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estudos:rivera:cst1:3

§3

JRCST1

§ 3 A primazia ontológica da pergunta pelo ser

1. A primazia ontológica da pergunta pelo ser significa que o desenvolvimento dessa pergunta é especialmente relevante para as ontologias regionais que se encontram na base de todas as ciências, enquanto estas são modos de descobrimento dos entes.

2. O parágrafo 3 pode dividir-se numa introdução e em duas partes, abarcando a introdução os dois primeiros parágrafos, a primeira parte, dos parágrafos 3 a 5, versando sobre as ciências e seus campos de objetos e a delimitação destes pela experiência pré-científica e pelas próprias ciências, e a segunda parte, dos parágrafos 6 a 9, versando sobre a fundamentação ontológica das ciências, convindo ler primeiro a frase inicial do parágrafo final, o nono, que resume todo o parágrafo: a própria investigação ontológica, retamente compreendida, dá à pergunta pelo ser sua primazia ontológica, além da mera retomada de uma tradição venerável e do aprofundamento num problema até agora opaco.

Introdução (parágrafos 1-2)

3. Nesta introdução tratam-se dois temas: a necessidade de delimitar de modo suficiente a função, a intenção e os motivos da pergunta pelo ser, e a relação da pergunta atual com o visto no parágrafo 1.

4. A primeira frase resume o alcançado no parágrafo 2, propondo a segunda frase o tema deste terceiro parágrafo.

5. A primeira frase resume o visto no parágrafo 1, fazendo a segunda de nexo com o que segue, colocando as frases terceira, quarta e quinta distintas possibilidades, estando o mais importante na última frase, que pergunta, e desse modo afirma, se acaso a pergunta pelo ser não é a pergunta mais fundamental e ao mesmo tempo a mais concreta, sendo a pergunta pelo ser a mais concreta enquanto ilumina o trabalho das ciências e seu haver-se com os entes.

Primeira parte: as ciências e seus campos de objetos. Delimitação destes pela experiência pré-científica e pelas próprias ciências (parágrafos 3-5)

6. Deve destacar-se de modo especial a primeira frase: ser é sempre o ser de um ente, significando isso que não há ser sem ente, não sendo o ser uma esfera que flutuasse por cima dos entes e que tivesse autonomia por si mesma, o que seria justamente fazer do ser um magno ente, desbordando o ser todo ente mas, ao mesmo tempo, estando nele, diferenciando-se o ser dos entes por um movimento transcendente que os sobrepuja, mas não é sem eles.

  • A segunda frase fala do todo do ente, não sendo o ente apenas este ou aquele ente singular, mas destacando-se, em sua singularidade, dentro do todo, do conjunto dos entes, não tendo esse conjunto o caráter de algo uniforme, mas sendo articulado em diferentes setores, que podem converter-se em âmbitos do descobrimento e da delimitação de determinadas regiões essenciais.
  • Distingue-se assim entre os diferentes setores, referentes a uma primeira diferenciação dentro do todo dos entes, distinção precientífica e espontânea que o homem faz naturalmente, como entre entes não vivos e vivos, e entre plantas, animais e seres humanos, e as regiões essenciais ou regiões de coisas, que podem surgir de um descobrimento e de uma delimitação de caráter mais preciso, relacionado com os distintos saberes que se voltam sobre elas, seja a filosofia, sejam as distintas ciências, dando-se como exemplo a história, a natureza, o espaço, a vida, o Dasein, a linguagem, entre outras.

7. A investigação científica realiza primeiro, a grandes traços e de forma ingênua, a demarcação e primeira fixação das regiões essenciais, repetindo-se isso mais esclarecedoramente ao afirmar-se que a elaboração das estruturas fundamentais de cada região já foi, de certo modo, realizada pela experiência e interpretação pré-científicas do domínio de ser que define a própria região essencial.

