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estudos:rivera:cst1:4

§4

JRCST1

§ 4 A primazia ôntica da pergunta pelo ser

1. O título deste parágrafo é estranho, havendo nele certa correspondência com o título do parágrafo 3, a primazia ontológica da pergunta pelo ser, título este claro, pois a pergunta pelo ser tem uma primazia sobre toda outra pergunta ontológica, relativa às ontologias regionais que dão o toque filosófico à determinação dos conceitos fundamentais das diferentes ciências, só se estando na posse de um saber que pode dar razão de todas as diferenças regionais do ser se ficar esclarecido o que é o ser mesmo em toda a extensão da palavra, tendo assim a ontologia fundamental do ser enquanto ser, do ponto de vista das ontologias regionais, um caráter determinante, uma superioridade que bem merece chamar-se primazia ontológica, sendo a pergunta que busca estabelecer essa ontologia fundamental primordial em relação às ontologias regionais.

2. Quanto à primazia ôntica da pergunta pelo ser, encontra-se a resposta nas últimas linhas do parágrafo: a pergunta pelo ser não é outra coisa que a radicalização de uma essencial tendência de ser que pertence ao próprio Dasein, isto é, da compreensão pré-ontológica do ser.

3. O Dasein é, enquanto ente, isto é, onticamente, um ente eminente, destacado entre todos os demais, sendo o que o faz sobressair sobre todos os demais entes seu modo próprio de ser, esse modo próprio de ser sendo, em definitivo, a compreensão pré-ontológica, não teórica mas vital, do ser, sendo o Dasein precisamente esse ente que é porque tem em seu próprio ser uma compreensão preteorética do ser, não fazendo a pergunta teórica pelo ser enquanto tal outra coisa que radicalizar essa compreensão pré-ontológica do ser, surgindo assim a pergunta pelo sentido do ser em geral de uma primazia ôntica do Dasein sobre os demais entes, obrigando isso a dirigir-se primeiramente ao Dasein para colocar realmente a pergunta pelo sentido do ser.

4. O que fará este parágrafo não é senão a continuação de uma pergunta já parcialmente respondida no parágrafo 2, se algum determinado ente tem primazia na elaboração da pergunta pelo ser, isto é, se há algum ente privilegiado nesse sentido, tendo sido a resposta ali dada que elaborar a pergunta pelo ser significa fazer que um ente, o que pergunta, se torne transparente em seu ser, designando-se esse ente que somos em cada caso nós mesmos, e que, entre outras coisas, tem essa possibilidade de ser que é o perguntar, com o termo Dasein.

5. Agora, neste parágrafo, o que começou a vislumbrar-se será levado a uma luz mais plena, ainda que apenas em antecipação de análises que só serão propriamente probatórias quando levadas a cabo mais adiante, no curso da Primeira Seção.

6. A análise do modo de ser do Dasein realiza-se nos parágrafos 2 a 9, retomando-se antes, no primeiro parágrafo, o tema das ciências de que falava o parágrafo 3, já não para buscar seu fundamento ontológico, mas para mostrar que as ciências são comportamentos do homem, convertendo-se a definição lógica da ciência imediatamente numa indicação do sentido da ciência, isto é, de seu enraizamento no ser do homem, dizendo-se agora desse ente que se destaca frente aos demais entes, explicitando-se esse caráter eminente do Dasein nos parágrafos 2 a 9.

  • É fundamental o parágrafo 10, no qual fica esclarecido o que se chama a primazia ôntica da pergunta pelo ser, remetendo o parágrafo 11 à tradição grega e tomista, declarando que o que aqui se diz já havia sido visto de algum modo pela filosofia clássica, voltando o parágrafo 12 ao dito antes no parágrafo 2 e no parágrafo 8 deste mesmo parágrafo 4, dizendo-se pela primeira vez que a analítica ontológica do Dasein em geral constitui a ontologia fundamental, sendo o parágrafo 13 o resumo de todo o parágrafo 4.

7. No parágrafo 2 aparece uma primeira caracterização do Dasein que é, de certo modo, a chave de todas as demais: o Dasein é um ente ao qual em seu ser lhe vai esse mesmo ser.

