estudos:schurmann:si-mesmo-1996
O SI MESMO (1996/2003:454-456)
SCHÜRMANN, R. Des hégémonies brisées. Mauvezin: Ed. Trans-Europ-Repress, 1996.
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A resposta à pergunta kantiana “Quem?” é o si (Selbst), que opera na voz média, distinguindo-se do “si” conhecido como objeto pela experiência interna, categorizado como substância e determinado empiricamente, tal como na tradição inaugurada por John Locke.
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O conhecimento do objeto sensível e a restrição das inclinações ocorrem por meio da efetivação de sínteses (unidade das intuições e síntese imperativa dos instintos).
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O agente eficaz nessas sínteses não é o “si” empírico, que permanece um objeto categorizado como substância e conhecido pela experiência interna.
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A tradição de Locke trata do cultivo do “si” empírico e individual, problema com o qual Kant precisou lidar.
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O si espontâneo, que determina todos os objetos, é identificado por Kant como a coisa inteligível em si mesma (o si numênico), fundamento tanto do conhecimento quanto da moralidade, cuja origem inefável só pode ser pressuposta pela crença racional, já que o saber sobre ele foi abolido para dar lugar a essa crença.
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O si numênico é a fonte não espaço-temporal onde se enraízam as duas hastes do conhecimento (intuição e conceito) e onde as sínteses morais (imperativos) são formadas.
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Tanto o fundamento do conhecimento quanto o da moral residem nesse si numênico, origem inefável da liberdade cognitiva e moral.
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Para compreender essa origem, Kant precisou abolir o saber, abrindo espaço para a crença.
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Embora simbolizada no belo, sublime e teleologia, essa origem (o substrato inteligível) jamais pode ser conhecida por falta de verificação sensível.
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Partindo do fato da experiência moral, é possível demonstrar a necessidade de crer nesse si inefável como condição para agir como pessoa por meio de sínteses imperativas.
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O embaraço nas páginas kantianas sobre o si decorre da impossibilidade de compreender como é possível o imperativo categórico, cujo único pressuposto é a ideia de liberdade, um pressuposto que a razão finita não pode levar a uma condição mais originária, limitando-se a constatar a realidade da liberdade moral através da lei moral que dela procede, sem jamais poder verificar a liberdade em si mesma.
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A pergunta sobre a possibilidade do imperativo categórico encontra como único pressuposto a ideia de liberdade.
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É impossível para a razão humana compreender como essa pressuposição da liberdade é possível, o que revela o constrangimento da razão finita confinada pelos limites do Iluminismo.
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A reflexão crítica pode observar a liberdade moral em ação (legislando o “você deve”) e assegurar a realidade da causalidade oriunda do si, mas não pode verificar como a própria liberdade é possível.
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A tentativa de conhecer a liberdade exigiria um mergulho no “mundo dos inteligíveis”, algo que Kant rejeita como exaltação (herumschwärmen).
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O efeito acessível dessa causa inteligível (a liberdade) é a lei moral, que procede da vontade inteligente, ou seja, do “si autêntico”.
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Se a última palavra de Kant sobre o si fosse a de uma origem transcendental última e inacessível, o projeto emancipatório de ancorar natureza e liberdade numa mesma razão fracassaria, resultando num sujeito monstruoso e cindido, cujos atos racionais divergiriam sem que o sujeito observador pudesse ter acesso à sua unidade.
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Uma origem transcendental inacessível, nos moldes platônicos, se tornaria uma autoridade suprema e transcendente, envolta em névoas (como diria Nietzsche).
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O projeto emancipatório visa ancorar natureza e liberdade numa única e mesma razão, na faculdade de síntese.
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O fracasso desse projeto ocorreria se os atos da razão tivessem de divergir e diversificar-se, como cordas nas mãos de um titereiro, sem que o sujeito observador pudesse ter acesso à unidade desse sujeito monstruoso, pois ela não se enquadraria nas leis da fenomenalidade.
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Diante do problema da liberdade, Kant manteve-se na oposição entre fenomenal e numenal, situando a liberdade da vontade no âmbito suprassensível (natureza espiritual da alma), o que afasta a compreensão da livre legislação da arena da consciência, levantando a questão sobre como compreender essa liberdade transcendental para além da crença.
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A liberdade da vontade é definida como suprassensível, como a natureza espiritual da alma.
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Essa definição afasta a compreensão da livre legislação da consciência, que é a origem das representações.
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A questão que se coloca é como compreender essa liberdade original e transcendental para além da crença racional nela.
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Kant nunca duvidou da necessidade de enraizar a liberdade no si para evitar a heteronomia, mas permaneceu hesitante quanto ao modo de implantar essa liberdade, hesitação cujo esclarecimento permite obter uma noção do si como uma função transcendental originalmente livre, constitutiva de tudo o que é produzido no tempo.
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O enraizamento da liberdade no si é necessário para evitar a heteronomia.
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A hesitação kantiana reside em como implantar a liberdade.
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O esclarecimento dessa hesitação conduz à noção do si como função transcendental originalmente livre.
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Após a virada crítica, o si não é mais uma “coisa” (no tempo ou fora dele), mas é ele próprio constitutivo de tudo o que é produzido no tempo.
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As referências mútuas entre autoconsciência, liberdade e o si dificultam a compreensão da função nomotética do si-pensamento, que Kant descreve segundo a figura antiga do uno e dos muitos, na qual o uno (pensamento-si) deve ser “capaz de acompanhar” o múltiplo, levantando a questão sobre como se dá a passagem da lei una para suas incidências e se o si exerce uma causalidade sui generis (eficácia autônoma) em contraste com a eficácia heterônoma.
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A função nomotética do si-pensamento (o uno) deve acompanhar o múltiplo das representações.
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A descrição kantiana dessa função segue a figura de pensamento do uno e dos muitos.
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A questão central é compreender a passagem da lei una e última para suas incidências múltiplas.
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Investiga-se se o si exerce uma causalidade sui generis, que pode ser qualificada como eficácia autônoma, em contraste com a eficácia heterônoma (como em Lutero).
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