  • Interessa destacar que agora não se trata tanto da demarcação e primeira fixação das regiões essenciais, quanto de uma elaboração mais desenvolvida das estruturas fundamentais de cada região, precisando-se suas estruturas próprias num exame ontológico ou pré-ontológico, tendo essa elaboração já ocorrido, de certo modo, sendo algo prévio a toda ciência e a toda filosofia, algo espontâneo na vida do homem, dizendo-se em certo modo precisamente porque não é teorética.
  • Quem executa essa primeira elaboração das estruturas fundamentais de cada região não é a ciência nem tampouco a filosofia, mas a experiência e interpretação pré-científica do domínio de ser que define a própria região essencial, sendo o que aqui se chama experiência o que Dilthey chamava vivência, e havendo, além dessa experiência vital, uma interpretação também vital, uma certa, ainda que não teórica, explicitação dessa experiência, referindo-se a expressão o domínio de ser a uma estrutura de ser que determina cada uma das regiões essenciais.

8. Fala-se, na sexta frase, dos conceitos fundamentais que dessa maneira surgem, sendo esses os que guiarão o trabalho positivo de cada uma das ciências, os fios condutores das diferentes ciências, sendo esse trabalho positivo o que o texto chama a abertura concreta da região, entenda-se, da região essencial correspondente a cada ciência.

9. Ainda que o peso da investigação tenda sempre a essa positividade, isto é, a entrar na abertura concreta dos entes dessa região, o positum proposto à investigação de cada ciência, seu progresso propriamente dito não se realiza tanto em função do acúmulo de conhecimentos positivos, quanto por meio do questionamento das estruturas fundamentais de cada região, questionamento impulsionado geralmente de forma reativa pelo conhecimento crescente das coisas.

  • As ciências progridem não tanto ao aumentar o número de seus conhecimentos positivos, quanto ao revisar seus conceitos fundamentais, isto é, não tanto em seu crescimento quantitativo, quanto em seu crescimento qualitativo.

10. É o que dirá o quarto parágrafo em suas primeiras palavras: o verdadeiro movimento das ciências se produz pela revisão mais ou menos radical, ainda que não transparente para si mesma, dos conceitos fundamentais, significando verdadeiro que o movimento das ciências é um crescimento delas em sentido próprio, qualitativo, não quantitativo.

  • A revisão que as ciências fazem de seus conceitos fundamentais pode ser mais ou menos radical, dependendo do grau de profundidade da crise de princípios que experimenta determinada ciência, não podendo essa revisão, porém, ser transparente para si mesma, pois para isso a ciência teria de ser capaz, com seus próprios métodos, de determinar o ser do ente que constitui seu objeto, o que desborda absolutamente a capacidade de qualquer ciência positiva, só podendo a filosofia abordar o estudo do ser das distintas regiões essenciais estudadas pelas diferentes ciências, âmbito filosófico chamado a determinação das ontologias regionais.
  • As frases segunda e terceira referem-se à crise que podem experimentar as ciências a respeito de seus conceitos fundamentais, determinando a maior ou menor capacidade de experimentar esse tipo de crise o nível alcançado por uma ciência, explicando a terceira frase vivamente o que ocorre nessas crises: a relação da investigação positiva com as próprias coisas interrogadas tambaleia-se, deixa de ser óbvia e exige uma revisão dos conceitos fundamentais da ciência em questão.

11. Examina-se o caso da matemática, da física, da biologia, das ciências históricas e da teologia nos anos em que se escrevia Ser e tempo.

Segunda parte: a fundamentação ontológica das ciências (parágrafos 6-9)

12. Mostra-se a necessidade de que a filosofia investigue a constituição fundamental do ser das diferentes regiões essenciais e dê às ciências um fundamento que, agora sim, será transparente para si mesmo, por ser visto e fixado por um saber cujo objeto próprio é precisamente esse.

