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A indagação acerca do tema central e final de Heidegger torna-se ainda mais complexa quando ele próprio afirma, em seus anos tardios, que não há mais lugar sequer para a palavra “ser”, levantando a hipótese de que sua questão pudesse dizer respeito a algo “mais sendo que o ser”, a “ser ele mesmo” ou a distinções entre Sein, Seyn e suas diversas formulações.
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Declaração de que não há mais espaço para o nome Sein.
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Referência a algo “wesender als das Sein”.
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Problematização de das Sein selbst.
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Distinção entre Sein, Seyn e suas variações gráficas.
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Incerteza quanto à diferença entre ser como ser-dos-entes e ser como Seiendheit.
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A multiplicidade de formulações alternativas — sentido do ser (der Sinn vom Sein), essência do ser (das Wesen des Seins), essenciação da verdade do ser (die Wesung der Wahrheit des Seins), clareira (die Lichtung), Ereignis, ἀλήϑεια, Λήϑη e diferença ontológica — amplia a indeterminação quanto ao verdadeiro foco do pensamento heideggeriano.
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Reconhecimento de que o sentido tradicional de ser como presença constante é conhecido desde os gregos.
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Deslocamento para categorias como Lichtung e Ereignis.
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Inclusão da diferença ontológica como possível tema central.
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Sobreposição e tensão entre múltiplos termos fundamentais.
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A confusão interna ao empreendimento heideggeriano é reconhecida pelo próprio Heidegger ao afirmar que permanece obscuro o que se deve pensar sob o nome “ser”, sendo essa ambiguidade atribuída, no Diálogo sobre a linguagem com Tomio Tezuka, ao uso ambíguo do termo Sein.
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Citação de GA40 sobre a obscuridade do nome “ser”.
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Diálogo com Tomio Tezuka sobre a ambiguidade de Sein.
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Distinção entre Sein como Sein des Seienden e Sein enquanto clareira.
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Reconhecimento da impossibilidade de nomear definitivamente o buscado.
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A consequência é que, ao longo de décadas, leitores de Heidegger enfrentaram uma avalanche de confusões ao tentar distinguir os numerosos termos alemães reunidos em torno de “ser”, o que coloca a questão metodológica de como diferenciar tais conceitos sem aumentar ainda mais a obscuridade.
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Proliferação terminológica em torno de Sein.
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Dificuldade hermenêutica na distinção conceitual.
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Necessidade de esclarecer as diferenças sem multiplicar equívocos.
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