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Apologias ao Relato

RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.

Apologias ao relato

  • A questão do estatuto narrativo da historiografia nunca constituiu diretamente um problema da epistemologia das ciências históricas, permanecendo subentendido que o relato seria uma forma de discurso elementar demais para satisfazer as exigências de cientificidade do modelo nomológico, sendo o surgimento das teses narrativistas fruto da conjunção entre a fragmentação da noção de explicação e uma reavaliação das capacidades de inteligibilidade próprias do relato.

O estilhaçamento do modelo nomológico

Uma explicação sem legalidade: William Dray

  • Diante das duas táticas de enfraquecer o modelo nomológico e de apoiar-se no esforço dos historiadores para elevar sua disciplina ao estatuto de ciência, William Dray discerne no descompasso entre o modelo e a metodologia histórica efetiva o sintoma de um erro de base na construção do próprio modelo.
  • A obra de Dray, Laws and Explanation in History, testemunha a crise do modelo nomológico ao abrir três frentes relativamente descontínuas: a crítica que dissocia explicação de lei, o plaidoyer por uma análise causal irredutível à subsunção sob leis, e a exploração de uma explicação por razões, todas presididas pela convicção de que as explicações históricas formam um conjunto logicamente heterogêneo.
    • A tese negativa segundo a qual explicar não implica recorrer a leis apoia-se nas oscilações entre modelo forte e modelo fraco entre os partidários do modelo de subsunção, mostrando-se que este não é condição nem suficiente nem necessária dos eventos explicados, como ilustram o exemplo do grelamento de um motor e o diálogo hipotético sobre a impopularidade de Luís XIV, cuja explicação completa exigiria uma lei a um único caso, o que equivale à ausência de lei propriamente dita.
    • Duas conclusões emergem dessa crítica: a noção de acontecimento único deve ser entendida relativamente ao nível de precisão escolhido pelo historiador, e não como tese metafísica sobre particulares radicalmente dissemelhantes, sendo o historiador interessado nas diferenças entre o acontecimento estudado e outros da mesma classe; e a explicação das diferenças relaciona-se mais ao julgamento, à maneira de um juiz que pesa argumentos contrários, do que à dedução.
  • A análise causal, tratada no capítulo IV, constitui alternativa relativamente independente ao modelo de subsunção, sustentando Dray que os historiadores usam legitimamente expressões causais sem que estas se reduzam à aplicação de uma lei causal, consistindo a análise causal numa espécie de concurso entre candidatos ao papel de causa submetidos a uma prova indutiva de necessidade real e a uma prova pragmática de seleção entre condições.
    • A prova pragmática relaciona-se à manipulabilidade defendida por Collingwood, ao que deveria ter sido feito e ao que precipitou o curso dos acontecimentos, enquanto a prova indutiva consiste em eliminar mentalmente a causa alegada para apreciar, por exercício de julgamento, a diferença que sua ausência produziria, sem requerer nenhuma lei geral.
    • Muitas leis causais aparentes são, na verdade, generalizações secundárias baseadas em diagnósticos individuais de causalidade já estabelecidos por julgamento, e não o inverso, de modo que não há razão para renunciar à ideia de causa em história desde que se respeite sua lógica particular.
  • Duas ressalvas conservatórias impõem-se: as explicações históricas continuam sendo um conjunto logicamente heterogêneo, de modo que nem a análise causal nem qualquer outro modelo isolado pode reivindicar exclusividade, sendo preferível dizer que as leis se interpolam no tecido narrativo; e os exemplos analisados por Dray permanecem circunscritos a acontecimentos particulares de curta duração, deixando em aberto a extensão da noção de acontecimento a mudanças de longa duração.
  • A explicação por razões, aplicável a um leque mais restrito de casos — as ações de indivíduos suficientemente importantes para figurar no relato histórico —, consiste em reconstruir o cálculo pelo qual o agente escolheu seus meios em vista de um fim, à luz das circunstâncias, situando-se na linhagem da deliberação aristotélica e distinguindo-se tanto do modelo nomológico quanto da compreensão por empatia de tipo colligwoodiano.
    • Explicar por razões é também justificar a ação como apropriada, buscando um equilíbrio lógico entre o que foi feito e um cálculo reconstituído, procedimento que exige trabalho documental indutivo e partilha com a análise causal o caráter de reconstrução aberta a retificações.
    • A explicação por razões comporta um tipo de generalidade análogo ao que Aristóteles atribuía ao verossímil — o que um homem faria necessária ou verossimilmente —, embora Dray não explore essa intersecção entre teoria da história e teoria do relato.
    • A dificuldade maior, não plenamente resolvida por Dray, reside em explicar por razões ações que não podem ser atribuídas a agentes individuais, sendo propostas três respostas: a presunção de que toda ação se presta a explicação por razões se estudada de perto; a personificação elíptica de entidades coletivas como a Alemanha ou a Rússia; e o reconhecimento do lado insensato da história, no qual ações intencionais produzem efeitos não desejados, como no caso da viagem de Cristóvão Colombo, exigindo-se então uma abordagem fragmentária, caso a caso.

