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Jogos com o tempo
RICOEUR, Paul. Temps et récit II. Paris: Ed. du Seuil, 1984.
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O enriquecimento do conceito de mise en intriga e, correlativamente, de tempo narrativo é privilégio do relato de ficção mais que do relato histórico, graças à propriedade notável que tem o relato de poder desdobrar-se em enunciação e enunciado, já que o ato configurante, sendo da família do julgamento reflexionante, comporta a capacidade de se distanciar de sua própria produção e assim se redobrar.
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Esse poder de redobramento do julgamento teleológico retorna hoje sob a terminologia linguística de enunciação e enunciado, devida a Günther Müller, Gérard Genette e aos semioticistas da escola de Greimas, terminologia que liberta os traços propriamente fictícios do tempo narrativo, revelados pelo jogo entre os diversos níveis temporais oriundos da reflexividade do próprio ato configurante.
Os tempos do verbo e a enunciação
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As três teorias examinadas ligam a organização dos tempos verbais à função de enunciação do discurso, e a solução que oferecem faz surgir um paradoxo diretamente ligado ao estatuto do tempo na ficção, isto é, ao tempo no nível de mimesis II.
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O sistema dos tempos verbais, variável de língua para língua, não deriva da experiência fenomenológica do tempo, o que contribui, em nível paradigmático e sintagmático, para a autonomia da composição narrativa em relação à experiência vivida, embora permaneça em aberto até que ponto esse sistema pode se emancipar totalmente da referência à experiência fenomenológica do tempo.
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A distinção introduzida por Émile Benveniste entre história e discurso opõe um relato de que ninguém fala, com seus três tempos incluídos — aoristo, imperfeito, mais-que-perfeito — e a exclusão do presente, a um discurso que supõe locutor e ouvinte, incluindo presente, futuro e perfeito, sendo o presente o tempo de base do discurso por marcar a contemporaneidade sui-referencial da instância discursiva.
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A repartição dos tempos pessoais do verbo francês em dois sistemas é independente das categorias intuitivas de presente, passado e futuro, embora persista uma relação com o tempo, já que a enunciação histórica de Benveniste caracteriza precisamente o relato dos acontecimentos passados, deixando em aberto a relação entre o passado fictício e o passado real, e entre o presente gramatical do discurso e o presente vivido.
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Retomando essa questão a partir do discurso interno ao próprio relato, e não apenas da oposição entre discurso e relato, impõe-se distinguir entre o tempo da enunciação e o tempo do enunciado, e entre esses dois tempos e o tempo da vida ou da ação, distinção que será retomada mais adiante.
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Käte Hamburger distingue claramente a forma gramatical do tempo verbal de sua significação temporal sob o regime da ficção, situando a barreira intransponível entre o discurso assertivo e o relato de ficção na substituição da origem-eu real do discurso assertivo pela origem-eu fictícia dos personagens, sendo os verbos que designam processos internos o critério da ficção épica.
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A entrada de verbos designando processos mentais cujo sujeito é fictício acarreta o colapso da função gramatical do pretérito épico, que perde sua significação de passado, como atestam combinações discordantes entre advérbios temporais e tempos verbais inaceitáveis em asserções de realidade, permanecendo em aberto por que a forma gramatical se preserva apesar da perda de sua significação temporal, o que remete à dialética entre personagem e narrador, este também uma construção fictícia.
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Harald Weinrich busca dissociar a organização dos tempos verbais das categorias do tempo vivido a partir de uma teoria da comunicação e de uma linguística textual, e não frástica, distribuindo os tempos segundo três eixos: a situação de locução, que opõe narrar e comentar segundo atitudes de tensão ou distensão; a perspectiva de locução, que opõe retrospecção, grau zero e antecipação entre o tempo do ato e o tempo do texto; e o relevo, que opõe primeiro e segundo plano.
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A primeira grande bifurcação entre mundo comentado e mundo narrado tem consequências desconcertantes para o conceito de narratividade, pois separa o drama dialogado, do lado do comentado, da epopeia, do romance e da história, do lado do narrado, retomando de modo inesperado a distinção aristotélica entre diegese e drama, embora a distinção entre tensão e distensão não seja tão nítida quanto parece, como mostram os romances “emocionantes”.
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O segundo eixo, o da perspectiva entre tempo do ato e tempo do texto, mostra que retrospecção e antecipação não se regulam pela noção de passado, sendo o caso da história científica exemplar por combinar relato e comentário, e o terceiro eixo, o do relevo, mostra que a oposição entre imperfeito e passado simples no francês serve unicamente para projetar certos conteúdos em primeiro plano e outros em segundo, sem relação direta com a duração do tempo.
