User Tools

Site Tools


estudos:romano:em:experiencia

Experiência

(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32)

A EXPERIÊNCIA COMO PROVA DO INEXPERIMENTÁVEL

1. O Evento é, como tal, inexperimentável, se toda experiência, toda empiria, se refere exclusivamente a fatos suscetíveis de explicação no interior do mundo, transcendendo o Evento, como pura reconfiguração de possibilidades, todo fato intramundano e furtando-se a toda explicação causal, sendo apenas origem do mundo, acessível somente a uma compreensão que lhe revela o sentido.

2. Interroga-se se o Evento não deve, ao mesmo tempo, ser experimentado de algum modo por aquele a quem sobrevém, questionando-se se o conceito empirista de experiência é o único possível, e se não haveria, paradoxalmente, uma prova não empírica daquilo que em si mesmo é inexperimentável.

a. — O problema do sentido fenomenológico primeiro da experiência

3. Antes de responder o que significa experiência, quem experimenta e o que é experimentado, importa mostrar a articulação dessas questões, que se deixam pensar inicialmente sob o regime de dois verbos: fazer uma experiência e ter experiências.

  • O verbo ter traduz a ideia de uma acumulação possível, como se as experiências, somando-se, engendrassem um adquirido, um fundo estável disponível ao Adveniente, sendo experimentado aquele que viveu — Erlebnis, do alemão leben —, conceito que a fenomenologia husserliana privilegiou por sua problemática gnoseológica.
  • Bem diversa é a ideia sugerida pela expressão fazer uma experiência: a experiência que se faz é essa prova necessariamente única, irrepetível, na qual se está em jogo e da qual se sai, a cada vez, transformado, importando aqui não a ideia de adquirido, mas a de uma prova que é ao mesmo tempo transformação, conforme precisa Heidegger em Unterwegs zur Sprache (GA12) ao definir fazer uma experiência (eine Erfahrung machen) como deixar vir sobre si, ser atingido, transformado.

4. A etimologia confirma esse sentido: experiência provém do latim experiri, provar, cujo radical periri remete à raiz indo-europeia PER, através, que se atualiza numa multiplicidade de formações lexicais aparentemente estranhas entre si — o inimigo e o perigo (periculum), de um lado, a travessia e a passagem (πείρω, περάω, περαίνω), de outro — feixe de significações que não é tão disparatado quanto parece, pois toda travessia é um perigo, tal como o alemão Erfahrung se ordena segundo os mesmos dois eixos que o grego έμπειρία: travessia e colocação em perigo (Gefahr).

5. Esse perigo consiste em que, arriscando-se em primeira pessoa, o sujeito se engaja, coloca-se em jogo naquilo que o constitui essencialmente até sua própria ipseidade, sendo a experiência esse risco de exposição ao que atinge em pleno coração — ao Evento que, destinando-se insubstituivelmente, dá apenas a advir a si mesmo, não havendo, nesse sentido radical, experiência própria senão do Evento.

6. Dos dois conceitos de experiência — ter experiências, fazer uma experiência —, o primeiro tornou-se filosoficamente predominante no empirismo, ao passo que o segundo, cujo caráter originário se busca evidenciar, é o conceito fenomenológico primeiro, do qual é preciso partir.

b. — A ex-per-iência como travessia e perigo

7. A experiência, em sentido primeiro, é o que, colocando-nos em jogo, nos modifica em profundidade, de modo que, depois de atravessá-la e suportá-la, nunca mais se será o mesmo — provar uma doença, um luto, uma alegria, amar, viajar, escrever um livro, pintar sendo experiências nesse sentido fenomenológico primeiro, simples mas não trivial, pois o vis-à-vis da experiência é sempre, a cada vez, um Evento.

  • Pouco importa, para que se possa falar de experiência em geral, que o Evento seja exterior ou sobrevenha por acaso, como um golpe do destino, ou que seja o mais interior, aquele para o qual se está mais preparado, sendo a travessia de si a si indissociável de um risco e de uma transformação que é advento de si em si na diferença absoluta consigo mesmo, desde o salto primeiro (Ursprung) do Evento.

