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2 Introdução a SZ

JS2024

2. A primeira introdução a Ser e tempo

A necessidade de uma renovação explícita (Wiederholung) da questão do Ser

1. A retomada da questão acerca do começo de Ser e tempo deve conduzir novamente a um dos objetivos mais abrangentes da obra, no qual se determina a direção fundamental de seu empreendimento ontológico.

2. Ser e tempo começa no interior do Sofista de Platão, precisamente na passagem entre os narradores que permanecem presos aos entes e o questionamento eleático acerca do Ser (Sein), passagem seguida no diálogo pela «batalha de gigantes acerca do Ser» (gigantomachia peri tes ousias), cujo reacendimento Heidegger ironicamente apresenta como uma tarefa da qual a época contemporânea julgaria estar dispensada, embora constitua justamente aquilo que se tornou necessário.

3. Ser e tempo deve envolver-se novamente nessa «batalha de gigantes», realizando uma repetição ou retomada (Wiederholung) do movimento platônico que conduz do esquecimento do Ser (Seinsvergessenheit), através da perplexidade ou aporia, ao questionamento genuíno acerca do Ser (Sein), movimento cuja orientação preliminar consiste na interpretação do tempo como horizonte da compreensão do Ser (Seinsverständnis).

4. A publicação de Ser e tempo, no início de 1927, deixou incompleto o projeto originalmente concebido, pois somente a primeira das duas grandes partes apareceu e, mesmo nela, permaneceu ausente a decisiva terceira seção.

5. No semestre de verão de 1927, o curso Os problemas fundamentais da fenomenologia procurou desenvolver algumas das análises destinadas à terceira seção não publicada, ao mesmo tempo que retomou amplamente temas das duas primeiras seções de Ser e tempo mediante uma confrontação crítica com a história da filosofia.

6. Um desses desenvolvimentos ocorre no capítulo intitulado «O problema da diferença ontológica», no qual se exige uma diferenciação rigorosa entre ente (das Seiende) e Ser (das Sein), diferenciação que somente pode ser efetuada mediante a determinação do sentido do Ser (Sinn von Sein), isto é, mediante uma passagem para além do próprio Ser em direção ao sentido ou horizonte a partir do qual ele se torna compreensível em sua diferença em relação aos entes.

7. Essa passagem é comparada ao movimento do prisioneiro para fora da caverna na República de Platão, especialmente ao momento culminante da ascensão em que se alcança a ideia do bem, situada «para além do Ser», de modo que também Ser e tempo procura ultrapassar o Ser em direção àquilo a partir do qual ele pode tornar-se compreensível, movimento caracterizado em Os problemas fundamentais da fenomenologia como uma saída da caverna para a luz.

8. Ser e tempo deve, portanto, repetir a ascensão platônica e realizar novamente a passagem para além do Ser (Sein).

Seção 1: A necessidade de uma renovação explícita (Wiederholung) da questão do Ser

9. A situação de «nós hoje» caracteriza-se não apenas pela ausência de compreensão explícita do sentido do Ser (Sinn von Sein), mas pela ausência da própria perplexidade diante dessa incompreensão, de modo que se torna necessário realizar novamente o movimento em direção à aporia, embora tal movimento possua para os modernos uma configuração diferente daquela que possuía para os antigos narradores.

10. A diferença entre a situação antiga e a moderna torna-se, assim, a questão que deve ser determinada.

11. Essa diferença manifesta-se no próprio título da primeira seção e em sua frase inicial.

12. A afirmação de que a questão do Ser (Seinsfrage) «caiu hoje no esquecimento» fundamenta a necessidade de sua repetição ou retomada (Wiederholung), pois, diferentemente dos primeiros gregos, a época contemporânea recebe uma questão já decisivamente formulada por Platão e Aristóteles, tornando necessária a recuperação do movimento de perplexidade e interrogação por eles realizado e, consequentemente, o reacendimento da «batalha de gigantes acerca do Ser».

13. A questão do Ser (Seinsfrage), embora tenha sido formulada e desenvolvida por Platão e Aristóteles, perdeu posteriormente seu caráter de questão efetivamente investigada e converteu-se em doutrina transmitida, desligada da perplexidade originária da qual havia emergido, de modo que a repetição (Wiederholung) exigida no presente consiste em recuperar o próprio questionamento que permanece apenas vestigialmente conservado pela tradição.

