estudos:ricoeur:tempo-relato:hegel
Hegel
RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.
Renunciar a Hegel
-
A questão que se impõe ao final dos cinco capítulos precedentes é saber se do entrecruzamento entre relato histórico e relato de ficção procede uma consciência histórica unitária capaz de igualar-se à postulação da unicidade do tempo pressuposta por todas as grandes filosofias, questão ancorada nas dificuldades encontradas no capítulo sobre a realidade do passado, cujo fracasso relativo talvez decorra da própria abstração do passado, separado do presente e do futuro.
-
Dessa questão nasce a tentação hegeliana: um modo de pensamento que abraçaria passado, presente e porvir como um todo, na saisie da história como totalização mesma do tempo no eterno presente.
A tentação hegeliana
-
A história de que trata a filosofia hegeliana não é mais história de historiador, mas história de filósofo — “história do mundo”, e não “história universal” —, pois a ideia capaz de conferir unidade à história, a ideia de liberdade, só é compreendida por quem percorreu inteiramente a filosofia do Espírito na Enciclopédia, de modo que só o filósofo pode escrevê-la.
-
A convicção de que a Razão governa o mundo não é, para o filósofo especulativo, uma hipótese, mas a autoapresentação do sistema inteiro, sendo essa a única ideia que a filosofia traz à história, retomando a recusa obstinada, já presente na Fenomenologia do Espírito, da cisão entre formalismo da ideia e empirismo do fato.
-
O percurso da Razão na história articula-se em quatro momentos — fim, meios, material, efetividade —, sendo o primeiro a posição da liberdade como fim último do mundo, momento que permanece abstrato enquanto não articulado com os meios, o material e a efetividade que lhe dão corpo histórico.
-
A tese da astúcia da razão intervém no estágio dos meios: toda paixão contém uma intenção sabida e uma intenção ignorada pelo próprio indivíduo, e é essa segunda intenção, inscrita na esfera do Estado, que a Razão do mundo se apropria como meio, sacrificando a particularidade em proveito do universal, papel reservado sobretudo aos “grandes homens históricos” em quem paixão e ideia coincidem.
-
O “material” da Razão livre é o Estado, em torno do qual gravitam religião, ciências e artes, seguindo-se ainda o estágio da “efetividade”, marcado pelo estabelecimento do Estado de direito, e finalmente o “curso” da história do mundo, organizado segundo uma “partição” cuja execução mesma constitui a prova do sistema.
-
O tempo histórico se sublima na ideia de um “retorno a si” do Espírito, equação entre efetividade e presença que abole a narratividade na consideração pensante da história: o desenvolvimento não é eclosão sem luta, mas duro trabalho contra si mesmo, sendo o tempo a determinação mesma do negativo, e as “etapas” (Stufengang) o equivalente temporal da astúcia da razão, análogo à permanência das espécies naturais, mas cuja estrutura difere porque os povos passam e suas criações persistem.
-
A diferença entre passado morto e passado vivo torna-se assim inessencial, pois o Espírito porta em si todos os graus de sua evolução passada como profundidade atual, e é nessa medida, e apenas nessa medida, que a história filosófica reveste os traços de uma retrodição, arriscando-se Hegel a decifrar no passado suficientemente sedimentado o fim último do mundo.
-
Essa equação final entre desenvolvimento e presente eterno acaba, contudo, por recusar o caráter insuperável da significância do traço — que significa sem fazer aparecer — e por dissolver, mais que resolver, o problema da relação entre passado histórico e presente, tornando supérfluo o recurso ao grande gênero do Análogo, já que a própria relação de representância perde sua razão de ser.
A impossível mediação total
-
Uma crítica a Hegel não pode ser mera expressão de incredulidade quanto à proposição central de que a Razão governa racionalmente o mundo, sendo a perda de credibilidade da filosofia hegeliana da história um verdadeiro acontecimento de pensamento, do qual não se sabe dizer se o produzimos ou se ele simplesmente nos aconteceu.
-
O colapso extraordinariamente rápido do hegelianismo é, para a história das ideias, um fato da ordem dos terremotos, ainda que as razões alegadas por seus adversários — Kierkegaard, Feuerbach, Marx, a Escola histórica alemã — apareçam hoje, a um exame mais cuidadoso dos textos, como monumentos de incompreensão e má-fé, paradoxo que exige uma segunda leitura do texto hegeliano em que todas as transições se relêem como falhas.
-
O ponto de ruptura decisivo está na equação final entre o Stufengang der Entwicklung e o presente eterno: já não conseguimos dar o passo que iguala ao presente eterno a capacidade que tem o presente atual de reter o passado conhecido e antecipar o futuro, pois a compreensão de si da consciência histórica nasce precisamente do caráter incontornável dessa diferença que Hegel abole.
-
Desfeita essa equação, todas as demais se desfazem em cadeia: já não conseguimos totalizar os espíritos dos povos num único espírito do mundo, como atesta o romantismo ao extrair do Volksgeist hegeliano um poderoso alegato pela diferença; o eurocentrismo morreu com o suicídio político da Europa nas duas guerras mundiais, com a Revolução de Outubro e com a descolonização, revelando que Hegel havia totalizado apenas alguns aspectos eminentes da história espiritual europeia, hoje decompostos.
-
Igualmente decompõe-se o conglomerado conceitual da “efetuação do Espírito”: a satisfação do interesse individual já não nos parece aceitável sem levar em conta a dissociação intolerável entre consolação e reconciliação diante de tantas vítimas, e a paixão dos grandes homens já não nos parece capaz de sustentar sozinha o peso do Sentido, atraídos que estamos pelas grandes forças anônimas da história — de modo que a expressão “astúcia da razão” deixa de nos intrigar para antes nos repugnar, como o golpe falhado de um mágico soberbo.
-
O que se abandona, em suma, não são apenas os contrassensos sobre o termo Espírito, mas o próprio canteiro de obras: já não buscamos a fórmula segundo a qual a história do mundo poderia ser pensada como totalidade efetuada, e é o próprio projeto de totalização que rompe entre a filosofia da história e todo modelo de compreensão aparentado à narração e à mise en intriga, pois a astúcia da razão não é a peripécia que englobaria todos os coups de théâtre da história — a efetuação da liberdade não pode ser tida como a intriga de todas as intrigas.
-
Esse êxodo para fora do hegelianismo constitui um acontecimento hermenêutico que afeta não a historiografia, mas a compreensão de si da própria consciência histórica, atestando a finitude de todo ato filosófico de autocompreensão: caracterizar assim o hegelianismo não constitui, porém, um argumento contra Hegel, mas apenas o testemunho de que já não pensamos segundo Hegel, mas depois de Hegel — e a todo leitor que um dia se deixou seduzir por sua potência de pensamento resta desejar, mais que a nostalgia, a coragem do trabalho de luto.
estudos/ricoeur/tempo-relato/hegel.txt · Last modified: by 127.0.0.1