  • Antes de entrar na análise do modo de ser do Dasein, afirma-se algo fundamental que poderia passar facilmente despercebido: o Dasein não é apenas um ente que se apresenta entre outros entes, podendo o verbo Vorkommen significar aparecer, figurar, encontrar-se, existir, resumindo a tradução se apresenta um pouco todos esses sentidos.
  • O grave, por assim dizer, é que se atribui ao Dasein a existência, ou talvez melhor, a realidade, dizendo-se que o Dasein é real e que, como tal, comparece entre os demais entes reais, dizendo-se imediatamente que o Dasein não é apenas um ente real entre os demais entes reais, mas que sua realidade é sui generis, especialíssima.
  • Diz-se depois que o Dasein não tem o modo de ser da Vorhandenheit, do estar-aí-diante, sendo isso verdade: o Dasein qua Dasein não é algo que se apresente como um objeto diante de nós, não sendo o próprio Dasein, para si mesmo, primariamente um objeto, sendo enquanto Dasein simplesmente um acontecer, a execução do próprio existir, conhecendo-se a si mesmo primária e radicalmente in actu exercito, no exercício de seu próprio ato de existir.
  • Também os demais Dasein não são conhecidos como objetos humanos, mas como algo jamais objetivável, algo que coexiste com cada um, como Mitdasein, Dasein que está comigo e convive ou coexiste comigo, não sendo nunca o Dasein objeto para nenhuma experiência imediata, não se dando primariamente à maneira de algo que está aí, de algo-que-está-aí-diante, sem que isso signifique que não seja real, sendo realidade e Vorhandenheit coisas essencialmente diferentes, podendo o objetual ser uma coisa real, mas não se identificando a realidade enquanto tal com o objetual, podendo a realidade experimentar-se e experimentando-se constantemente na experiência vital primordial, que não é em absoluto objetual.
  • Poder-se-ia traduzir vorhanden pela expressão equivalente de um ponto de vista estritamente etimológico ser de antemão, pensada como modificação de um infinitivo verbal, não sendo esse infinitivo agora ser objeto, estar-aí-diante, mas ser desde si mesmo antes que nenhuma mão humana se entremeta, isto é, ser por si mesmo, como diria Xavier Zubiri, isto é, ser real, podendo esse modo de ser real dar-se, e dando-se de fato, em toda experiência humana de si mesmo, das coisas e dos demais seres humanos.

8. Volta-se à segunda frase do parágrafo 2, que começa a caracterizar o Dasein em seu modo de ser real: o que o caracteriza onticamente é que a este ente lhe vai em seu ser esse mesmo ser.

  • O ser do Dasein é de tal índole que nele está em jogo esse mesmo ser, sendo o ser do Dasein uma espécie de radical inquietude, na qual se joga esse mesmo ser, não sendo o ser do Dasein quietude, posse tranquila e assegurada de si mesmo, mas, ao contrário, insegurança, preocupação por si mesmo, cuidado (Sorge), sendo o ser do Dasein dramático, radicando nesse drama sua essencial mobilidade (Bewegtheit).
  • Ser desse modo é o que se deve chamar acontecer (Geschehen), sendo o Dasein aconteciente, histórico, jogando-se em seu ser esse mesmo ser, estando seu ser sempre devindo, cobrando uma modalidade peculiar em suas ações.
  • Isso implica que o Dasein tem em seu ser uma relação de ser com seu ser, sendo essa relação de ser um comportar-se do ser do Dasein a respeito de seu próprio ser, um comportamento óntico-ontológico: ôntico, porque constitutivo do ente Dasein, e ontológico, porque essa constituição é constituição de ser.
  • Isso quer dizer que o Dasein se compreende em seu ser de alguma maneira e com algum grau de explicitude, usando-se o verbo verstehen num sentido peculiar, não o de entender no sentido corrente, mas o de estar em meio, instalar-se entre as coisas, poder com algo, ser capaz de fazer algo, entender disso, significando que o Dasein se compreende em seu ser que sabe ser, entende de ser, isto é, de ser como ele quer e decide ser ao jogar-se seu ser.
  • Nesse jogo há que saber fazê-lo, sabendo-o o Dasein, por assim dizer, a natura, por seu próprio ser, havendo em seu acontecer uma luz, uma transparência, não total, mas parcial e limitada, comprendendo-se o Dasein em seu ser de alguma maneira e com algum grau de explicitude, que pode ser mínimo, mas que sempre há, porque o Dasein é hermenêutico em si mesmo, autointerpretativo, interpretando-se a si mesmo ao viver, sendo todo ato um modo de autointerpretar-se.
  • É próprio deste ente que com e por seu ser este se encontre aberto para ele mesmo, aparecendo aqui a palavra chave do que será a Primeira Seção de Ser e tempo, erschlossen, aberto, sendo estar aberto para si mesmo o que se chamará a Erschlossenheit, a aberturidade, a condição de aberto, de transitável, de caminhável, podendo chamar-se isso em bom português a lucidez do Dasein, seu caráter de lúcido, portador em si mesmo de sua própria luz, sendo essa luz a que o torna visível, experimentável, audível, tocável para si mesmo, podendo chamar-se também clarividência, não tendo o Dasein momentos de clarividência, mas sendo, em seu próprio ser, clarividente, sempre parciais, limitadas e condicionadas essa lucidez e essa clarividência.
  • Resumindo o anterior, diz-se em itálico que a compreensão do ser é, ela mesma, uma determinação de ser do Dasein, aparecendo agora repentinamente a compreensão do ser (Seinsverständnis), advertindo uma nota do Hüttenexemplar que ser, aqui, não apenas enquanto ser do homem, existência, ficando isso claro pelo que segue, encerrando o estar-no-mundo em si a relação da existência com o ser em total, compreensão do ser.
  • Chama a atenção nessa nota a expressão ser em total (Sein im Ganzen), podendo talvez responder-se que, pelo fato de o Dasein enfrentar-se com entes que não são como ele mesmo, abre-se uma dimensão do ser que já não está limitada ao ser do próprio Dasein, havendo também outros modos de ser, não sendo ser idêntico ao ser da própria existência, sendo ser algo aberto e não tendo essa sua abertura limites fixos, abrindo-se aí o ser em total, graças à aparição no ser do Dasein do ser de outros entes que não são o Dasein.
  • Conclui-se o parágrafo afirmando que a peculiaridade ôntica do Dasein consiste em que o Dasein é ontológico, isto é, que o que caracteriza o Dasein como realidade peculiar é o fato de compreender o ser, não só o seu próprio ser, mas o ser em toda a amplitude da palavra, o ser em total.