  • No Sofista e na República de Platão, a questão do Ser é explicitamente instaurada, atingindo no Sofista a forma da «batalha de gigantes acerca do Ser».
  • Na Metafísica de Aristóteles, a investigação aprofunda-se mediante a tese segundo a qual o ente se diz de muitas maneiras e mediante a articulação analógica dessas múltiplas significações a partir da substância (ousia).
  • O que Platão e Aristóteles conquistaram mediante o máximo esforço do pensamento permaneceu fragmentário e inicial, mas acabou posteriormente banalizado porque foi separado da experiência interrogativa que lhe conferia sentido.
  • A tradição transmite, por isso, menos a questão viva do que vestígios doutrinariamente estabilizados de sua formulação originária.
  • A tarefa contemporânea torna-se uma recuperação do próprio ato de questionar inaugurado pelos gregos, e não uma simples repetição de seus resultados conceituais.

14. Embora a recuperação moderna da questão possa parecer menos difícil do que sua formulação inaugural por Platão e Aristóteles, ela enfrenta um obstáculo desconhecido pelos gregos, pois não apenas a questão se tornou vazia e trivializada, como também se constituiu um dogma que legitima positivamente sua negligência, encobrindo precisamente aquilo que nela permanece questionável e impedindo a entrada na perplexidade, sendo ainda mais radical o fato de esse encobrimento possuir raízes na própria ontologia antiga.

15. O despertar de um sentido para a questão do Ser (Seinsfrage) exige, portanto, uma confrontação com os preconceitos que legitimam seu abandono, invertendo-os de tal modo que, em vez de ocultarem o caráter questionável do Ser (Sein), passem a apontar para ele e conduzam «nós hoje» à perplexidade necessária para a repetição (Wiederholung) da questão.

16. Três preconceitos fundamentais constituem os modos tradicionais de encobrimento que precisam ser invertidos.

I. A universalidade do Ser

17. O primeiro preconceito sustenta que o Ser (Sein) constitui o conceito mais universal porque sua extensão é ilimitada e se aplica indistintamente a tudo aquilo que é, concluindo-se daí que tal universalidade o torna vazio e dispensa qualquer investigação ulterior acerca de seu sentido.

18. A universalidade do Ser (Sein), entretanto, não corresponde à universalidade ordinária de um gênero, pois, como se mostra em Aristóteles, todo gênero deve poder dividir-se em espécies mediante diferenças específicas provenientes de fora dele, ao passo que nada pode constituir uma diferença exterior ao Ser, já que o Ser pode ser predicado de tudo, tornando impossível considerá-lo um gênero supremo.

19. A universalidade do Ser (Sein) ultrapassa, portanto, toda universalidade genérica e possui o caráter de um transcendental, distinção que já havia sido trabalhada pelo jovem Heidegger em seus estudos sobre Duns Scotus, juntamente com os transcendentais uno (unum) e verdadeiro (verum).

20. A determinação do Ser (Sein) como transcendental não dissolve a questão de sua universalidade, mas evidencia sua dificuldade, pois Aristóteles procurara apreender essa universalidade não genérica pela unidade da analogia, segundo a qual as diversas maneiras de dizer o ente — como quantidade, qualidade e outras categorias — remetem em última instância à substância (ousia) como referência unificadora.

21. Nem Aristóteles conseguiu esclarecer completamente a obscuridade dessas conexões categoriais, nem as elaborações escolásticas do Ser (Sein) como transcendental eliminaram a dificuldade, enquanto a definição hegeliana do Ser como «imediato indeterminado» acabou perdendo de vista o problema aristotélico de sua unidade, de modo que a universalidade do conceito de Ser não significa sua clareza, mas, ao contrário, revela-o como o mais obscuro dos conceitos.

II. A indefinibilidade do Ser

22. O segundo preconceito funda-se na indefinibilidade do conceito de Ser (Sein), consequência de sua universalidade suprema que pode ser estabelecida por duas vias distintas.

23. A primeira via, explicitada mediante Pascal, mostra que toda tentativa de definir o Ser (Sein) precisa empregar a própria cópula «é», utilizando assim o termo que deveria ser definido no interior de sua própria definição.

24. A segunda via decorre da estrutura tradicional da definição por gênero e diferença específica, pois o Ser (Sein) não pode ser subordinado a nenhum gênero mais universal e, portanto, não admite definição nesse sentido, embora precisamente essa indefinibilidade, longe de dispensar a questão de seu sentido, a imponha com maior força.

