4 Seções 9 a 11
JS2024
1. A exposição da tarefa de uma análise preparatória do ser-aí (Dasein)
1. A tarefa da analítica do ser-aí (Dasein) é exposta segundo duas vias complementares: pela explicitação do caráter duplo constitutivo do próprio ser-aí, desenvolvido sobretudo na seção 9, e pela diferenciação dessa analítica em relação às demais disciplinas que igualmente tomam o ser humano como objeto, tematizadas nas seções 10 e 11.
Seção 9: O tema da analítica do ser-aí (Dasein)
2. Três determinações fundamentais permitem explicitar preliminarmente o caráter próprio da analítica do ser-aí (Dasein), sem ainda proceder a uma leitura exaustiva de todas as implicações da seção.
3. A «essência» (Wesen) do ser-aí (Dasein) reside em seu ter-de-ser (Zu-sein), de modo que seu «quê» (Was-sein), tradicionalmente compreendido como essentia, somente pode ser concebido a partir de seu próprio Ser (Sein), isto é, de sua existentia, pois aquilo que o ser-aí é não se determina pela posse de propriedades fixas, mas pela peculiar relação interrogativa que mantém com seu próprio Ser, relação denominada existência (Existenz).
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A existência (Existenz) não constitui uma propriedade adicional que viesse juntar-se a determinações previamente dadas do ser humano, como racionalidade ou corporeidade.
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A racionalidade, a corporeidade e quaisquer outras características somente podem ser adequadamente compreendidas a partir da maneira originária pela qual o ser-aí se relaciona com seu próprio Ser.
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A inversão é radical: o ser-aí não é primeiro uma coisa dotada de certas propriedades para depois entrar em relação consigo mesmo, mas somente pode receber determinações porque já existe no modo de um relacionar-se com aquilo que pode ser.
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A existência diz respeito aos modos possíveis de ser do ser-aí, isto é, ao envolvimento concreto e interrogativo com aquilo que ele pode vir a ser e com a maneira pela qual pode assumir essas possibilidades.
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A fórmula segundo a qual «a essência do ser-aí reside em sua existência» rejeita, portanto, a transposição para o ser-aí do conceito tradicional de existência adequado aos entes que simplesmente subsistem.
4. A distinção entre os modos fundamentais de determinação dos entes separa, de um lado, propriedades ou categorias, próprias dos entes encontrados dentro do mundo e diferentes do ser-aí, e, de outro, existenciais, próprios exclusivamente da estrutura de Ser do ser-aí (Dasein).
5. As propriedades ou categorias pertencem aos entes intramundanos que Heidegger caracteriza como subsistentes ou simplesmente presentes (vorhanden), cujo modo de Ser é a subsistência ou presença (Vorhandenheit), conceito que não deve ser confundido com «presença objetiva», pois não designa primariamente objetividade, mas a maneira pela qual algo se encontra imediatamente presente como coisa.
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A ontologia antiga tomou predominantemente esses entes subsistentes como paradigma daquilo que significa ente.
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A adoção desse paradigma fez com que as determinações ontológicas fossem tendencialmente concebidas segundo o modelo de propriedades ou categorias.
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A inadequação dessa tradição para compreender o ser-aí decorre de que aquilo que caracteriza o ser-aí não pode ser expresso como propriedade subsistente de uma coisa.
6. Os existenciais (Existenzialien) são determinações de Ser próprias do ser-aí (Dasein) e designam os diferentes momentos estruturais de sua relação com seu próprio Ser, isto é, as articulações constitutivas da existência (Existenz), não podendo ser compreendidos segundo o modelo categorial aplicável aos entes simplesmente presentes.
7. O segundo aspecto do caráter duplo do ser-aí (Dasein) consiste em que esse ente é sempre aquele que cada um propriamente é, de modo que seu Ser possui o caráter cada-vez-meu (Jemeinigkeit): o Ser que para o ser-aí está em jogo, em questão e sob sua responsabilidade é sempre o seu próprio Ser.
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O cada-vez-meu (Jemeinigkeit) não acrescenta uma propriedade subjetiva ao ser-aí, mas caracteriza ontologicamente a maneira pela qual seu Ser lhe pertence.
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Os dois lados da estrutura do ser-aí articulam-se inseparavelmente: seu Ser está em questão e esse Ser que está em questão é sempre o seu próprio.
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A relação consigo mesmo não é, portanto, a relação reflexiva de um sujeito já constituído com uma propriedade sua, mas a relação originária do ser-aí com aquilo que ele próprio tem de ser.
