Ser-próprio
(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:37)
Deixemos agora de lado o aspecto de limitação da Geworfenheit, do estar lançado, e concentremos-nos no fato de que, mesmo estando lançado, o Dasein se possui de alguma forma a si mesmo. É a essa autopossessão que a tradição sempre chamou de “caráter de pessoa” do ser humano, ou seja, o fato de ser pessoa. Se Heidegger não fala da pessoa, como fazia Max Scheler na mesma época em que “Ser e Tempo” foi escrito, não é porque negue que o Dasein seja pessoa, mas porque quer evitar que esse ser-pessoa seja entendido como uma realidade que está-aí e que, além disso, se possui a si mesma. Para Heidegger, a questão é mais radical. O autopossuir-se — o ser pessoa — não é algo acrescentado ao ser do Dasein, mas sim constitutivo dele; é um modo de ser muito particular (isso é o que não ficava claro em Max Scheler). Não é que o Dasein seja e se autopossua, mas sim que ele só é ao se autopossuir. E é exatamente por isso que o Dasein é cada vez mais meu e seu.
Esse ser-meu é, em última instância, um ser-próprio, ou seja, um ser que se possui. Mas a própria palavra “próprio” sofre de uma certa ambiguidade. Ser próprio pode significar ter um ser peculiar, ou o que dá no mesmo, que o Dasein é o que ele mesmo é, e não outra coisa. Mas pode significar, ao mesmo tempo, que eu sou próprio, no sentido de que pertenço a mim mesmo, de que exerço uma certa posse sobre o meu ser. Ambos os sentidos estão implícitos na palavra tal como Heidegger a utiliza: o Dasein é esse ente extremamente particular e singular e, ao mesmo tempo, pertence a si mesmo, se autopossui. E Heidegger dirá que o Dasein só é em plenitude e verdade quando, no exercício de sua existência, é próprio, ou melhor ainda, o mais próprio possível (eigenstes).