25. A impossibilidade de conceber o Ser (Sein) segundo a determinação própria dos entes indica que não se pode atribuir ao Ser aquilo que determina um ente, uma espécie ou um gênero, pois os entes possuem determinações suscetíveis de definição enquanto o Ser permanece indefinível, fazendo de sua indefinibilidade não uma solução, mas um aprofundamento de seu caráter questionável.

26. Uma anotação marginal posterior radicaliza essa dificuldade ao advertir que nem sequer se deveria concluir simplesmente, com base na indefinibilidade, que o Ser (Seyn) «não é um ente», pois a conceptualidade empregada nesse tipo de inferência não permite decidir adequadamente acerca do Ser, deixando a questão ainda mais aberta do que a formulação publicada em 1927 fazia parecer.

III. A evidência imediata do Ser

27. O terceiro preconceito sustenta que «Ser» (Sein) é um conceito evidente por si mesmo (selbstverständlich), uma vez que seu uso cotidiano é constante e aparentemente compreendido, embora se trate apenas de uma compreensibilidade mediana e implícita na qual se opera sempre dentro de alguma compreensão do Ser sem que se consiga explicitar conceitualmente aquilo que se compreende.

28. A situação decisiva consiste na tensão entre o fato de sempre já se viver numa compreensão do Ser (Seinsverständnis) e a permanência obscura de seu sentido, pois se fala continuamente dos entes e, nesse próprio falar, já se compreende de algum modo o que significa ser, embora não se consiga determinar o que significa «Ser» (Sein), tensão que impõe a retomada de sua questão.

29. Assim como os antigos narradores, fala-se continuamente dos entes e compreende-se implicitamente o que significa ser, embora permaneça impossível formular adequadamente aquilo que se pretende significar ao empregar a palavra «Ser» (Sein).

30. Os três preconceitos, uma vez invertidos, deixam de justificar o abandono da questão e passam a revelar até que ponto o sentido do Ser (Sinn von Sein) permanece questionável, a tal ponto que a própria questão se apresenta inicialmente obscura e desprovida de orientação.

31. Da perplexidade diante do sentido do Ser (Sinn von Sein) surge, por conseguinte, a necessidade de elaborar uma maneira adequada de formular a questão.

Seção 2: A estrutura formal da questão

32. A investigação deve começar pela estrutura formal do próprio questionar, isto é, pelo esboço heideggeriano das articulações que constituem qualquer pergunta enquanto pergunta.

33. Todo perguntar constitui um buscar, e toda busca recebe antecipadamente sua orientação daquilo que é buscado, estabelecendo-se assim a primeira articulação estrutural entre o perguntar-buscar e aquilo que se busca.

34. Aquilo que é buscado articula-se formalmente em três momentos distintos, cuja correlação determina a estrutura completa da pergunta.

  • Aquilo de que se pergunta (das Gefragte) constitui o tema ou questão para o qual a investigação se dirige.
  • Aquilo que é interrogado (das Befragte) é o ente ou domínio diretamente submetido à investigação.
  • Aquilo que se busca apurar (das Erfragte) é aquilo que propriamente se pretende alcançar acerca do que é perguntado e cuja descoberta preenche a intenção inicialmente ainda vazia do questionamento.

35. Entre o perguntar-buscar e aquilo que é buscado vigora uma conexão essencial, pois a busca somente pode ser orientada pelo buscado quando alguma compreensão prévia dele já está disponível, reaparecendo assim a estrutura circular clássica manifestada nos diálogos platônicos.

36. Essa circularidade vale de maneira privilegiada para a questão do Ser (Seinsfrage), pois toda busca acerca do Ser precisa ser antecipadamente orientada pelo próprio Ser, de modo que o sentido do Ser (Sinn von Sein), embora ainda não explicitamente determinado, deve já estar de algum modo disponível na compreensão vaga e mediana em que sempre se vive.

37. A compreensão previamente dada do Ser (Seinsverständnis) torna-se explicitamente ligada à própria formulação da questão, pois mesmo ao perguntar «o que é Ser (Sein)?» já se compreende o «é» empregado nessa pergunta, ainda que não seja possível determinar conceitualmente aquilo que esse «é» significa.

38. A mera possibilidade de formular a questão testemunha, portanto, a presença dessa compreensão vaga e mediana do Ser (Seinsverständnis), de modo que Ser e tempo começa também no interior de uma compreensão do Ser já previamente dada.