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O complemento sintagmático ao estudo paradigmático dos tempos, consagrado às transições temporais homogêneas e heterogêneas ao longo do texto, constitui mediação fundamental entre os recursos oferecidos pela sintaxe e a configuração narrativa singular, sendo profunda a afinidade entre a teoria dos tempos verbais e a teoria da composição narrativa, sobretudo no que toca ao relevo, próximo da noção aristotélica de peripécia.
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Não é possível, contudo, seguir Weinrich em sua dissociação completa entre tempos verbais e tempo, pois numerosas línguas modernas conservam a mesma raiz para designar tempo e tempos verbais, e a própria noção de mundo narrado e mundo comentado preserva um traço mimético que remete obliquamente, por neutralização, ao tempo vivido e à memória.
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Esse duplo laço de filiação e ruptura entre o tempo do passado vivido e o tempo do relato ilustra exemplarmente a relação entre mimesis I e mimesis II, sendo uma razão suplementar e decisiva dessa filiação o fato de a ficção reorientar o olhar para os traços da experiência que ela inventa, isto é, ao mesmo tempo descobre e cria, no horizonte de mimesis III, como atestam Goethe, Schiller, Schlegel e sobretudo Thomas Mann ao chamar A Montanha Mágica de um Zeitroman.
Tempo do narrar (Erzählzeit) e tempo narrado (erzählte Zeit)
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A distinção de Günther Müller, retomada por Gérard Genette, busca na distribuição entre enunciação e enunciado uma nova chave de interpretação do tempo na ficção, mas Müller, ao contrário dos três autores anteriores, abre essa distinção sobre um tempo da vida, enquanto Genette a mantém no recinto do texto sem implicação mimética.
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Müller, inspirado na morfologia goethiana das plantas, define narrar como presentificar acontecimentos não perceptíveis pelos sentidos de um ouvinte, distinguindo o tempo empregado em narrar do tempo narrado, este correlato daquilo que, propriamente, não é relato mas processo de vida, já que a vida mesma não se conta, se vive.
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A comparação métrica entre os dois tempos, inspirada na técnica de Fielding em Tom Jones, mede o tempo do narrar pelo número de páginas e linhas, e o tempo narrado em anos, meses e dias, comparação que se enriquece com as noções de tempo e ritmo, compressões, elipses e condensações de traços iterativos, todas contribuindo para desenhar a Gestalt do relato.
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As análises minuciosas de Müller sobre Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, Mrs. Dalloway de Virginia Woolf e a Forsyte Saga de Galsworthy revelam relações estruturais não quantificáveis entre cenas, transições e episódios intermediários, ultrapassando a simples comparação de durações mediante antecipações, retrocessos e encaixamentos.
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O que orienta essa transição da medida quantitativa para a apreciação qualitativa da contração é a relação entre o tempo da narração e o tempo da vida através do tempo narrado, sendo a tarefa da morfologia poética arrancar, pela economia e pela compressão, o insensato à esfera do sentido, criando um tempo poético que corresponde às qualidades de tempo próprias de cada obra.
Enunciação, enunciado e objeto no discurso do relato
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A Morfologia Poética de Müller legou três tempos — o do ato de narrar, o narrado e o da vida —, ao passo que a nomenclatura ternária de Genette, derivada inteiramente de traços contidos no próprio texto, distingue o enunciado narrativo, sua relação com o objeto do relato (a diegese) e sua relação com o ato de narrar (a enunciação), sendo esta última uma ação tanto quanto o próprio massacre dos pretendentes é ação para Ulisses.
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A distinção de Benveniste entre discurso e relato é retomada por Genette apenas para ser recusada, pois há discurso em todo relato, já que este é sempre proferido, mesmo quando o narrador está ausente do texto, sendo a dicotomia inclusiva de enunciação e enunciado herdeira da disjunção mais exclusiva de Benveniste.
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A distinção de Müller entre Erzählzeit e erzählte Zeit é retomada por Genette, mas inteiramente renovada, pois o universo diegético e a enunciação nada designam de exterior ao texto, sendo posto fora de jogo o que Müller chamava a vida, e o tempo do relato tratado como equivalente do tempo de leitura, um pseudo-tempo assumido com reserva e aquiescência.
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A análise da ordem, sob o título geral da anacronia, mostra em Proust um jogo constante entre prolepse e analepse, ordenado à significação do conjunto da obra, sendo a analepse proustiana convocada não gratuitamente, mas para completar, colmatar ou retificar o relato, e a prolepse conduzindo certas linhas de ação até o presente do narrador ou autenticando o relato do passado pelo testemunho de sua eficácia sobre a lembrança atual.
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A análise da duração, sob o título das anisocronias, compara a duração do texto, medida em páginas e linhas, à duração da história, medida em tempo de relógio, distribuindo-se as distorções de velocidade entre a pausa extrema e a elipse extrema, sendo em Proust a amplitude do relato correlata das “estações contemplativas” do herói.
