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estudos:rivera:zubiri:recolhimento-radical-sobre-si-sich-besinnen

Recolhimento radical sobre si

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:27-28)

1. Apesar da interpretação decadente, o Dasein possui uma compreensão primária e radical de seu ser na própria execução desse ser, colocando-se a questão de como instalar-se agora, explicitamente, nessa execução experienciada, devendo o Dasein mostrar-se tal como é imediata e regularmente, em sua cotidianidade média.

  • Isso significa que é preciso descer cuidadosamente ao lugar onde já se está, sem deixar-se perturbar pelas interpretações que se impõem de fora do próprio ser, sendo esse descer ao lugar onde já se está, para assumi-lo explicitamente, o que em alemão se chama sich-besinnen, em grego phronein, uma espécie de radical recolhimento sobre si mesmo, a entrada naquilo em que inadvertidamente nos encontramos.

2. Isso é possível pelo fato de que, ainda que imediata e regularmente se esteja numa interpretação ocultadora do próprio ser peculiar, a compreensão vital e executiva desse ser, e mesmo do ser dessa mesma interpretação caída, é uma real e efetiva projeção do próprio ser e, por conseguinte, comporta uma compreensão pré-ontológica desse ser.

  • Empregando uma distinção da escolástica tardia, pode-se falar de dois tipos diferentes de conhecimento, tomando-se conhecimento em toda a amplitude que essa palavra tem no termo latino cognitio, procedente do grego gignóskein, que não significa apenas o conhecimento teorético obtido através do logos, isto é, o que em alemão se chama Erkennen, mas também a experiência primária e radical das coisas que nos rodeiam, de nós mesmos como entes e dos demais Dasein.
  • Os escolásticos falavam assim de uma cognitio in actu exercito e de uma cognitio in actu signato, sendo a primeira o conhecimento que se tem no próprio exercício de um determinado ato, como quando se conhece o que é nadar nadando ou o que é amar amando, sem mediação de um logos explícito nem tematização que ponha a coisa conhecida como objeto diante de nós, sendo essa cognitio uma espécie de transparência do ato para si mesmo, conhecendo-se o amar a si mesmo, no ato de amar, de forma direta e imediata.
  • Na cognitio in actu signato, ao contrário, conhece-se o por ela conhecido num ato diferente do conhecido, que termina no objeto conhecido e, nesse sentido, o sela, sendo um conhecimento temático, explícito e teorético, contemplando-se nele algo diferente do próprio ato de contemplar, estando o ato intencionalmente voltado sobre o outro e consistindo nesse voltar-se mesmo.

3. Nada impede assim que, quando na interpretação caída se fazem próprias as ideias impessoais do impessoal, isto é, quando se possui um actus signatus acerca do que ali se diz, tenha-se, ao mesmo tempo, uma cognitio in actu exercito do próprio ato de fazer próprias essas ideias, ou seja, da aceitação implícita do falar impessoal como forma da própria existência.

  • Por isso o ser-cada-vez-meu ou Jemeinigkeit é o fundamento tanto da forma própria quanto da forma imprópria do existir, fundando-se ambos os modos de ser, propriedade e impropriedade, em que o Dasein enquanto tal está determinado pelo ser-cada-vez-meu, não significando a impropriedade do Dasein, por assim dizer, um ser menos ou um grau de ser inferior, podendo antes determinar o Dasein no que tem de mais concreto, em suas atividades, motivações, interesses e gozos.
  • Tanto na propriedade quanto na impropriedade sou meu de forma intransferível, sendo a própria impropriedade, executivamente, uma maneira de existir como ser único que se autopossui, uma maneira exercida de existir na peculiaridade do Dasein.

4. Ao mostrar-se o Dasein tal como este é imediata e regularmente, o que se mostra não é o que a interpretação caída diz explicitamente, mas o que o Dasein é nessa imediatidade e regularidade de seu ser caído, sendo as estruturas assim trazidas à luz teorética estruturas essenciais do Dasein que se mantêm em todo modo de ser do Dasein fáctico como determinantes de seu ser, entendendo-se em todo modo de ser tanto no modo próprio quanto no impróprio.

5. Não se trata de tarefa fácil, sendo sempre árdua a entrada no mais fundo do próprio ser, mas trata-se de tarefa possível, como mostram, por exemplo, as admiráveis análises do ente à mão e da mundaneidade (Weltlichkeit), bem como as análises do coestar com outros Dasein e as ainda mais radicais análises da aberturidade (Erschlossenheit) em qualquer de seus momentos cooriginários, para não falar da análise da própria temporalidade (Zeitlichkeit) do cuidado (Sorge).

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