39. Os três momentos estruturais daquilo que é buscado devem ser especificados em sua aplicação particular à questão do Ser (Seinsfrage).

40. Aquilo de que se pergunta (das Gefragte) é o Ser (Sein), preliminarmente compreendido de maneira formal como «aquilo que determina os entes como entes» e como aquilo a partir do qual os entes sempre já são compreendidos, possuindo assim o caráter de um a priori no sentido mais amplo, isto é, daquilo que deve ser pré-compreendido para que qualquer ente possa tornar-se acessível enquanto ente.

41. Aquilo que se busca apurar (das Erfragte) é o sentido do Ser (Sinn von Sein), cuja determinação exige uma conceptualidade própria, distinta dos conceitos empregados para determinar os entes, estando já indicado que essa conceptualidade se relacionará ao modo pelo qual o tempo pode servir de horizonte para a compreensão do Ser (Seinsverständnis).

42. Aquilo que é interrogado (das Befragte) são os próprios entes, pois, sendo o Ser (Sein) aquilo de que se pergunta e significando Ser sempre Ser dos entes, é mediante a interrogação dos entes que Ser e tempo deve perguntar pelo Ser e buscar determinar seu sentido.

43. O acesso ao Ser (Sein) através dos entes pode ser compreendido pelo fato de serem os entes, e não o próprio Ser, aquilo que se apresenta de maneira suficientemente concreta para ser diretamente interrogado, isto é, para tornar possível um acesso fenomenológico.

44. O problema imediato passa, consequentemente, a consistir na determinação de qual ente ou espécie de ente deve ser interrogado para que nele se possa alcançar o sentido do Ser (Sinn von Sein), isto é, qual ente oferece o lugar adequado a partir do qual Ser e tempo pode iniciar sua investigação.

45. Uma nova conexão estrutural surge quando se pergunta como deve ser elaborada (Ausarbeitung) a questão do Ser (Seinsfrage) para que ela seja colocada em plena transparência.

46. A plena transparência da questão significa tornar explícito tudo aquilo que participa de sua formulação, estrutura e perspectivas, impedindo que as condições constitutivas do perguntar permaneçam simplesmente implícitas.

47. No questionamento acerca do Ser (Sein), encontram-se implicados uma conceptualidade adequada à compreensão de seu sentido, a escolha de determinado ente exemplar e um modo específico de acesso a esse ente, sendo todos esses elementos modos de comportamento daquele que pergunta e, portanto, modos de ser do ente que os próprios questionadores são.

48. A plena transparência da colocação da questão (Fragestellung) exige, por isso, que o ente que pergunta se torne transparente em seu próprio Ser (Sein), de modo que elaborar a questão do Ser significa explicitar o Ser do questionador, ponto precisamente no qual é introduzida a designação ser-aí (Dasein).

49. A introdução do ser-aí (Dasein) exige duas observações que delimitam sua função no começo do empreendimento ontológico.

50. Ser e tempo começa, sob esse novo aspecto, com o ser-aí (Dasein), pois a própria colocação da questão (Fragestellung) exige que o ente que pergunta seja tematizado em seu Ser.

51. Ser-aí (Dasein) designa inicialmente nada além do ente que cada um propriamente é, isto é, o ente cujo ser possui o caráter de ser próprio de alguém e cuja estrutura envolve uma peculiar propriedade ou caráter de próprio.

52. O ser-aí (Dasein) é aquele ente para o qual o questionar constitui uma possibilidade de ser e, mais especificamente, aquele cujo Ser (Sein) possibilita perguntar pelo próprio Ser.

53. A preferência pela designação ser-aí (Dasein), em vez de homem (Mensch), não decorre de uma diferença na extensão dos dois termos, mas da necessidade de tematizar radicalmente esse ente sem pressupor as determinações tradicionais já incorporadas à palavra «homem», evitando igualmente conceitos como sujeito, subjetividade e consciência.

54. A designação ser-aí (Dasein) permite, inicialmente, tematizar esse ente em referência ao Ser (Sein), compreendendo o «aí» (Da) do Ser (Sein) como o lugar em que a questão do Ser pode ser colocada.

55. O próprio perguntar pelo Ser (Sein), enquanto modo de ser de um ente, encontra-se essencialmente determinado por aquilo acerca do qual pergunta, de modo que o perguntar e o perguntado não constituem polos simplesmente separados, mas pertencem intrinsecamente um ao outro numa relação em que a elaboração da questão já pressupõe uma compreensão preliminar de sua resposta.