8. O que importa para a determinação do sentido primeiro da experiência é que a todo Evento, por mais preparado que esteja, pertence um caráter de primeira vez (Erstmaligkeit) que deixa inteiramente exposto e como nu diante de sua novidade radical, sendo, ao contrário do fato intramundano que se repete, o Evento sempre necessariamente único, jamais visto duas vezes — o que se manifesta ao mais alto grau na morte, experiência jamais feita, feita pela primeira e última vez simultaneamente.

9. Segue-se dessa primeira caracterização que a ex-per-iência não ensina nada no sentido de tornar possível a aquisição e a acumulação de conhecimentos empíricos, sendo sempre insubstituível e incomparável com a de outrem, não significando senão essa transformação de si, ao risco de si mesmo, a partir dos Eventos, de modo que ninguém pode ensinar sua experiência a outrem, senão apenas o próprio Evento, que ensina a nós mesmos a nós mesmos, sem transmitir qualquer conhecimento, tal como já o percebera Hegel na Fenomenologia do Espírito ao descrever seu papel fundamentalmente negativo de desaprender.

10. Se a ex-per-iência nada ensina no sentido de disponibilizar conhecimentos, é porque ela mesma não é um conhecimento, mas uma maneira de compreender-se — mais precisamente, uma maneira de compreender o Evento singular e de compreender-se através dele, segundo um círculo hermenêutico em que o Evento recebe sua individuação da singularidade daquele a quem sobrevém e vice-versa; assim, os amores malogrados nada ensinam, pois o amor deve ser recomeçado e reaprendido em cada amor, sendo ex-per-iência que só é possível se cumprida, a cada vez, pela primeira vez.

11. Inversamente, a compreensão, em sua dimensão propriamente evental, é sempre ex-per-iência, na medida em que é indissociável de uma transformação daquele que compreende através dos Eventos que compreende e a partir dos quais se compreende, designando a ex-per-iência o sentido evental do compreender enquanto inseparável de uma transformação e de uma distanciação de si a si.

  • Fazer uma ex-per-iência é compreender-se de outro modo à luz do que sobrevém, cumprindo uma travessia ao perigo de si, supondo toda ex-per-iência, como travessia, uma distância intervalar e uma transposição de si a si pela qual somente se pode acolher o que advém, advindo a si mesmo como outro.

12. Se a ex-per-iência, tomada nesse sentido, não é capaz de fornecer conhecimento empírico algum nem permite explicar coisa alguma, é porque a compreensão nela desenvolvida é fundamentalmente compreensão do inexplicável, sendo sua dimensão a do sentido, refratária a toda etiologia — pois mesmo que se pudesse explicar exaustivamente uma doença em suas causas bacteriológicas, genéticas ou alérgicas, não se teria exibido por isso a textura propriamente evental desse fenômeno.

  • A transformação indissociável da compreensão não significa a passagem de uma vivência (Erlebnis) a outra no interior de um sujeito, mas aquilo que faz, depois, poder-se dizer que essa doença transformou, deu a compreender o mundo, o outro, a si mesmo de outra maneira, não incidindo a alteração sobre as vivências, mas apenas sobre o sentido que elas podem ter para o Adveniente.

13. Decorre disso que a compreensão não vem depois da experiência como resultado ou consequência sua, sendo antes seu movimento mais interior, pois a ex-per-iência, como travessia de si a si, designa essa colocação a distância, pelo Adveniente, do que teve lugar, pela qual o sentido dos Eventos passados se lhe abre, permitindo compreendê-los.

  • Compreender um Evento passado é também compreender o que dele separa, compreender o que, por movimento da própria ex-per-iência, adquiriu certo sentido desde a fenda que o Evento introduziu na própria aventura, não se compreendendo plenamente um Evento senão quando já não mais se o experimenta como tal, no presente, mas se pode submetê-lo a um processo de interpretação a partir dessa estranheza a si que a ex-per-iência introduziu.
  • Permanece a interrogar, mais precisamente, como pensar esse desnível e esse retardo constitutivos de toda compreensão, a qual jamais é contemporânea do sentido do que tem a compreender, mas se declina, a cada vez, segundo a diferença temporal do próprio Evento em sua sobrevinda-em-suspenso, não tendo lugar senão no a posteriori transcendental essencial de sua própria temporalização.
estudos/romano/em/experiencia.txt · Last modified: by 127.0.0.1