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Metáfora viva

RICOEUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.

  • As investigações apresentadas originam-se de um seminário realizado na Universidade de Toronto em 1971, tendo progredido posteriormente em cursos ministrados nas universidades de Louvain, Paris-X e Chicago.
  • Cada estudo desenvolvido no conjunto da obra constitui um ponto de vista determinado e uma parte total, sendo, ao mesmo tempo, um segmento de um percurso único que se inicia na retórica clássica, atravessa a semiótica e a semântica e alcança a hermenêutica, acompanhando a progressão das entidades linguísticas do vocábulo à frase e ao discurso.
  • A primeira etapa da investigação, correspondente às duas primeiras estudos, toma o vocábulo como unidade de referência para a retórica da metáfora, classificando-a como tropo por semelhança e figura de deslocamento e extensão de sentido, cuja explicação cabe a uma teoria da substituição.
  • A primeira estudo, dedicada a Aristóteles, examina sua definição da metáfora para a história do pensamento ocidental, baseada em uma semântica do nome, e situa sua análise na interseção entre a retórica da persuasão e a poética da mímesis, cuja distinção permanece em aberto até a sétima estudo.
  • A segunda estudo, centrada na obra de Pierre Fontanier, demonstra que a retórica culmina na classificação e taxinomia das figuras de desvio, mas que tal ponto de vista taxinômico, adequado a uma estática das figuras, falha em explicar a produção mesma da significação, da qual o desvio no nível do vocábulo é apenas o efeito.
  • A diferenciação entre o ponto de vista semântico e o retórico inicia-se quando a metáfora é recolocada no âmbito da frase, sendo tratada não mais como denominação desviante, mas como predicação impertinente, nível ao qual pertencem as três estudos seguintes.
  • A terceira estudo, considerada a estudo-chave, opera o passo decisivo ao opor a teoria da metáfora-enunciado à teoria da metáfora-vocábulo, correspondendo essa oposição à distinção entre uma semântica da frase e uma semiótica do signo lexical, e entre uma teoria da tensão e uma teoria da substituição.
  • No quadro dessa oposição, discutem-se as contribuições de autores de língua inglesa, buscando mostrar que seus pontos de vista podem ser reunidos sob a semântica da frase e delimitando o problema da criação de sentido, deixado em suspenso, que impulsiona as duas últimas estudos.
  • A quarta e a quinta estudos, embora possam parecer um recuo, têm por objetivo integrar a semântica do vocábulo à da frase, uma vez que a definição da metáfora como transposição do nome não é errônea e o vocábulo permanece como portador do efeito de sentido metafórico, sendo necessário mostrar como a metáfora, produzida no enunciado, se focaliza no vocábulo.
  • A quarta estudo, restringindo-se aos trabalhos no prolongamento da linguística saussuriana, demonstra que uma linguística sem distinção entre semântica do vocábulo e da frase limita-se a atribuir as mudanças de sentido à história dos usos da língua.
  • A quinta estudo, examinando a nova retórica francesa, introduz a discussão pelas noções de desvio e grau zero e analisa seu esforço de reconstrução sistemática das figuras a partir de operações infra-linguísticas, concluindo que sua sutileza se esgota em um quadro teórico que desconhece a especificidade da metáfora-enunciado.
  • Busca-se demonstrar, contudo, que a própria nova retórica remete, de dentro de seus limites, a uma teoria da metáfora-enunciado que não pode elaborar, apesar de seu sistema de pensamento.
  • A sexta estudo, assegurando a transição do nível semântico ao hermenêutico, retoma o problema da inovação semântica e da criação de uma nova pertinência, refutando a tese de que a semelhança está ligada a uma teoria da substituição e mostrando que seu trabalho é igualmente requerido na teoria da tensão.
  • A semelhança é compreendida como uma tensão entre identidade e diferença na operação predicativa, e o trabalho da semelhança conduz à reinterpretação da imaginação produtiva e da função icônica, entendendo-se o “ver como…” como um aspecto da operação semântica de apreender o semelhante no dissemelhante.
  • A passagem ao ponto de vista hermenêutico corresponde à mudança do nível da frase para o discurso, emergindo uma nova problemática que não concerne mais à forma ou ao sentido, mas à referência do enunciado metafórico como poder de “redescrever” a realidade.
  • A metáfora apresenta-se como uma estratégia de discurso que preserva o poder heurístico da ficção, opondo-se à concepção não referencial do discurso poético com a ideia de que a suspensão da referência lateral libera um poder de referência de segundo grau, ou “referência desdobrada”.
  • A teoria da referência metafórica é apoiada em uma teoria generalizada da denotação e na analogia entre o funcionamento da metáfora nas artes e o dos modelos nas ciências, constituindo esse parentesco heurístico o principal argumento da hermenêutica da metáfora.
  • A obra é conduzida ao tema de que a metáfora é o processo retórico pelo qual o discurso libera o poder de redescrever a realidade, conectando ficção e redescrição e restaurando a plenitude da descoberta aristotélica sobre a poiêsis da linguagem a partir da conexão entre mito e mímesis.
  • Dessa conjunção entre ficção e redescrição, conclui-se que o lugar mais íntimo e último da metáfora não é o nome, a frase ou o discurso, mas a cópula do verbo ser, cujo “é” metafórico significa simultaneamente “não é” e “é como”, o que permite falar em verdade metafórica em um sentido também tensional.
  • A oitava e última estudo responde à exigência de explicitar a filosofia implícita na teoria da referência metafórica, defendendo a pluralidade dos modos de discurso e a independência do discurso filosófico em relação às proposições do discurso poético.
  • Demonstra-se que nenhuma filosofia procede diretamente da poética, nem mesmo pelo caso da analogia aristotélica, e que o discurso que retoma a ontologia implícita no enunciado metafórico é um outro discurso, de modo que fundar a verdade metafórica é também limitar e justificar o discurso poético em sua própria circunscrição.
  • O objetivo do livro não é substituir uma disciplina por outra, mas legitimar cada ponto de vista dentro dos limites de sua disciplina correspondente e fundar o encadeamento sistemático dos pontos de vista sobre a progressão do vocábulo à frase e da frase ao discurso.
  • A obra é relativamente longa por examinar as metodologias próprias a cada ponto de vista e por reportar os limites de cada teoria aos do ponto de vista correspondente, sem refutações espetaculares, mas demonstrando o caráter unilateral das doutrinas exclusivas.
  • As doutrinas decisivas são oriundas das literaturas de língua inglesa e francesa, expressando a dupla aliança da pesquisa e do ensino, com a expectativa de contribuir para reduzir a ignorância entre os especialistas desses mundos linguísticos e culturais.
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