  • Para determinar o sentido do Ser (Sinn von Sein) e até mesmo tornar transparente a própria questão, é necessário explicitar o Ser do ser-aí (Dasein).
  • Essa explicitação parece pressupor aquilo que deveria alcançar, pois somente seria possível compreender o Ser do ser-aí mediante alguma compreensão do sentido do Ser.
  • A circularidade deixa de ser viciosa porque uma compreensão vaga e mediana do Ser (Seinsverständnis) sempre já se encontra disponível.
  • O que vigora não é um raciocínio circular defeituoso, mas uma peculiar relação retrospectiva e prospectiva entre o Ser (Sein), enquanto aquilo de que se pergunta, e o perguntar enquanto modo de ser do ente questionador.
  • Embora se anuncie assim uma prioridade do ser-aí (Dasein), sua legitimidade como ente exemplar ainda não se encontra plenamente demonstrada.

Seção 3: A prioridade ontológica da questão do Ser

56. A prioridade ontológica da questão do Ser (Seinsfrage) significa uma prioridade na ordem da fundamentação, pois o questionamento acerca do Ser fundamenta os demais questionamentos ontológicos e constitui, por isso, a disciplina denominada ontologia fundamental (Fundamentalontologie).

57. A prioridade apresentada nessa seção funciona como complemento positivo da necessidade estabelecida anteriormente, mostrando que a questão do Ser (Seinsfrage) sustenta todo o edifício do conhecimento, já que cada ciência pressupõe uma delimitação da região de entes à qual se dirige e uma determinação preliminar de sua estrutura mediante conceitos fundamentais, conceitos que surgem inicialmente de modo grosseiro e ingênuo a partir da experiência pré-científica, mas cuja crise e revisão constituem o verdadeiro movimento de desenvolvimento das ciências.

  • O grau de desenvolvimento de uma ciência mede-se por sua capacidade de submeter seus próprios conceitos fundamentais a uma crise.
  • As transformações decisivas de uma ciência não consistem meramente no acúmulo de resultados, mas na revisão mais ou menos radical e transparente de seus conceitos básicos.
  • A perplexidade acerca do sentido do Ser (Sinn von Sein) alcança, assim, indiretamente os fundamentos de todo conhecimento científico.

58. As crises dos conceitos fundamentais revelam a necessidade de uma fundamentação genuína das ciências, entendida como determinação ontológica rigorosa dos entes pertencentes a cada região científica, de modo que seus conceitos básicos possam ser estabelecidos a partir do Ser (Sein) desses entes, numa «lógica produtiva» que se antecipa à investigação positiva, abre inicialmente uma região de Ser e oferece às ciências estruturas transparentes para orientar suas pesquisas, correspondendo esse tipo de fundamentação ao que Husserl denomina ontologia regional.

59. As próprias ontologias regionais necessitam, contudo, de uma fundamentação mais originária, pois toda investigação ontológica permanece ingênua e opaca se determina o Ser dos entes sem questionar o sentido do Ser em geral, tornando necessária uma ontologia fundamental (Fundamentalontologie) e fazendo com que a própria exigência interna de fundamentação das ciências conduza finalmente à questão do sentido do Ser (Sinn von Sein).

Seção 4: A prioridade ôntica da questão do Ser

60. A prioridade ôntica da questão do Ser (Seinsfrage) deve ser contrastada com sua prioridade ontológica, embora o título da seção pareça inicialmente enigmático porque sua argumentação se concentra sobretudo em demonstrar a prioridade do ser-aí (Dasein).

61. A prioridade do ser-aí (Dasein) sobre os demais entes deriva de sua relação peculiar com o Ser (Sein), relação que possui caráter interrogativo e se desdobra tanto em sua relação com o próprio Ser quanto em sua relação com o Ser dos entes distintos dele.

62. A escolha do ser-aí (Dasein) como ente exemplar fundamenta-se inicialmente em sua constituição peculiar, sobretudo no fato de sua relação consigo mesmo não consistir na relação de um ente com outro ente nem na autorrelação de um sujeito consigo mesmo, como no cogito ou no espírito, mas numa relação do ser-aí com seu próprio Ser (Sein).

63. A natureza específica dessa relação do ser-aí (Dasein) com seu Ser (Sein) pode ser delimitada mediante algumas determinações fundamentais.