9. O parágrafo 3 explica em que sentido o Dasein é ontológico, preferindo-se a palavra pré-ontológico quando se fala da compreensão do ser que se encontra no Dasein de modo natural, não teorético nem explícito.

10. Ao começo do parágrafo 4 afirma-se que o ser mesmo a respeito do qual o Dasein se pode comportar desta ou daquela maneira se chama existência, esclarecendo uma nota do Hüttenexemplar que se trata daquele ser mesmo, e precisando outra nota que, ao falar de a respeito do qual, deve acrescentar-se interpretativamente como seu próprio, entendendo-se então tratar-se do ser do próprio Dasein.

  • Pergunta-se por que o Dasein tem de existir, respondendo-se que porque seu ser próprio consiste em seu Vollzug, em sua execução, em seu acontecer, sendo o Dasein acontecimento e, como tal, não lhe restando outro remédio, suposto que ele seja o que é, que sê-lo em ato, in actu exercito, não tendo o Dasein por si necessidade de ser, não sendo um ser necessário, podendo perfeitamente não ser.
  • Ao contrário do que ocorre com um ente que não é Dasein, no qual é possível pensar sua essência sem que essa essência necessariamente exista, no Dasein a essência é impensável sem seu ato de ser, sem seu existir, sendo por isso o termo Dasein pura expressão de ser, sendo Dasein sempre ato de ser, nem sequer podendo ser pensado como mera potencialidade, chamando-se Dasein aquele ente que necessariamente se comporta a respeito de si mesmo, o que quer dizer, em palavras tradicionais, que o Dasein é pessoa, um ente que se possui de algum modo a si mesmo e que, precisamente por isso, é um si mesmo.

11. No parágrafo 5 esclarecem-se expressões de uso permanente ao longo de Ser e tempo, dizendo-se primeiro que o Dasein se compreende sempre a si mesmo a partir de sua existência, a partir de uma possibilidade de si mesmo: de ser si mesmo ou de não sê-lo, esclarecendo-se essa dificuldade ao afirmar-se que o Dasein, em virtude de sua própria existência, existe em possibilidades, entendidas como possibilidades de vida, não meras potencialidades, mas possibilidades de chegar a ser assim ou assado, tendo o Dasein de optar por umas ou outras possibilidades, fazendo suas as escolhidas e deixando perder-se as descartadas.