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A modificação que confere à temporalidade narrativa da Recherche seu ritmo inaudito é o caráter iterativo do relato, sob a terceira categoria temporal, a da frequência, sendo essa tendência dos instantes proustianos a se confundirem a condição mesma da experiência da memória involuntária, experiência que, contudo, permanece fora do escopo da análise narratológica assim delimitada.
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O adiamento sistemático do tempo da narração, reportado à categoria gramatical da voz, impede compreender plenamente o sentido do reencontro, ao final da obra, entre a história e sua sábia cronologia, a menos que se atribuam as distorções de duração ao próprio narrador, impaciente por chegar ao desenlace que finalmente lhe dará o ser e legitimará seu discurso.
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A noção de voz permite à narratologia acolher a subjetividade sem confundi-la com a do autor real, mas, na ausência de uma noção como a de mundo do texto, ela não basta para dar sentido à experiência fictícia do tempo perdido e reencontrado que constitui o cerne da Recherche, experiência que a narratologia acaba por reduzir a um simples jogo formal com o Tempo, quando talvez fosse preciso, ao contrário, subordinar a técnica narrativa à visada que conduz o texto para além de si mesmo.
Ponto de vista e voz narrativa
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As noções de ponto de vista e de voz narrativa articulam-se com as categorias de narrador e de personagem, o mundo narrado sendo o mundo do personagem contado pelo narrador, o que permite deslocar a mimesis da ação para o personagem e deste para seu discurso, reformulando o par enunciação-enunciado em discurso do narrador e discurso do personagem.
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Esse deslocamento da mimesis da ação para a mimesis do personagem já estava presente em Aristóteles, mas é o romance moderno, sobretudo o romance em terceira pessoa segundo Käte Hamburger, que leva mais longe a representação da vida psíquica, tese retomada por Dorrit Cohn em La Transparence intérieure ao situar a mimesis of other minds como forma primeira da mimesis da consciência.
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Três técnicas maiores permitem à ficção romanesca representar pensamentos e sentimentos: a narração direta, associada ao problema do narrador onisciente, que se explica, segundo Jean Pouillon, pelo fato de ser sempre pela imaginação que compreendemos psiques estranhas; o monólogo citado, que pressupõe igualmente a transparência do espírito; e o monólogo narrativizado ou estilo indireto livre, inaugurado por Flaubert e Jane Austen, que integra ao tecido da narração as palavras do personagem sem citá-las.
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A tipologia das situações narrativas típicas de Franz Stanzel, distinguindo situação autorial, figural e situação em primeira pessoa, e disposta posteriormente sobre um círculo de tipos ao longo de três eixos — perspectiva, modo, pessoa —, revela ser ao mesmo tempo demasiado abstrata para discriminar e insuficientemente articulada para cobrir todas as situações narrativas possíveis.
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A poética da composição de Boris Ouspenski trata o ponto de vista em múltiplos planos — ideológico, fraseológico, espacial, temporal, dos tempos verbais e psicológico —, distinguindo ponto de vista objetivo e subjetivo, externo e interno, sem reduzir esses planos uns aos outros, integrando assim a noção de ponto de vista a uma verdadeira poética da composição narrativa.
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A voz narrativa não pode ser eliminada pela noção de ponto de vista, pois permanece inseparável da figura do narrador como autor fictício do discurso, como atesta de modo eloquente o romance polifônico descrito por Mikhail Bakhtine em Dostoiévski, no qual a voz única do narrador se dissolve numa pluralidade de centros de consciência em diálogo.
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Esse princípio dialógico, ao substituir a coexistência de vozes pela configuração temporal da ação, parece ameaçar o próprio papel organizador da mise en intriga, mas Bakhtine encontra no gênero carnavalesco, herdeiro do romance de aventuras, da confissão e da sátira menipeia, o princípio flexível de composição que impede o romance polifônico de se dissolver em pura ausência de forma.
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A noção de voz é particularmente rica em conotações temporais, pois o narrador determina um presente de narração tão fictício quanto a instância discursiva, presente que resolve a questão pendente do estatuto do pretérito como tempo de base da narração, já que toda história contada é passado para a voz que a narra, numa relação de posterioridade que não é nem a da memória nem a da historiografia.
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Ponto de vista e voz revelam-se, ao final, indissociáveis, sendo consideradas uma única função sob dois ângulos distintos: o ponto de vista responde à pergunta de onde se percebe o que é mostrado ao ser narrado, enquanto a voz responde à pergunta de quem fala, situando-se esta última no ponto de transição entre configuração e refiguração, ali onde a leitura marca a interseção entre o mundo do texto e o mundo do leitor.
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