64. O ser-aí (Dasein) distingue-se onticamente porque, em seu Ser (Sein), está em jogo para ele esse próprio Ser, de modo que sua relação consigo possui constitutivamente o caráter de questionabilidade, não porque formule continuamente perguntas explícitas sobre si mesmo, mas porque vive concretamente seu próprio ser como algo que permanece em questão.

  • O próprio Ser do ser-aí não subsiste simplesmente como uma propriedade fixa.
  • Estar em questão significa que aquilo que o ser-aí é permanece implicado em suas possibilidades, decisões e maneiras de ser.
  • A questionabilidade vivida precede a formulação filosófica explícita de questões ontológicas.

65. Pertence à constituição do Ser do ser-aí (Dasein) manter, em seu próprio Ser, uma relação de Ser (Seinsverhältnis) com esse Ser, de modo que ele não simplesmente possui seu ser, mas se relaciona com aquilo que é, mantendo-o em questão e em suspensão, como ocorre quando uma determinação humana — por exemplo, ser corajoso — precisa continuamente realizar-se nas decisões em vez de subsistir como a cor de um objeto.

66. O ser-aí (Dasein) compreende-se de algum modo e com algum grau de explicitação em seu próprio Ser, mas essa compreensão (Verstehen) não constitui primariamente conhecimento conceitual ou relação teórica entre dois entes, pois falta justamente a distância própria ao conhecer objetivo: trata-se da relação imediata de um ente com seu próprio Ser.

67. O ser-aí (Dasein) caracteriza-se ainda por seu Ser estar aberto para ele próprio, de modo que a relação do ser-aí com seu Ser possui o caráter de abertura (Erschlossenheit).

68. A relação do ser-aí (Dasein) com seu Ser (Sein) pode ser reunida em quatro determinações correlatas.

  • O ser-aí mantém uma relação interrogativa com seu Ser.
  • Seu Ser permanece para ele como algo que está em jogo e em questão.
  • O ser-aí compreende seu próprio Ser.
  • Seu Ser encontra-se para ele aberto na abertura (Erschlossenheit).

69. Na constituição do ser-aí (Dasein) encontra-se, portanto, um questionamento pré-ontológico de seu Ser em sentido pleno, pois sua relação interrogativa pressupõe simultaneamente a abertura daquilo que é interrogado, fazendo com que a própria relação cotidiana do ser-aí com seu Ser já contenha pré-ontologicamente a questão ontológica, da qual o questionamento filosófico explícito será apenas uma forma desenvolvida.

70. Essas determinações são reunidas terminologicamente pelo conceito de existência (Existenz), pois a compreensão do Ser (Seinsverständnis) constitui ela própria uma determinação de Ser (Seinsbestimmtheit) do ser-aí (Dasein), cuja essência não consiste na posse de propriedades fixas ou de um «quê» determinado, mas no fato de ter de ser seu próprio Ser, razão pela qual o Ser do ser-aí é denominado existência.

71. No âmbito da existência (Existenz), deve distinguir-se entre compreensão existenciária (existentiell), referente à autocompreensão ôntica e concreta da própria situação vivida, e compreensão existencial (existenzial), referente à compreensão das estruturas ontológicas que constituem a existência e, portanto, da própria existencialidade.

  • A compreensão existenciária (existentiell) realiza-se concretamente mediante o próprio existir e não necessita de conhecimento teórico das estruturas ontológicas.
  • A compreensão existencial (existenzial) tematiza conceitualmente o nexo estrutural que constitui a existência (Existenz).

II. A relação do ser-aí (Dasein) com o Ser dos outros entes

72. A relação interrogativa pré-ontológica do ser-aí (Dasein) não se limita ao seu próprio Ser, mas estende-se ao Ser dos entes diferentes dele, como demonstra a possibilidade da ciência, na qual determinadas regiões de entes podem ser interrogadas quanto ao seu Ser, delimitadas e conceitualmente articuladas a partir de uma compreensão já operante.

73. As ciências constituem modos de ser do ser-aí (Dasein) nos quais ele se relaciona com entes que ele próprio não precisa ser, mas essa relação funda-se no pertencimento essencial do ser-aí a um mundo, de modo que sua compreensão do Ser (Seinsverständnis) envolve com igual originariedade uma compreensão de mundo e uma compreensão do Ser dos entes encontrados dentro desse mundo, antecipando a centralidade que o problema do mundo adquirirá na analítica do ser-aí.