  • Essas possibilidades com que o Dasein se encontra a cada momento ou foram escolhidas por ele mesmo em algum momento anterior, ou foi ele parar nelas de improviso, ou cresceu nelas desde sempre, pensando-se nas possibilidades de seu temperamento, de sua época, do meio familiar ou social em que se encontra desde o nascimento.
  • A existência é decidida em cada caso apenas pelo próprio Dasein, significando isso que a existência concreta vai sendo configurada cada vez pelo próprio Dasein e apenas por ele, não podendo ninguém viver a vida de outrem em seu nome, sendo a existência não apenas compreensora de si mesma, mas também essencialmente volitiva de si mesma, sendo decidida tomando-a entre mãos ou deixando-a perder-se, o que ocorre quando se descartam certas possibilidades.
  • Resumindo tudo o dito, afirma-se que a questão da existência há de ser resolvida sempre apenas por meio do próprio existir, explicando-se em seguida o sentido da expressão compreensão existenciária (existenzielle), aquela que ocorre quando o existir resolve o que há de ser ele mesmo em função das possibilidades que escolhe, significando existenciário aqui o ôntico da existência, diferentemente do conhecimento ontológico dela, sendo a questão da existência uma incumbência ôntica do Dasein, algo que lhe corresponde, que está em seu poder, que ele e só ele pode fazer.
  • Onde se pergunta pela estrutura ontológica da existência, tem-se a transparência teorética existencial, que aponta à exposição analítica do constitutivo da existência, chamando-se à trama das estruturas da existência existencialidade, aparecendo frente ao compreender existentivo, ôntico, o compreender existencial, ontológico.
  • A última frase remete à constituição ôntica do Dasein como possibilitante da analítica existencial, referindo-se sem dúvida à compreensão pré-ontológica que o Dasein tem de si mesmo, na qual se torna possível a explicitação teorética das estruturas ontológicas do Dasein.

12. No parágrafo 6 volta-se a falar dessa existência, considerando-a determinante do Dasein, isto é, como sua essência, acrescentando-se que, suposto isso, a analítica ontológica existencial deste ente requer sempre uma visualização da existencialidade, entendida como a constituição de ser do ente que existe.

  • Ao falar de constituição de ser, pressupõe-se necessariamente a ideia do ser em geral, pressupondo por conseguinte uma analítica a fundo da existencialidade do Dasein a prévia elaboração da pergunta pelo sentido do ser em geral, demonstrando este parágrafo que o Dasein não pode compreender-se teoricamente a si mesmo se não elabora previamente essa pergunta, tendo a pergunta pelo ser primazia também na ordem ôntica, para a compreensão desse ente que é o próprio Dasein.

13. Isso não ocorre apenas em relação ao ente que é o próprio Dasein, mas também em relação a entes que podem ser outros que ele e a respeito dos quais o Dasein se comporta por meio das diferentes ciências, pertencendo essencialmente ao Dasein o estar num mundo, comportando a compreensão do ser constitutiva do Dasein a compreensão de algo como um mundo, e também a compreensão do ser do ente que se torna acessível dentro do mundo.

  • Conclui-se que as ontologias regionais, cujo tema é o ente que não tem o caráter de ser do Dasein, estão fundadas e motivadas na estrutura do ente que é o Dasein, ente que leva em si a determinação de uma compreensão pré-ontológica do ser, significando estar fundadas que essas ontologias não poderiam existir sem um Dasein, e estar motivadas que o que faz essas ontologias importantes e dignas de ser desenvolvidas é a estrutura ôntica de ser do Dasein.

14. O parágrafo 8 mostra que a ontologia fundamental, fundamento de todas as demais ontologias, deve ser buscada na analítica existencial do Dasein, sendo ontologia fundamental a ontologia das ontologias, aquela sem a qual não pode haver nenhuma outra ontologia, usando-se aqui pela primeira vez essa expressão, entendida como a analítica existencial do Dasein.

15. No parágrafo 9 enumeram-se os distintos sentidos em que se pode falar de uma primazia do Dasein sobre todo outro ente: em primeiro lugar, a primazia ôntica, sendo o Dasein um ente preeminente, sem o qual é impossível que compareçam outros entes; em segundo lugar, a primazia ontológica, devendo o Dasein, por ser seu ser a existência, o estar em jogo em seu próprio ser, ter uma compreensão de sua própria existência e, por conseguinte, do ser de outros entes de caráter diferente do dele; por último, a primazia ôntico-ontológica, em virtude da qual o Dasein é a condição de possibilidade de todas as ontologias.

  • Resume-se, na última frase, tudo o alcançado desde o parágrafo 2: o Dasein é o que deve ser interrogado com prioridade sobre todo outro ente.

16. O parágrafo 10 fala das raízes existenciárias, ônticas, da analítica existencial, sendo o questionamento do ser uma possibilidade de ser do Dasein, esclarecendo-se assim o sentido da primazia ôntica da pergunta pelo ser, ficando com isso completamente esclarecida essa primazia.

17. O parágrafo 11 tem caráter histórico e remete tanto a Aristóteles quanto a Santo Tomás de Aquino, havendo em ambos certa compreensão da primazia ôntico-ontológica do Dasein.

18. O parágrafo 12 é uma espécie de resumo de todo o parágrafo 4.

19. Por último, o parágrafo 13 mostra que o Dasein leva já de algum modo em si aquilo pelo qual se pergunta na pergunta pelo ser, não sendo a pergunta pelo ser, deste modo, outra coisa que a radicalização de uma essencial tendência de ser que pertence ao próprio Dasein, isto é, da compreensão pré-ontológica do ser.

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