O fato do Dasein ser meu
(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:36)
Mas, na Jemeinigkeit, além da singularidade executiva absoluta, há outro aspecto distinto, que está intimamente relacionado ao primeiro: o momento da “meinigkeit”, do “cada-vez-meu”. O cada-vez-meu é o fato de ser meu. O que significa isso de “meu”? Significa que o Dasein só é “o que” é, na medida em que se possui a si mesmo, que está entregue à responsabilidade por si mesmo. Esse “estar entregue” implica, por outro lado, que a autopossessão do Dasein não é completa. Ele se autopossui, na medida em que já se encontra sendo ele mesmo, sem ter outra escolha a não ser sê-lo. Esse aspecto do “ter que ser”, de estar, por assim dizer, forçado a ser, é o que Heidegger chama de Faktizität, a facticidade do Dasein, ou seja, o factum radical e constitutivo de estar colocado no ser. Se o Dasein se possui a si mesmo, ele o faz porque tem que se possuir. O “ter que” possuir-se é o ponto de partida de seu possuir-se: a partir desse ponto, ele deve possuir-se. Mas isso significa, então, que esse próprio ponto de partida não é algo de que o Dasein disponha, não é algo que se enquadre em sua autopossessão. Digamos de forma mais simples: o Dasein não se autopossui inteiramente, mas apenas de forma limitada. Agora, outro ponto seria perguntar-se se esse “ter que” é um mero factum e se é algo puramente negativo. Obviamente, é preciso responder a ambas as perguntas com um não. A facticidade não é um mero factum, mas uma estrutura do ser e, como tal, tem uma função positiva na constituição do ser do Dasein. Heidegger não explorou plenamente esse aspecto positivo da (36) facticidade. Em contrapartida, Zubiri sim o fez; para ele, na estrutura do “ter que” manifesta-se um vínculo com o ser (ou com a realidade) que Zubiri chama de “religação”, e que é o fundamento que nos impele à busca dessa realidade enigmática a que chamamos Deus.
Heidegger também denomina o caráter factico do existir humano de “estar lançado” (Geworfensein ou Geworfenheit). Esse conceito implica, além da facticidade do “ter que” ser, que o Dasein tem que ser, a cada momento, em uma situação absolutamente concreta, naquela em que facticamente se encontra.