74. Reunidas essas duas dimensões, torna-se patente que a constituição do ser-aí (Dasein) contém uma compreensão pré-ontológica do Ser em geral, de modo que a ontologia fundamental (Fundamentalontologie) nada mais exige inicialmente do que a explicitação teórica e radical dessa compreensão que sempre já pertence ao ser-aí, podendo a questão do Ser ser definida como radicalização de uma tendência essencial de seu próprio Ser: a compreensão pré-ontológica do Ser (Seinsverständnis).

75. A prioridade ôntica do ser-aí (Dasein) sobre os demais entes deriva, portanto, de sua relação interrogativa com o Ser (Sein), pois o ser-aí é pré-ontologicamente a própria questão do Ser, de modo que demonstrar a prioridade ôntica do ser-aí e demonstrar a prioridade ôntica da questão do Ser constituem, nesse sentido, uma única demonstração.

76. O ser-aí (Dasein) contém em sua própria constituição um questionamento pré-ontológico de seu Ser, e por isso o questionamento filosófico explícito constitui apenas o desenvolvimento daquela relação que ele sempre já mantém com seu Ser, fazendo dele o ente exemplar não porque o sentido do Ser possa simplesmente ser abstraído ou lido a partir dele, mas porque o ser-aí constitui o lugar (Stätte) da compreensão do Ser (Seinsverständnis).

  • O sentido do Ser (Sinn von Sein) não deve ser simplesmente «lido» ou extraído do ser-aí como uma propriedade sua.
  • O ser-aí não constitui um exemplar entre outros entes a partir do qual o Ser pudesse ser obtido mediante abstração representativa.
  • Sua exemplaridade consiste em constituir o lugar (Stätte) em que a compreensão do Ser acontece.

Conclusão

77. A relação do ser-aí (Dasein) com seu próprio Ser está longe de ser simples e resiste à conceptualidade e à lógica ontológicas tradicionais, pois a afirmação de que pertence à constituição de Ser do ser-aí (Seinsverfassung des Daseins) manter em seu Ser uma relação de Ser (Seinsverhältnis) com esse próprio Ser emprega «Ser» em sentidos estruturalmente distintos que somente em sua articulação conjunta exprimem a peculiar constituição do ser-aí.

  • O ser-aí está em seu Ser ao ser concretamente algo, como quando é corajoso em determinada situação.
  • Em seu Ser, relaciona-se simultaneamente com esse mesmo Ser, que aparece como termo da relação diante do próprio ser-aí.
  • Essa própria relação é uma relação de Ser (Seinsverhältnis), de modo que o Ser do ser-aí consiste também no relacionar-se com seu Ser.
  • A constituição de Ser (Seinsverfassung) do ser-aí reúne inseparavelmente o que ele é, aquilo com que se relaciona e a própria relação mediante a qual se relaciona.

78. As categorias ontológicas tradicionais não conseguem expressar adequadamente essa constituição de Ser (Seinsverfassung) do ser-aí (Dasein).

79. A determinação do ser-aí (Dasein) como ente exemplar estabelece que a ontologia fundamental (Fundamentalontologie) deve avançar mediante sua interrogação, realizando uma regressão ao ente que a filosofia moderna denominou sujeito, mas radicalizando uma tendência que atravessa tanto a filosofia moderna quanto a antiga e que reconduz os fenômenos ontológicos fundamentais à alma, ao espírito, à consciência, ao sujeito ou ao eu, de maneira que a ontologia do ser-aí pode ser compreendida como a meta latente de todo o desenvolvimento da filosofia ocidental desde os gregos e Ser e tempo como a tentativa de levar esse movimento histórico à sua realização mais radical.

  • Em Kant, a determinação do Ser conduz ao problema da percepção e, consequentemente, a uma regressão ao sujeito.
  • Na filosofia grega, um movimento comparável manifesta-se na regressão ao logos e à psyche.
  • A recorrência histórica da alma, do espírito, da consciência, do sujeito e do eu na explicitação dos fenômenos ontológicos indica uma tendência persistente da filosofia ocidental.
  • A analítica do ser-aí (Dasein) procura realizar essa regressão de maneira mais originária, evitando as pressuposições acumuladas pelas concepções tradicionais de sujeito.
  • A ontologia do ser-aí aparece, assim, como a exigência latente que acompanha o desenvolvimento da filosofia ocidental e que a ontologia fundamental pretende finalmente explicitar.
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