A explicação histórica segundo Georg Henrik von Wright

  • A crítica do modelo nomológico dá um passo decisivo com von Wright, que conjuga explicação causal e inferência teleológica num modelo misto, a explicação quase causal, reconhecendo a dualidade entre a tradição galileana da explicação causal e a tradição aristotélica da explicação teleológica, correspondente à oposição entre Erklären e Verstehen.
  • O modelo lógico parte de estados de coisas genéricos combinados em estados totais ou mundos possíveis, à maneira do mundo do Tractatus de Wittgenstein, sendo enriquecido por uma lógica temporal rudimentar que permite representar a história de um mundo como cadeias de estados ligadas por possibilidades alternativas de desenvolvimento representadas por ramificações em árvore.
  • A distinção entre análise causal, que explora as relações de condicionalidade internas a um sistema, e explicação causal propriamente dita, que busca em que sistema um fenômeno genérico dado pode ser ligado a outro, apoia-se na diferença entre condição suficiente, que rege a manipulação e permite a predição, e condição necessária, que rege o impedimento e permite apenas a retrodição.
  • O passo decisivo é a articulação da explicação causal com a compreensão originária do poder-fazer por meio da noção de intervenção, segundo a qual aprendemos a isolar um sistema fechado de seu ambiente ao pôr em movimento seu estado inicial, sendo a certeza de poder agir irredutível a qualquer relação de condicionalidade, o que leva von Wright a afirmar que, na corrida entre causalidade e agir, o agir sempre vence.
  • Retomando as distinções de Arthur Danto entre fazer algo e fazer com que algo aconteça, von Wright estabelece que a ação de base identifica o estado inicial de um sistema ao resultado de uma ação em sentido não causal, condição metafísica de liberdade que subordina a causalidade ao agir.
  • A explicação teleológica aplica-se às condutas do tipo ação, cujas fases se unificam pela subsunção sob uma mesma intenção, sustentando von Wright, segundo o argumento da conexão lógica, que o vínculo entre razão de agir e ação é intrínseco e não extrínseco, sendo a explicação teleológica normalmente precedida por um ato de compreensão intencionalista da conduta, de modo que, também aqui, a compreensão sempre precede e excede a explicação.
  • Como a intencionalidade de uma conduta é seu lugar numa história (story) concernente ao agente, segundo a referência de von Wright às Investigações Filosóficas de Wittgenstein, torna-se necessário o conceito de explicação quase causal, de forma “isto aconteceu porque”, cujo caráter causal é apenas aparente, pois não requer conexão nômica e comporta estrutura teleológica implícita.
    • A explicação causal em história aparece sob duas formas subordinadas a outros tipos de explicação — a busca das condições suficientes e a das condições necessárias —, como ilustra o exemplo das ruínas de uma cidade destruída, em que a causa humeana material só se torna histórica ao se articular com um pano de fundo de rivalidades políticas e consequências não humeanas.
    • A explicação quase causal, exemplificada pelo desencadeamento da Primeira Guerra Mundial após o assassinato do arquiduque em Sarajevo, revela-se mais complexa que a explicação por razões de Dray, pois a mediação verdadeira é assegurada por cursos entrelaçados de inferências práticas que geram fatos novos, os quais alimentam por sua vez novas inferências práticas de todas as partes envolvidas.
  • A explicação quase causal restitui corretamente vários traços específicos da explicação histórica — a referência a ações humanas atestadas pela convicção do poder-fazer, a legitimidade de interrogar as intenções dos atores segundo o silogismo prático aristotélico, e a necessidade de coordenar esses núcleos com segmentos causais não práxicos —, mas deixa em aberto o que assegura a unidade entre os segmentos nômicos e os segmentos teleológicos do esquema explicativo.
  • Esse fio condutor que falta ao modelo de von Wright é, segundo a interpretação proposta, a própria intrigue enquanto síntese do heterogêneo, capaz de compreender numa totalidade inteligível circunstâncias, fins, interações e resultados não desejados, de modo que a explicação causal em história deveria ser precedida, como no caso da explicação teleológica, por uma compreensão narrativa que toma juntos segmentos nômicos e segmentos teleológicos antes que a lógica da explicação lhes ofereça sua reformulação mais adequada.
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