8. A autenticidade ou propriedade (Eigentlichkeit) é introduzida a partir do cada-vez-meu (Jemeinigkeit) e deve ser compreendida etimológica e ontologicamente a partir de próprio (eigen), designando a maneira pela qual o ser-aí assume ou deixa de assumir seu caráter de ser sempre seu, sem que se devam importar para esse conceito avaliações éticas tradicionais.
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O termo Eigentlichkeit está ligado a eigen, «próprio», como na expressão «um quarto próprio» (ein eigenes Zimmer).
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A autenticidade concerne, por isso, à relação do ser-aí com sua propriedade (Eigenheit) e ao modo pelo qual suporta e realiza seu cada-vez-meu.
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A interpretação ética, moralizante ou valorativa da autenticidade obscurece sua função ontológica.
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A apropriação existencialista posterior do conceito, particularmente em Sartre, não deve ser tomada como medida de seu significado rigorosamente heideggeriano.
9. Como aquilo a que o ser-aí (Dasein) se relaciona está sempre em questão e constitui algo que ele pode ser, seu próprio Ser apresenta-se concretamente sob o caráter de possibilidade, e essa possibilidade, por ser sempre sua, constitui sua possibilidade mais própria, que pode ser assumida, conquistada, perdida ou aparentemente apropriada.
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O ser-aí é essencialmente sua possibilidade e não uma substância à qual possibilidades seriam posteriormente acrescentadas.
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«Escolher-se» significa assumir determinada possibilidade como propriamente sua, deixando-a valer em seu caráter de possibilidade própria.
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«Ganhar-se» não significa adquirir uma entidade previamente ausente, mas realizar uma apropriação de si no exercício do próprio poder-ser.
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«Perder-se» significa relacionar-se com as próprias possibilidades de modo a encobrir seu caráter de serem propriamente suas.
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Uma possibilidade pode aparecer como «possibilidade de todos», e precisamente essa neutralização de seu caráter próprio constitui uma modalidade de impropriedade.
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Propriedade (Eigentlichkeit) e impropriedade (Uneigentlichkeit) não são acidentes ocasionais acrescentados à existência, mas possibilidades de Ser fundadas no cada-vez-meu (Jemeinigkeit).
10. Propriedade (Eigentlichkeit) e impropriedade (Uneigentlichkeit) constituem modos de Ser igualmente fundados na estrutura ontológica segundo a qual o ser-aí é sempre seu, razão pela qual ambas as expressões devem ser compreendidas estritamente a partir da relação do ser-aí com sua propriedade (eigen) e não por referência a categorias morais de superioridade e inferioridade.
11. O caráter duplo peculiar do ser-aí (Dasein), constituído por sua relação com o próprio poder-ser e pelo cada-vez-meu (Jemeinigkeit), coloca a analítica diante de uma região fenomenal única, na qual o próprio modo de automostrar-se do ente possui um caráter singular e atravessado por sua propriedade (eigen).
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A singularidade fenomenal do ser-aí impede tratá-lo segundo os mesmos procedimentos empregados na observação de entes subsistentes.
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O termo eigenartig indica literalmente um modo «de espécie própria» e conserva a ressonância de eigen, reforçando a conexão entre o modo peculiar de aparecer do ser-aí e sua estrutura de propriedade.
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A especificidade ontológica do ser-aí transforma o próprio problema do método fenomenológico.
12. O ser-aí (Dasein) nunca possui o modo de Ser dos entes simplesmente presentes (Vorhandenes) dentro do mundo e, por isso, não pode ser encontrado tematicamente como se se tratasse de uma coisa cujas propriedades poderiam ser observadas, catalogadas e enumeradas, fazendo surgir o problema metodológico de como apresentar fenomenologicamente um ente constituído por sua relação com seu Ser mais próprio.
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A observação externa de propriedades é insuficiente porque não alcança a relação existencial pela qual o ser-aí se encontra implicado em seu próprio Ser.
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Torna-se problemático saber se a relação com o próprio Ser pode sequer ser «observada» do mesmo modo que uma propriedade perceptível.
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Torna-se igualmente problemático saber como se poderia alcançar aquilo que constitui o mais próprio de outro ser-aí.
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Essas dificuldades somente podem ser esclarecidas mediante uma compreensão concreta do que significa relacionar-se com o próprio Ser.
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A investigação deve, por isso, avançar inicialmente no horizonte provisório da cotidianidade mediana (durchschnittliche Alltäglichkeit) e somente posteriormente fazer a análise retornar reflexivamente às próprias questões de método.
Seções 10–11
13. A delimitação da analítica existencial nas seções 10 e 11 pode ser compreendida a partir de dois problemas principais que mostram simultaneamente sua ruptura com a filosofia moderna do sujeito e sua função fundante diante das concepções antropológicas tradicionais.