  • Define-se conceitos fundamentais como aquelas determinações em que a região essencial a que pertencem todos os objetos temáticos de uma ciência alcança sua compreensão preliminar, que servirá de guia a toda investigação positiva, sendo os conceitos fundamentais determinações, delimitações, precisões de uma região essencial, campo abarcado por determinada ciência no qual entram muitos objetos diferentes que, contudo, coincidem em algo.
  • Essas determinações conceituais chegam a ser uma compreensão da região essencial em seus traços constitutivos, chamada preliminar, prévia aos conhecimentos próprios das ciências, sendo essa compreensão, ao mesmo tempo, diretiva, servindo de guia para toda investigação propriamente científica.

13. A segunda frase refere-se ao modo como esses conceitos fundamentais das distintas ciências ganham sua genuína justificação, apenas alcançada por meio de uma prévia investigação da própria região essencial, falando-se também de como esses conceitos fundamentais ganham sua fundamentação, alcançada não através da própria ciência, mas num saber prévio a ela e que, como se dirá adiante, só pode ser objeto da filosofia.

14. A terceira frase é o eixo de toda a argumentação do parágrafo, afirmando que essa investigação preliminar, que elabora os conceitos fundamentais, não é senão a interpretação do ente que está na base da região essencial, interpretação feita em função da constituição fundamental de seu ser, tratando-se, em definitivo, de uma investigação ontológica, devendo por isso essa investigação preceder as ciências positivas, e podendo fazê-lo, sendo prova disso o trabalho de Platão e Aristóteles, pois as ciências surgiram da filosofia e não ao contrário.

  • A essa fundamentação filosófica prévia à ciência chama-se aqui lógica produtiva, criativa, pois cria o âmbito em que se desenvolverão as ciências, diferentemente da lógica traseira, que investiga o estado momentâneo de uma ciência em função de seu método.
  • Dá-se como exemplo que, nas ciências históricas, o primário não é a teoria da formação dos conceitos da historiografia, nem a teoria do conhecimento histórico ou a teoria da história enquanto objeto do saber histórico, mas a interpretação do ente propriamente histórico, isto é, do Dasein, e que a Crítica da razão pura de Kant é vista não como uma teoria do conhecimento, mas como contribuição para desvendar o que é próprio de uma natureza em geral.

15. Este parágrafo desenvolve precisamente o que o terceiro parágrafo buscava mostrar: que a pergunta pelo sentido do ser tem primazia na ordem das ontologias regionais, sendo a investigação de que se falou uma investigação ontológica em sentido amplo, que necessita, por sua vez, de um fio condutor, sendo o perguntar ontológico certamente mais originário que o perguntar ôntico das ciências positivas, mas sendo ele mesmo ingênuo e opaco se suas investigações do ser do ente deixassem sem exame o sentido do ser em geral.

  • A última frase fala de uma genealogia não dedutivamente construtiva das diferentes maneiras possíveis de ser, referindo-se a uma árvore genealógica, um conjunto trabado dos distintos modos de ser possíveis dos entes, que não é dedutivo, como a árvore genealógica de Porfírio, nem construtivo, como o que surge na Lógica de Hegel, ficando aberto de que tipo é, afirmando-se taxativamente, porém, que previamente a ele será necessário pôr-se de acordo sobre o que propriamente se quer dizer com essa expressão ser, dando isso à pergunta pelo sentido do ser em geral uma primazia ontológica acima de todas as perguntas dirigidas aos conceitos fundamentais das ciências e, com mais razão ainda, acima de todo questionamento científico.

16. A primeira frase deste parágrafo expressa justamente o visto ao final do parágrafo anterior, dizendo-o a segunda mais claramente a modo de tese: toda ontologia, por rico e solidamente articulado que seja o sistema de categorias de que dispõe, é no fundo cega e contrária a sua finalidade mais própria se não esclareceu primeiro suficientemente o sentido do ser e não compreendeu esse esclarecimento como sua tarefa fundamental.

17. O último parágrafo retoma o fio do que se vinha buscando: a pergunta pelo ser não só merece ser novamente colocada pelo fato de provir de uma venerável tradição, nem tampouco pela necessidade de aprofundar num problema até agora opaco, mas pela primazia ontológica que ela comporta, antecipando a segunda frase deste parágrafo o tema do parágrafo 4.

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