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Tao Te Ching

El Oriente de Heidegger. Carlo Saviani. Tr. Raquel Bouso García. Barcelona: Herder, 2004

PAUL SHIH-YI HSIAO: HEIDEGGER E NOSSA TRADUÇÃO DO TAO TE CHING

1. Hsiao relata que soube do interesse de Heidegger por uma tradução do Tao Te Ching na primavera de 1946, durante um encontro na Holzmarktplatz de Friburgo, onde Heidegger, ainda sob o impacto do processo de desnazificação, o convidou para colaborar em uma tradução ao alemão durante o verão em sua cabana em Todtnauberg, e Hsiao aceitou entusiasmado, acreditando que as ideias de Lao-Tzu ofereceriam aos alemães e a todo o mundo ocidental uma ocasião para a reflexão após a guerra catastrófica.

  • Hsiao havia conhecido Heidegger em 1942, quando, após obter a licenciatura em psicologia e filosofia chinesa em Pequim, foi a Milão para proseguir seus estudos e, na Universidade do Sacro Coração, obteve permissão para assistir como ouvinte aos seminários de Heidegger, apresentando-lhe ocasionalmente fragmentos de sua tradução italiana do Tao Te Ching, publicada em 1941 por Laterza com o apoio de Benedetto Croce, e provavelmente foi nessa tradução que Heidegger encontrou algo que não havia visto em outras, levando-o a propor a colaboração.

2. Hsiao descreve a atmosfera do reencontro com Heidegger em 1946, em meio às ruínas de Friburgo após o bombardeio de novembro de 1944, e menciona a estranha inquietação de um pato no parque da cidade doze horas antes do ataque, um episódio que discutiu repetidas vezes com Heidegger, pois Hsiao percebia que o pensamento de Heidegger, embora difícil para muitos ocidentais, frequentemente ressoava com ideias do Extremo Oriente, como a concepção chinesa da temporalidade, onde cada coisa está conectada com todas as outras e o passado e o futuro se abrem a cada momento.

  • Durante esse encontro, Heidegger fez a Hsiao uma pergunta provocadora sobre as interpretações opostas de um mesmo passo de “Ser e Tempo” por nazistas e franceses, e Hsiao, refletindo sobre a situação, respondeu com uma citação de Mencio sobre como o Céu, ao conferir graves responsabilidades, primeiro atormenta o coração e a vontade para estimular o caráter, e Heidegger pareceu impressionado, não voltando a falar do assunto, e foi precisamente durante esse encontro que ele propôs a tradução conjunta do Lao-Tzu.

3. O trabalho de tradução começou no verão de 1946, com encontros regulares aos sábados na cabana de Todtnauberg, onde Hsiao chegava de motocicleta, compartilhando com Heidegger os suprimentos que recebia como “meio-aliado”, e o trabalho partiu da edição crítica de Chiang-Hsi-Chang, sem consultar outras traduções, concentrando-se nos capítulos mais difíceis sobre o Tao, mas a natureza extremamente meticulosa do pensamento de Heidegger fez com que, ao final do verão, tivessem trabalhado apenas em oito dos oitenta e um capítulos.

  • Hsiao observa que Heidegger, com sua “piedade do pensamento”, interrogava-o incansavelmente sobre cada unidade de sentido no texto chinês, buscando uma constelação completa de significados que pudesse tornar compreensível no idioma ocidental o significado multifacetado do original, e Hsiao calculou que o projeto levaria cerca de uma década para ser concluído, mas ele decidiu não continuar, pois foi convidado a dar conferências sobre o encontro entre China e Ocidente, e também porque temia que as notas de Heidegger pudessem ir além do necessário para uma tradução.

4. Hsiao menciona um episódio em que um industrial amigo seu, após insistir em visitar Heidegger, perguntou por que os chineses falavam de um modo tão enigmático, citando passagens do Tao Te Ching, e Hsiao respondeu que os chineses daquela época não conheciam a lógica aristotélica, ao que Heidegger retrucou espontaneamente: “Graças a Deus, não!”, mostrando que não era contrário à lógica, mas à sua tendência logicizante, e que a frase de Lao-Tzu sobre o sábio que não é egoísta havia sido completamente mal interpretada por um sinólogo europeu, aproximando-se, na verdade, da sentença de Agostinho “Ama e faz o que quiseres”.

5. Hsiao recorda que Heidegger raramente falava de questões religiosas, mas quando uma artista budista lhe perguntou sobre religião, ele respondeu que o defeito mais grave do mundo é a preguiça do pensamento, o que, para um budista, era uma resposta profundamente religiosa, e Hsiao destaca a autenticidade do perguntar de Heidegger, que frequentemente interrogava mais com o olhar do que com palavras, em busca de uma compreensão sempre mais profunda.

  • Das traduções realizadas, Hsiao menciona duas linhas do capítulo XV que, literalmente, rezam: “Quem pode, aquietando, esclarecer lentamente o turvo? Quem pode, movendo, reavivar lentamente a calma?”, mas Heidegger foi além, dizendo que o esclarecer saca algo à luz, e o movimento imperceptível na quietude pode levar algo ao ser, e Heidegger pediu que Hsiao escrevesse essas linhas em caligrafia chinesa, com “o tao do céu” ao centro como ornamento.
  • Hsiao conclui que, apesar dos receios e do projeto não concluído, o trabalho com Heidegger exerceu uma influência significativa sobre ele, e que a grande autenticidade de seu perguntar é o que nunca esquecerá, esperando que os ocidentais que aprendem com Heidegger possam buscar a verdade com a integridade, abertura e perseverança transmitidas aos asiáticos, pois o perguntar é a piedade do pensamento.
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