14. A confrontação com o cogito sum de Descartes mostra que a tarefa da analítica consiste em determinar prioritariamente o sentido do sum, isto é, do Ser daquele que diz «eu sou», pois Descartes tornou o cogito filosoficamente central sem determinar o modo de Ser correspondente ao sum, enquanto a analítica heideggeriana sustenta que o Ser do ser humano é mais originário do que sua determinação como cogito, sujeito ou eu.
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O cogito não pode funcionar como ponto de partida ontologicamente suficiente enquanto permanecer obscuro o sentido do sum.
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A caracterização do ser humano como sujeito já pressupõe uma compreensão determinada de seu Ser.
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Partir de um «eu» ou sujeito inicialmente dado significa aceitar sem exame uma constituição ontológica que ainda deveria ser fenomenologicamente demonstrada.
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A ruptura com Descartes alcança, portanto, a própria estrutura da filosofia moderna da subjetividade.
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O ponto de partida no eu encobre o conteúdo fenomenal (Bestand) efetivamente mostrado pelo ser-aí em seu automostrar-se.
15. O fechamento histórico da questão acerca do Ser do ser-aí (Dasein) encontra uma de suas causas fundamentais numa antropologia tradicional jamais ontologicamente interrogada e composta pela combinação de concepções antigas e cristãs do ser humano, cujos dois elementos principais determinam silenciosamente grande parte das investigações posteriores.
16. A definição antiga do ser humano como «animal racional» compreende inicialmente o caráter de Ser do animal segundo o modo da subsistência (Vorhandensein), isto é, segundo o tipo de Ser próprio das coisas, e acrescenta posteriormente o logos como uma capacidade ou dotação superior, deixando ontologicamente indeterminado tanto o modo de Ser do próprio logos quanto o modo de Ser da unidade constituída por animalidade e racionalidade.
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O problema não consiste simplesmente na falsidade empírica da definição, mas na ausência de esclarecimento ontológico dos termos que a compõem.
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O componente animal é previamente interpretado segundo o modelo dos entes subsistentes.
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O logos é então anexado a essa base como uma diferença específica ou faculdade superior.
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Permanece sem resposta a pergunta sobre como o logos é e sobre como se articula ontologicamente com o modo de Ser do ente humano.
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A definição tradicional acaba aplicando ao ser-aí categorias originariamente adequadas a coisas, justamente aquilo que a distinção entre categorias e existenciais procura evitar.
17. O segundo elemento da antropologia tradicional é teológico e compreende o ser humano como criado à imagem de Deus, mas também aqui a fundamentação ontológica permanece inadequada porque o próprio Ser de Deus é interpretado mediante categorias provenientes da ontologia antiga orientada pelos entes como coisas, e essa compreensão é silenciosamente transferida ao ente humano.
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A interpretação teológica do humano não supera automaticamente a ontologia antiga, pois incorpora suas determinações do Ser.
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A compreensão de Deus segundo categorias herdadas condiciona subsequentemente a compreensão do homem criado à sua imagem.
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O problema fundamental permanece a ausência de uma determinação explícita e adequada do modo de Ser do ser humano.
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A mesma deficiência ontológica afeta psicologia e biologia quando tomam o ser humano ou o vivente como objeto sem explicitar previamente as estruturas de Ser correspondentes.
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Também a antropologia em sentido estrito, enquanto etnologia ou estudo de povos considerados «primitivos», pressupõe determinações do humano cuja base ontológica não foi suficientemente estabelecida.
18. Psicologia, biologia e antropologia necessitam, por conseguinte, de uma investigação ontológica fundamental que lhes forneça uma analítica do ser-aí (Daseinsanalytik) capaz de esclarecer o sentido de seus próprios resultados, embora isso não implique suspender as pesquisas positivas até que a filosofia conclua previamente seu trabalho de fundamentação.
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As ciências positivas podem e devem prosseguir suas investigações independentemente da conclusão de uma ontologia fundamental.
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A insuficiência ontológica de seus fundamentos não torna simplesmente inválidos os resultados ônticos que elas descobrem.
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A função da fundamentação filosófica consiste em permitir que esses resultados sejam posteriormente compreendidos e reinterpretados segundo estruturas ontológicas mais transparentes.
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O progresso científico não deve ser concebido apenas como acumulação linear de novas descobertas, pois pode exigir uma repetição (Wiederholung) daquilo que já foi descoberto onticamente.
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Essa repetição significa uma purificação ontologicamente mais transparente do material científico, na qual resultados previamente obtidos recebem um sentido mais originário à luz da determinação adequada do Ser do ente investigado.
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A relação entre ontologia fundamental e ciências positivas não é, portanto, de substituição ou paralisação, mas de fundamentação e reinterpretação.
